SobreSites > Alex Castro > Artigos > Crônicas > As God Is My Witness, I'll Never Wear Those Shoes! - da série Reminiscências de Ex-Rico
>
Página Inicial
Quem Sou Eu
As Prisões
Ficção:
Mulher de Um Homem Só
Onde Perdemos Tudo
Liberal Libertário Libertino
Dinheiro
Artigos:
Literatura
Crônicas
Acadêmicos
Internet
Comportamento
Guerra do Paraguai
Taras
Colunas
Fotolog
Podcasts
Lista de Presentes
Termos de Uso
Banners
Leituras
Links
Fale com o Autor
  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
As God Is My Witness, I'll Never Wear Those Shoes! - da série Reminiscências de Ex-Rico

O processo de deixar de ser rico é uma das coisas mais enriquecedoras que podem acontecer a uma pessoa.

Às vezes, a gente olha pra alguns desses absurdos da vida e pensa: meu deus, como as pessoas podem viver assim, no meio de tanta degradação? Elas ou nasceram assim e não conhecem nada melhor, ou foram piorando progressivamente. Se você fosse dormir com 20 anos e acordasse com 80, sua vida seria insuportável. Mas, antes de fazermos 80, fazemos 70, 60, etc. Um dia de cada vez.

Já dirigi carros importados, automáticos, com computador de bordo e teto solar. Eu dizia que jamais dirigiria um carro mecânico, seria mais digno andar logo a cavalo. Hoje, dirijo um Clio 1.0, de plástico, tudo manual, que enrijeceu meu bíceps só de colocá-lo em vagas. E lambo os beiços, pois já passei um bom tempo emasculado (ou seja, sem carro), em uma época em que eu morava na última casa, ladeira acima, de um condomínio no subúrbio. E ainda tinha de ficar na guarita pedindo carona pra subir o morro, porque não dava pra subir aquela tranqueira a pé.

O prédio onde cresci e morei durante 20 anos tinha manobrista. Durante muito tempo, eu não precisava nem tirar o carro da garagem. Pegava o interfone e dizia: Valdeci, sobe o Suzuki, por favor, e presto, o carro já estava magicamente estacionado na portaria quando eu descia. Na volta, era a mesma coisa: bastava deixar o carro em frente ao prédio.

Tive uma namorada que achava isso o maior absurdo do mundo. Mas era inveja. Ela era a única pessoa que eu conhecia que morava em um apartamento maior que o nosso, na Vieira Souto, mas ela tinha que colocar seu próprio carro na vaga, coitadinha. As humilhações que a vida nos faz passar.

Enfim, fui ficando pobre. No meu ano mais paupérrimo, eu não tinha nem carro nem emprego, morava em um quarto na casa da minha mãe e ela ainda me cobrava aluguel, tinha de ficar pedindo carona na guarita do condomínio e cruzava a cidade toda dando aulas particulares aqui e ali pra levantar 10 reais. Também foi o ano mais feliz da minha vida.Di Santinni Shoes

Eu precisava de um sapato novo e, num gesto tresloucado, num momento de fraqueza, comprei um mocassim na Di Santinni, por 20 reáu. Um sapato que um porteiro compraria pra ir no casamento do patrão.

Esse mocassim já está separado entre os meus poucos objetos pessoais que serão levados para Nova Orleans. Pois foi calçando-o que tive um daqueles momentos portentosos de resolução que mudam uma vida. Pensei:

Meu deus, no que eu me tornei? Será que sou mesmo um homem que usa sapatos Di Santinni?

Di Santinni ShoesE decidi que não. Decidi que era ali que eu ia draw the fucking line. Ninguém passa do manobrista de luxo ao lixão a céu aberto de um dia pro outro. A gente vai chegando lá aos poucos, dia a dia, abrindo mão disso e daquilo, fazendo na sexta coisas que preferiríamos não fazer na quinta, que não faríamos na quarta, que jamais faríamos na terça e que seriam impensáveis na segunda.

