SobreSites > Alex Castro > Artigos > Literatura > Dom Quixote, por Miguel de Cervantes
>
Página Inicial
Quem Sou Eu
As Prisões
Ficção:
Mulher de Um Homem Só
Onde Perdemos Tudo
Liberal Libertário Libertino
Dinheiro
Artigos:
Literatura
Crônicas
Acadêmicos
Internet
Comportamento
Guerra do Paraguai
Taras
Colunas
Fotolog
Podcasts
Lista de Presentes
Termos de Uso
Banners
Leituras
Links
Fale com o Autor
  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Dom Quixote, por Miguel de Cervantes

 

Dom Quixote: Um Livro Chato

O Dom Quixote é formado, na verdade, por dois livros bem distintos.

Dom Quixote, por PicassoEl Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha foi publicado em 1605. Mais tarde, a aparição de versões espúrias fez com que Cervantes inventasse algo que nos persegue até hoje: a seqüência. Uma nova obra, independente da original, mas com os mesmos personagens: El Ingenioso Caballero Don Quijote de La Mancha, publicado em 1615. Nascia a seqüência hollywoodiana.

No primeiro livro, o fio condutor é quase inexistente. Dom Quixote e Sancho Pança são meras desculpas para outras histórias. No segundo, já parece haver um fio condutor melhor amarrado, mas ainda assim tênue demais pra prender meu interesse.

Dom Quixote é leve e engraçado, causa lá suas gargalhadas. O espanhol nem é difícil: é mais fácil de ler do que um contemporâneo, como Camilo José Cela.  Dom Quixote de La Mancha MIGUEL DE CERVANTES

Entretanto, não terminei o Quixote. Parei no capítulo XXV do segundo livro. Sinceramente, foi o suficiente. Apesar de as histórias serem divertidas e humorísticas, o livro é chato. Falta aquela unicidade de tema e propósito que caracteriza um romance.

Eu digo isso e já vem algum babaca resmungar que eu é que não entendi nada, que estou sendo anacrônico, que estou aplicando ao Quixote critérios novelísticos de hoje em dia.

Nada disso. O Decamerão é uma coleção de histórias avulsas muito mais antiga do que o Quixote e não poderia ser mais delicioso. O fio condutor é ainda mais tênue, mas e daí? As história são sensacionais.

Dom Quixote não é chato por ter 400 anos. É chato por ser chato mesmo.

Seriam as Damas Medievais Mulheres Malvadas?

Meus leitores fiéis conhecem minha tara por mulheres malvadas. E, lendo o Quixote, uma coisa me chamou atenção: como todo aquele ideal da "distante senhora romântica medieval" é perigosamente próximo ao paradigma da femme fatale, da mulher má que tanto fascina nossa cultura até hoje.

Pra começar, é uma relação platônica e submissa. O cavalheiro já se coloca, desde o começo, totalmente inferiorizado em relação à senhora dona do seu coração. Não há união possível entre eles. A impressão que temos é que, mesmo se ela oferecesse sexo ou casamento ao cavalheiro, ele teria recuado com horror diante de tamanha corrupção à pureza do seus sentimentos.

Entretanto, apesar da senhora representar um ideal cristão de perfeição, pureza e virgindade, ela também é sempre descrita como cruel e malévola, perversamente submetendo o pobre cavalheiro apaixonado àquela relação tão dolorosa, tão desigual, tão vã, tudo para satisfazer seus malvados caprichos.


As doces inimigas, como são chamadas várias vezes ao longo do livro, parecem se alimentar do amor e dedicação de seus cavalheiros, sem nenhuma intenção de corresponder-lhes o afeto.

Por fim, não era incomum os cavalheiros morrerem por suas damas. Alguns cometiam suicídios desesperados. A maioria, para satisfazer os caprichos de suas senhoras, acaba embarcando em aventuras tão perigosas e suicidas que a morte era quase certa.

E, durante todo esse tempo, fantasiavam que suas senhoras eram más e cruéis e morriam reconfortados no pensamento de que elas ao menos ficariam felizes com suas mortes, felizes de saberem-se capazes de despertar um amor tão forte e profundo que homens bravos e corajosos morriam como moscas por elas.

