A Democracia e Che Guevara
Atualmente, a Che-Mania é um dos principais sintomas desse baixo apreço pela democracia em nosso continente.
A figura humana de Ernesto Che Guevara me é muito simpática, como acredito que para quase todo mundo. O homem tinha carisma.
Infelizmente, alguns critérios são eliminatórios. Democracria é um deles.
As pessoas me falam que Che era uma pessoa boa, um idealista que só queria o bem do povo. Exportou a luta armada pelo continente para libertar as massas exploradas. Atravessou o rio para passar o aniversário com os leprosos. Ajudava velhinhas a atravessar a rua. Blá blá blá. Até concordo e acho muito justo.
Mas, no fim das contas, o homem ajudou a implantar, e foi um dos pilares de sustentação (chegando até a Presidente do Banco Central), de uma ditadura que, até hoje, quase cinqüenta anos depois, ainda não tem nem imprensa nem eleições livres, ainda prende pessoas por crimes políticos (!), ainda tem seu paredón com fuzilamentos regulares e, talvez o pior, não permite que seus cidadãos descontentes saiam do país.
Então, esse é meu critério eliminatório. Esse é meu critério "perdeu a razão". É nesse critério que a má-fé dos pretensos heróis se revela.
Se fossem mesmo tão bonzinhos, tão idealistas, se amassem tanto o povo e confiassem tanto nele, teriam dado a esse mesmo povo o poder de criticar o governo na imprensa, de tirá-lo do poder por meio de eleições ou, no pior dos casos, de se mudar pra outro país.
O povo de Cuba, tão amado por Guevara, não desfruta de nenhum desses direitos.
Contardo Calligaris
Comentando o filme Diários da Motocicleta, na Folha de quinta, 6 de maio, Contardo Calligaris escreve:
"É difícil olhar para Ernesto jogando pedras no caminhão de uma mineradora sem pensar em suas lutas futuras. Mas, para mim (e deve ser assim para muitos), o caminho entre a raiva do jovem Ernesto e a morte do Che na Bolívia não é uma gloriosa ascensão em direção à santidade. A regra (trágica) é esta: a magnanimidade que pode nos levar a menosprezar nossa própria vida e a encarar o martírio é a mesma que pode nos induzir a menosprezar a vida dos que obstaculizam nossos projetos. Medindo as palavras: quase sempre as melhores intenções alegam sua generosidade para justificar a pior intransigência."
A Ditadura Brasileira
Por favor, não venham de falar da ditadura brasileira.
Ninguém jamais me pegará inventando desculpas para qualquer ditadura.
A diferença entre eu e a esquerda é que eu acho que toda ditadura é errada, sempre, ponto. Já o pessoal de esquerda acha que existem ditaduras do bem (como a do Fidel) e do mal (como a do Pinochet). E que em Cuba todos deveriam lamber os beiços de ter boa saúde e bons esportes.
Liberdade de expressão e direito a voto? Meros detalhes.
Democracia É um Processo, Não um Fim
Pesquisa do Pnud mostra que a maioria dos latino-americanos trocaria alegremente a democracia por maior prosperidade econômica.
A seguir, editorial da Folha de São Paulo sobre o assunto, da segunda-feira, 26 de abril. Mais abaixo, minhas considerações:
"Erro de Avaliação
Atualmente a democracia não goza de muito prestígio na América Latina. Estudo realizado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) mostra que a maior parte da população latino-americana apoiaria um governo autoritário, desde que com ele se resolvessem os problemas econômicos de seus respectivos países.
Os números obtidos em pesquisa que envolveu a população de 18 nações -incluindo o Brasil- indicam que a maioria dos latino-americanos considera o desenvolvimento econômico preferível aos benefícios políticos da democracia. Julgam, além disso, que o regime democrático não resolve os problemas de seus países. O estudo indica que se frustraram as esperanças de que a instituição da democracia fosse acompanhada pela superação do subdesenvolvimento e das desigualdades que historicamente caracterizam a região.
De fato, os índices de desemprego, os indicadores de pobreza e o desnível de renda relativos aos países latino-americanos ainda são escandalosos. A ONU estima, por exemplo, que até o ano passado 43,9% da população latino-americana vivia abaixo da linha de pobreza. Em 2002, o índice de desemprego médio regional era de 9,2%.
É inquietante constatar que nesse contexto ganha força a opinião, marcada por um pragmatismo extremado, de que, em troca de prosperidade econômica não seria mau negócio abrir mão da democracia.
O grande risco que salta da pesquisa é avaliar a democracia não por aquilo que ela é e representa em termos de sistema político, de direitos e garantias, mas apenas como mais uma fórmula para promover o crescimento da economia. E daí inferir incorretamente que num regime de liberdades não encontramos as condições para superar nossas conhecidas dificuldades econômicas."
