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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Quando Um Não Quer, Dois Não Debate

O perceptivo leitor FePa me fez uma excelente pergunta:

"Não entendi direito sua posição, qual a diferença entre debate e tribuna? Para mim são a mesma coisa. Fica ainda mais complicado quando vc diz que o debate é chato. De que adianta publicar idéias tão "polêmicas" se não está disposto a defende-las?"

Há uma série de mal-entendidos implícitos na pergunta.

O debate interessa a dois tipos de pessoas: as que querem convencer as outras de alguma coisa e as que se preocupam com o que as outras pensam delas. Não me enquadro em nenhuma dessas categorias.

Não me importo, sinceramente, com o que pensam de mim. Podem achar que sou louco, imoral, mentiroso, hipócrita, lesa-pátria, corno, tudo isso só me diverte. Quem lê esse blog sabe que sou rotineiramente xingado e nunca respondo, rio sozinho e sigo viagem.

As poucas vezes em que respondo aos leitores (tirando, claro, quando fraquejo e cedo às provocações, pois sou humano) é sempre para clarificar alguma dúvida sincera ou um ponto que acho que foi honestamente mal interpretado. Xingamentos, não respondo. Argumentos lógicos, pró e contra minhas posições, eu ignoro.

Falei contra o marxismo, por exemplo. Marxista adora bater boca. Imagina se eu for responder com argumentos lógicos e exemplos empíricos a todo mundo que quiser debater comigo que o comunismo é maravilhoso! Alguns dizem que sou preconceituoso, que sou reacionário, que falo isso por ter apenas um conhecimento superficial do assunto, etc etc. Acha que vou perder um segundo que seja de sono porque alguém acha que minhas opiniões são levianas? Sinceramente, quero que se fodam. Contanto que não tomem o poder e revoguem minha liberdade de expressão, podem achar o que quiserem.

Defendo minha filosofia só de quem quiser me impedir de praticá-la.

Essas minhas idéias ditas polêmicas não são pra discutir ou pra chocar. Elas são o meu projeto de vida, minha jornada interior de desbravamento, uma aventura absolutamente pessoal, em busca de maior felicidade e liberdade, em busca do melhor modo possível de viver minha própria vida.

Estou sempre falando de mim, só de mim, e de mais ninguém. Não por arrogância, pois arrogância seria falar para todos, pregar minhas verdades pessoais para serem aplicadas à vida de pessoas que nem conheço. Também não por humildade, pois poucas coisas são mais intrinsicamente desprezíveis do que a humildade. Mas por praticidade e por realismo. Mal consigo me conhecer, mal consigo resolver a minha vida, quiçá outras.

Eu tinha uma amiga que, sempre que eu emitia uma opinião enfática, virava pra mim fazendo a maior cara de desagrado do mundo e dizia, em tom de crítica: essa é SUA opinião, né?

E eu respondia na hora: não, essa foi a opinião daquele careca que vai passando ali. Agora eu vou dar a sua opinião. A minha mesmo eu vou dar no final, pra causar mais impacto...

É óbvio que sempre que abro a boca estou dando só a minha opinião. Por mais enfático que eu seja, é sempre só de mim que estou falando. Não estou dando as opiniões dos outros, não estou pregando como as pessoas devem viver suas vidas.

Exponho minhas idéias aqui por alguns motivos. Um, sou escritor, escrever é só o que sei fazer direito. Dois, escrever é a melhor forma de terapia e de auto-conhecimento. Através da palavra escrita, a gente se inventa e se descobre. O Hugo descobriu isso, comentando as minhas prisões.

Três, para tentar conhecer outras pessoas que estejam em uma sintonia parecida com a minha, que sejam receptivas à minha mensagem, que tenham um estilo de vida semelhante. E, claro, confessando bem cinicamente, para conhecer mulheres interessantes, liberadas, pervertidas, inteligentes, malvadas.

A quarta razão é a mais importante. Sou totalmente indutivo. Só consigo raciocinar partindo do específico para o geral. Compartilho minhas experiências pessoais na mais sincera esperança que elas possam ajudar outras pessoas. Que possam servir de exemplo. Que possam catalizar outros processos de descoberta pessoal. Que possam causar novas contestações.

Mas não para convencer ninguém. Alguém que concorde comigo em tudo, ou quase tudo, realmente não entendeu o pouco que estou tentando ensinar.

Quanto mais longe vocês me seguirem no meu caminho, mais longe estarão do caminho de vocês.

Debate vs Diálogo

O leitor FePa escreveu:

"Sua noção de debate é pejorativa, como se o debate não fosse uma atividade construtiva. Para mim a noção de debate está mais próxima do dialogo, onde se esclarece as idéias, articula argumentos tornando nossas déias mais consistentes, para nós e para os outros."

