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  Alex Castro
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Dominar a Palavra - Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Chão em Chamas, de Juan Rulfo

Trabalho apresentado no curso de A Palavra e a Lei, mestrado em Português, University of California, Berkeley, 2005, prof Julio Ramos.

 

Tanto em El Llano en Llamas, de Juan Rulfo, quanto em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a linguagem tem um papel fundamental. Os camponeses de ambos autores são pobres, rudes e ignorantes. Mal conseguem falar ou articular seus pensamentos.

Ao não dominar a palavra, é como se esses camponeses estivessem fora do alcance da lei, longe da esfera de influência do governo, excluídos da proteção do Estado, sozinhos, animalizados, aculturados.Pedro Páramo e Chão em Chamas JUAN RULFO

El Llano en Llamas

Em El Llano en Llamas, de Juan Rulfo, a tragédia muitas vezes vem da falta de comunicação entre os próprios personagens. Em "La Cuesta de las Comadres", por exemplo, um mal-entendido acaba fazendo com que o narrador mate Remigio.

Os mal-entendidos se multiplicam porque, para os personagens de Rulfo, falar, ou seja, utilizar a palavra, é uma grande dificuldade, algo penoso, que custa muitos sacrifícios. Em situações extremas, falar simplesmente é impossível.

De "Nos Han Dado La Tierra", durante uma penosa migração pelo planalto:

Hace tiempo que se nos acabaron las ganas de hablar. Se nos acabaron con el calor. Uno platicaría muy a gusto en otra parte, pero aquí cuesta trabajo. Uno platica aquí y las palabras se calientan en la boca con el calor de afuera, y se le resecan a uno en la lengua hasta que acaban con el resuello.
De "El Llano en Llamas", durante um intervalo de um tiroteio:
Él también nos miraba sin decirnos nada. Era como si se nos hubiera acabado el habla a todos o como si la lengua se nos hubiera hecho bola como la de los pericos y nos costara trabajo soltarla para que dijera algo.
Em uma única frase, quatro palavras (calientan, calor, resecan e resuello) associam a incapacidade de falar ao calor. Apesar de parecer algo desejável, o simples ato de falar é representado como difícil, árduo e trabalhoso.

Essa falta de destreza verbal não causa somente mal-entendidos fatais ou silêncios absolutamente opressores. Em um mundo onde o poder é, em larga medida, regido pela palavra, essa afasia cultural impede aos seus portadores acesso às estruturas de poder e à máquina do Estado.

Em nenhum lugar isso fica mais claro do que em "Nos Han Dado La Tierra", ambientado durante a Reforma Agrária mexicana. Um grupo de camponeses empreende uma longa odisséia pelo planalto para tomar posse das terras que lhes haviam sido dadas. Ao chegarem lá, descobrem que suas terras são "este duro pellejo de vaca que se llama el Llano", uma área árida e inóspita.

A incapacidade dos camponeses de se comunicar com o governo é total. E quando o governo se dirige a eles, na pessoa do Delegado, é para fazer piadas e ironias:
No nos dejaron decir nuestras cosas. El delegado no venía a conversar con nosotros. Nos puso los papeles en la mano y nos dijo:

- No se vayan a asustar por tener tanto terreno para ustedes solos.
Por fim, quando o camponeses continuam a reclamar e tentar ser ouvidos ("El no nos quiso oir."), o Delegado responde elevando ainda mais o discurso: "Eso manifiéstenlo por escrito."

Naturalmente, se os camponeses não dominam a palavra o suficiente nem mesmo para discutir verbalmente com as autoridades, que chances terão em um relatório por escrito?

Como se não bastasse a ignorância dos camponeses no jogo verbal do poder, os representantes do governo não fazem nenhum esforço para tentar se comunicar com a população que deveriam proteger. Não há empatia alguma.

Em "El Día del Derrumbe", uma comunidade devastada por um terremoto recebe a visita do governador. A enorme comitiva permanece na cidade somente um dia, comem, se embebedam, discursam e vão embora. Os pobres moradores, já arruinados pela catástrofe, se arruinam ainda mais com a passagem da comitiva mas, ainda assim, demonstram respeito sobrenatural pelos detentores do poder, como se sua mera presença já fosse resolver os problemas da cidade: "no importa que esta recepción nos cueste lo que nos cueste que para algo ha de servir el dinero."

O ponto alto do evento é o discurso do governador, fazendo uso de toda a terminologia própria do poder, palavras longas, difíceis e completamente fora do alcance de seus ouvintes. E os moradores, apesar de entenderem muito pouco, ainda conseguem, no ano seguinte, reproduzir ipsis litteris aquelas belas e esotéricas palavras que não lhes serviram de nada.

