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  Alex Castro
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Dostoievski, Autor de Crime e Castigo e Irmãos Karamazov

Crime e Castigo É Um Episódio de Columbo  Columbo PETER FALK

Não sei nem se alguém lembra de Columbo. O seriado foi ao ar entre 1971 e 1978, nos Estados Unidos, e continua vivo até hoje, em telefilmes esporádicos - o último é de 2003. Aqui no Brasil, não passa na TV faz tempo, mas é inesquecível.

A estrutura de um episódio de Columbo é sempre a mesma: pra começar, vemos tudo do ponto de vista do criminoso. No começo do episódio, acompanhamos o crime sendo cometido. Só então, uns 15 minutos depois, quando começam as investigações, aparece o Tenente Columbo, da Divisão de Homicídios da LAPD, interpretado brilhantemente por Peter Falk. O homem parece sujo, mal-ajambrado, confuso. Ele faz umas perguntas aparentemente inócuas, nada leva a nada, o suspeito vai ficando progressivamente de saco cheio até que ele vai embora. O suspeito já está respirando aliviando quando ele, antes de sair, inevitavelmente, bate a mão na testa, se volta e pergunta: só mais uma coisinha....

O genial do seriado é que, como ele é todo contado do ponto de vista do criminoso, nunca vemos Columbo em sua casa, em seu trabalho, com seus colegas, etc. Columbo só aparece quando vai falar com o suspeito. Lentamente, Columbo vai fechando o cerco, aparecendo nas piores horas, fazendo as perguntas mais esdrúxulas. A tensão vai ficando insuportável: o suspeito acha que ele sabe, mas não tem certeza, como ele poderia saber?, eu fiz tudo certo, não deixei nenhuma pista, ou será que deixei, oh meu deus! E, no meio dessa bad trip, lá vem ele de novo, fazer só mais uma perguntinha...

Finalmente, o suspeito cede, se incrimina, confessa ou é desmascaro mas, nesse momento, seus nervos já estão em frangalhos - e os nossos também.

E Columbo em nenhum momento foi grosso, insistente, violento. Que eu me lembre, nunca nem levou os suspeitos para a delegacia. Pelo contrário, ele é cortês, educado, solícito, engraçado, chega às vezes até a ser irritantemente servil. E sempre, invariavelmente, conta uma história de sua esposa, Mrs Columbo, cujo primeiro nome ele nunca revela.

Soou familiar?

* * *

Em um mundo onde Crime e Castigo é um clássico universal, não poderia ser coincidência. A conexão parece não ter sido percebida por muita gente, mas uma busca por Columbo + Porfiry encontra algumas discussões. O pessoal se pergunta: será que Columbo foi mesmo baseado em Porfiry? Confiem em mim: foi. Se Crime e Castigo fosse um romance obscuro, talvez. Mas, sendo o romance pop que é, com certeza a semelhança é intencional.

Não há a menor dúvida que a melhor coisa de um romance reacionário, ideológico e mesquinho como Crime e Castigo é o mesmo o jogo de gato-e-rato entre Raskolnikov e Porfiry.

Abaixo, dois dos melhores momentos, que poderiam estar (não duvido que estejam) em qualquer episódio de Columbo:

- Bem, quer me censure ou não, se aborreça ou não comigo, o certo é que eu não posso conter-me - declarou novamente Porfíri Pietróvitch. - Dê-me licença que lhe faça ainda uma pergunta (já o incomodei tanto!), uma única pequena pergunta, só para não esquecer...

- Bom, diga-me do que se trata - e Raskólhnikov, sério e pálido, parou diante dele, na expectativa.

- Pois fique sabendo... Na verdade não sei como hei de exprimir-me menos desajeitadamente... Trata-se de uma idéia demasiado chistosa... psicológica... Pronto, vou dizer-lhe: quando o senhor escreveu esse artigo... com certeza que... he... he... he... se considerava a si mesmo... ainda que fosse só um pouquinho... um desses seres extraordinários e que dizem uma palavra nova... Quero dizer, no sentido que o senhor dá a esta frase... Não é verdade?
Mais um:
- E, quando subiu a escada, às oito, não viu no segundo andar, naquele que está aberto, lembra-se? uns operários ou, ao menos, um deles? Estavam pintando, não reparou? Isto é muito importante para eles, importantíssimo!

