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  Alex Castro
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O Dever do Colunista

Às vezes, os leitores parecem não se dar conta do que é o trabalho de um colunista.

O leitor Augusto Vindeiro escreveu o seguinte sobre a minha coluna de 20 de fevereiro, Em Defesa do Monopólio, onde aponto alguns pontos positivos do monopólio que a Microsoft exerce no mercado de informática:

"A impressão que eu tenho é que, todos os dias, o nosso amigo Alexandre faz para si mesmo duas perguntas: 1) Qual questão representa um consenso atualmente? e 2) Qual argumento eu posso desenterrar, para tentar ir contra o senso comum, para conseguir criar uma polêmica e parecer um gênio? Acho o Alexandre um cara extremamente inteligente e com uma sensibilidade absurda. Pena que ele coloque essas duas qualidades em segundo plano, diante da sua necessidade de criar um show."

Caríssimo Augusto, não é nem que eu tenha vindo do Mundo Bizarro e todas as minhas opiniões sejam o contrário do senso comum e muito menos que eu adoro tanto criar um show que eu precise forçar uma barra e escrever sobre coisas que não são necessariamente minha opinião.

Mas, para prender meu leitor e merecer meu pão, eu preciso preencher essa coluna semanalmente com assuntos interessantes e instigantes.

Quando mataram a Liana e o Felipe, boa parte dos colunistas da grande imprensa não teve pudor algum em somente repetir o blá-blá-blá do senso comum. Cadê o profissionalismo dessa gente? Qual a graça de repisar chão pisado?Liana e Felipe

Não há nada de errado em termos uma reação "comum" a uma tragédia. Você pensa que é um absurdo, você pensa que o matador tinha apenas dezesseis anos, pensa que ele vai sair em três, pensa "que mundo é esse, meu deus?!", etc. Isso é normal. Em relação a 95% das coisas que acontecem, eu também não tenho nada a dizer, ou, pelo menos, nada de diferente.

Mas um colunista tem obrigação de oferecer algo novo. Pode ser tanto uma informação nova (um fato que o leitor não sabia) ou uma opinião nova (algum ângulo inesperado que não ocorreu ao leitor).

Negligência e incompetência é estarem todos os leitores pensando no absurdo insensato que é a morte desses dois jovens e o colunista sentar pra escrever... sobre o absurdo insensato que é a morte desses dois jovens!

Isso vai acrescentar alguma coisa aos seus leitores? Nada. Nadinha. Eles vão balançar a cabeça, vão pensar (pensar?) que esse mundo está mesmo indo pro buraco e lá se vai o jornal forrar a gaiola do passarinho.

Se eu acho um absurdo insensato terem matado esses dois jovens e olho em volta e vejo todo mundo também achando isso um absurdo insensato, eu concluo que o mundo não precisa de mais uma pessoa fazendo tsc tsc e balançando a cabeça. Melhor ficar calado e ir garimpar assunto pra minha próxima coluna noutro lugar.

Se eu olho em volto e vejo todo mundo malhando o monopólio da Microsoft e descubro uma vantagem desse monopólio que pouca gente percebe, aí sim me vejo na obrigação de escrever sobre isso. Não para convencer ninguém, pois não estou aqui pra botar azeitona na empada dos outros, mas somente para mostrar uma nova perspectiva.

Você, Augusto, que me acha inteligente e sensível, queria me ver escrevendo sobre o quê? Que pobreza é ruim e distribuição de renda é bom? Que foi um absurdo fazerem os velhinhos de noventa anos entrarem na fila, que o Waldomiro é um escroque e que a Guerra no Iraque foi uma fraude?

Por que perder o meu tempo, e o de vocês, nessas platitudes?

Quem quiser balançar a cabeça e confirmar o que já sabia que vá pastar noutras paragens. Aqui não tem capim-com-arroz.

Meu compromisso é tentar sempre mexer com suas cabecinhas, chacoalhar suas idéias feitas, chutar as bases dos seus preconceitos.

Que me leiam por sua conta e risco.

Postada no blog em Fevereiro 28, 2003

 

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