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  Alex Castro
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Dia de Todos os Santos
 

Alguns dias merecem ser contados, tanto pelo que têm de ordinário quanto de extraordinário.

Segunda-feira, 1º de novembro de 2004.

Acordei às seis da manhã, depois de apenas quatro horas de sono. Às nove, eu tinha que dar uma aula particular de português para um americano hospedado no Leme. Cortesia da minha amiga Isabel, do Book of Hours, que me arranjou essa boca.

O dia estava quente, o sol forte e meu carro emprestado com a minha mãe. Eu teria que passar mais de cinco horas andando de ônibus e vans, o material da aula, livros e CDs, era bastante pesado, decidi esvaziar um pouco a bolsa. Deixei o guarda-chuva em casa, pendurado na estante.

Leme-Jacarepaguá é longe, ainda mais de van. Na aula anterior, no mesmo horário, eu demorara duas horas pra chegar. Saí de casa às sete, para a aula às nove.

Antes disso, abri bem as janelas, para o Oliver ter luz do sol, acendi uma luz fria, para quando escurecesse, e deixei uma porção reforçada de leite, comida e água. Pra mim, o desjejum foram cinco bananas, granola e aveia. Sim, estou em dia de bananas.

Quarenta e cinco minutos depois, eu desembarcava no Leme. Não tinha contado com o pseudo-feriado. Era uma segunda-feira, véspera do Dia de Finados, ninguém foi trabalhar. A van disparou por toda a orla da Zona Sul, Niemeyer, Delfim Moreira, Vieira Souto, Atlântica.

Constrangido, liguei pro meu aluno. A irmã dele atendeu. I know it's a most uncarioca thing to do, eu confessei, but I'm one hour fifteen minutes early. Is your brother already up? Não, não estava. Ela quis até acordar, mas não deixei, imagina!, não precisa, tenho muita coisa pra fazer aqui, things to read, papers to go over. Don't worry, see you soon.
Moby Dick, por Herman Melville

Atravessei a Avenida Atlântica, pedi um coco bem gelado, sentei em uma cadeira, depositei meus pés em outra e retomei minha leitura de Moby Dick, uma história de perseguição e ódio no mar, e fiquei olhando aquele mesmo mar, tão plácido, difícil de conceber tamanha raiva sob aquele azul, o mundo parecia tranqüilo, e me deixei levar, curtindo aquele sol das oito da manhã, sentindo as gotinhas de suor brotarem em minha pele, vendo as mulheres e os cachorros passarem, sorvendo o cheiro de maresia do qual sinto tanta falta em meu dia-a-dia.

Enquanto lia, ia marcando o livro. Acho terrível a idéia de passar pela vida de alguém sem deixar marcas. Ainda mais se o alguém for um bom livro. É recíproco e infalível: sempre que um livro me marca eu também o marco. Meus livros são sublinhados, anotados, rabiscados. Um livro no qual eu não deixe minha marca é porque, inapelavelmente, ele também não deixou sua marca em mim.

Eis o que sublinhei em Moby Dick enquanto estava na Praia do Leme:

"What I've dared, I've willed; and what I've willed, I'll do! They think me mad- Starbuck does; but I'm demoniac, I am madness maddened! That wild madness that's only calm to comprehend itself!"

Às nove, comecei a aula. Meu aluno logo perguntou: Tomorrow is the Day of the Dead, right? Will there be celebrations? E eu tentei explicar que no Brasil, ao contrário do México, onde o Dia de Los Muertos é quase que um espetáculo folclórico, o Dia de Finados é um dia de introspecção e reflexão. Don't think of it as the Day of the Dead, eu recomendei, that sounds like something out of a bad terror movie: think of it as the Day of the Deceased.

E eu expliquei que hoje, 1º de novembro, era dia de Todos os Santos, quando todos os demônios e espíritos malignos andam livremente pelo mundo - só voltando às regiões abissais à meia-noite do Dia de Finados. Halloween (originalmente, All-Hallows' Eve) nada mais é do que a véspera, uma noite de preparação para enfrentar e repelir o Mal que estaria à solta no dia seguinte.

No meio da aula, foreshadowing, a irmã chega da praia e comenta que o porteiro avisou que vai chover. Olhamos para o céu, nenhuma nuvem, sol forte. Mas eu aviso: diz a tradição que sempre chove no Dia de Finados, para as pessoas não irem à praia e pensarem em seus mortos.