- Pintor de paredes? Não, não vi nenhum... - respondeu Raskólhnikov lentamente, e como se fizesse esforço para se lembrar, enquanto todo o seu ser ficava numa tensão e palpitava na ânsia de descobrir o mais depressa possível a que é que se resumia a armadilha e não cair nela. - Não, não os vi, nem também reparei que houvesse algum andar aberto... mas olhe, no quarto andar - já tinha percebido qual era a armadilha e rejubilava com o seu triunfo -, lembro-me bem de que um funcionário saiu do quarto... fronteiro ao de Alíona Ivânovna... estou a lembrar-me... estou a lembrar-me muito bem: uns soldados transportavam um divã e obrigaram-me a encostar-me à parede; mas, pintores, não me lembro de ter visto nenhuns... não; nem também havia aí qualquer andar aberto, que eu me lembre. Não; não havia...

- Mas que dizes tu? - exclamou de repente Razumíkhin, como se puxasse pela memória e reconsiderasse. - Se os pintores estiveram trabalhando lá no dia do crime e ele estivera três dias antes! Por que lhe perguntas isso?

- Ah! Fiz confusão! - disse Porfíri dando uma palmada na testa. - Raios me partam, ainda hei de acabar louco por causa deste processo! - exclamou, dirigindo-se a Raskólhnikov com ar de desculpa. - É que, repare, seria tão importante para mim comprovar se alguém os viu às oito no andar, que me lembrei de pensar se o senhor não poderia dizer-me qualquer coisa a esse respeito... mas que grande confusão!
  Columbo PETER FALK
Finalmente, o próprio Porfiry explica seu método para um Raskolnikov a beira de um ataque de nervos. Columbo não teria dito melhor. Não me surpreenderia que esse trecho estivesse no manual dos roteiristas do seriado. É longo, mas perfeito:
Pois aqui tem um pequeno exemplo que poderá ser-lhe útil no futuro... Isto é, não vá supor que eu me proponho dar-lhe lições, ao senhor, que escreveu aquele artigo sobre os crimes! Não se trata disso, mas apenas de apresentar-lhe um fato, como um pequeno exemplo... Assentemos em que eu passei a ter suspeitas deste, daquele ou daqueloutro, por me parecer que é o autor de um crime; vejamos: por que hei de eu ir incomodá-lo antes do tempo, embora possua algumas provas contra ele? Umas vezes vejo-me obrigado, por exemplo, a mandar prender um indivíduo urgentemente; mas, outras, a pessoa em questão é de outro caráter, e, de fato, por que não havia eu de dar-lhe tempo a que passeasse todavia um pouco pela cidade? He... he! Não, o senhor, eu bem vejo, não está compreendendo o que eu lhe digo, e por isso vou explicar-lho com mais clareza: se eu o mando prender demasiado cedo, presto-lhe, por assim dizer, um auxílio moral. He... he! O senhor ri-se - Raskólhnikov nem de longe pensava em rir-se, pelo contrário, rangia os dentes, não afastando o seu olhar inflamado dos olhos de Porfíri Pietróvitch. - E, no entanto, é assim, sobretudo tratando-se de alguns indivíduos, porque são tipos muito diferentes e, com eles, só a prática é que vale. O senhor há de dizer-me: e as provas? Suponhamos que as provas existam; mas repare, bátiuchka, as provas são, na sua maior parte, armas de dois gumes, e eu sou juiz de instrução, um homem fraco, reconheço-o; o que uma pessoa desejaria era estabelecer os resultados do seu processo com uma exatidão, por assim dizer, matemática; desejaria encontrar uma prova de tal natureza, qualquer coisa de gênero dois e dois são quatro. O que uma pessoa quereria seria uma prova clara e incontestável! E veja, se o prendo antes do tempo, embora eu esteja convencido de que é "ele", sou eu próprio que acabo por privar-me do meio de desmascará-lo mais à vontade; e como? Porque dessa maneira lhe destino uma posição, por assim dizer, definida; defino-o psicologicamente e tranqüilizo-o, e ele escapa-se-me e mete-se na sua concha; compreende, finalmente, que está preso. Dizem que em Sebastópol, quando do caso de