Dom Quixote que, naturalmente, digeriu e personificou toda essa tradição da perversa senhora medieval, sintetiza o assunto em uma carta para Dulcinéia (I, 25):
  Dom Quixote de La Mancha MIGUEL DE CERVANTES
Soberana y Alta Señora,

El ferido de punta de ausencia, y el llagado de las telas del corazón, dulcísima Dulcinea del Toboso, te envía la salud que él no tiene. Si tu fermosura me desprecia, si tu valor no es en mi pro, si tus desdenes son en mi afincamiento, maguer que yo sea asaz de sufrido, mal podré sostenerme en esta cuita, que además de ser fuerte es muy duradera. Mi buen escudero Sancho te dará entera relación, oh bella ingrata, amada enemiga mía, del modo que por tu causa quedo: si gustares de acorrerme, tuyo soy; y si no, haz lo que te viniere en gusto, que con acabar mi vida habré satisfecho a tu crueldad y a mi deseo.


Tuyo hasta la muerte,


Soberana e alta senhora!

O ferido do gume da ausência, e o chagado nas teias do coração, dulcissima Dulcinéia del Toboso, te envia saudar, que a ele lhe falta. Se a tua formosura me despreza, se o teu valor me não vale, e se os teus desdéns se apuram com a minha firmeza, não obstante ser eu muito sofrido, mal poderei com estes pesares, que, além de muito graves, já vão durando em demasia. O meu bom escudeiro Sancho te dará inteira relação, ó minha bela ingrata, amada inimiga minha, do modo como eu fico por teu respeito. Se te parecer acudir-me, teu sou; e, se não, faze o que mais te aprouver, pois com acabar a minha vida terei satisfeito à tua crueldade e ao meu desejo.

Teu até à morte
Pesquisando na Web, descobri inúmeras menções à essa carta como a mais bela carta de amor da língua espanhola. As pessoas são estranhas. Não posso imaginar uma relação menos sadia do que a descrita nessa carta. Parece mais a carta de um submisso a sua dominadora. Não faria feio no quadro de avisos de um Clube de BDSM.

Aliás, parece ter saído justamente de lá.  Dom Quixote de La Mancha MIGUEL DE CERVANTES

* * *

Em diversas ocasiões ao longo do livro, Dom Quixote dá a entender que a Dulcineia dos seus sonhos, a senhora com a qual ele fantasia, é dona de uma deliciosa crueldade (I, 13):
Yo no podré afirmar si la dulce mi enemiga gusta, o no, de que el mundo sepa que yo la sirvo; sólo sé decir, respondiendo a lo que con tanto comedimiento se me pide, que su nombre es Dulcinea; su patria, el Toboso, un lugar de la Mancha; su calidad, por lo menos, ha de ser de princesa, pues es reina y señora mía; su hermosura, sobrehumana, pues en ella se vienen a hacer verdaderos todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas dan a sus damas

Não poderei afirmar se a minha doce inimiga gosta, ou não, de que o mundo saiba que eu a sirvo. Só posso dizer, em resposta ao que tão respeitosamente se me pede, que o seu nome é Dulcinéia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha; a sua qualidade há-de ser, pelo menos, Princesa, pois é Rainha e senhora minha; sua formosura sobre-humana, pois nela se realizam todos os impossíveis e quiméricos atributos de formosura, que os poetas dão às suas damas

Em outro ponto, uma personagem feminina, leitora de romances de cavalaria, fala assim das perversas damas (I, 32):

Hay algunas señoras de aquéllas tan crueles, que las llaman sus caballeros tigres, y leones, y otras mil inmundicias. Y, ¡Jesús!, yo no sé qué gente es aquélla tan desalmada y tan sin conciencia, que por no mirar a un hombre honrado, le dejan que se muera, o que se vuelva loco. Yo no sé para qué es tanto melindre: si lo hacen de honradas, cásense con ellos; que ellos no desean otra cosa.  Dom Quixote de La Mancha MIGUEL DE CERVANTES

Tão cruéis são algumas daquelas senhoras, que os seus cavaleiros lhes chamam tigres, leões, e outras mil imundícies. Valha-me Deus! não sei que gente é aquela tão desalmada e falta de consciência, que, por não atenderem a um homem honrado, o deixam morrer ou dar em doido; não sei para que são tantos melindres; se o fazem por honradas, casem-se com eles, que eles não desejam outra coisa.
Por fim, uma nova personagem é introduzida: a ainda mais perversa Casildea de Vandalia, musa do Cavaleiro do Bosque. Ela é assim descrita por seu amado (II, 14):
Mi destino, o, por mejor decir, mi elección, me trujo a enamorar de la sin par Casildea de Vandalia. Llámola sin par porque no le tiene, así en la grandeza del cuerpo como en el extremo del estado y de la hermosura. Esta tal Casildea, pues, que voy contando, pagó mis buenos pensamientos y comedidos deseos con hacerme ocupar, como su madrina a Hércules, en muchos y diversos peligros, prometiéndome al fin de cada uno que en el fin del otro llegaría el de mi esperanza; pero así se han ido eslabonando mis trabajos, que no tienen cuento, ni yo sé cuál ha de ser el último que dé principio al cumplimiento de mis buenos deseos. (...)

