Esse fim-de-semana, por recomendação do blog Epinion, eu me juntei ao grupo de discussão Lendo os Clássicos. Aqui vai o meu primeiro post:
“Vocês conhecem a coleção Britannica Great Books?
Não há repositório melhor de clássicos do que essa coleção. Ela é vendida junto com a Enciclopédia Britânica e, pra quem não tem a sorte de ter, é facílima de ser encontrada em qualquer biblioteca.
Para os desatentos, é só uma coletânea de livros, como tantas outras coleções. Nada disso.
O diferencial são os três primeiros volumes da série. O primeiro se chama The Great Conversation, e foi escrito pelo organizador da coleção, e um dos maiores educadores norte-americanos, Robert Hutchins.
A Grande Conversa é o diálogo, travado há milhares de anos, entre as grandes mentes da humanidade. Os clássicos não são só livros consagrados: eles são as vozes da Grande Conversa, pontos de vista conflitantes, discussões empolgantes. Esses livros não estão mortos: eles falam, eles gritam, eles choram, uns com os outros, o tempo todo. Heráclito teoriza, Aquino racionaliza, Cervantes ri, Descartes sugere uma outra opção, Kant contextualiza e Marx destrói. Um grande diálogo.
Ou, melhor ainda, e essa é a impressão que Hutchins me passa com seu texto vigoroso e empolgado, e que influenciou toda a minha vida, e que talvez tenha feito com que eu me tornasse escritor: a Grande Conversa nada mais é do que uma grande festa, um grande debate, onde Dante, Eurípides e Hobbes estão só esperando pela minha contribuição, pela minha participação.
E você, Alexandre, o que tem a dizer sobre liberdade, filosofia, amor? Agora é a sua vez. Agora a grande conversa está passando pelo final do século XX e começo do XXI. Se você não falar logo, daqui a pouco vamos ser forçados a seguir viagem. O século XXII nos espera, a Grande Conversa não pode parar.
E eu corro atrás, ofego, e me esforço pra dar alguma contribuição.
Se o primeiro volume é inspirador, os dois seguintes, As Grandes Idéias, ou Syntopicon, são de tirar o fôlego. Fico impressionado só de alguém ter se proposto um trabalho como esse. As Grandes Idéias é a Grande Conversa viva, pulsante, quase ao vivo, quase podemos ver Agostinho gritando com Freud. Alguém tem alguma dúvida de que esses dois cairiam no tapa?
O objetivo do Syntopicon é mostrar a evolução das grandes idéias da humanidade (liberdade, amor, felicidade, escravidão, etc) e o modo como foram tratadas por cada participante da Grande Conversa. Não há melhor ou mais prático instrumento pra se traçar o desenvolvimento das idéias – e é inacreditável imaginar que quase todo mundo que tem essa coleção nem abriu esses três livrinhos.
Por exemplo, a primeira divisão da idéia Liberdade é “Liberdade Natural e Liberdade Política”, e, dentro dessa, um dos subitens é “A Liberdade como direito de nascença”. Sobre isso, em ordem cronológica, falaram Agostinho, na Cidade de Deus, Tomás de Aquino, na Suma Teológica, Shakespeare, em Júlio César, Milton, no Paraíso Perdido, Locke, no Governo Civil, Fielding, em Tom Jones, Montesquieu, no Espírito das Leis, etc. Ler os trechos indicados, em ordem cronológica, é uma verdadeira história da evolução idéia da Liberdade como direito de nascença.
Qualquer tema ou idéia possível que lhe interesse, ou sobre a qual você esteja pesquisando, pode ser encontrada no Syntopicon. Através do Syntopicon, você poderá obter uma noção melhor de que autores trataram do assunto que lhe interessa. Na pior das hipóteses, o Syntopicon é uma puta bibliografia sobre todos os assuntos possíveis e imaginários.
Falar em clássicos e falar em Britannica Great Books é a mesma coisa. Fico chocado de ver quanta gente tem ou consulta essa coleção sem nunca ter nem arranhado seu incrível potencial.
Por fim, a coleção, nas palavras de Mortimer J. Adler, um dos editores:
"Suppose there were a college or university in which the faculty was thus composed: Herodotus and Thucydides taught the history of Greece, and Gibbon lectured on the fall of Rome. Plato and St. Thomas gave a course in metaphysics together; Francis Bacon and John Stuart Mill discussed the logic of science; Aristotle, Spinoza, and Immanuel Kant shared the platform on moral problems; Machiavelli, Thomas Hobbes, and John Locke talked about politics.
Would anyone want to go to any other university, if he could get into this one? There need be no limitation of numbers. The price of admission - the only entrance requirement - is the ability and willingness to read and discuss. This school exists for everybody who is willing and able to learn from first-rate teachers."
Postado no blog em Junho 23, 2003
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