Alma, algumas pessoas inteligentes temiam que o inimigo atacasse a povoação declaradamente e a tomasse de um golpe; mas, vendo que o inimigo iniciava um assédio segundo todas as regras e abria a sua primeira trincheira, as tais pessoas inteligentes alvoroçaram-se e tranqüilizaram-se; pelo menos durante dois meses a coisa dilatar-se-ia, até que a tomassem por um assalto em regra! Ri-se outra vez, duvida outra vez? Sim, é claro; também tem razão nisto. Tem razão, tem razão! Tudo isto são casos particulares, concordo com o senhor; o caso que lhe apresentei é, de fato, um caso particular. Mas repare, meu muito excelente Rodion Românovitch, é preciso lembrar-se de uma coisa; o caso geral, esse que apresenta todas as fórmulas e regras jurídicas, o que os livros consideram e escrevem, não existe na realidade, pela simples razão de que cada assunto, cada crime, por exemplo, assim que se deu na realidade, passa imediatamente a converter-se num caso particular; e às vezes em circunstâncias tais que não se parecem em nada com o anterior. Às vezes acontecem casos muito cômicos, nesse gênero. Bem; eu deixo o homem completamente só; não o prendo nem o incomodo, mas de maneira que fique sabendo, em todas as horas e em todos os minutos, ou pelo menos suspeite que eu sei tudo, que sei tudo ponto por ponto, que lhe sigo a pista dia e noite, inutilizo as suas cautelas, e viva numa eterna suspeita e medo de mim, e de tal maneira o envolvo, juro-o, que ele próprio me há de vir ter às mãos ou fará qualquer coisa que será já muito parecida com o dois e dois são quatro, isto é, que tenha uma aparência, por assim dizer, matemática... Isso é que é agradável. Isto pode dar-se com um pacóvio, mas também se dá com o nosso irmão, com um homem perfeitamente inteligente e até culto na sua especialidade, e ainda há pouco tempo se deu! Porque, caríssimo, é uma coisa muito importante saber sobre que é que uma pessoa é culta. E depois há os nervos, os nervos, de que o senhor se esquece! Porque todos eles andam hoje doentes, débeis, excitados! E a bílis, todos eles têm tanta bílis! Olhe, sou eu quem lho diz: em chegando a ocasião, pode ser esse o filão! Que pode importar-me a mim que ele ande à solta pelas ruas? Que passeie tudo o que lhe apetecer; eu não preciso de mais para saber que ele é a minha pequena vítima e que não há de escapar-me! Pois para onde poderia ele fugir? He, he! Para o estrangeiro? Para o estrangeiro poderá fugir um polaco, mas não "ele", tanto mais que eu lhe sigo a pista e tomei as minhas medidas. Iria fugir para os confins do país? Mas aí vivem os camponeses verdadeiros, autênticos russos, e um homem imbuído de cultura contemporânea há de preferir sempre ir para o presídio a suportar o convívio com uma gente que lhe é tão estranha, os nossos camponeses, he... he... he! Mas tudo isto são absurdos e superficialidades! Que vem a ser isso de fugir? Isso é pura fórmula; o essencial não é isso; não só ele não me escapa por não ter para onde fugir, como também não me escapa por razões psicológicas, he... he! Esta frasezinha, hem? Não me escapa pela lei da natureza, ainda que tivesse para onde fugir. Já reparou numa borboleta à volta da luz? Bem; pois da mesma maneira se porá ele a dar voltas e voltas em meu redor, como em torno de uma vela; a liberdade deixará de ser-lhe agradável, começará a matutar, a viver numa inquietação, a ficar preso nas suas próprias redes e a sofrer angústias mortais... E isso ainda não é tudo: ele próprio, espontaneamente, me proporcionará alguma prova matemática, do gênero de dois e dois são quatro... assim que eu lhe consinta um intervalo mais longo... E não fará mais do que traçar círculos e mais círculos cada vez mais apertados à minha volta, até que... pumba! Num desses vôos me virá cair na boca e eu engoli-lo-ei com todo o gosto, he... he! Não lhe parece?

