Depois de acompanhar seu blog, Brazileira!Preta, por alguns meses, decidi que valia a pena investir suados R$22 no primeiro romance de Clarah Averbuck, Máquina de Pinball.
Antes de tudo, gostaria de dizer que não sou amigo de Lady Averbuck. Nunca mantivemos contato. Já escrevi pra ela mas ela não respondeu. Aliás, ela avisa mesmo, na faq de seu blog, que não responde emails.
De fato, ela parece merecer o apelido de Lady Averbuck. Tudo indica que é uma pessoa insuportável, mal humorada, ranzinza, arrogante e totalmente louca. E, além disso tudo, ela também deve ter alguns defeitos. :)
O que importa é que ela é uma puta escritora. E como escritora é realmente tudo o que ela é e se propôs a ser, maravilha.
Escritor Não É Blogueiro
Em um de seus últimos posts, ela escreveu, e eu assinaria em baixo, rindo:
"Só pra avisar, eu não respondo perguntas sobre blogs. Eu não dou entrevistas sobre blogs nem participo de trabalhos de faculdade sobre blogs. Eu simplesmente não agüento mais essa baboseira de blogs. Chega. Blog não passa de um meio de publicação. O autor do blog, dono e soberano do blog, faz o que bem entender com seu blog. Não existe literatura de blog. Não existe escritor de blog. Blogueiro não é escritor. Escritor não é blogueiro. Não existe escritor de blog. Existe blog enquanto meio de publicação para um escritor. Escritor é escritor. Escritor não é blogueiro. Não sei nada sobre o fenômeno blog. Sequer acho que seja um fenômeno. Nunca mais respondo nenhuma pergunta sobre blog. Por favor, não me incomodem com essas coisas. Sou uma grávida tensa, isso não faz bem. Sem mais,"
Lindo. Realmente, os blogs têm servido de veículo para a mais nova literatura brasileira. Sem o Brazileira!Preta, eu não teria conhecido o trabalho de Lady Averbuck e, quem sabe, nunca teria comprado seu livro. Muitos outros escritores estão postando seus primeiros trabalhos em blogs, refinando o estilo, divulgando seus escritos, construindo um grupo de leitores fiéis ou semi-fiéis. Mas os blogs, em si, são só uma ferramenta. Em outros tempos, Clarah Averbuck, Daniela Abade, Daniel Galera e eu estaríamos mimeografando nossos textos e distribuindo em bares e universidades. E não seríamos, por causa disso, mimeografeiros, assim como não somos blogueiros. Somos escritores.
No meu mestrado, tenho um professor de Crítica Literária que está insistindo para que eu faça um trabalho sobre blogs ao invés de, o que seria o meu tema preferido e é o tema do meu blog e, ultimamente, o tema da minha vida, literatura e liberdade. Ele me fala dos blogs como revolução, como nova literatura, etc etc, e eu não consigo fazê-lo entender isso que a Clarah já entendeu: blog é ferramenta. Utilizo meu blog para falar de literatura e liberdade. Fazer um trabalho de Crítica Literária sobre blog e não sobre isso seria ridículo.
Chutar o Balde
Outro trecho do Brazileira!Preta, de um dos posts mais recentes:
"Ele me disse "Clarah, continue escrevendo, o resto é bobagem". O resto era bobagem. Parei de trabalhar umas semanas depois daquilo, as palavras do Dan Fante ecoando na minha cabeça, "keep writing, the rest is bullshit". Fui lá e terminei meu livro e disse foda-se, nunca mais vou trabalhar. E nunca mais vou trabalhar mesmo, nunca mais vou acordar e trabalhar, não importa se vou ter um filho, não importa se me oferecerem o trabalho mais foda do planeta, o resto é bobagem, escrever é o que importa. Nada de cinema, nada de televisão. Uma coisinha aqui, outra ali, tudo bem, mas nada de trabalhar e vender o tempo para não acabar cega e com as pernas desbastadas em um hospital, ditando meu último livro porque era o único jeito de escrever e recuperar o tempo perdido. Não, nada disso. Escritor é escritor. A única coisa que vou ser em toda a minha vida."
Podia ser eu falando. Chega. É preciso não ter medo de chutar o balde. Aliás, a continuação da Prisão Medo é sobre isso mesmo, já até escrevi, preciso revisar e postar.
Não sei como ela ganha a vida. Eu dou aulas de inglês e português aqui e ali e faço consultoria de internet. São trabalhos que não me prendem, que pagam minhas contas e que me deixam livre pra escrever, perambular pelas ruas, amar.
