Diga Sim ou Não, Palhaço!
Muito obrigado por todos os parabéns recebidos. Meu casamento foi, realmente, muito legal, alternativo e despretensioso.
No cartório, apareceram apenas as testemunhas, e minha família mais próxima, e a irmã da minha esposa, que veio do norte só pra isso. Depois, tentamos ir jogar boliche (minha mulher nunca tinha jogado), mas estava fechado e ficamos de bobeira no shopping. Na livraria, quem eu encontro? A Paula, ela mesma, do artigo Falando as Verdades Desagradáveis, que eu não via há 7 anos e com quem perdera contato depois da vez em que ela foi na minha casa e eu saí pela outra porta. Ela ficou falando com a gente por cinco minutos até que o grupo dispersou, ninguém agüentava mais ficar perto, a mulher do meu padrinho chegou a ter ganas de bater nela.
À noite, fomos todos para um barzinho ao ar-livre perto da praia, a noite estava deliciosa, foi o dia mais frio do ano, um verdadeiro presente pra mim. Não houve frescuras ou firulas, só um encontro da galera. Sou tão pobre que o jantar foi na base da comanda: cada um pagou o que consumiu.
O ponto alto do dia foi na hora mesma do casamento, quando a juíza me fez lá aquela pergunta de praxe, se eu aceitava aquela mulher de livre vontade, etc etc. Eu, sempre debochado, é uma ânsia, não consigo controlar, disse:
É... Aceito, né?
Rapaz, pra quê? A juíza ficou injuriada.
Diga sim!, ela gritou.
Meu padrinho, que também é advogado, disse que a juíza errou. Naquele momento, ela deveria ter impugnado o casamento e mandado a gente voltar dali a seis meses, quando eu tivesse certeza. (Imaginem! Se eu sobrevivesse à surra da minha mulher, seria uma história incrível pra contar!) Mas, se é assim que a coisa funciona, então ela errou mais ainda: se eu estivesse em dúvida mesmo, uma figura de autoridade gritando pra mim, em tom de repreensão "Diga sim" poderia fazer com que eu assumisse um compromisso que, de fato, não queria. Ela deveria, pelo menos, ter me dado uma opção: "Diga sim ou não, palhaço!"
Enfim, como eu queria de fato casar com a Di, disse Sim, bem alto, quase saiu um sim senhor, positivo operante, mas deu pra segurar.
É, não teve jeito. Meu inconsciente tentou melar tudo mas não rolou. Casei mesmo.
Tiro de Chumbinho nos Urubus
Sei que vocês vão me achar pequeno e mesquinho, mas enfim, de vez em quando tenho direito. Eu nunca quis casar no papel, nem mesmo minha mulher fazia muita questão, minha família menos ainda, casamos mais por causa da família dela. Mas sabe qual foi a melhor coisa disso tudo?
Acredito em livre-concorrência (é o primeiro L, liberal) e realmente tenho que ganhar minha mulher um pouco todo dia: o que não falta é urubu voando em círculos em cima da carniça, se eu vacilar, eles levam. E foi delicioso imaginar como o meu casamento foi um tiro de chumbinho na bunda desses urubus, sepultamento de tantas ambições, balde d’água fria em intenções mal-requentadas.
Nada mudou entre minha mulher e eu, o casamento continua aberto, ela continua saindo com quem quiser, e eu continuo tendo que ser sempre melhor que a concorrência (e vice-versa, claro), mas casar, casar mesmo, casar no papel, é um símbolo muito forte. É um símbolo de que a nossa relação é sólida e que estamos apostando no futuro. Que podemos sair pra putaria sim, mas que nosso futuro é um com o outro - ou, pelo menos, que vamos tentar ao máximo que seja. Casar com ela foi a melhor coisa que fiz na minha vida.
Não acredito em segurança. Sei que tudo pode mudar de uma hora pra outra. O ser humano é muito volúvel. Desde que estamos juntos, eu já me apaixonei por uma pessoa (a minha foi a Joana) e minha mulher por outra. Cada um desses amores poderia ter sido o fim do nosso relacionamento, mas não foi. Enfrentamos o assunto com amor, abertura e tolerância, resolvemos nossas diferenças, desapaixonamos e bola pra frente.
Então, tenho a humildade de saber que tudo muda, que quem está por baixo hoje, pode estar por cima amanhã, mas... pelo menos por hoje... na semana depois do meu casamento... vou me permitir o desabafo, do qual muito me envergonho, tento ser sempre nobre e esbanjar classe, vide o episódio da Mulher Moderna, mas, enfim... vá lá...
Mordam-se, seus filhos da puta! Enfiem os dedos nos cus e rasguem! De preferência, sincronizadamente!
E vou estar lá, no júri, levantando a plaquinha: 2.3! Nem pra enfiar o dedo no cu e rasgar vocês servem!
É impressão minha, ou ficou quente aqui de repente?
Postado no blog em Maio 14, 2003
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