Raskólhnikov não respondeu: continuava sentado, pálido e imóvel, contemplando com a mesma atenção concentrada o rosto de Porfíri. "Boa lição!", pensava, transido de frio. "Isto já não é nem mesmo o jogo do gato com o rato, como ontem; e não iria demonstrar-me inutilmente a sua força e... sugerir-me... é demasiado esperto para isso... Não há dúvida de que persegue outro objetivo, mas qual? Ah, é absurdo, meu caro, que tu queiras assustar-me e valer-te de estratagemas para comigo! Tu não tens provas e o homem de ontem não existe! O que tu queres é unicamente atrapalhar-me; o que queres é irritar-me adiantadamente e, uma vez que eu caia nessa disposição, deitar-me as garras; mas estás enganado, estás enganado, não hás de levar a melhor! Mas por quê, por que me espremerá ele até este ponto? Contará com os meus nervos doentes? Não, meu caro, não, estás enganado, apanhas uma desilusão, embora andes tramando alguma. Bem, vamos lá a ver o que é que andavas tramando."
Visite esse excelente site sobre Columbo.

As Noites de Verão de São Petersburgo

A maioria dos leitores, brasileiros, com pouca experiência do cotidiano nas regiões árticas, não reparou uma coisa muito interessante: Crime e Castigo é um romance que acontece às claras. Literalmente.

Crime e Castigo FIODOR DOSTOIEVSKIA história se passa no verão e, no verão, em São Petersburgo, praticamente não há noite. O sol se põe quase à meia-noite e nasce às quatro, cinco da manhã. Mesmo quando é noite, a noite nunca é 100% escura: fica aquela noite clara, como um finzinho de pôr-do-sol.

Sim, os personagens falam em noite, mas é modo de falar. Eu também ontem marquei de encontrar com uma amiga às sete da noite e, deixa eu te contar, aqui no Rio, em janeiro, é tão claro às 19hs quanto às 15hs. Naturalmente, nem Dostoievski nem seu leitor médio precisariam ser lembrados disso: seria auto-evidente.

Alguns colaboradores do clube comentaram sobre as andanças de Raskolnikov na noite escura, coisas assim. Mas tentem agora relembrar o livro tendo esse novo dado em mente: quase sempre, era dia.

Terá Dostoievski ambientado seu romance no verão de propósito? Será coincidência que seja sempre dia em um romance obcecado com confissão, obcecado em trazer às claras um crime e suas motivações?

Crime e Castigo, Um Romance de Idéias

Faz algum tempo eu fiz outras daquelas afirmações que, pra mim, são auto-evidentes (um romance não tem que ter idéias) e, para minha surpresa, os leitores se ergueram em peso contra mim. Parece que as pessoas não gostam de ler romances, mas tratados filosóficos.

Crime e Castigo ilustra exatamente minha opinião. É um romance de idéias. Por isso, é tão ruim. Se o autor tivesse sido só um pouquinho menos ideológico, se tivesse imposto menos suas opiniões ao romance, Crime e Castigo poderia de fato ser o melhor romance de todos os tempos que meus leitores acham que é.

A Inteligência do Romance

Escreveu Milan Kundera, em A Arte do Romance:
O romancista não é porta-voz de ninguém, (....) nem mesmo de suas próprias idéias. Quando Tolstoi esboçou a primeira versão de Ana Karenina, Ana era uma mulher muito antipática e seu fim trágico era senão justificado e merecido. A versão definitiva do romance é bem diferente, mas não creio que Tolstoi tenha mudado nesse meio tempo suas idéias morais, diria antes que, enquanto escrevia, ele escutava uma outra voz que não aquela da sua convicção moral pessoal. Ele escutava aquilo que eu gostaria de chamar a sabedoria do romance. Todos os verdadeiros romancistas estão à escuta dessa sabedoria suprapessoal, o que explica que os grandes romances são sempre um pouco mais inteligentes que seus autores. Os romancistas que são mais inteligentes que suas obras deveriam mudar de profissão. (...) O espírito do romance é o espírito da complexidade. Cada romance diz ao leitor: "As coisas são mais complicadas do que você pensa.
Um romance é sobre pessoas, não sobre teorias, idéias ou ideologias. Essas pessoas, claro, têm teorias, idéias e ideologias. Mas não o romance. O romance deve estar acima dessas banalidades. O romance deve ser mais inteligente que as teses de seus personagens e de seu autor.