Enfiei as mãos na terra, puxei o rabanete e proclamei: as god is my witness, I'll never wear Di Santinni shoes!

Sim, eu comprei aquele sapato. Sim, eu até mesmo calcei aquele sapato. Mas ninguém jamais me veria com ele.

Aquele mocassim é o símbolo do ponto mais baixo que cogitei descer. E não desci. Por decisão consciente, não desci. Por força de caráter, não desci.

Do momento em que descalcei aquele sapato em diante, minha vida só fez melhorar.

Quero guardá-lo pra sempre. Pra lembrar que as coisas sempre podem ficar piores. Até o momento em que decidimos que não.

 

Vida de Ex-Rico:
A Imortalidade dos Ricos

Gente que Sabe Seu Lugar
A Auto-Confiança dos Ricos
Reminiscências de Ex-Rico
Os Carros do Meu Pai
As God Is My Witness, I'll Never Wear Those Shoes

Postada no blog em Julho de 2005

Gostou desse texto? Ele resolveu sua dúvida? Ajudou em sua busca? Acrescentou algo à sua vida? Dê um presente a um autor falido e permita que ele continue escrevendo na Internet: Lista de Presentes Liberal Libertário Libertino


 

Mais Crônicas

Eu, o Oliver e a Katrina 
Em agosto de 2005, eu e o Oliver fomos pegos no meio do furacão Katrina, em Nova Orleans, o pior desastre natural da história dos Estados Unidos. Reuni nesse artigo todas as nossas peripécias.

Dia de Todos os Santos 
Alguns dias merecem ser contados, tanto pelo que têm de ordinário quanto de extraordinário.

Eu Sou Livre!
Sou livre. Estou no auge de minha forma física e mental e sou livre como nunca fui. Livre como talvez nunca vou ser. Mais livre do que a maioria das pessoas que conheço jamais será.

Alexandre Cruz Almeida Agora É Alex Castro 
A partir de hoje, não existe mais Alexandre Cruz Almeida. Passo a atender pelo nome de Alex Castro.

Os Carros do Meu Pai  
Acho difícil de um jovem hoje conceber o quanto uma Porshe 928 chamava a atenção no Rio de 1983. Hoje, ainda chamaria atenção, e olha que temos trocentos carros importados em circulação, de todos os tipos e modelos.

Em Defesa dos Sentidos 
A supervalorização da visão levou o Ocidente a uma vida sensorial extremamente pobre. A maioria das pessoas que conheço, por exemplo, é tristemente incapaz de sentir a maioria dos cheiros. Defender uma revalorização dos outros quatro sentidos será sempre uma de minhas bandeiras principais.

Ataques de Entendimento 
Acordo de madrugada, de repente no trânsito, no meio de um jantar chato, e começo a me auto-flagelar: por quê? O que eu poderia ter feito de diferente? Foi minha culpa? Onde foi que eu errei? Quero entender. Preciso entender. Uma necessidade doentia de entender ferve dentro com a intensidade da vontade de beber em um alcoólatra.

Meus 18 Anos
Um leitor, de 18 anos, me mandou o seguinte email: "Queria saber como foram os teus 18 anos. O que tu pensava da vida, o que fazia, tua vida social..." Achei engraçado tentar lembrar dos meus 18 anos.

Eu Já    
Eu já andei muito de limusine. Eu já salvei a vida de dois atropelados com primeiros-socorros. Eu já me recusei a sair com uma mulher de quem eu estava muito a fim só porque ela insistia em comer meu cu com um consolo. Eu já roubei gorjeta de garçom.

Será A Minha Vida Mais Interessante Que A De Vocês? 
Não é que minha vida é mais insólita do que as outras, mas talvez somente eu esteja mais aberto para o insólito em minha vida.

