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  Alex Castro
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Casamento, Divórcio e Hipocrisia

(continuação de O Casamento Faliu)

Laura é uma de minhas melhores amigas, lá da infância, quando eu já era metido a maluco, mas não tão quanto hoje.

Ela e casamento têm tudo a ver na minha cabeça. Pra começar, ela foi a primeira das minhas grandes amigas a casar – pra quem não sabe, eu nunca tive muitos amigos homens e meu grupo de amigos íntimos da adolescência era composto por várias mulheres maravilhosas que até hoje eu amo de paixão. Também fui sua testemunha no cartório e chorei que nem um bobão durante a cerimônia. Quando escrevi meu romance, Mulher de Um Homem Só, Laura era a única pessoa realmente próxima a mim que já tinha casado e me inspirei nela pra muitas coisas que estão ali.Casamento, Divórcio e Hipocrisia - Alexandre Cruz Almeida

Enfim, minhas amigonas estranharam um pouco esse blog a princípio - eu sempre fui radical, mas agora estou surtando de verdade - mas agora estão se achegando mais. É engraçado porque quando a gente passa por uma grande mudança na nossa vida, nosso grupo de conhecidos acaba sempre se dividindo em dois: as pessoas que te conheceram depois da mudança, e que acham que você é assim e sempre foi assim, e as pessoas que te conheceram antes, que acompanharam aquele processo, e que, às vezes, podem até achar que você mudou pra pior. Escrevi um artigo longo sobre isso que vou postar aqui em breve.

Laura me mandou o seguinte email, sobre o artigo O Casamento Faliu:

"Só quero te dizer que estou ficando viciada no seu blog. Nao vai ficar metido para cima de mim nao pque nao concordo e fico irritada com metade do que voce escreve.

Concordo que divorcio nao e o fim do mundo e que e muito melhor os pais separados do que ter um lar infeliz. Por outro lado, apesar de eu nao saber nenhum detalhe, a separacao dos seus pais foi "amigavel" (pelo menos eu acho). Tiveram casais na minha familia que se separaram brigados e foi muito traumatico para os filhos (que hoje ja crescidos continuam cheios de problema). Entao o meu issue com este post, assim como a maior parte do que voce escreve e voce transforma uma experiencia sua numa generalizacao de comportamento no resto da sociedade."

Às vezes, eu faço isso, sim, e faço de olhos abertos: acho que um dos melhores métodos de apreender o mundo é de dentro pra fora. Como não sou cientista, não preciso de evidencia empírica pra fundamentar minhas frágeis conclusões. Digo o que acho, concorda quem quer. Não tenho pretensões de sábio, nem me finjo de expert em coisa alguma

Mas, ainda que eu faça isso de vez em quando, não foi o caso aqui, por um motivo simples: estou falando de divórcio em geral, e você está falando de um tipo de divórcio específico: o litigioso. Óbvio que divórcio litigioso é ruim, ninguém acha bom ver a mãe tentando tirar até as calças do pai, ou vice-versa. Isso nós DOIS concordamos. Mas tem gente (nem eu, nem você, espero) que diz que divórcio é ruim ponto, que divórcio é ruim intrinsecamente e que as pessoas não deveriam se separar nunca, para não destruir a cabeça dos filhos.

E o que eu digo é: em geral, o divórcio é bom. Mas, claro, quando é um divórcio problemático e violento, então não é bom!

Em outras palavras, os seus amigos traumatizados não provam que divórcio é ruim. Isso seria como dizer que ir pra faculdade é ruim porque meu primo levou porrada no trote e ficou traumatizado pra sempre!

Vamos separar as coisas. Freqüentar universidade é bom. O que houve com seu primo é que foi fora do normal e péssimo, e os culpados devem ser punidos.

Idem idem aqui: os seus amigos ficaram traumatizados não porque divórcio é pecado, ou porque divórcio é ruim, ou porque o divórcio vai destruir a tradicional família brasileira, mas porque os divórcios dos pais DELES foram mal-feitos, litigiosos, perversos, dolorosos.

Eles é que não souberam brincar.

Pra terminar, Laura escreveu:

"Só nao entendo uma coisa - se voce ja esta casado, e nao se preocupa com o futuro nem com garantias e protecao no caso de alguma coisa nao dar certo, entao pque take o extra step de assinar o papel? Nao estou falando que vce nao deve casar - muito pelo contrario - eu nao sou nem um pouco contra o casamento (foi uma das melhores coisas que eu fiz na minha vida), mas acho que voce esta sendo um pouquinho, titiquinho, tiquitiquitiquitinho hipocrita. Parabens pelo nao casamento :-)"

Nada hipócrita, nem um tiquitiquitiquitinho. :) Eu não ligo pra casamento e continuo não ligando, mas se a família da minha mulher faz questão, por que não? Por que eu iria bater o pé? Já me sinto casado, não vai ser esse papel que vai fazer eu me sentir ou estar mais casado do que já estou.

É como a questão do casamento religioso. Sempre disse que estou disposto a fazer isso. Sou ateu. Subir num altar e falar umas mentiras e pedir a proteção de um ente que não existe, poxa, isso não me custa nada. Quem acredita nesse ente e acha que o tal altar é sagrado é que não deveria querer que eu subisse lá e mentisse, mas isso é problema de quem tem fé. Felizmente, minha mulher concorda com isso e parece que casar no religioso eu não vou precisar fazer.

Pra ser bem casado, a gente precisa saber ceder. Ou melhor, saber escolher as batalhas. Isso não é hipocrisia.

E, aliás, casar também foi uma das melhores coisas que já fiz.

Postado no blog em Abril 25, 2003

 

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