Otra vez me mandó que me precipitase y sumiese en la sima de Cabra, peligro inaudito y temeroso y que le trujese particular relación de lo que en aquella escura profundidad se encierra. Detuve el movimiento a la Giralda, pesé los Toros de Guisando, despeñéme en la sima y saqué a luz lo escondido de su abismo, y mis esperanzas, muertas que muertas, y sus mandamientos y desdenes, vivos que vivos. En resolución, últimamente me ha mandado que discurra por todas las provincias de España y haga confesar a todos los andantes caballeros que por ellas vagaren que ella sola es la más aventajada en hermosura de cuantas hoy viven, y que yo soy el más valiente y el más bien enamorado caballero del orbe; en cuya demanda he andado ya la mayor parte de España, y en ella he vencido muchos caballeros que se han atrevido a contradecirme.

Meu destino, ou, para melhor dizer, a minha escolha, me levou a enamorar-me da incomparável Cassildéia de Vandália; chamo-lhe incomparável, porque não há com quem se compare, tanto na grandeza do corpo, como no extremo do estado e da formosura. Esta tal Cassildéia, pois, pagou os meus bons pensamentos e comedidos desejos com o fazer-me correr, como Juno a Hércules, muitos e diversos perigos, prometendo-me no fim de cada ano, que no fim do imediato alcançaria a minha esperança; mas assim se foram ampliando os meus trabalhos, que já não têm conta, e não sei ainda qual será o último que dê princípio ao cumprimento dos meus anelos. (...)

Em seguida, ordenou-me que me precipitasse no abismo de Cabra, perigo inaudito e temeroso! e que lhe levasse relação particular do que se encerra naquela profundidade. Pois bem! Detive o movimento da Giralda, levantei em peso os touros de Guisando, despenhei-me no abismo de Cabra e saquei à luz os seus arcanos, e as minhas esperanças sempre mortas, e os seus desdéns sempre vivos. Enfim, mandou-me ultimamente percorrer todas as províncias de Espanha, para fazer confessar a todos os cavaleiros andantes que ela é a mais avantajada em formosura a todas que hoje vivem, e que eu sou o mais valente e o mais enamorado do orbe, demanda em que tenho andado pela maior parte de Espanha, vencendo muitos cavaleiros que se atreveram a contradizer-me.
Um poeminha, já perto do final, define bem como o ideal romântico da dama medieval está intimamente ligado à sedução da mulher má e egoísta (II, 38):
De la dulce mi enemiga
nace un mal que al alma hiere,
y, por más tormento, quiere
que se sienta y no se diga.

Da minha doce inimiga
nasce a dor que a alma aflige,
e por mais tormento exige
que se sinta e não se diga.

Você e Cervantes, Sozinhos no Quarto

O objetivo de qualquer boa tradução é colocar você em contato com o original, com o mínimo de interferência possível.

Dom Quixote, por CervantesAno passado, decidi ler o Quixote. Eu tinha duas edições aqui em casa, uma em inglês e uma em português. São duas línguas que domino igualmente bem. Poderia ler o livro indiferentemente em qualquer uma delas. Escolheria o português apenas por ser bem mais próxima ao original.

Só que encasquetei de ler em espanhol. Leio espanhol bem, embora não fluentemente, como inglês e português. Pior, seria espanhol do século XVII. Eu não iria compreender tudo.

Mas compreensão não é tudo.

Não há nada que substitua estar sozinho em um quarto com Cervantes. Ler uma tradução seria como levar mais uma pessoa pra cama conosco. Quase um adultério: tradutore traditore.

Cervantes está me dizendo:

"En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivia um hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocin flaco y galgo corredor."
E eu, ao invés de ouvir essa bela frase em sua própria voz, como se houvesse sido recém-proferida, teria que ouvi-la distorcida por séculos de distância e pelo conhecimento de um terceiro, que eu nem sei quem é, ou quais suas qualificações:
"In a village of La Mancha, the name of which I have no desire to call to mind, there lived not long since a gentleman that kept a lance in the lance-rack, an old buckler, a lean hack and a greyhound for coursing."
Ou então, na mais recente tradução brasileira, recém-lançada pela Editora 34:
"Num lugarejo em La Mancha, cujo nome ora me escapa, não há muito que viveu um fidalgo desses com lança guardada, adarga antiga, rocim magro e bom cão caçador."
Leiam com carinho as três versões. Sei que todo brasileiro tem um conhecimento inato de espanhol. Usem-no. Saboreiem o primeiro trecho. É a voz do próprio Cervantes. Não há substituto pra isso. É o mais perto que o ser humano pode chegar da imortalidade.
Dom Quixote, por Cervantes
A princípio, lendo essa frase, você pode até se sentir ignorante, ou concluir que está perdendo muito por ler Cervantes no original. Afinal, o que é "lanza en astillero" (lança no artilheiro?), "adarga antigua" (uma adaga antiga?) ou "rocin flaco" (uma roca fraca?). Mas aí você lê o trecho em português e percebe que ele não é lá muito diferente nesse sentido. Adarga antiga? Rocim magro? Ficou na mesma.

Quem lê a primeira frase em espanhol não precisa conhecer todas aquelas palavras citadas pra entender o espírito da coisa: estamos falando de um hidalgo à moda antiga, mantenedor das tradições mas um pouco decadente. A leitura das próximas frases só fará confirmar isso.

O significado exato de rocin é irrelevante, mas em breve vai ficar claro, pelo contexto, que rocin é um cavalo. Adarga é um tipo de escudo que, já naquela época, era obsoleto.

E se o brasileiro não souber disso e pensar que adarga, na verdade, é adaga? Simples: isso não vai fazer a menor diferença, a não ser que ele encuque e decida procurar o termo numa enciclopédia até encontrar. Leitores assim demoram três horas pra ler duas páginas em língua estrangeira e logo desistem.

Ao ler um texto literário, sua última preocupação deve ser entender tudo. Largue as palavras individuais pra lá. Atire-se na corrente e deixe o texto te levar. Se alguma palavra realmente for essencial, ela será repetida, o contexto ajudará. Na pior das hipóteses, você procura no dicionário aquelas poucas palavras que criarem problemas. Mas, via de regra, siga adiante. As palavras são pedras pelo caminho, concentre-se no romance, confie na estrada.

* * *

Esse trecho faz parte de Os Dilemas da Tradução, uma das melhores coisas que já escrevi. Acompanhe agora uma conversa sobre A Importância da Revisão, que nasceu em função desse artigo.

Chavez e o Quixote

O presidente da Venezuela, Hugo Chapolin Colorado, está distribuindo gratuitamente um milhão de cópias do Quixote, para celebrar os 400 anos do livro. Disse ele, de acordo com essa matéria da BBC:
Vamos nos alimentar mais uma vez com o espírito de um lutador que viveu para combater as injustiças e consertar o mundo. Em certa medida, todos somos seguidores de Quixote.  Dom Quixote de La Mancha MIGUEL DE CERVANTES
Dom Quixote é um livro gigantesco e algo difícil. Fica difícil de saber se as crianças pobres da Venezuela, que, se forem como as crianças pobres daqui, têm sérias dificuldades de leituras, conseguirão lê-lo. Mas enfim.

Se fosse só distribuir o livro, tudo bem. Mas o Presidente Chapolin ainda faz questão de dar seu pitaco demagogo, comparando a luta do Quixote à luta de todos os militantes de esquerda contra as forças do mal, do capitalismo e da iniciativa privada.

Será que o homem leu o livro?

Era Dom Quixote Filiado ao PT?

O Filisteu citou essa interessante matéria de Stuart Jeffries, para o The Guardian:
The truth is that Quixote is a much more troubling book than Chavez imagines. The supposed hero at one point abandons Sancho Panza to be beaten up by an entire village. Which is no way to treat your faithful sidekick. As Vladimir Nabokov wrote: "Both parts of Don Quixote form a veritable encyclopaedia of cruelty. From that viewpoint it is one of the most bitter and barbarous books ever penned." Cervantes, like a sado-masochistic dictator, devises hideous physical and mental tortures for Quixote.
  Dom Quixote de La Mancha MIGUEL DE CERVANTES
Worse, Quixote - like Mr Magoo only more so - is always comically mistaking something for something else. In one episode, he attacks a herd of sheep, believing them to be an evil army. He also charges a funeral procession, claiming that the pallbearers are devils carrying away a princess. This bathetic myopia is, we are to believe, brought on by reading books about chivalry. Indeed, the message of Don Quixote might well be that too much reading can divert even the most lovable knight away from an effective struggle against injustice. Hugo, what are you trying to say?
Ora, Stuart, talvez Chavez esteja justamente querendo chamar atenção para as semelhanças entre Dom Quixote e o militante típico de esquerda. Ambos:
  • Sofrem de uma incapacidade crônica de ver o mundo como ele é
  • Sempre se metem em trapalhadas
  • Tentam consertar o que não está errado e criam problemas onde não havia nenhum
  • Propõem soluções impraticáveis para os problemas que encontram e deixam tudo ainda mais fodido