Durante a faculdade de História, me especializei em História Militar e Naval. Alguns de meus primeiros artigos publicados foram análises de batalhas navais para a Revista Marítima Brasileira. Tive muito contato com almirantes e generais, muitos dos quais com participação ativa na então recém-finada revolução gloriosa.
Todos acreditam, com a mais profunda e sincera convicção, ter feito tudo o que fizeram em nome da democracia. Para defender a democracia. E não há como dissuadi-los dessa idéia ridícula.
(Eu tenho medo de imaginar o que eu teria feito nessa época. Compactuar com um governo ditatorial, que sufocava as liberdades civis, jamais. Pior, ainda era uma ditadura de esquerda, pois nenhum governo brasileiro foi mais esquerdista, retrógrado, nacionalista e estatizante do que a série de presidentes militares. Aliar-me aos imbecis da esquerda, que se matavam em nome de ideais não só idiotas, como, naquele momento, impraticáveis, seria pior ainda. Fazer o quê? Se eu soubesse que nenhum presidente brasileiro seria tão liberal quanto Lula, talvez até lutasse por ele. Ou preferisse o exílio.)
Enfim, eu tentava explicar aos meus amigos militares que eu acreditava neles. E ainda acredito.
Mas democracia é um meio e não um fim. Essa parece ser a sabedoria que nem nossos militares, nem George W. Bush e, pior, muito pior, de acordo com a pesquisa do Pnud, nem o grosso do nosso povo tem.
Se você precisa utilizar meios anti-democráticos para implantar ou manter uma democracia, então você já perdeu. A democracia se provou inútil. Melhor arranjar outro sistema de governo.
Se você troca a democracia por pretensos "resultados" sob um governo autocrático, então é você quem já perdeu. Caiu em um dos maiores engodos históricos de todos os tempos, que já vitimou gregos, romanos, africanos e muitos, muitos latino-americanos.
A questão não é nem se a democracia produz ou não resultados. A questão é que todos os outros métodos de governo, ou sistemas ideológicos que rejeitem a democracia, são absolutamente insustentáveis, inaceitáveis e intoleráveis.
Não temos escolha a não ser fazer a democracia funcionar.
A Verdadeira Divisão
Diz a piada que as pessoas podem ser divididas em dois tipos: as que dividem as pessoas em dois tipos e as que não dividem.
Ou então, as pessoas podem ser divididas em três tipos: as que sabem contar e as que não sabem.
Piadas à parte, acho que as pessoas são é divididas em grupos que, no fim das contas, querem dizer muito pouco: esquerda vs direita, liberais vs socialistas, etc.
A verdadeira divisão, a divisão que realmente importa, é entre quem acredita em democracia e quem não acredita. Entre quem acha que qualquer tipo de ditadura é injustificável e quem encontra desculpas e atenuantes para as "boas" ditaduras.
Como escreveu o leitor Marcelo Batalha:
"Essa visão democratica-esquizofrênica da realidade não é exclusividade dos fãs de Che Guevara.
Num grupo de discussões, um colega, que se diz liberal, fez uma defesa apaixonada das ditaduras chilena e brasileira. No Forum da Liberdade recentemente, sabe quem esteve lá? Olavo de Carvalho, aquele que justifica a ditadura chilena como única alternativa ao socialismo. Além de não entender o que é socialismo, o brasileiro médio também não sabe o que é liberalismo.
Dá pra aceitar um esquerdista defendendo uma ditadura, afinal, eles são doutrinados com pensamento pseudo-cientifico-socialista, mesmo que não marxista. Agora um suposto liberal defendendo ditadura?"
Realmente, a esquerda, por definição e em seu berço, é autoritária e, por isso, sempre vai ser uma péssima idéia. Hoje em dia, esse conceito já foi suavizado e liberalizado, mas a essência é a mesma.
Por outro lado, ver alguém que se diz liberal encontrar justificativas, atenuantes ou pontos positivos em qualquer tipo de ditadura, de Médici a Pinochet, é de um contrasenso que chega a doer. É como matéria tocando anti-matéria: o universo deveria se desfazer em protesto.
Desculpem, mas eu boto todo mundo no mesmo saco.
Milton Temer, defendendo Cuba na TVE, dizendo que os 75 presos políticos encarcerados recentemente devem ser ignorados, afinal, olha só quantas medalhas de ouro Cuba ganhou nos jogos olímpicos!, é igualzinho ao Olavo de Carvalho justificando a repressão brutal e cruel do Pinochet, afinal, olha só como a economia do Chile cresceu!
Eu não sei de que lado essas pessoas estão, mas não estão do meu.
Como tudo na vida, é uma questão de prioridades: uma ditadura é um preço muito alto a se pagar por medalhas de ouro ou crescimento econômico.
Não há meio termo. Ou você acredita na democracia ou não.
Postada no blog entre Maio 8 e 10, 2004
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