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  Alex Castro
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O Dever do Escritor

O dever do artista não pode nunca passar pela política. O artista que se mete em política se trumbica.

O povo está sendo oprimido? Há uma ditadura nas ruas? Que chato. Mas arte não tem nada a ver com isso.

Política É Concessão e Compromisso

A política, quando bem feita, quando não descamba em ditadura, é composta por compromissos e concessões que visam chegar a um consenso.

A arte não é um consenso. A arte não pode ter compromissos. A arte não pode fazer concessões. O bom artista só tem compromisso consigo mesmo, não respeita consensos e não faz concessões.

Se o artista acha que o povo está sendo oprimido, ele que lute contra isso como cidadão. Funde uma ONG, vote nos melhores candidatos, escreva artigos para jornais, tente se eleger deputado.Máximo Górki (1868-1936)

Mas não me escreva um romance para denunciar a opressão da burguesia. Pelo amor de deus, não faça um número musical em homenagens às vítimas do imperialistmo. Por tudo o que é mais sagrado, não faça uma pintura abstrata onde o vermelho representa a ditadura que esmaga o povo, as duas linhas paralelas representam homens e mulheres caminhando juntos, mas sem nunca se encontrar, rumo ao infinito, e a mancha marrom representa o café que respingou na tela.

Não há regras para o papel do artista. O compromisso dele é com ele mesmo. Contanto que ele não se deixe aprisionar, ele pode tudo.

O Chico Caruso estava relembrando a primeira charge que fez com o Lula. Foi um escândalo no partido. Veio o Henfil falar com ele: "Chico, você fez tudo que a ditadura não conseguiu: pintou nosso companheiro de ridículo!" Sabiamente, o Chico mandou o Henfil tomar no cu.

Mikhail Cholokhov, ganhador do Nobel, (1905-1984)Essa é o problema do artista engajado. O artista engajado não faria a caricatura do Lula para não prejudicar o movimento. O artista engajado se torna menos artista a cada concessão que faz a elementos extra-artísticos.

Já o artista de verdade só se importa com a própria arte e com mais nada.

"A única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Será inteiramente desapiedado se for um bom escritor. (...) O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo. (...) Se um escritor tiver que roubar sua mãe, não hesitará; a "Ode a uma Urna Grega," de Keats, vale mais do que qualquer punhado de velhas." William Faulkner

Política É FugazAlexander Soljenítsin, ganhador do Nobel, (1918- )

O raio de ação de um artista é tão grande, ele é tão livre nas atitudes que pode tomar, que ele pode até mesmo se propor, como seu objetivo artístico, denunciar opressões e defender o proletariado. Mas isso é tão, mas tão difícil que só mesmo sendo muito bom.

Quem quiser olhar na coluna da esquerda, vai ver que acabei de ler dois livros do Górki.

Górki apoiou uma das mais perversas ditaduras da história, a União Soviética, movida pela mais imbecil ideologia, o Comunismo. Ele foi o sustentáculo cultural dos regimes de Lênin e Stalin. Politicamente falando, o homem é quase um criminoso contra a humanidade.

Não sei como tive coragem de abrir o primeiro livro de Górki. Foi por muita insistência de Henry Miller. Mas ainda bem que li.

O Estrangeiro (1942), por Albert CamusGórki tem uma força, uma vitalidade, uma alegria de viver de fazer inveja a Whitman. Górki pode tudo. A good artist can get away with anything. Não consigo imaginar uma autobiografia sendo melhor do que a sua.

Górki é Górki. Górki vai permanecer. No futuro, quando o marxismo não for nem a piada de mau gosto que é hoje, pois as pessoas não vão nem lembrar o que é, Górki ainda estará sendo lido. Com algumas notas de pé de página, claro, mas será lido.

Mas a política é fugaz demais. Para cada Górki, existem milhares de Cholokhovs e Soljenítsins, tanto de um lado quanto de outro, pois só o hidrôgenio é mais disseminado do que a burrice, autores fracos e medíocres que só se sustentaram por alguns anos pois defenderam essa ou aquela ideologia do momento. Mas todo regime cái. Toda ideologia some. E seus defensores somem junto.

Filosofia Não É ArteAlbert Camus (1913-1960)

A Violetinha me criticou por falar de O Estrangeiro e nem mencionar o existencialismo. Ora, não mencionei porque não tinha nada a ver com o tema daquela resenha, mas tem a ver aqui.

Adoro filosofia existencialista. Se sou algum -ista, é existencialista. Já li esses malucos todos, Kirkegaard, Camus, Sartre, Ortega y Gasset, Jaspers, Nietzsche, etc etc.

Jean-Paul Sartre, por Cartier-BressonO Estrangeiro é um excelente romance existencialista (quem acha que eu não gostei de O Estrangeiro tem que ler de novo minha resenha) porque Camus é antes romancista do que filósofo.

Já os romances de Sartre são chatos e insossos porque Sartre é e sempre foi filósofo. Seus romances não são romances, são estudos de caso. Sartre não tinha compromisso com a arte: Sartre queria apenas exemplificar suas teorias.

Conclusão

Não há regras. Desde que ele não se prenda e não se limite, desde que não comprometa sua integridade artística, o escritor pode tudo.

Quem faz arte pra provar uma teoria filosófica, defender um governo ou mesmo socorrer uma pobre classe social oprimida não está fazendo boa arte. Está sendo, talvez, uma boa pessoa, um bom cidadão, um bom político, um bom filósofo.

Mas um artista sofrível.

Leia também A Inutilidade da Arte

Postada no blog em Fevereiro 28, 2003

 

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