As God Is My Witness, I'll Never Wear Those Shoes!    
Aquele mocassim é o símbolo do ponto mais baixo que cogitei descer. E não desci. Por decisão consciente, não desci. Por força de caráter, não desci. Do momento em que descalcei aquele sapato em diante, minha vida só fez melhorar.

Meu Casamento em Datas 
6 de dezembro de 2000. Nosso primeiro encontro, totalmente por acaso. Menos cinco minutos, mais cinco minutos, um filme mais interessante na televisão, e jamais teríamos nos conhecido. Contei uma versão diferente do nosso primeiro encontro para cada pessoa. A versão verdadeira é só nossa.

Mal de Alex Castro 
Essas doenças que têm nomes de pessoas, Alzheimer, Parkinson, Chagas, quem lhes deu esses nomes? Não é sinistro ter seu nome eternamente vinculado a doenças tão horríveis? Será que tinham alguma idéia da carga de energia negativa quer iriam atrair sobre sua posteridade?

Ruminações sobre Angústia, Beleza & Microfama    
O momento em que me senti realmente apartado de minha ex-mulher, um daqueles momentos pequenos que só parecem cheios de significado olhando em hindsight, foi quando assistimos Encontros e Desencontros, de Sophia Copolla, com Bill Murray.

Microbiografia    
Como parte do meu processo de candidatura ao mestrado em Português em Tulane University, eu tive que escrever uma microbiografia, em até três páginas, contando sucintamente quem eu sou e porque acho que deveriam me aceitar.

Gente que Sabe o Seu Lugar     
Uma amiga, descrevendo as virtudes do seu motorista: "Ele é ótimo. Sempre o chamamos para almoçar na mesa com a gente, mas ele se recusa, vai comer na cozinha. Sabe o seu lugar."

A Alegria Alheia 
Custava alguém ter retribuído o seu olhar? Sorrido de volta? Dado qualquer indicação de que estava ouvindo? Nenhum de nós merecia a alegria daquele velhinho àquela hora da manhã.

Cozinhando com Alex  
Não entendo gente que não sabe cozinhar. Entendo gente que não gosta de cozinhar, claro. Tem gosto pra tudo. Tem gente que não gosta de mulher. Tudo é possível. Mas como não "saber" cozinhar?

Belmiro de Almeida   
Belmiro de Almeida é meu pintor favorito. Cada um de seus quadros conta uma história com começo, meio e fim.

Fantasmas de Felicidades Passadas
A felicidade pode existir no presente. No futuro, ela é um engodo. No passado, quase sempre uma aflição.

Reminiscências de Ex-Rico
Minha mãe está leiloando a mesa onde dávamos jantares à francesa, completa, com aparelho de jantar de porcelana de sèvres pintada à mão (com direito até à marcadores de lugar), fruteira de metal, candelabros, saleiro e faqueiro de prata, copos e garrafas de cristal baccarat, todos os fru-frus possíveis e imaginários.

Minha Personal Stalker 
Tentei não olhar pra ela, pra não piorar a situação, mas via o carro pelo reflexo das vitrines. Entrei em duas galerias e perguntei: "Estou sendo seguido por uma louca, essa galeria tem alguma saída dos fundos?" Como estamos no Rio, ninguém estranhou.

Conversas a Esmo 
Se não tenho assunto, vou querer escrever pra quê? Vou é andar ao sol, ler um livro, dormir, qualquer coisa menos encarar a folha branca. Então, se não tenho assunto, vou querer conversar pra quê? Sobre o quê?

Gaiatos, Inc. 
Kafka já dizia que contra uma piada não há argumentos. É impossível se defender de zoação. Você fica calado e espera passar. Mas, quase sempre, essas grandes empresas são zoadas porque querem, porque deram abertura. Ou melhor, porque não receberam assessoria humorística apropriada.

O Mala Que Sabe o Preço de Tudo 
Você pede um sanduíche de filé de frango e o mala que sabe o preço de tudo grita: sete reais?! Que absurdo! Com esse dinheiro, eu compro um quilo de filé de peito!