Dom Quixote Era um Zelote Fundamentalista

  Dom Quixote de La Mancha MIGUEL DE CERVANTESMuita gente gosta de ler o Quixote como a aventura de um homem bom que teve coragem de lutar por um mundo melhor. Mas essa é uma leitura bastante superficial. A verdade é que a cegueira e o fundamentalismo de Dom Quixote fazem com que ele prejudique muitas pessoas ao longo do caminho.

Como escreveu recentemente Ferreira Gullar, na Folha:
Ao contrário do que muita gente afirma, não vejo Dom Quixote como um alegórico batalhador pela justiça social ou um visionário defensor dos direitos humanos. Ele é de fato, como afirma seu criador, um sujeito que ficou de miolo mole por tanto ler aventuras de cavalaria e um sectário seguidor das normas que regiam a ação dos cavaleiros. Seus propósitos são os mais altos e os mais nobres, mas a sua ação para pô-los em prática resulta quase sempre desastrosa.

Os criminosos que, a mando do rei, estão sendo conduzidos para as galés e que ele liberta logo em seguida o apedrejam, sendo que um deles rouba o burrico de Sancho, deixando-o a pé. E o que dizer do pobre rapaz que estava sendo espancado pelo patrão? Livra-o dos açoites, dita uma lição de moral ao algoz e vai embora, abandonando-o à vingança agora redobrada do espancador.

A lição que Cervantes nos passa, através do fundamentalismo de seu personagem, é muito atual, aliás, pois nos mostra que, tanto no século 17 como hoje,
quem se julga imbuído da verdade pode trazer mais desgraça do que felicidade àqueles que diz defender.
A impressão que tenho é que Dom Quixote, hoje, apoiaria a invasão do Iraque e defenderia a teoria do design inteligente.

E provavelmente enfiaria sua lança na barriga de Hugo Chávez.

Gostou desse texto? Contribua com um autor falido. Compre qualquer desses títulos clicando pelos links acima e eu ganho uma pequena comissão. E que Kafka lhe abençoe.

Postada no blog em Maio de 2005



 

Mais Artigos de Literatura

 

A Bíblia Como Literatura
Muita gente se espanta ao saber que a Bíblia é o livro favorito de um ateu herege como eu. Inevitavelmente, são pessoas que nunca leram a Bíblia. A Bíblia é literatura pura. Sexo, morte, drama, traição, amor, paixão, redenção, castigo. Tudo o que caracteriza a boa literatura está lá.

Kafka, Um Autor Traído
Não há como falar de Kafka sem mencionar as violências e traições que sofreu tanto por parte de seus editores, como principalmente de Max Brod, seu pretenso melhor amigo.

Declínio e Queda do Império Romano, por Edward Gibbon 
Em sua época, as pessoas liam Gibbon para conhecer a história de Roma. Para nós, o livro é duplamente interessante: lemos Gibbon para conhecer as opiniões de um cavaleiro inglês do século XVIII sobre a história de Roma.

A Importância da Revisão
Um grande número de artistas de fim de semana parece achar que arte é algum tipo de psicografia: jorra deles quase que à revelia em momentos de inspiração divina e basta não interferir pra ficar perfeito. Qualquer mexida posterior será a profanação de algo sagrado e divinamente verdadeiro. Arre.

Lusitano e Brasileiro: Duas Línguas Cada Vez Mais Distintas
Portugueses e brasileiros já não falam a mesma língua faz tempo. Os editores de ambos os países que ignoram esse fato o fazem em detrimento dos leitores (que não entendem lhufas) e autores (cujas obras são mal-transmitidas).

Ernesto Sábato, Autor de Sobre Heróis e Tumbas 
Estou lendo, e me deliciando, e me perdendo, em Sobre Héroes y Tumbas, de Ernesto Sábato, um livro ao mesmo tempo épico, filosófico, sensível, excitante, apocalíptico.

Junichiro Tanizaki: Um Velho Podólatra e Fetichista
Tanizaki, considerado um dos maiores, senão o maior, romancista japonês, é praticamente desconhecido aqui. Teve um livro traduzido pela Brasiliense na década de 80 e depois nada. Finalmente, em 2000, a Companhia das Letras começou a publicar sua obra aqui.