Por fim, uma surpresa desagradável: meu aluno está viajando para Salvador no dia seguinte e não voltará mais ao Rio. Eu lhe recomendo as melhores empresas de ônibus e nos despedimos. No total, foram três aulas de duas horas cada, R$300. Deu pra pagar a conta de luz e de celular. Valeu, Isabel.

Pego um ônibus ali na praia mesmo e vou pro centro. Tenho que passar em um cartório onde tenho firma reconhecida. Sou dono de um domínio, mas esqueci a senha (imbecil!) e o email cadastrado morreu. Resultado: tenho que enviar um documento com firma reconhecida para a Fapesp para poder voltar a mexer nele.

O centro está uma delícia nesse meio-feriado de sol. Vazio, mas não deserto. Movimentado, mas não caótico. No cartório, demorei menos de dois minutos pra resolver meu problema. Não poderia ter havido dia melhor.

Em seguida, vou para a multinacional para a qual estou prestando serviços. Trabalho grande, bom dinheiro, quero terminar rápido para receber antes do fim do ano, senão não vou ter como pagar minha mudança.

Eu, sem meus amigos queridos, não sou ninguém. Esse serviço também quem me arranjou foi um companheiro que trabalha lá, blogueiro ilustre, já muito citado por aqui.

 Como Fazer um Filme de Amor DENISE FRAGA   CÁSSIO GABUS MENDES   MARISA ORTHChego ao meio-dia e fico até às oito da noite, azeitado a doses maciças de café. Trabalho direto - parando só pra ler um ou outro comentário no blog. Não sei como as pessoas agüentam trabalhar oito horas por dia todo dia. Eu trabalho oito horas por dia em UM dia e já me sinto absolutamente moído.

Por fim, consigo adiantar bastante coisa. Espero terminar até o fim da semana.

Dá oito horas e ninguém me espera em casa, sou solteiro agora. Decido pegar um filme. Como Fazer um Filme de Amor, no Odeon, por R$4. O Odeon é o cinema mais charmoso dessa cidade, em um de seus pontos mais belos: a Cinelândia.

Quando entro no cinema, já está começando a chover. Mau sinal.

O filme é divertido. Confesso que minha maior motivação foi ver Marisa Orth de vilã. Adoro mulheres altas. E ela estava especialmente engraçada, linda, histriônica e muito má. Amei.

Também perfeita foi a narração de Paulo José. Minha parte preferida é durante os créditos, quando ele comenta os agradecimentos, e confessa: sabe por que filme brasileiro tem que agradecer tanto? Porque não tem dinheiro pra pagar por nada! Vai ver se um filme do Spielberg tem tanto agradecimento assim!

Lá fora, a chuva caía com vontade. Estávamos a poucas horas do Dia de Finados, era necessário chover para que os cariocas não fossem à praia, para que honrassem seus mortos.

E eu lembrando vividamente de tirar o guarda-chuva da bolsa e pendurá-lo na estante, enquanto o sol brilhava no céu. Suspirei. O ponto inicial do meu ônibus, na Nilo Peçanha, estava a litros de distância.

Não sou daqueles que gostam de andar na chuva. Quando quero água caindo na minha cabeça, eu ligo o chuveiro. Por outro lado, minha fleuma inata simplesmente me impede de correr na chuva. Se você está debaixo de um pé d'água, o mínimo que pode fazer é se encharcar com dignidade.

Tirei os óculos e o relógio, coloquei um boné que levo sempre na pasta e saí, caminhando devagar.

Eram dez e meia da noite no Centro do Rio, véspera de feriado, as pessoas ainda bebendo e comendo, conversando e celebrando, e eu andava calmamente, apreciando a beleza da Cinelândia, em nenhum outro lugar do Rio há tamanha concentração de patrimônio arquitetônico, prédios belíssimos e carioquíssimos, Amarelinho, Biblioteca Nacional, Teatro Municipal, Palácio Pedro Ernesto, o próprio Odeon, e eu também ia lembrando de uma noite deliciosa que passei aqui, jogando conversa fora com a DaniCast.

Em pouco tempo, estava tão, mas tão ensopado que já nem sentia mais. Nessas horas, a gente lembra porque deus inventou a sobrancelha.