Algumas pessoas, ocasionalmente, tentam falar da "filosofia de Tchecov", "filosofia de Kafka", etc, mas esses autores são grandes justamente porque não é possível extrair uma filosofia coerente de seus romances. Um bom romance não se presta à filosofia. Se o romancista for bom, nunca saberemos exatamente onde ele está, quais são suas simpatias, qual sua filosofia.

Tanto o comunista quando o liberal serão representados em suas melhores (ou piores) cores, como pessoais reais, que lutam pelo que acham certo com todas suas armas, ou, quem sabe, como calhordas que se aproveitam de uma ideologia pra sobreviver. Mas, de qualquer modo, isso é com os personagens. O autor não se coloca.

Como diz Kundera, o espírito do romance é a complexidade. O objetivo do romance talvez seja mostrar justamente ao leitor liberal que os comunistas não são tão ruins assim ou mostrar aos leitores comunistas que os liberais não são todos burgueses nojentos. O objetivo do romance talvez seja justamente fazer o leitor levar a mão ao queixo e soltar um longo "hmmmm..."

No momento em que o autor chega ao romance imbuído de uma idéia, querendo provar uma tese, esse espírito da complexidade está morto. Não há complexidade alguma em um romance cujo objetivo é mostrar como são nojentos esses burgueses que exploram os proletários. Só há certezas a serem transmitidas.

Como pode ser complexo um romance cujo objetivo é mostrar a leviandade daquelas mulheres imorais que traem seus maridos e acabam se jogando embaixo de trens? Não há dúvida que é isso que Tolstoi tinha em mente. Ele era mais moralista que Dostoievski, aquele velho aristocrata safado. Mas seu romance foi melhor que ele. Seu romance teve mais amor por Ana do que ele teria.

Religiosidade em Mulher de Um Homem Só

Naturalmente, essa é minha teoria particular do romance, e ela norteia as minhas obras. Meu romance, Mulher de Um Homem Só, é narrado por uma mulher que não tem nada a ver comigo. Não entendo esses escritores cujos narradores e protagonistas são seus alter-egos. Eu já vivo comigo 24 horas por dia. Escrevo romances para conhecer outras pessoas.

Enfim, eu sou ateu e acho toda essa história de religião francamente nociva. Em Mulher de Um Homem Só, há dois personagens que com certeza concordam comigo, Murilo e Júlia, mas eles não tem voz. Quem narra é Carla, católica, que fez questão de casar na Igreja e batizar a filha. Só ouvimos as teorias atéias de Murilo e Júlia pela boca de Carla, que as ridiculariza. Alias, ridiculariza também o espiritismo da mãe de Júlia.

Não acho que um leitor casual de Mulher de Um Homem Só conseguiria adivinhar ou deduzir minha postura religiosa. Aliás, minha postura religiosa é irrelevante. Carla tem a dela, Murilo e Júlia tem a deles, a mãe de Júlia tem a dela. O romance até mesmo termina com uma cartomante, não deixando claro se a mensagem é "acreditem na cartomante" ou "deixem a cartomante pra lá".

Com tantas posturas religiosas retratadas no livro, com o leitor iria adivinhar com qual dos personagens acontece de eu concordar?

A Mão Pesada de Dostoievski

Crime e Castigo se perde por ser um romance de idéias. A mão pesada de Dostoeivski não consegue dar voz igual aos seus personagens, não consegue fazer calar sua ideologia.

As idéias de Raskolnikov são ridicularizadas a cada passo. Ele nunca é levado a sério pelo autor. Todo um capítulo, o primeiro da quinta parte, é dedicado única e exclusivamente a fazer pouco das idéias de Lebezyatnikov e seu grupo.

O leitor nunca fica livre das opiniões de Dostoievski. O leitor sente não que está observando a interação entre personagens independentes, mas sim acompanhando a progressão lógica de uma tese cujo objetivo é provar uma teoria de seu autor.

Crime e Castigo se salva apesar de Dostoievski. Dostoievski era um contador de histórias tão magistral que conta excelentes histórias mesmo à sua revelia.

A maior prova disso é que os melhores personagens de Crime e Castigo são os secundários, os escadas.