Sex in Contemporary Fiction 
It's not that good sex is impossible to write about. I'd say good sex is irrelevant to write about. Writing about good sex would be like writing about someone's long, nice, happy life: boring, boring, boring.

Henry Miller, Autor de Trópico de Capricórnio
Henry Miller é tão grande que se dá ao luxo de ser grande até nos defeitos. Louco. Arrogante. Prolixo. Confuso. Apaixonante. Energético. Passional.

Litoral, de Pedro Süssekind 
Em cada uma das histórias, a cidade do Rio de Janeiro é a personagem principal, o tema e o enredo. Dá vontade de pegar Pedro Süssekind pelo braço e passear com ele pelas ruas do centro.

Gilberto Freyre, Autor de Casa-Grande & Senzala
Casa Grande & Senzala talvez seja a obra mais genial já escrita em nossa língua. Ela atinge picos de maestria, insight e pura delícia que são impossíveis de descrever. Uma nação que tenha alguém do calibre de Gilberto Freyre para explicá-la para si mesma poderia se dar por satisfeita na busca de sua identidade nacional.

Lobo Antunes, Autor de Manual dos Inquisidores
80 anos de experimentação estilística no século XX, produzindo pilhas de romances ilegíveis, beat, surrealistas, finalmente culminaram em Manual dos Inquisidores, uma prosa radicalmente nova, desconcertante, viciante, mas totalmente integrada ao enredo, aos personagens, à história que se quer contar.

Herman Melville, Autor de Moby Dick
Moby Dick pode ser chato o quanto quiser. O livro continuará pra sempre na lista dos grandes clássicos da humanidade pois nenhum outro livro tem um final tão sensacional.

Lima Barreto, Autor de O Triste Fim de Policarpo Quaresma
Estou lendo, e me deliciando, e me perdendo, em Sobre Héroes y Tumbas, de Ernesto Sábato, um livro ao mesmo tempo épico, filosófico, sensível, excitante, apocalíptico.

Dom Quixote, por Miguel de Cervantes
Muita gente gosta de ler o Quixote como a aventura de um homem bom que teve coragem de lutar por um mundo melhor. Mas essa é uma leitura bastante superficial. A verdade é que a cegueira e o fundamentalismo de Dom Quixote fazem com que ele prejudique muitas pessoas ao longo do caminho.

Dostoievski, Autor de Crime e Castigo e Irmãos Karamazov
Crime e Castigo se perde por ser um romance de idéias. A mão pesada de Dostoeivski não consegue dar voz igual aos seus personagens, não consegue fazer calar sua ideologia.

Autran Dourado, Autor de Uma Vida em Segredo
Dourado é um artesão da língua. Ninguém pode ser mais correto do que ele: o homem é praticamente infalível. Mas, se nunca falha, também nunca acerta. Seus livros são perfeitos, verdadeiras obras-primas da ourivesaria, mas sem gosto, meio mortos e frios, sem vida, sem energia.

O Pagador de Promessas, de Dias Gomes    
A peça é bonita, interessante, emocionante. Dias Gomes tem um impressionante ouvido para diálogo. Apesar disso, a estrutura maniqueísta da peça me pareceu mais velha do que andar pra frente.

Livro Zero, por Alexandre Plosk
Um jovem mata uma velha usurária, vai para a prisão e conhece uma moça chamada Sônia, que o levará para o caminho da redenção. Soou familiar? Livro Zero, romance de Alexandre Plosk, é uma releitura de Crime & Castigo.

Ambrose Bierce, Ray Bradbury e Carlos Fuentes
O fracasso de Bradbury em resistir ao tempo me fez pensar em Ambrose Bierce, o grande mestre contista norte-americano do século XIX. Bierce, apesar de também mestre do efeito surpresa, pasmem!, não envelheceu nem um dia. 150 anos depois, apesar de imitadas à exaustão por todos os que vieram depois, suas histórias ainda são surpreendentes.

Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro, de Márcio Souza
O amazonense Márcio Souza está publicando, desde 1997, uma série de romances históricos chamada Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro. Ostensivamente dialogando com O Tempo e o Vento, o autor busca traçar, em quatro volumes, a história da Amazônia no pós-independência.

A Colméia, de Camilo José Cela, e Os Maias, de Eça de Queiroz
Além de serem grandes obras-primas ibéricas, ambos os romances têm algo em comum: uma quantidade simplesmente assombrosa de personagens, que geram uma quantidade ainda mais avassaladora de tramas secundárias e terciárias, paralelas e perpendiculares.