Não à toa dizia Fabiano, em Vidas Secas:
Sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado. Sobressaltava-se escutando-as. Evidentemente só serviam para encobrir ladroeiras. Mas eram bonitas. Às vezes decorava algumas e empregava-as fora de propósito. Depois esquecia-as. Para que um pobre da laia dele usar conversa de gente rica?
No universo de Rulfo e Graciliano, as palavras parecem servir apenas para marcar mais concretamente o fosso que separa quem têm poder de quem não têm.Vidas Secas GRACILIANO RAMOS

Vidas Secas

Assim como em El Llano en Llamas, um dos temas principais de Vidas Secas é a linguagem. A seca parece um adversário banal comparado à enorme luta que os personagens empreendem para dominar as palavras de que necessitam para sobreviver. Como se apenas para enfatizar o extremo da situação, até o papagaio é mudo.

Escreve Marilene Felinto, no Posfácio à 97ª edição:
[Fabiano e sua família] intuem que somente o domínio de uma linguagem pode levá-los a compreender a natureza hostil e a enfrentar de modo menos desigual os falantes da cidade, o patrão, a autoridade injusta do soldado que os rejeita, os oprime, os explora e humilha. (...) O desafio [da família] é decifrar o mistério dos códigos, é dominar o universo dos signos que transformam o outro (...) em poderosos seres de linguagem. A linguagem é para eles um ser tão poderoso quanto a seca .
A tragédia maior de Fabiano talvez seja que, ao contrário da maioria dos personagens de El Llano en Llamas, ele parece ter uma noção aguda de suas deficiências. Essa consciência não basta para resolver o problema, somente para aumentar seus dramas existenciais e para torná-lo amargo, desconfiado, inferiorizado:
Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa.
Como a palavra não pode ser dissociada do conhecimento, a relação de amor e ódio que prende Fabiano às palavras também se reflete em sua relação ao conhecimento. Por um lado, ele valoriza o ensino, por ter a perfeita noção de que sua ignorância fará dele um eterno explorado:
Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia. (...) Vivia tão agarrado aos bichos. Nunca vira escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas em seus lugares. (...) Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la [a situação] .
Mas, por outro, Fabiano parece temer esse mesmo conhecimento, não apenas quando proveniente das pessoas das cidades e dos patrões, que sempre tentam enganá-lo, mas até mesmo de seus filhos:
Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar?
O conhecimento abstrato não tem vez na vida dura de um sertanejo e Fabiano tenta interessá-lo em "coisas imediatas". Depois, conclui:
[Os filhos] estavam perguntadores, insuportáveis. Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha. (...) Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.
O mesmo fosso linguístico que separa Fabiano dos patrões também o separa de seus filhos. Mais uma vez, são a palavra e o conhecimento, ou a ausência deles, que determinam o fosso entre quem pode e quem não pode.

Naturalmente, ao negar o conhecimento aos filhos, ao extirpar sua curiosidade de criança na raiz, Fabiano não faz mais do que perpetuar o ciclo de exploração e ignorância que ele enxerga tão claramente e que tanto o oprime:

Os meninos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados.Processo, O FRANZ KAFKA

Por fim, conclui Felinto:
A seca e a pobreza calam Fabiano, como se (...) ele não tivesse direito nem a um pedaço de terra nem a uma linguagem.
Diante da Lei & Édipo

O poder - seja somente o acesso a ele ou a possibilidade de tomá-lo para si - sempre passa pela palavra.

Na parábola de Kafka, "Diante da Lei" (parte do romance O Processo), um homem gasta sua vida inteira diante da porta que o separa da lei. Finalmente, antes de morrer, ele pergunta: "Se todos aspiram a Lei, como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?"

E o guarda responde que ninguém mais tinha vindo, porque aquela porta era só para ele. Trilogia Tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona  SOFOCLES

As interpretações dessa parábola são as mais díspares, mas eu me questiono: e se ele tivesse feito a pergunta antes?

Chegar ao poder muitas vezes depende de fazer as perguntas certas. Ou, no caso de Édipo, de responder às perguntas certas.

De qualquer modo, Édipo, em oposição aos camponeses de Rulfo ou Graciliano, é quem nos prova que saber é poder, que é possivel chegar ao poder pela palavra - e perdê-lo pela palavra também.

Foucault, em palestra proferida no Brasil sobre Édipo e depois compilada no volume A Verdade e As Formas Jurídicas, diz:
El tirano griego no era simplemente quien tomaba el poder; si se adueñaba de él era porque detentaba o hacía valer el hecho de detentar un saber superior, en cuanto a su eficacia, al de los demás. Éste es precisamente el caso de Edipo. Edipo es quien conseguió resolver con su pensamiento, su saber, el famoso enigma de la esfinge.
Pois é justamente esse domínio da palavra que falta aos camponeses de Rulfo. Fabiano, e ele sabe disso, não domina nem a palavra nem tem o conhecimento, e por isso está condenado a ser explorado por quem tem, por quem domina. Verdade e as Formas Jurídicas, A MICHEL FOUCAULT

Conclui Foucault:
Saber y poder eran exactamente correspondientes, correlativos, superpuestos. No podía haber saber sin poder y no podía haber poder político que no supusiera a su vez cierto saber especial.
* * *

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Postada no blog em Outubro de 2005

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