Raskolnikov, com sua síndrome de Hamlet atormentado, é simplesmente insuportável. Sonya é uma figura de papelão, quase não é humana. E esses são os personagens principais. Memórias do Subsolo FIODOR DOSTOIEVSKI

Felizmente, temos o fracassado Marmeladov (cujo encontro com Raskolnikov é o único bom momento da Primeira Parte) e sua enlouquecida esposa; o esnobe Luzhin; o magistral Porfiry, o detetive policial por excelência; e outros.

 Jogador, Um FIODOR DOSTOIEVSKI  Se tivesse dependido de Raskolnikov e Sonya, juro, não tinha passado da Terceira Parte.

O melhor romance de Dostoeivski talvez seja justamente O Jogador, onde ele não teve tempo de ser ideológico (post sobre isso amanhã). E, estranhamente, ele escreveu um dos poucos romances de idéias que efetivamente funcionam, apesar de com idéias opostas às suas: Notas do Subsolo (mais sobre isso amanhã também.)

O Dever do Artista

O dever do artista não pode nunca passar pela política. O artista que se mete em política se trumbica.

O povo está sendo oprimido? Há uma ditadura nas ruas? Que chato. Mas arte não tem nada a ver com isso.

A política, quando bem feita, quando não descamba em ditadura, é composta por compromissos e concessões que visam chegar a um consenso.

A arte não é um consenso. A arte não pode ter compromissos. A arte não pode fazer concessões. O bom artista só tem compromisso consigo mesmo, não respeita consensos e não faz concessões.

Se o artista acha que o povo está sendo oprimido, ele que lute contra isso como cidadão. Funde uma ONG, vote nos melhores candidatos, escreva artigos para jornais, tente se eleger deputado.
Máximo Górki (1868-1936)
Mas não me escreva um romance para denunciar a opressão da burguesia. Pelo amor de deus, não crie um número musical em homenagem às vítimas do imperialistmo. Por tudo o que é mais sagrado, não faça uma pintura abstrata onde o vermelho representa a ditadura que esmaga o povo, as duas linhas paralelas representam homens e mulheres caminhando juntos, mas sem nunca se encontrar, rumo ao infinito, e a mancha marrom representa o café que respingou na tela.

Mikhail Cholokhov, ganhador do Nobel, (1905-1984)Não há regras para o papel do artista. O compromisso dele é com ele mesmo. Contanto que ele não se deixe aprisionar, ele pode tudo.

O Chico Caruso estava relembrando a primeira charge que fez com o Lula. Foi um escândalo no partido. Veio o Henfil falar com ele: "Chico, você fez tudo que a ditadura não conseguiu: pintou nosso companheiro de ridículo!" Sabiamente, o Chico mandou o Henfil tomar no cu.

Essa é o problema do artista engajado. O artista engajado não faria a caricatura do Lula para não prejudicar o movimento. O artista engajado se torna menos artista a cada concessão que faz a elementos extra-artísticos.

Já o artista de verdade só se importa com a própria arte e com mais nada. Disse Faulkner:
A única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Será inteiramente desapiedado se for um bom escritor. (...) O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo. (...) Se um escritor tiver que roubar sua mãe, não hesitará; a "Ode a uma Urna Grega," de Keats, vale mais do que qualquer punhado de velhas.

Política É Fugaz

Alexander Soljenítsin, ganhador do Nobel, (1918- )O raio de ação de um artista é tão grande, ele é tão livre nas atitudes que pode tomar, que ele pode até mesmo se propor, como seu objetivo artístico, denunciar opressões e defender o proletariado. Mas isso é tão, mas tão difícil que só mesmo sendo muito bom.

Górki apoiou uma das mais perversas ditaduras da história, a União Soviética, movida pela mais imbecil ideologia, o Comunismo. Ele foi o sustentáculo cultural dos regimes de Lênin e Stalin. Politicamente falando, o homem é quase um criminoso contra a humanidade.

Não sei como tive coragem de abrir o primeiro livro de Górki. Foi por muita insistência de Henry Miller. Mas ainda bem que li.

O Estrangeiro (1942), por Albert CamusGórki tem uma força, uma vitalidade, uma alegria de viver de fazer inveja a Whitman. Górki pode tudo. A good artist can get away with anything. Não consigo imaginar uma autobiografia melhor do que a dele.

