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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Arte É Criação

Qualquer tentativa de definir arte é tão inútil quanto a própria arte.

Desenho de Alan Sieber

A Importância dos Enfermeiros

Tenho um amigo que está se formando em Enfermagem. Sua monografia de fim de curso é sobre a importância no enfermeiro no “processo de cura” que acontece nos hospitais. Ou algo assim. Basicamente, sua tese é que, apesar de ser muitas vezes injustamente desprezado, o enfermeiro é o elemento mais vital de toda a “cadeia curativa”, aquele que conecta todos os outros e faz tudo funcionar.

Tenho a impressão de que todos os profissionais acreditam, sinceramente, que a atividade que exercem é a mais fundamental e indispensável para o bom funcionamento do mundo.

Sim, sim, claro, todo mundo é muito importante, mas se não fôssemos nós, os encanadores, nada funcionaria direito, as pessoas ainda teriam que ir cagar na vala, tirar água do poço. Não há dúvida que nós, encanadores, somos o elemento-chave da civilização.

Não ria não, que você também deve pensar a mesma coisa sobre o seu ramo de atividade. “Mas o meu é realmente essencial!”, você diz. Ah, tá. Sei. Pode ficar certo que os pilotos de combate, os trocadores de ônibus e os engenheiros de telecomunicações acham a mesma coisa. Não há ocupação tão humilde que seus praticantes não se considerem fundamentais para o bom funcionamento da humanidade.

Até hoje, por exemplo, sou atacado por dubladores por todo o Brasil por causa do meu artigo Os Dilemas da Tradução. Meu nome é constantemente citado em fóruns e listas de discussão sobre o assunto - essa semana, sou assunto no Fórum Dublagem. Eles também acham que são a última linha de defesa da civilização. Já tive que ouvir que a dublagem é necessária para a manutenção da língua e, sem ela, a língua acabaria. Cito textualmente:
Ela [a dublagem] é necessária para a manutenção da língua, Alexandre! Se todo filme, seriado, documentário e sei lá o que mais que entrar no Brasil só tiver a sua versão original veiculada no país, aonde vai parar a Língua Portuguesa? Vamos versar inglês, espanhol, italiano... e o pobre do "português", já adoentado, vai virar língua morta.”
Queria saber como funciona esse processo. Com certeza, todo mundo deve entrar em suas carreiras como indivíduos medianamente racionais. Depois de algum tempo só convivendo com aquelas mesmas pessoas, da mesma área, com a mesma formação, vão se fossilizando os gigantescos preconceitos que levam alguém a afirmar que, sem os dubladores, a língua teria morrido!

Reparem que não tenho nada contra enfermeiros ou dubladores. São apenas exemplos. Ninguém, ninguém mesmo, é tão importante quanto pensa ser – inclusive eu.

Vejam vocês as injustiças da vida! As pessoas me chamam de metido, ou fazem piadas em relação ao meu avantajado ego, mas ninguém nunca vai me pegar falando coisas parecidas sobre o meu trabalho.

A Utilidade Desvirtua a Arte

Só o artista sabe que sua atividade é 100% inútil. Ou deveria ser.

Quanto mais útil a arte, menos arte ela é. A arte não pode servir a nenhum propósito, seja provar uma teoria filosófica, defender um governo ou mesmo socorrer uma pobre classe social oprimida. Não faz diferença.

A utilidade desvirtua a arte. O que distingue a agricultura da ópera é que uma é absolutamente vital para a nossa sobrevivência; a outra, nem um pouco.

Na verdade, as pessoas têm razão. Se, de repente, todos os peões de obra, enfermeiros ou caixas de banco sumissem, a sociedade iria virar um caos.

Mas se todos os artistas e derivados (críticos de arte, professores de literatura, etc) sumissem, nada de mais aconteceria.

Sem os lixeiros, depois de amanhã não conseguiríamos nem transitar nas ruas. Sem todos os artistas plásticos, haveria apenas mais espaço nos pedestais das praças.

Somos artistas porque somos inúteis. Estamos fora da cadeia produtiva da sociedade e temos orgulho disso.

A Questão do Ego

Por um lado, eu poderia argumentar que temos os menores egos de todos, pois só nós, realmente, encaramos de frente a inutilidade de nossos esforços.

Por outro lado, convenhamos, que piada! Qualquer um que conviva com um artista sabe que temos os maiores egos de todos. Eu sei, às vezes é chato de aturar, mas são ossos do ofício. Jardineiros têm as mãos calosas, jóqueis têm as pernas arqueadas, nós temos os egos inflados.

Não acredite em artistas tímidos e humildes. Existem artistas hipócritas, mas essa é outra história.

É preciso muita coragem para encarar a tela vazia, a partitura em branco.

É preciso muita arrogância pra achar que você ainda pode ter algo a dizer em um campo onde já pastaram paquidermes como Mozart, Picasso ou Shakespeare.

É preciso muita segurança pra não desabar ao primeiro (ou ao centésimo-nono) cascudo que a vida, o público ou a crítica nos dão.

Assim como o primeiro gole para os alcoólatras, as ciências atuarias estão sempre aí, nos tentando com uma vida regrada corretando seguros e pagando o telefone em dia.

Mais do que tudo, é preciso muito ego pra dedicar sua vida ao inútil.

Outros fazem pão e cheiram e provam o resultado de seus esforços. Outros se dedicam à medicina e vêem seus pacientes saindo do hospital curados de todo o tipo de doença.

Enquanto isso, minha amiga Isabel, uma mulher brilhante, pendura fotos de webcam em volta de uma pilastra. E eu, como diz minha irmã, escrevo sobre coisas que nunca aconteceram com pessoas que nunca existiram.