Minha noção de debate não é pejorativa, acho que nós é que definimos debate de forma diferente. Eu não tenho receio do debate, não tenho é saco. Debate é a coisa mais chata do mundo.

Não confundam debate com diálogo.

Debate é um tipo específico de diálogo, no qual os participantes tentam convencer uma platéia, ou uns aos outros, de alguma coisa, usando argumentos e evidências.

Um debate pode ser político (os participantes tentam convencer a platéia a votar neles) ou acadêmico/ideológico, onde os participantes tentam convencer a platéia dos malefícios ou benefícios da privatização da Petrobrás, do cultivo dos transgênicos.

Debate vs Opinião

O Harry pergunta:

"Está escrito na sua caixa de comentários: "Suba no meu caixote e dê sua opinião." Isso é ou não incitação ao debate?"

Não necessariamente, Harry. Como sempre, sou muito direto. Isso é exatamente o que diz ser: uma incitação às pessoas darem suas opiniões. Pode virar debate? Pode. Mas não se eu puder evitar.

Eu escrevo, sem dar argumento técnico ou específico algum, que Magnólia é um dos melhores filmes que já vi. Um leitor comenta que sim, é isso mesmo. Outro diz que o filme é horrível, outro concorda que é mesmo muito bom, e etc etc.

Talvez a gente entenda as coisas de modo diferente, mas eu acho que um grupo de pessoas bradando suas respectivas opiniões não é um debate. Não sei bem o que é, mas não é debate.

Debate seria eu elogiar Magnólia com base em critérios razoavelmente objetivos. Debate seria o Harry, digamos, discordar desses meus critérios e rebatê-los um por um. Debate seria eu não me conformar e tentar convencê-lo de tudo quanto é jeito que Magnólia é ótimo, dando um, dois, cinco argumentos. Debate seria o Harry não se conformar de eu gostar de um filme tão ruim e citar duas, quatro, sete boas razões por que o filme é terrível. E a coisa vai daí pra baixo.

É isso que vocês querem? Eu acho muito chato.

Prefiro simplesmente dar minha opinião e ouvir as de vocês. Não quero convencê-los, nem estou muito disposto a ser convencido.

Se o Harry achar Magnólia ótimo, como eu acho, eu vou pensar - Beleza! - e seguir viagem. Se ele achar Magnólia péssimo, eu não vou considerar uma questão de honra convencê-lo do contrário: vou simplesmente pensar - Beleza! - e seguir viagem.

Debater e dar sua opinião têm muito pouco a ver um com o outro. Várias pessoas dando suas opiniões não é debate e muita gente pode debater sem nunca dar sua opinião. Em um debate, você está sempre tentando convencer alguém de algo, mas não necessariamente esse algo é sua opinião.

Nesse blog, por enquanto, só houve um debate, esse sobre tradução e língua portuguesa que aconteceu em setembro e começo de outubro. As pessoas chegaram com suas opiniões e ideologias, os argumentos e contra-argumentos e contra-contra-argumentos se sucederam com tediosa regularidade e, no final, como sempre, ninguém foi convencido, ninguém lucros, os ânimos se acirraram e alguns até se ofenderam. Um saco.

E Daí?: Cachorros que Perseguem Carros

Não se enganem: eu gosto muito de debater. Tanto que sou provocado facilmente. Mas concluí, há muito tempo, que debates são fundamentalmente inúteis e tento fugir deles o máximo possível.

Pessoas que debatem muito são como cachorros que correm atrás dos carros: se pegassem um, não saberiam o que fazer com ele.

Antes de entrar em um debate, devemos nos perguntar: e se conseguirmos? E se tivermos sucesso em convencer nosso adversário e nossa platéia? E então? E daí?

Digamos que, depois de tanta saliva e largura de banda gastas, o Harry ceda: pôxa, Alexandre, você tem razão, Magnólia é mesmo sensacional!

E daí? Ganhei alguma coisa com isso? Ele ganhou alguma coisa com isso? Eu me tornei uma pessoa melhor porque converti mais um às fileiras dos fãs de Magnólia? O Harry passou a ser uma pessoa melhor porque abriu seus olhos e admitiu que Magnólia é um puta filme? O mundo tornou-se um lugar meio pentelhésimo que seja melhor por causa desse debate, dessa "exposição de idéias"?

Digamos que, depois de todas as besteiras que o Mauro falou, ele tivesse me convencido: pôxa, Mauro, você tem razão, a língua portuguesa é coitadinha, está sob ataque dos gringos malvados e globalizados e nossa única saída é protegê-la através de mais uma lei (temos tão poucas leis no Brasil!) e se os falantes de português perderem a liberdade de falar como bem entenderem seu próprio idioma, bem, isso será um preço pequeno a pagar para se salvar a nossa língua!

