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André Yves Cribb
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ARTIGOS DO EDITOR

Mudança cultural coletiva: o pré-requisito da inovação no Brasil
Publicado em 06/02/2008
André Yves Cribb
Embrapa Agroindústria de Alimentos

No contexto da globalização e do livre mercado em que a competição é, de certo modo, inevitável, a dinâmica de qualquer empreendimento econômico pode ser analiticamente interpretada por meio da lógica schumpeteriana de “destruição criativa”, conforme a qual a força motriz do progresso é a inovação, evidenciada por produtos novos, processos novos e/ou modelos de negócios novos.

Em outras palavras, a substituição de formas antigas por formas novas de produção e consumo é o fator fundamental da competitividade. Nesse sentido, a inovação se identifica como um imperativo para as empresas sobreviverem e ganharem cada vez mais espaço nos mercados nacionais e internacionais.

A partir dessas considerações, é possível entender as preocupações dos atores do sistema brasileiro de inovação acerca da relativamente baixa posição do Brasil no ranking dos países detentores de patentes. Como se sabe, a patente, sendo um meio de garantia de direito exclusivo sobre produtos, processos e/ou modelos novos, revela-se um indicador de inovação, amplamente aceito tanto pela academia quanto pelo empresariado.

Apesar de apresentar um expressivo número de publicações científicas, o Brasil tem poucas patentes. Tal situação mostra que os conhecimentos, disponíveis no País, não estão sendo satisfatoriamente convertidos em insumos para a produção de bens e serviços.

Ao falar de conhecimentos e insumos produtivos, lembra-se logo de dois atores fundamentais do sistema nacional de inovação. Por um lado, encontra-se a organização de pesquisa, cuja missão essencial é gerar e transferir conhecimentos. Por outro lado, há a empresa de produção, cujo papel fundamental é adotar conhecimentos e convertê-los em insumos produtivos. A distinção entre esses dois atores, em termos de atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D), é bem evidente no Brasil, onde a geração de conhecimentos científicos se concentra quase exclusivamente nas organizações de pesquisa (universidades, centros e institutos).

Segundo dados encontrados na literatura, as universidades detêm aproximadamente 70% dos cientistas e engenheiros ativos em P&D. Tradicionalmente, elas têm sido vistas como lugares exclusivos das atividades de pesquisa científica e tecnológica.

Os centros e institutos de pesquisa, reunindo atualmente cerca de 10% dos cientistas e engenheiros ativos em P&D, também passaram a ser reconhecidos como expressivos contribuintes para o progresso científico e tecnológico do país. O exemplo, freqüentemente citado, é a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, que, ao fornecer conhecimentos e tecnologias ao longo de mais de três décadas, tem sido um ator incontestável na consolidação da eficiência e sustentabilidade da produção agropecuária e agroalimentar no Brasil.

O baixo nível de dedicação das empresas em P&D se evidencia sobretudo quando o Brasil é comparado com outros países, em termos de percentagem do total dos profissionais ativos em P&D. Enquanto os cientistas e engenheiros, que trabalham nos departamentos de P&D de empresas são de quase 20% no Brasil, eles representam, por exemplo, cerca de 80% na Coréia do Sul e nos Estados Unidos.

Na última década, foram realizadas diversas ações favoráveis à acumulação científico-tecnológica no Brasil. Por exemplo, foram instituídas importantes leis, tais como a Lei de Propriedade Intelectual, a Lei de Biossegurança, a Lei do Bem e a Lei da Inovação.

Foram formados anualmente milhares de doutores, aumentando continuamente a quantidade e qualidade dos recursos humanos. Também, foram criados fundos setoriais para servir de instrumentos de financiamento de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação no país.

Mas, a vontade de reorganização, a implantação de condições favoráveis e a disponibilização de recursos não são suficientes para garantir determinada mudança. Em casos que envolvem riscos, é preciso também a coragem, entendida como a habilidade de enfrentar a incerteza.

Como se sabe, a inovação é um processo incerto. Uma iniciativa nova pode ter sucesso ou não. Segundo a Pintec - Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica 2005, realizada pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o processo de inovação no Brasil apresenta excessivos riscos econômicos que são poderosos obstáculos a seu sucesso.

A decisão de inovar exige que todos os envolvidos no processo de inovação estejam prontos para enfrentar os novos desafios e dispostos a mudar seu comportamento. A coragem de inovar no Brasil supõe a redução significativa da aversão ao risco e é diretamente relacionada à dimensão cultural do sistema de inovação.

A cultura, definida como conjunto de valores inspiradores de atitudes, comportamentos, aspirações e modos de relação, é o aspecto do sistema nacional de inovação menos visível e menos palpável mas também mais estável. Pode estimular ou impedir a substituição de formas antigas por formas novas de produção e consumo.

A mudança cultural influi sobre o entusiasmo e a ajuda mútua no âmbito do sistema nacional de inovação. Por exemplo, os atores do sistema precisam saber que a competição não exclui automaticamente a cooperação que, aliada à inovação, forma um casal inseparável.

Nesse sentido, a mudança cultural é um indispensável pré-requisito da inovação no Brasil. Ela deve ser considerada dentro de uma abordagem que leve em conta todos os atores da cadeia referente a um produto ou serviço, desde a organização de pesquisa até o usuário final passando notadamente pelo governo, pela entidade de fomento e pela empresa de produção.

Alterações na atuação do governo, da entidade de fomento ou de qualquer outro ator podem, por exemplo, interferir na estratégia produtiva da empresa. Modificações nos programas da universidade podem facilitar a formação de estudantes capazes de perceber as oportunidades de trabalho e gerar riqueza com o conhecimento. Por isso, a mudança cultural deve ser coletiva e não isolada.

Como a cultura é adaptativa e cumulativa, a mudança cultural pode levar vários anos para se instalar. A atuação de cada ator do sistema nacional de inovação é decisiva na ocorrência de tal instalação.

Mesmo assim, o governo, em razão de suas funções de regulação e negociação na sociedade, pode ter um papel essencial na promoção e coordenação da mudança cultural. O cuidado fundamental é que os mecanismos necessários devem ser concebidos e implementados com a participação ativa de todos os atores do sistema brasileiro de inovação.
André Yves Cribb, pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos (Rio de Janeiro-RJ). aycribb@ctaa.embrapa.br

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