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  Alex Castro
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Cozinhando com Alex
 

Não entendo gente que não sabe cozinhar.

Entendo gente que não gosta de cozinhar, claro. Tem gosto pra tudo. Tem gente que não gosta de mulher. Tudo é possível. Mas como não "saber" cozinhar?

* * *

Saí ontem pra um chá das cinco com seis mulheres. Nenhuma sabia cozinhar. Pior, todas achavam isso bonito, como se fosse algum tipo de feito do qual se orgulhassem.

E eu: mas gente, não tem como não saber. Vocês pegam a receita, seguem e pronto. Duas colheres disso, uma pitada daquilo, fogo baixo, mexendo sempre, não tem mistério. É como uma formulinha. Nunca fizeram laboratório de química?

E elas: ah, pra você é fácil. Você "sabe" cozinhar.

Eu cozinho freqüentemente. Mas não acho que saiba cozinhar. Na verdade, cozinhar é algo tão simples que nem se qualifica como um "saber". Seria como perguntar: você sabe se limpar sozinho?

* * *

Em geral, as pessoas que não sabem/gostam de cozinhar se dividem em dois tipos:

Há os homens que acham que encostar em qualquer utensílio na cozinha é algo emasculante. Dizem coisas como: na cozinha, eu só entro pra beber água, se não tiver comida pronta, peço pizza, etc.

Há as mulheres que acham que encostar em qualquer utensílio na cozinha é dar prova de amélia. Dizem coisas como: imagina!, quem cozinhava era minha avó, eu dirijo minha empresa, jogo golfe, escalo o Aconcágua, vê lá se vou perder meu tempo fazendo arroz!, etc.

Um mais cheio de preconceitos que o outro.

* * *

Cozinhar não é um conhecimento arcano para poucos iniciados. É daquelas habilidades básicas no dia-a-dia, como se limpar, se barbear, arrumar sua própria cama.

Como não saber fazer sua própria cama? Como não saber se limpar sozinho? Como não saber cozinhar sua própria comida?

Cozinhar, se bem-feito, pode chegar a ser uma forma de arte - algo que fazer a cama nunca alcançará.

Mas cozinhar não precisa ser arte.

* * *

Meu pai é um homem à moda antiga, nunca ferveu nem água. Pra piorar, é um ex-milionário, já tendo sido servido por mais de dez empregados em sua casa.

Sempre que ele me liga e eu digo que estou cozinhando, o homem começa a rasgar as vestes: meu filho, meu deus, que decadência, sem nem dinheiro pra comer num restaurante!, é tudo culpa minha!, etc etc. E eu sou obrigado a explicar que, sim, de fato, embora não tenha dinheiro nem pra esfiha do Habib's, eu cozinho é por prazer, porque só eu sei fazer a minha comidinha do jeito que eu gosto.

Mas não adianta: pro meu pai, cozinhar a própria comida é sinal de pobreza absoluta. Algo como lavar a própria privada ou dirigir o próprio carro.

Temperar Antes de Provar

Em termos de cozinha, só tem uma coisa que eu realmente não perdôo: gente que entope a comida de tempero antes mesmo de provar.

Aqui em casa já quase saiu divórcio. E tem mais: qualquer juiz minimamente gourmet daria ganho de causa a um cônjuge que passa horas fazendo um espaguete à carbonara somente para vê-lo ser inundado de ketchup (*faz o sinal da cruz* KETCHUP!!) pela esposa antes mesmo de provar o prato.

* * *

Qualquer um sabe cozinhar, basta seguir a receita. Mas cozinhar bem é outra história. Fazer qualquer coisa bem requer um mínimo de inclinação, molejo e experiência. E eu, modéstia a parte, cozinho bem.

Perco horas escolhendo um prato, decidindo os ingredientes, escolhendo as melhores marcas, temperando com carinho, equilibrando os paladares, mexendo uniformemente, vigiando o gratinado. Todo um trabalho.

E tudo isso para algum bárbaro encher minha obra de ketchup, sal, pimenta, limão ou queijo ralado antes mesmo de provar?

Esqueçam divórcio. É caso de homicídio justificado.

* * *

O problema não está nesses temperos em si, embora eu confesse certo grau de birra contra todos eles.

Limão era usado no peixe porque os antigos acreditavam que ele derretia as espinhas. Hoje, que a gente sabe que não é o caso, pra que conspurcar a suavidade do peixe com algo tão radical quanto limão?

O gosto do limão é tão forte que ele se sobrepõe a tudo, especialmente ao paladar delicado do peixe. Quem come peixe com limão poderia estar comendo papelão com limão: só o que se sente é o gosto do próprio limão.

O ketchup é meu inimigo pessoal. Não há indício mais forte da decadência da civilização ocidental do que o ketchup. Em sanduíches, eu até aceito, mas com ressalvas, pois meus sanduíches também são muito bem equilibrados e temperados.

Na culinária, entretanto, o ketchup deveria ser abolido. Os paulistas (eu não sou paulista, aliás) têm razão quando dizem que uma das maiores falhas morais do carioca (talvez a maior) é colocar ketchup e mostarda em pizza. E isso é porque não conhecem os paraenses: na terra da minha esposa, eles também colocam maionese na pizza. Em outras épocas, isso deveria dar fogueira.

Sal, pimenta e queijo ralado não são tão heréticos, mas nunca deveriam ser colocados na comida antes de provar.

Eu, por exemplo, gosto de cozinhar com pouco ou nenhum sal. Sal é uma questão muito pessoal, às vezes de saúde. Cada um é que deve decidir, na mesa, quanto sal quer ou pode consumir.

E, por outro lado, pratos muito cremosos me causam enormes enjôos. Massas ao molho branco eu só consigo comer com muito queijo ralado. Mas provo primeiro.

Ah, e queijo ralado, em frutos do mar, jamais. Por quê? Porque não.

* * *

Temperar equivale a criticar. Se você coloca alguma coisa no prato, é porque alguma coisa faltava. Se coloca sal, é porque acha que faltava sal - no meu caso, propositadamente. E por aí vai.

Mas, se não em respeito ao cozinheiro, pelo menos por curiosidade, a pessoa deveria primeiro tentar descobrir qual foi o efeito que ele tentou dar ao prato, qual foi o paladar que ele construiu, como foram equilibrados os diferentes temperos.

Depois, claro, se não gostar, tempera-se à vontade.

Temperar antes de provar é como, se fosse possível, reescrever o livro antes mesmo de lê-lo. Me chame de Ismael. Hmm, que nome idiota. Por que não chamá-lo de Carlos ou Ariosvaldo?

Ninguém é obrigado a gostar da comida que eu preparo. Peço apenas que provem antes de decidir que não gostaram.

Postada no blog em Junho de 2004

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Liberal Libertário Libertino: Modo de Usar   
O leitor Hugo está resenhando minhas prisões em seu blog, Alta Fidelidade. Ele seleciona os trechos mais relevantes e os responde. O Hugo está, antes de tudo, se conhecendo. Não há viagem mais importante do que essa. Ao reagir a mim, ele está descobrindo seus limites, seus preconceitos, suas opções.