A ambição também é uma puta prisão, que vai ser tema de outro post. Todo mundo acha que sou muito fodinha, muito inteligentinho, isso me cansa. Não aceito ser refém das aspirações e expectativas dos outros em relação à minha pretensa genialidade.
Amigos e parentes vivem me dizendo que não posso desperdiçar minha vida assim, que sou brilhante, que poderia fazer qualquer coisa, ser qualquer coisa.
Mas reclamam quando a única coisa que quero ser é eu mesmo.
Lamentam eles: tive o mundo à minha disposição, mas, ao invés disso, fiz uma opção pela mediocridade.
Não entendem nada. Tenho ojeriza à mediocridade. O problema é que, pra mim, não há mediocridade maior do que a noção deles de sucesso.
Dou minhas aulinhas de inglês, escrevo, aproveito minha juventude, sou feliz, sou livre. Sou escritor. Se for um escritor de sucesso, beleza. Se não, serei um escritor fracassado. Mas não vou ser outra coisa.
Os Beats
Lady Averbuck tem seus ídolos, alguns dos quais são meus também, como os beats. Ela nunca fala de Walt Whitman ou Henry Miller, mas eu amo esses dois, pois foram, antes do movimento beat, os maiores beats de todos os tempos. Henry Miller dizia que amava seus escritores favoritos não pelas suas qualidades, mas pelos seus defeitos. Que admirava sua força, sua vitalidade, suas altas ambições literárias, mesmo que não tivessem conseguido atingi-las, mesmo que tivessem despencado do céu em chamas, como novos ícaros. Mas tinham tentado.
Posso falar o mesmo do romance de Clarah Averbuck, Máquina de Pinball. O livro tem uma série de defeitos, nenhum dos quais vem ao caso, nenhum dos quais tem a mínima importância.
O que importa é a força do livrinho. Clarah Averbuck não tenta agradar, não mede o que faz e não faz média.
A Língua Portuguesa
Além disso, não tem pudores em usar o inglês sempre que tem vontade, sempre que vem ao caso. Imagino o que ela responderia a algum mala patrulhador que a acusasse de estar destruindo, desvirtuando, etc, a língua portuguesa. Eu gostaria de estar lá pra ver, com uma câmera. E iria ajudar a esconder o corpo depois.
Pra mim, essa questão é vital. Fui educado em inglês. Me ferrei no vestibular pois não sabia metade dos nomes de células e membranas em português. Faço um esforço danado, muito a contragosto, pra não escrever em portuglês, misturando tudo. Cresci em uma escola americana no Brasil, onde todos eram fluentes em inglês e português e todos misturavam tudo. Portuglês é minha língua-mãe. Se relaxar, é ela que falo. Escrever só português, ou só inglês, é que dá trabalho, exige um mínimo de concentração. Ao contrário dela, decidi me ater ao português, por diversas razões, mas invejei cada expressão em inglês no seu livro. A língua portuguesa também é uma prisão, e dessa não escapei.
Não devemos nada a língua portuguesa. Ela é só uma ferramenta, assim como os blogs. Quando a língua portuguesa acabar, a literatura vai continuar.
Finalizando
Algumas coisas que me ficaram na cabeça: caralho, uma mulher dessas, grávida! Fico me perguntando: quem casa com Clarah Averbuck e se dispõe a ser pai do filho dela? (Sei que muitos de vocês já se perguntaram isso da minha mulher!) Enfim, o mundo nunca mais será o mesmo com o filho de Lady Averbuck entre nós.
Outra dúvida: irá Clarah Averbuck me odiar? Irá reconhecer em mim um espírito-irmão? Sei lá. Quem me conhece, sabe que não sou antipático como ela, mas que teria que nascer de novo para sinceramente me importar com o que pensam de mim, ou pra tirar ou colocar qualquer coisa nesse texto com medo de passar uma idéia errada a Clarah, ou de não chateá-la, etc.
Mas só digo isso: vamos ver se agora ela responde o meu email.
Pra terminar, Clarah por Clarah:
"Eu não sou maluquinha. Vai se foder. Eu sou uma das pessoas mais lúcidas e normais que conheço. Maluquinhos são mongos e babam. Eu sou mal humorada e séria."
Escritora Clarah Averbuck já é. Se não se deixar domar, vai ser uma grande escritora.
Leia outro artigo que escrevi sobre Clarah Averbuck.
Postado no blog em Junho 12, 2003
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