A arte, quando bem feita, é inútil. E é inútil tentar defini-la.

* * *

Ilustração do Allan Sieber, que eu adoro.

Leia também O Dever do Escritor, uma discussão muito interessante sobre os objetivos da literatura e da arte de modo geral.

Postada no blog em Abril, 2006

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A Inutilidade da Arte 
Quanto mais útil a arte, menos arte ela é. A utilidade desvirtua a arte. O que distingue a agricultura da ópera é que uma é absolutamente vital para a nossa sobrevivência; a outra, nem um pouco.

Tradução: A Pureza do Original 
Fico preocupado de ouvir um tradutor dizer que a pureza do original não existe ou que não deveria ser importante. Tremo de imaginar o que tradutores imbuídos dessa filosofia não devem modificar, interferir ou "melhorar" os livros que traduzem.

O Velho Libertário e o Jovem Discípulo      
Peço perdão por não ser mais o homem que escreveu esses livros. Mas nem mesmo naquela época eu era assim o tempo todo. O importante é que eu era assim no momento em que escrevi aquelas palavras. O importante é que você seja assim no momento de lê-las. O resto é ficção.

O Dever do Escritor 
Quem faz arte pra provar uma teoria filosófica, defender um governo ou mesmo socorrer uma pobre classe social oprimida não está fazendo boa arte. Está sendo, talvez, uma boa pessoa, um bom cidadão, um bom político, um bom filósofo. Mas um artista sofrível.

O Dever do Colunista 
Quando mataram a Liana e o Felipe, boa parte dos colunistas da grande imprensa não teve pudor algum em somente repetir o blá-blá-blá do senso comum. Cadê o profissionalismo dessa gente?

O Golpe de Mersault 
Camus distorce tanto nossa percepção que esquecemos que Mersault cometeu, de fato, o crime pelo qual está sendo acusado! O homem é culpadíssimo!

Heróis e Vilões 
Qualquer bom autor sabe fazer seu leitor ir aonde ele bem quiser, como um treinador balançando o osso na frente do cachorro. A good author can get away with anything.

Duas Leis das Artes Dramáticas 
Quem mais seria o vilão da história? Um estava morto, a outra era a mocinha e a outra era uma negona que tinha entrado no meio da trama. Só sobrava realmente ele.

A Escola Urbana 
Uma nova escola literária vem tomando conta da literatura brasileira há mais de 30 anos. Por falta de nome melhor, eu a chamo Escola Urbana.

Pacto da Mediocridade 
Que pacto de mediocridade é esse? Se nem os nossos formados em Letras-Inglês lêem Shakespeare no original, pra que servem? Não é esse seu trabalho?

Um Épico Injustiçado: O Senhor dos Anéis   
Os doutores da Academia, que suspiram por grandes épicos da humanidade como "La Mort d'Artur" e "Bewoulf", torcem os narizes para "O senhor dos anéis". É pena. Iriam adorar. O livro foi escrito para eles e por um deles.

Literatura Imaginativa   
os autores brasileiros parecem ter sido convencidos, em algum momento, que imaginação e boa literatura não combinam. O ideal de todos parece ser reescrever Um Coração Simples, do Flaubert, o romance, por excelência, onde nada acontece.

Romance do Não-Dito: Aquele Rapaz, de Jean-Claude Bernadet    
Aquele Rapaz é curto pois tudo foi cortado. Aquele Rapaz é riquíssimo, mas nada está lá impresso. Aquele Rapaz, na verdade, é somente um guia de leitura para um outro romance, maior e muito mais grosso, que simplesmente não existe.

Saber Ler Literatura   
Saber ler literatura é saber que abordar qualquer obra de arte jamais será uma atitude passiva. A verdadeira obra de arte exige compromisso, exige ação, exige feedback. Arte não se aprecia. Se apreciou, ou não é arte ou você entendeu errado. Verdadeira arte não se aprecia pois apreciar é uma atitude passiva e a verdadeira arte cobra interação.

A Grande Conversa   
Os clássicos não são só livros consagrados: eles são as vozes da Grande Conversa. Não estão mortos: eles falam, eles gritam, eles choram, uns com os outros, o tempo todo. Heráclito teoriza, Aquino racionaliza, Cervantes ri, Descartes sugere uma outra opção, Kant contextualiza e Marx destrói.

Lady Averbuck   
Ela parece merecer o apelido de Lady Averbuck. Tudo indica que é uma pessoa insuportável, mal humorada, ranzinza, arrogante e totalmente louca. O que importa é que ela é uma puta escritora.

Paulo Coelho na ABL   
Paulo Coelho pode ser um péssimo escritor, mas é um escritor. E isso, convenhamos, já é mais do que podemos falar sobre muitos dos membros da Academia, como Getúlio Vargas e Roberto Marinho.

Autores Libertários  
Muita gente tem me pedido sugestões de leitura. Autores bons há muitos. Mas como, em geral, quem me pede isso gostou desse blog, vou dar aqui uma lista dos meus pares, ou seja, autores que seguem, em larga medida, a linha filosófica desse brog: Whitman, Miller, Freire, Kerouac, Thoreau, Emerson, Sartre, La Mettrie.

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Literatura Contemporânea e Livros do Mal

Ultimamente, só venho lendo clássicos. Estou há mais de um mês no Dom Quixote, por exemplo. Sinto muita falta de literatura contemporânea, mas infelizmente isso custa dinheiro. Clássicos eu pego na biblioteca, eu baixo pela Internet e até mesmo compro edições baratíssimas em tudo quanto é sebo. Já, por exemplo, o novo livro do Bernardo Carvalho só comprando e pelo preço integral: não tem jeito.

 

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Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.