Não Haverá Outro Dia 
O sol não vai mais nascer na vida de nenhum de nós. Quando a gente olha no relógio da vida e vê que está ficando tarde, a hora é de correr, não de deixar pra depois. O que não fizermos hoje, amanhã fica mais difícil, depois de amanhã talvez impossível.

O Peso de Um Segredo    
Segredos são cancerígenos. Eles andam dentro da gente pulsando, apodrecendo, querendo sair. Ninguém me tira da cabeça que essas pessoas que fazem um check-up e, quando vão ver, estão podres por dentro, é porque carregavam segredos demais.

Vergonha da Faxineira 
Na véspera da faxineira chegar, minha mulher passa o dia inteiro limpando tudo e a casa fica um brinco. Não entendo nada: mas criatura, não concordamos em chamar a faxineira justamente porque não tínhamos como dar conta disso?!

Você Se Acha Muito Inteligente, Não É?    
Todo jornalista que se preze deveria ter um cachorro em casa para poder ver concretamente (ver e cheirar, claro) qual é o destino inevitável de tudo o que escrevemos.

Meus Trinta Anos 
E aprenda que os homens devem ter sempre em mente a morte, e que nenhum pode ser considerado feliz até o dia em que leve sua felicidade para o túmulo em paz.

Trago Pessoa Amada em Três Dias 
Para cada pessoa que manda trazer seu amado existe (teoricamente) um amado relutante que queria apenas prosseguir com a sua vida.

Mas Que Calor, Hein?    
Aguardo ansioso o dia em que o meteorologista vai dizer: "Gente, excelentes notícias: amanhã, tempo bom em toda cidade. Isso mesmo que vocês ouviram, tempo bom: nuvens esparsas, leve brisa, queda de 10 graus na temperatura e ainda aquela chuvinha refrescante no fim da tarde."

Sou Janela, Não Pedra    
O longo artigo sobre a Escola Urbana foi a última vez em que falei mal de alguns de meus colegas.

Quem Tem Medo do Alexandre?     
Quem se propõe a ser jogador profissional de futebol, tem que estar pronto pra encarar o Ronaldinho. Quem se propõe a ser escritor de ficção, tem que estar pronto pra encarar Machado de Assis.

Meu Primeiro Dinheiro 
O primeiro dinheiro que ganhei na vida foram os 60 dólares de prêmio do Primeiro Concurso de Contos da Hebráica Rio, categoria infanto-juvenil, em outubro de 1988. Eu tinha 14 anos.

O Ônus de Lembrar 
Eu sempre me esqueço de trazer as coisas que deveria, eu sempre faço essa proposta de transferir o ônus de lembrar para a parte interessada e sempre me deparo com a mesma reação: ah não, esse ônus eu não quero, quero só o livro, você que se lembre.

O Aventureiro no Penhasco   
Às vezes eu me sinto como um daqueles aventureiros que atravessou um penhasco se equilibrando numa corda e agora fica lá do outro lado só gritando, vem gente, vem que é fácil, e se admirando de ver as pessoas tentando segui-lo e caindo. Eu não devo ser seguido. Talvez eu nem mesmo possa ser seguido. Talvez o meu caminho seja só meu.

Minha Primeira Vez   
Hoje, faz dez anos que Clarice, a malvadinha, me descabaçou. Eu, 19, virgem, ela, 17, sexualmente ativa há quatro. Estávamos saindo há cerca de três semanas. Ela me liga uma noite e diz que vai matar aula no dia seguinte pra passar a manhã comigo.

Liberal Libertário Libertino: Modo de Usar   
O leitor Hugo está resenhando minhas prisões em seu blog, Alta Fidelidade. Ele seleciona os trechos mais relevantes e os responde. O Hugo está, antes de tudo, se conhecendo. Não há viagem mais importante do que essa. Ao reagir a mim, ele está descobrindo seus limites, seus preconceitos, suas opções.