Cheguei no ponto e meu último ônibus já partira. Só tinha mais um no ponto, o último dos últimos. Nem precisei pedir, o motorista ofereceu (lembrem-se, eu estava parecendo o proverbial pinto molhado): faria um desviozinho e passaria pela minha rua. O ônibus partiu vazio: eu era o único passageiro.Moby Dick, por Herman Melville

Lá dentro, tirei o boné e a camisa. Sempre ando de camiseta por baixo da camisa mas, dessa vez, nem isso adiantou. Eu estava literalmente ensopado até os ossos.

Me recostei na cadeira e fui até em casa lendo Moby Dick. Sublinhei outro trecho, esse um dos mais famosos do romance:

"All that most maddens and torments; all that stirs up the less of things; all truth with malice in it; all that cracks the sinews and cakes the brain; all the subtle demonisms of life and thought; all evil, to crazy Ahab, were visibly personified, and made practically assailable in Moby Dick. He piled upon the whale's white hump the sum of all the general rage and hate felt by his whole race from Adam down; and then, as if his chest had been a mortar, he burst his hot heart's shell upon it."

E, nessa imagem tão forte e tão gráfica, eu fechei o livro, achando até difícil de imaginar que pudesse haver tanto ódio e loucura em mundo onde eu tivesse passado um dia tão prazeroso.


Passei o resto da viagem relembrando o dia, repassando e revendo tudo que fora tão normal e, ao mesmo tempo, tão extraordinário.

Moby Dick, por Herman MelvilleCheguei em casa e tudo o que eu mais queria era um corpo quente pra abraçar, uma boca úmida pra beijar. Nesse quesito, o Oliver fez o que pôde: pulou em mim, me lambeu todo e me ofereceu doses maciças de amor, como só um cachorro carente é capaz de fazer. Há muito tempo ele não ficava tantas horas sozinho: eu não sou de sair e sempre volto logo. Sua água e sua comida estavam intocadas, ele só bebeu o leite. Mas assim que paramos de brincar e eu fui pro computador, comecei a ouvi-lo roendo sua ração. O Oliver já passou muita fome na vida, sempre guarda um pouco de comida para o futuro.

Na secretária eletrônica, uma empresa pra onde mandei currículo me chamava para uma entrevista. No blog, 73 comentários: de gente que me lê, me acompanha, se sente instigada pelo que escrevo. Na caixa de entrada do Outlook, mais quatro pessoas leram meu romance, gostaram e tiveram a enorme gentileza de escrever para me contar.

A verdade é que não me sinto sozinho. Nem um pouco.

Por fim, à meia-noite, a finalização perfeita para um dia perfeito: adianto o relógio em uma hora. O verão carioca é uma estação literalmente sufocante. Só há duas vantagens: a mulherada seminua andando pela rua (se você nunca passou o verão no Rio, não faz nem idéia do que está perdendo) e o horário de verão.

Em geral, sou contra as canetadas arbitrárias do governo, mas pode haver alguma canetada mais sublime, mais deliciosa do que ganhar mais uma hora de luz do sol por dia (quase um presente divino!) só porque um burocrata de Brasília carimbou um decreto?

Que dia maravilhoso!, eu suspiro: nem parece que todos os espíritos malignos estiveram à solta no mundo.

E penso: vai ver o dia foi bom porque foi MEU dia. Porque também sou um desses tantos espíritos malignos que grassam por aí, que pintam e bordam no dia de Todos os Santos.

Amanhã, recomeça tudo de novo.

Leia meu artigo sobre Melville e Moby Dick.

Postada no blog em Novembro de 2004

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Minha Primeira Vez   
Hoje, faz dez anos que Clarice, a malvadinha, me descabaçou. Eu, 19, virgem, ela, 17, sexualmente ativa há quatro. Estávamos saindo há cerca de três semanas. Ela me liga uma noite e diz que vai matar aula no dia seguinte pra passar a manhã comigo.

Liberal Libertário Libertino: Modo de Usar   
O leitor Hugo está resenhando minhas prisões em seu blog, Alta Fidelidade. Ele seleciona os trechos mais relevantes e os responde. O Hugo está, antes de tudo, se conhecendo. Não há viagem mais importante do que essa. Ao reagir a mim, ele está descobrindo seus limites, seus preconceitos, suas opções.