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  Alex Castro
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Romance do Não-Dito: Aquele Rapaz, de Jean-Claude Bernadet

Aquele Rapaz, de Jean-Claude Bernadet - Clique para ler o artigo que escrevi sobre esse livroAquele Rapaz, do cineasta Jean-Claude Bernadet, lançado pela Brasiliense em 1990, acabou de ser reeditado pela Companhia das Letras.

Eu nunca tinha ouvido falar do livro e nem do autor. Comecei a folheá-lo simplesmente porque estava de bobeira na Fnac folheando tudo. Era curtíssimo (menos de 70 páginas) e decidi que valia a pena o pouco investimento de tempo necessário para lê-lo. Sentei num canto.

O livro é sensacional. Desde sábado, estou com ele na cabeça, passeando pelo meu cérebro. Desde sábado, revisito o romance e relembro suas cenas. Melhor parar de mesquinharia e comprá-lo logo.

Hoje em dia, encontro cada vez menos romances do não-dito. Aquele Rapaz é curto pois tudo foi cortado. Aquele Rapaz é riquíssimo, mas nada está lá impresso. Aquele Rapaz, na verdade, é somente um guia de leitura para um outro romance, maior e muito mais grosso, que simplesmente não existe.

Alguns diriam que tudo está subentendido. Mas não. Conteúdo subentendido é quando falamos algo que leva, lógica e conseqüentemente, à alguma outra coisa que não foi falada.

Não é o caso aqui. As coisas simplesmente não são ditas. Você, leitor, que se vire. Você, leitor, que desenredeie a história.



Foi isso, exatamente isso, que tentei fazer no meu romance Mulher de Um Homem Só.

Alguns boçais dirão: pronto, lá vem o jabá, ele só gostou do livro do Bernadet porque acha que se parece com o livro dele!

Sim e não, boçais.

Obviamente, escrevi o meu livro em um estilo que me agrada, esse tal estilo elíptico do não dito. Mais obviamente ainda, quando encontro um livro que segue essa linha, eu gosto. Quer dizer, eu não gostei do livro do Bernadet porque escrevi um livro nesse estilo, mas escrevi um livro nesse estilo porque gosto de livros como o do Bernadet.

Mulher de Um Homem Só também é ridiculamente curto, mas começou longuíssimo. Não sei se Bernadet conseguiu escrever um romance curto de cara. Eu precisei escrever um romance longo e depois cortar tudo no braço.

Tanto em Mulher de Um Homem Só quanto em Aquele Rapaz, cada palavra conta e o final é brusco, chega sem aviso.

Eu sempre gostei de livros de finais bruscos. Odeio despedidas. Mas a maioria das pessoas não entende o que faz de um final brusco brusco: é a falta de clímax, ou, pelo menos, a falta de um clímax perceptível. Quando o mocinho detona a fortaleza do bandido e foge numa asa delta com a mocinha e os planos da superarma secreta, bem, todo mundo já sabe que não falta muito pro final, afinal, todos os nós do enredo foram desatados.
Aquele Rapaz, de Jean-Claude Bernadet - Clique para ler o artigo que escrevi sobre esse livro

O final é brusco quando o clímax é imperceptível, quando o clímax é subentendido, quando o clímax não desata os nós. O leitor desatento, coitadinho, é pego de surpresa: pôxa, nada aconteceu e o livro já acabou!

Adorei Aquele Rapaz, de Jean-Claude Bernadet. Eu folheio na Fnac os livros de autores brasileiros contemporâneos e só encontro narrativas revoltadas, de personagens sem nome que andam pelas ruas de grandes cidades, cheirando todas, comendo putas e ruminando o vazio de suas vidas, e fico pensando que talvez eu esteja realmente sozinho nessa minha estética literária.

É bom saber que não.

Postado no blog em Novembro 11, 2003

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