E daí? Minha conversão às hordas do ignorantismo mudaria alguma coisa?

Ele provavelmente murmuraria um constrangido "Ah, tá, que bom", e sumiria para jamais ser visto de novo.

Vale a pena eu tentar discutir com alguém que pensa esse emaranhado de besteiras que exemplifiquei no parágrafo acima? Por que eu deveria me dar esse trabalho de Sísifo? Por que eu deveria me importar de ele ter uma opinião tão errada? Na verdade, por que deveria ser minha responsabilidade corrigir, converter, ou mesmo dialogar com pessoas assim?

Não. Melhor dar apenas minha simples opinião e pronto. Quem concordar, que concorde, quem não concordar, que não concorde, só não me encham o saquinho, por favor!

Na verdade, há até bons motivos para se assistir a um debate, como falou o Harry:

"O meu objetivo é ouvir os argumentos dos outros, afinal, eu não sou o único ser pensante do mundo e alguém pode me dizer alguma coisa que me passou em branco e que tem valor."

Assistir a um debate pode até ser interessante. Participar é que não leva ninguém a lugar algum - pelo menos quem está debatendo.

Ter Certeza

Disse o Harry:

"Negando o debate você está negando a possibilidade de alguém te mostrar algo que te convença. Você nega totalmente a possibilidade de estar errado sobre você mesmo."

Mas a questão é justamente a oposta: não será uma demonstração de arrogância ter tanta certeza assim de estar certo que ainda vou tentar convencer alguém disso?

Harry, eu estar errado, se não em tudo, talvez em muita coisa, não é uma possibilidade, não é nem mesmo um probabilidade, é uma certeza absoluta. Estou sempre me questionando e tentando me melhorar, nunca tenho certeza de nada.

Se não tenho certeza nem de minhas próprias opiniões, como é que ainda vou me arrogar direito de tentar convencer os outros de alguma coisa?

Coisas que Não se Debatem

Mas isso tudo é detalhe. Quem exige debate está esquecendo uma coisa muito importante.

O que se debate são questões polêmicas, sejam elas culturais, acadêmicas, políticas, ideológicas, morais, legais, etc. O tema dos dilemas da tradução e da defesa da língua, por exemplo, era ideologicamente carregado e eminentemente debatível e foi, por isso, debatido a exaustão.

Mas esse blog não é sobre isso.

Esse blog é sobre o meu projeto de vida, minha jornada interior de desbravamento, uma aventura absolutamente pessoal de auto-ciência, em busca de maior felicidade e liberdade, em busca do melhor modo possível de viver minha própria vida.

Podem ficar certos: meu projeto pessoal de vida não está aberto para debate.

Por exemplo, meu casamento aberto.

Esse foi o método que escolhi para viver o meu casamento. Não acho que é o melhor método, não acho que é o método que toda humanidade deveria adotar, não acho nem que é o método que eu me vejo obrigado a adotar por toda a minha vida. Acho apenas que é o método que decidi viver o meu casamento hoje.

Esse assunto não será debatido. Eu não vou me rebaixar ao ponto de defendê-lo. Defendo minha filosofia só de quem quiser me impedir de praticá-la.

Muitos blogueiros, que amam mais seu próprio tempo do que eu, não incluem nem comentários em seus blogs. Não querem saber o que as outras pessoas pensam e pronto. Os incomodados que se mudem.

Eu não sou assim. Sou um curioso. É uma obssessão. Gosto de saber o que as pessoas pensam. Me divirto com as cavalgaduras que me xingam, aprecio as objeções ponderadas dos questionadores e adoro conhecer meus semelhantes. Mas, vamos ser honestos, o valor prático dessas opiniões pra mim é muito pequeno. São, realmente, mera curiosidade.

Se todo mundo me escrever achando o meu estilo de vida o máximo, me considerando um verdadeiro guru, não vai ser isso que vai me fazer ficar nem mais nem menos certo da minha decisão. A função desse blog não é estimular minha auto-estima. O modo como vivo a minha vida não é um plebiscito que os leitores podem ratificar.

Se todo mundo me escrever achando meu estilo de vida imoral e absurdo, ou desejável mas impraticável, isso também não vai fazer diferença alguma pra mim, nem vai me fazer questionar minhas escolhas ou meus valores.

Entendam: eu quero ouvir suas opiniões sim. Mas não vou debatê-las.

Pois se sua opinião for contrária à minha, eu nem me sinto tão ameaçado por ela que tenha vontade de combatê-la, nem a considero tão importante que tenha vontade de revertê-la.

Você fica com a sua opinião, e eu fico com a minha. Quando um não quer, dois não debatem.

Postada no blog entre Outubro 22 e 25, 2003

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