Todas as Festas Felizes Demais, por Fábio Danesi Rosa
O livro é bom, mas Fábio é melhor. Não sei se dá pra entender. O fenômeno é bastante comum em autores iniciantes. O livro de estréia, por si só, não é bom, mas serve pra demonstrar que o autor sim é bom: competente, com domínio da técnica, ainda pode nos dar grandes alegrias.

Crônicos, de Daniela Abade
Mas, puta que o pariu, Crônicos, o novo livro de Daniela Abade, é simplesmente bom demais. No ifs and buts about it. Sem poréns e entretantos. Sem ressalvas e críticas construtivas. Sem precisar fazer descontos.

Quarto de Despejo, por Carolina Maria de Jesus
Manter os erros de português de Carolina é um meio garantir que ela seja vista somente como mais um literary freak. Nesse jogo entre pessoas limpinhas e cheirosas, Carolina só entra mesmo como atração principal. O jornalista que editou o livro é o mestre de cerimônias do circo, nós somos a platéia e Carolina, coitada, é a mulher-barbada.

O Código Da Vinci, por Dan Brown 
Elogiar o livro e acrescentar "mas não é literatura" é como ir a uma churrascaria, elogiar a carne e dizer: "hmm, essa picanha está muito suculenta, mas não é uma salada". Ora bolas, claro que não. Se você quisesse uma salada, por que teria entrado na churrascaria?

Arte É Criação 
Se Heifetz é tão artista quanto Beethoven, então Harold Bloom é tão artista quanto Shakespeare, e o mestre-de-obras é tão artista quanto o arquiteto.

A Infalibilidade do Autor 
Dar ao autor o benefício da dúvida não quer dizer deixar de ler criticamente, ou perdoar qualquer barbaridade. Pelo contrário, quer dizer, somente, reservar as críticas para o final, quando você puder enxergar a obra como um todo.

Horácio Quiroga
Estação de Amor, de Horácio Quiroga, é uma linda história. Mas o melhor mesmo é o posfácio, escrito por Pablo Rocca. Não existe história tão boa que não possa ser arruinada por uma crítica rasteiramente ideológica.

Knut Hamsun 
Knut Hamsun é considerado o maior escritor norueguês. Imaginem como seria nossa relação com Machado de Assis se, depois de ter escrito Dom Casmurro e Brás Cubas, ele tivesse virado serial-killer. Pois é.

Roberto Freire 
Qualquer um que pretenda viver com mais liberdade tem, necessariamente, que passar por Roberto Freire. Sua auto-biografia me permitiu entender melhor o homem que ele é. Me permitiu também entender o homem que eu posso vir a ser.

Cartas Portuguesas 
O livro que recebi de presente do meu mecenas Ricardo foi o Cartas Portuguesas, cinco cartas pretensamente escritas por uma freira lusitana a um cavaleiro francês, então estacionado em Lisboa, no século XVII.

Arte, Crime e Patrocínio 
Um artista plástico espalha caixas pretas pelo metrô de Nova Iorque, gera pânico e acaba preso. Arte? Ou crime? Outro, pinta de vermelho um iceberg. Arte? Ou futilidade? No Brasil, uma jovem cria obras baseadas em buscas aleatórias no Google. Arte? Talvez, mas não de acordo com o Ministério da Cultura, que não prevê patrocínios para Cultura Digital.

A Inutilidade da Arte 
Quanto mais útil a arte, menos arte ela é. A utilidade desvirtua a arte. O que distingue a agricultura da ópera é que uma é absolutamente vital para a nossa sobrevivência; a outra, nem um pouco.

Tradução: A Pureza do Original 
Fico preocupado de ouvir um tradutor dizer que a pureza do original não existe ou que não deveria ser importante. Tremo de imaginar o que tradutores imbuídos dessa filosofia não devem modificar, interferir ou "melhorar" os livros que traduzem.

O Velho Libertário e o Jovem Discípulo      
Peço perdão por não ser mais o homem que escreveu esses livros. Mas nem mesmo naquela época eu era assim o tempo todo. O importante é que eu era assim no momento em que escrevi aquelas palavras. O importante é que você seja assim no momento de lê-las. O resto é ficção.

O Dever do Escritor 
Quem faz arte pra provar uma teoria filosófica, defender um governo ou mesmo socorrer uma pobre classe social oprimida não está fazendo boa arte. Está sendo, talvez, uma boa pessoa, um bom cidadão, um bom político, um bom filósofo. Mas um artista sofrível.

