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  Alex Castro
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Brigando por Carniça

Todo Mundo Quer um Pedaço de Sérgio Vieira de Mello

O apetite das pessoas por carne humana não tem fim. Todo mundo quis um pedaço de Sérgio Vieira de Mello.

A ex-mulher e os filhos arrastaram seu corpo para a França. O Brasil enviou o sucatão para buscá-lo no Iraque, deu carona pra família e agora está vendendo Sérgio Vieira de Mello como um grande brasileiro. A ONU tascou sua bandeira no caixão do homem, inventou-lhe heróicas últimas palavras e agora, finalmente, tem um mártir só seu.
Carolina Larriera
Só teve uma pessoa que eu não vi na fila da carniça, estranhamente a única que teria direito de pôr e dispôr do corpo de Sérgio Veira de Mello: uma loirinha argentina de 29 anos chamada Carolina Larriera.

Sérgio Vieira de Mello, Um Grande Brasileiro

Ufanismo é foda. Qualquer coisinha e nego já se empolga, rufam os tambores e soam os canhões, pátria amada salve salve.

O Brasil, agora, chora o seu melhor filho. O salvador do Kosovo. O nosso homem no Timor. Um herói. Sérgio Vieira de Mello faz com que todos tenhamos orgulho de ser brasileiros. Blá blá blá.

Bem, Sérgio Vieira de Mello era um grande homem, mas seu índice de brasilidade deveria ser quase nulo. Pra começar, ele foi embora daqui em 1966 e não voltou mais. Nem no nosso corpo diplomático quis servir, em represália aos maus-tratos dispensados ao seu pai pelos governos militares.

Seus dois filhos, de 23 e 25 anos, mãe francesa, não falam português. Aliás, mal tiveram contato com o pai, que foi um ausente – por bons ou maus motivos, isso é outra história. Não devem nem saber quem foi a Princesa Isabel. Diga Capitu pra eles e responderão Santé!

Ora, um homem que não transmite sua própria língua (ou seja, sua própria cultura) aos seus filhos é um homem que claramente não valoriza nem essa língua nem essa cultura. Ou melhor, é um homem que tem uma outra cultura.

Sérgio Vieira de Mello era um autêntico cidadão do mundo e, por isso mesmo, muito pouco brasileiro. Aconteceu de ter nascido aqui, e só. Países vão e vem. Um dia, o Brasil vai sumir como sumiu o Império Romano. Mas a idéia da ONU, mesmo nunca tendo funcionado direito ou impedido um só conflito, é uma das poucas coisas decentes a surgir no século XX e vale a pena ser defendida.

O Brasil não tem direito algum de, a essa altura do campeonato, reclamar Sérgio Vieira de Mello pra si. Aliás, a maior parte da cobertura internacional sobre a morte de Sérgio Vieira de Mello (a não ser as reportagens mais detalhadas) sequer menciona que ele era brasileiro.

Quem sabe, talvez ele até preferisse assim.



Morto Não Manda Nada

Sérgio Vieira de Mello tinha uma namorada. Carolina Larriera, de 29 anos, argentina, que trabalhava com ele na missão da ONU no Iraque. A imprensa foi discreta, mas dá a entender que moravam juntos em Genebra quando ele aceitou o novo cargo. De qualquer modo, namoravam sério há três anos. Carolina já tinha até vindo ao Rio conhecer a família dele. Aos amigos, ele se dizia apaixonado. O namorado ainda era meio secreto, pois Sérgio, apesar de separado, continuava casado no papel com Annie, uma francesa.

Até entendo a imprensa não ter falado mais sobre Carolina. Se o namoro era secreto, era porque tanto ele quanto ela não queriam vê-lo na CNN.
Carolina Larriera, no dia da tragédia
Por outro lado, só se falou na ex-mulher. Que o avião da FAB iria buscar a ex-mulher e os filhos na França. Que ele seria enterrado perto da cidade da ex-mulher. Que o presidente deu os pêsames à ex-mulher.

Afinal, é mulher ou é ex-mulher? Quer dizer que o homem se separa dela, muda de continente, arranja outra, vive e trabalha com a outra por três anos e aí, basta morrer, pro infeliz ser entregue de bandeja (ou melhor, de caixão) de volta pras garras da ex?

Morto, realmente, não manda nada.

Ex é ex. Se eu quisesse a minha ex decidindo onde eu seria enterrado ou recebendo pêsames do presidente caso eu morresse, eu não teria me separado dela. Se me separei, é porque ela não tem mais nada a ver com a minha vida - ou com a minha morte. Acabou. Não dá mais pitaco.
Carolina Larriera, Carolina Larriera, no dia da tragédia
Vai ver a Annie é uma pessoa maravilhosa, mas não consigo evitar de imaginá-la pensando: "Quer dizer que você achou que ia me largar assim e ficar com aquela argentinazinha, né? Pois vai ficar é aqui, do meu ladinho, aos meus pés, pra sempre, pra você aprender quem é que manda."

Imagino que essas coisas sejam regidas por mil protocolos. Em caso de morte, o presidente dá os pêsames à viúva. Não importa se eram separados. Como não houve divórcio, a esposa legal era Annie, a viúva é ela.

Mas essa é uma interpretação muito anos cinquenta dos relacionamentos humanos. Se o homem se separou de uma e viveu por três anos com outra, então a esposa de facto é a outra. Dane-se o papelzinho. Não era uma união estável?

Faltando esposa (mulher separada não é esposa), que a próxima na linha de sucessão fosse pelo menos sua mãe, ou sua irmã, ou alguma prima por quem ele tivesse tesão na adolescência, ou até mesmo aquela babá, de 90 anos, que estava chorando no velório. Qualquer uma, menos a ex.

Quem tem que receber as condolências do Kofi Annan é a Carolina. Quem deveria decidir onde ele seria enterrado é a Carolina. Se esse fosse um mundo que desse mais valor aos sentimentos e à verdade do que às aparências e burocracias, Sérgio Vieira de Mello estaria agora indo pra La Recoleta.

Eu só sei que entregar o corpo de um homem à sua ex-mulher é uma puta sacanagem
.

Leia agora o que os meus leitores tiveram a dizer sobre toda essa longa polêmica

Postado no blog entre Agosto 27 e 28, 2003

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