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  Alex Castro
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Cartas Portuguesas

Cartas Portuguesas MARIANA ALCOFORADO O livro que recebi de presente do meu mecenas Ricardo foi o Cartas Portuguesas, cinco cartas pretensamente escritas por uma freira lusitana a um cavaleiro francês, então estacionado em Lisboa, no século XVII.

Cartas Portuguesas foi publicado pela primeira vez na França, em 1810. Há dúvidas sobre sua autenticidade. Muitos cogitam que as cartas tenham sido, de fato, escritas pelo pretenso tradutor.

De qualquer modo, são um documento pungente do desespero exagerado do amor romântico. Mariana Alcoforado era uma freira que vivia no claustro de um convento português. Seduzida pelo cavaleiro francês, que penetrava secretamente no convento para penetrar secretamente na freira, ela viveu um tórrido caso de amor, encerrado quando ele foi chamado de volta à França.

As cartas narram o esforço de Mariana em lidar com a paixão avassaladora que a consome, em tentar convencê-lo a voltar e, por fim, em tentar esquecê-lo.

Alguns trechos:

"Estou viva, infiel que sou!, e faço tanto para conservar minha vida quanto para perdê-la. Ah!, morro de vergonha. Meu desespero estará então só nas minhas palavras? Se te amasse tanto como mil vezes te tenho dito, não teria já morrido há muito tempo?"

Mariana censurava especialmente as desculpas, para ela esfarrapadas, que o cavaleiro deu para justificar sua volta à França:

"O oficial que há-de levar essa carta manda-me dizer, pela quarta vez, que quer partir. Que apressado está! Decerto vai abandonar nessa terra alguma desgraçada! Adeus! Tenho mais dificuldades em terminar a carta do que tu tivestes em me deixar, talvez para sempre."

Por fim, ela faz uma crítica que já ouvi bastante, em especial da Joana. Eu quase posso ouvir sua voz dizendo as palavras abaixo:

"Os seus impertinentes protestos de amizade e as delicadezas ridículas de sua última carta mostraram-me que recebera todas as outras que lhe escrevi e que elas não provocaram no seu coração nenhuma emoção, apesar de as ter lido. Ingrato! E ainda sou tão louca que me sinto desesperada por não poder pensar que elas lhe não tinham chegado e que não lhas tinham entregado!Cartas Portuguesas MARIANA ALCOFORADO

Detesto sua sinceridade! Acaso lhe tinha pedido que me dissesse sinceramente a verdade? Por que não me deixou minha paixão? Tudo o que tinha que fazer era não escrever: eu não procurava ser esclarecida.

Não será pra mim o cúmulo da desgraça saber que nem sequer fui capaz de o obrigar a ter cuidado de me enganar?"

Como o diálogo é totalmente unilateral, podemos especular à vontade.

Quem nos garante, por exemplo, que houve mesmo um caso de amor? Não poderá tudo ter sido delírios e exageros na mente de uma sugestiva, jovem e cheia-de-amor-pra-dar feirinha portuguesa? Isso se as cartas forem autênticas, claro.
 
Eu nunca gostei do jogo de sedução romântico. Eu quero ou não quero. Sou direto e não sei brincar de gato-e-rato. Por isso, nunca fui o gato, mas algumas vezes já fui rato. Nesse tipo de situação, sempre me imagino o perseguido, nunca o perseguidor. E tenho calafrios.

Teve gente que achou o filme Bem me Quer Mal me Quer (À la Folie... Pas du Tout), com a excelente Audrey Tatou, uma comédia romântica. Pra mim, é filme de terror.

Sobre isso, leiam também meu artigo Trago Pessoa Amada em Três Dias



* * *

Ricardo, mais uma vez obrigado pelo presente.

E você? Meus textos lhe agradam? Já lhe ensinei alguma coisa que valesse a pena? Se for o caso, considere retribuir dando um livro de presente para um autor falido.


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Postada no blog em Maio 19, 2004

 

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