Em Que Momento Passamos a Existir?
Perguntaram a que horas eu nasci.
Eu até hoje não entendi essa importância toda que as pessoas dão à data (e muito menos à hora) do nosso nascimento.
Nasci às 9:45hs do dia 16 de fevereiro de 1974.
Mas sério, o que foi que houve assim de tão fantástico nesse momento? O que foi que mudou?
Segundo nossa lei, nossa cultura e nossa filosofia, eu só passei a existir às 9:45hs do dia 16 de fevereiro de 1974. Antes disso, eu era um nada. Eu simplesmente não existia.
Só que não é verdade. Às 15:30hs de 15 de fevereiro de 1974, eu fazia praticamente as mesmas coisas que eu fazia às 15:30hs de 16 de fevereiro. A diferença é que no segundo momento eu existia, no primeiro, não.
Naturalmente, se passo a considerar que o meu nascimento não foi o começo da minha existência, surge uma outra questão muito pior, com implicações terríveis: afinal, quando eu comecei a existir de fato, como ser vivo, consciente e com direito à proteção da lei?
Esse caminho é perigoso pois se eu for longe demais nele posso acabar tendo que concordar com uma das piores escórias da terra, a ultra-direita radical religiosa. Cruz credo.
Infelizmente, meu raciocínio vai na frente e eu só posso ir seguindo atrás.
A partir do momento em que passo a existir, teoricamente não posso mais ser morto assim sem mais nem menos. Antes disso, posso. Afinal, não existo. Não sou nada. Minha morte seria só um procedimento cirúrgico. Besteira.
Se tem uma massa assando no forno (ainda não é um bolo!) e eu abro o forno e desligo o fogo, eu não posso dizer que acabei com o bolo, pois o bolo ainda não existe, e como posso acabar com algo que não existe?, mas o fato é que impedi o bolo de existir, o que dá rigorosamente no mesmo.
Se alguém me matasse hoje, ou se alguém tivesse me matado em agosto de 1973, quando eu tinha três meses de concebido, também daria, na prática, rigorosamente no mesmo.
Ambos os atos estariam me impedindo, digamos, de ver o ano de 2005 e de saber quem matou Lineu Vasconcelos.
A diferença é que o primeiro assassinato me permitiu, pelo menos, 30 anos e duas semanas de vida. O segundo, nem isso.
* * *
Não vou, repito, não vou entrar numa discussão sobre aborto aqui.
Quis apenas compartilhar com vocês uma questão filosófica que até hoje me intriga.
Acho meio forçação dizer que passei a existir no momento que o espermatozóide do meu pai fecundou o óvulo da minha mãe, em algum momento de maio de 1973.
Por outro lado, dizer que só passei à existir às 9:45hs de 16 de fevereiro de 1974 é tão forçação de barra quanto, uma convenção para fins legais e burocráticos.
Sei que essa pergunta tem implicações legais e pragmáticas sérias e é horrível quando uma questão filosófico-existencial básica como essa pode ter sua resposta utilizada para servir aos interesses desse ou daquele grupo político ou religioso.
Como disse, não vou entrar em um debate sobre o aborto, mas não consigo deixar de me perguntar:
Quando passei a existir?
Assunto de Mulher
A questão do aborto é uma das mais polêmicas da nossa época. Talvez seja a questão que vai definir o nosso tempo. Sempre que encontro um brasileiro do século XIX, eu me me pergunto: será que ele era contra ou a favor da escravidão? Como será que ele se posicionou?
Reconheço os enormes méritos de cada lado. Não é uma questão fácil ou objetiva. Dezenas de variáveis científicas, culturais e religiosas estão em disputa - simultaneamente.
Quase todos os meus amigos, liberais, seculares, cosmopolitas, politicamente corretos e prafrentex, são a favor do aborto por princípio e por agremiação. Dizem que é só um procedimento médico e pronto.
Como se impedir uma pessoa de existir fosse equivalente a arrancar um dente para impedi-lo de apodrecer. Simplesmente se negam a considerar qualquer aspecto filosófico da coisa.
Eu os respeitaria mais se tivessem a coragem de encarar esse aspecto e rejeitá-lo. Mas não. Acho que têm medo das implicações de andar por esse caminho. Têm medo de serem obrigados a concordar com aquela nada agradável turminha que luta contra o aborto, a nefanda direita religiosa.
Ninguém defende mais a liberdade do que eu. Mas acho que a ninguém deve ter a liberdade de matar ou impedir outra pessoa de existir. Se ainda existe um debate científico válido sobre o que é vida e quando ela de fato começa, então acho que devíamos errar em favor da vida, não em favor da escolha. Pelo menos, por enquanto.
Não vou entrar nos méritos e argumentos pró e contra cada lado. Muita gente boa e honesta tem muita coisa relevante e instigante pra dizer tanto pró-vida quanto pró-escolha. Minha cabeça chega a girar e não são muitas questões que me deixam assim mexido.
Sou ateu, mas reconheço que até mesmo os argumento religiosos são válidos, pelo menos intrinsicamente, pois a pessoa não pode acreditar em alma e vida após a morte e não aplicar esses conceitos à polêmica.
O aborto é uma questão complexa. É uma questão feminina, sim, mas também é uma questão religiosa, uma questão filosófica, um questão legal, uma questão cultural e, mais ainda, uma questão de vida e morte que deve ser debatida pela sociedade como um todo.
Por isso, só há um único argumento nessa história que considero absolutamente imbecil, mesquinho, indefensável e chauvinista: dizer que homem não tem nada a ver com isso.
Ora essa, homens só não teriam nada a ver com o aborto se as mulheres só abortassem meninas.
Aliás, pensando bem, nem assim, pois mesmo as meninas têm pais e os pais têm o direito de decidir sobre a vida e o destino de seus filhos. Ambos os pais.
Senão, daqui a pouco vão dizer que um homicídio cometido por mulher, cuja vítima seja mulher, não pode ser investigado por um homem.
Você não tem nada a ver com isso, Sargento Valadão. Considere-se fora do caso!
* * *
Idéia para romance: mulher quer abortar, marido/ companheiro/ namorado quer criar o filho, nem que seja sozinho, ambos estão morando em um país que permite o aborto, pai entra na justiça para tentar proteger preventivamente a vida do filho, etc etc. Pergunta: é melhor serem marido e mulher em relação estável ou namorados casuais? Assim nascem os romances. Eu só não escrevo pois se tornaria um romance político e ideológico.
Postada no blog em Fevereiro 08, 2004
Gostou desse texto? Ele resolveu sua dúvida? Ajudou em sua busca? Acrescentou algo à sua vida? Dê um presente a um autor falido e permita que ele continue escrevendo na Internet: Lista de Presentes Liberal Libertário Libertino
Outros Artigos
Trago Pessoa Amada em 3 Dias
Morte de Um Dentista
Um Big Mac e Uma Coca Light
Duas Leis das Artes Dramáticas
Heróis e Vilões
Unhas de Mulher
|