O Dever do Colunista 
Quando mataram a Liana e o Felipe, boa parte dos colunistas da grande imprensa não teve pudor algum em somente repetir o blá-blá-blá do senso comum. Cadê o profissionalismo dessa gente?

O Golpe de Mersault 
Camus distorce tanto nossa percepção que esquecemos que Mersault cometeu, de fato, o crime pelo qual está sendo acusado! O homem é culpadíssimo!

Heróis e Vilões 
Qualquer bom autor sabe fazer seu leitor ir aonde ele bem quiser, como um treinador balançando o osso na frente do cachorro. A good author can get away with anything.

Duas Leis das Artes Dramáticas 
Quem mais seria o vilão da história? Um estava morto, a outra era a mocinha e a outra era uma negona que tinha entrado no meio da trama. Só sobrava realmente ele.

A Escola Urbana 
Uma nova escola literária vem tomando conta da literatura brasileira há mais de 30 anos. Por falta de nome melhor, eu a chamo Escola Urbana.

Pacto da Mediocridade 
Que pacto de mediocridade é esse? Se nem os nossos formados em Letras-Inglês lêem Shakespeare no original, pra que servem? Não é esse seu trabalho?

Um Épico Injustiçado: O Senhor dos Anéis   
Os doutores da Academia, que suspiram por grandes épicos da humanidade como "La Mort d'Artur" e "Bewoulf", torcem os narizes para "O senhor dos anéis". É pena. Iriam adorar. O livro foi escrito para eles e por um deles.

Literatura Imaginativa   
os autores brasileiros parecem ter sido convencidos, em algum momento, que imaginação e boa literatura não combinam. O ideal de todos parece ser reescrever Um Coração Simples, do Flaubert, o romance, por excelência, onde nada acontece.

Romance do Não-Dito: Aquele Rapaz, de Jean-Claude Bernadet    
Aquele Rapaz é curto pois tudo foi cortado. Aquele Rapaz é riquíssimo, mas nada está lá impresso. Aquele Rapaz, na verdade, é somente um guia de leitura para um outro romance, maior e muito mais grosso, que simplesmente não existe.

Saber Ler Literatura   
Saber ler literatura é saber que abordar qualquer obra de arte jamais será uma atitude passiva. A verdadeira obra de arte exige compromisso, exige ação, exige feedback. Arte não se aprecia. Se apreciou, ou não é arte ou você entendeu errado. Verdadeira arte não se aprecia pois apreciar é uma atitude passiva e a verdadeira arte cobra interação.

A Grande Conversa   
Os clássicos não são só livros consagrados: eles são as vozes da Grande Conversa. Não estão mortos: eles falam, eles gritam, eles choram, uns com os outros, o tempo todo. Heráclito teoriza, Aquino racionaliza, Cervantes ri, Descartes sugere uma outra opção, Kant contextualiza e Marx destrói.

Lady Averbuck   
Ela parece merecer o apelido de Lady Averbuck. Tudo indica que é uma pessoa insuportável, mal humorada, ranzinza, arrogante e totalmente louca. O que importa é que ela é uma puta escritora.

Paulo Coelho na ABL   
Paulo Coelho pode ser um péssimo escritor, mas é um escritor. E isso, convenhamos, já é mais do que podemos falar sobre muitos dos membros da Academia, como Getúlio Vargas e Roberto Marinho.

Autores Libertários  
Muita gente tem me pedido sugestões de leitura. Autores bons há muitos. Mas como, em geral, quem me pede isso gostou desse blog, vou dar aqui uma lista dos meus pares, ou seja, autores que seguem, em larga medida, a linha filosófica desse brog: Whitman, Miller, Freire, Kerouac, Thoreau, Emerson, Sartre, La Mettrie.

Mais Livros do Mal  
Sentei em uma daquelas poltronas maravilhosas (tinha 3 horas de hora pra fazer!) e li vários contos de cada livro. Estava torcendo, sinceramente, pra algum deles ser ruim e eu não ter que levar. Afinal, não é?, autor novo, todos jovens, nunca se sabe. Não foi o caso.

Literatura Contemporânea e Livros do Mal

Ultimamente, só venho lendo clássicos. Estou há mais de um mês no Dom Quixote, por exemplo. Sinto muita falta de literatura contemporânea, mas infelizmente isso custa dinheiro. Clássicos eu pego na biblioteca, eu baixo pela Internet e até mesmo compro edições baratíssimas em tudo quanto é sebo. Já, por exemplo, o novo livro do Bernardo Carvalho só comprando e pelo preço integral: não tem jeito.

 

LIBERAL LIBERTÁRIO LIBERTINO

Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.