Górki é Górki. Górki vai permanecer. No futuro, quando o marxismo não for nem a piada de mau gosto que é hoje, pois as pessoas não vão nem lembrar o que é, Górki ainda estará sendo lido. Com algumas notas de pé de página, claro, mas será lido.
 Introdução ao Existencialismo JOAO RIBEIRO JR.
Mas a política é fugaz demais. Para cada Górki, existem milhares de Cholokhovs e Soljenítsins, tanto de um lado quanto de outro, pois só o hidrôgenio é mais disseminado do que a burrice, autores fracos e medíocres que só se sustentaram por alguns anos pois defenderam essa ou aquela ideologia do momento. Mas todo regime cái. Toda ideologia some. E seus defensores somem junto.

Filosofia Não É Arte

Adoro filosofia existencialista. Se sou algum -ista, é existencialista. Já li esses malucos todos, Kirkegaard, Camus, Sartre, Ortega y Gasset, Jaspers, Nietzsche, etc etc.

  História do Existencialismo DENIS HUISMAN O Estrangeiro é um excelente romance existencialista (quem acha que eu não gostei de O Estrangeiro tem que ler de novo minha resenha) porque Camus é antes romancista do que filósofo.

Já os romances de Sartre são chatos e insossos porque Sartre é e sempre foi filósofo. Seus romances não são romances, são estudos de caso. Sartre não tinha compromisso com a arte: Sartre queria apenas exemplificar suas teorias.

Conclusão

Quem faz arte pra provar uma teoria filosófica, defender um governo ou mesmo socorrer uma pobre classe social oprimida não está fazendo boa arte. Está sendo, talvez, uma boa pessoa, um bom cidadão, um bom político, um bom filósofo.

Mas um artista sofrível.

Leiam também meu Elogio à Alienação e A Inutilidade da Arte.

Notas do Subsolo, por DostoievskiNotas do Subterrâneo FIODOR DOSTOIEVSKI

Estranhamente, Dostoievski escreveu um dos poucos romances de idéias bons que existem: Notas do Subsolo, também traduzido por aqui como Notas do Subterrâneo.

Notas do Subsolo, diário de um jovem revoltado sem nome, foi escrito imediatamente antes de Crime e Castigo. É quase um prólogo: tirando um ou outro detalhe, poderia bem ser o diário mantido por Raskolnikov. Dostoievski provavelmente escreveu Crime e Castigo para entender melhor esse personagem, para vê-lo em ação pois, em Notas do Subsolo, virtualmente nada acontece. Only bitching.

Crime e Castigo FIODOR DOSTOIEVSKIMas Notas do Subsolo é um romance de idéias no bom sentido. Notas do Subsolo não tenta nos impingir idéias: nem as do autor, nem as do personagem. Notas do Subsolo é um romance escrito por um autor sobre idéias que são totalmente opostas às suas, para tentar entendê-las. Notas do Subsolo não tenta nos convencer de nada, não tenta mudar nossa vida.

Como ficção, confesso, é chato, muito chato. Sua única virtude é ser curtíssimo. Basicamente, temos o típico jovem da Escola Urbana à la Raskolnikov reclamando da falta de sentido da vida por 100 intermináveis páginas - que parecem muito mais longas do que as 600 de Crime e Castigo. Nada acontece.Existentialism: From Dostoevsky to Sartre

Dostoievski, o Existencialista

Por outro lado, é excelente filosofia. Dostoievski antecipou Freud, Nietszche, Sartre e Kafka, entre outros. Notas do Subsolo é justamente considerado o texto fundador do Existencialismo - escrito pelo menos existencialista dos homens. Mas não é essa a mágica da ficção? Sermos capazes de criar seres humanos completos, tão completos, que criam até mesmo filosofias das quais discordamos?

  História do Existencialismo DENIS HUISMAN Walter Kaufmann, organizador de uma coletânea de textos existencialistas, se vira ao avesso pedindo desculpas por abrir sua antologia com Notas do Subsolo. Afinal, é um texto de ficção em um livro de filosofia. Depois de classificar Notas do Subsolo como uma das mais originais e revolucionárias obras da humanidade (arã...), Kaufmann faz questão de contextualizar Dostoievski: não podemos atribuir às idéias do narrador de Notas do Subsolo à um fanático religioso, anti-ocidental, anti-semita e anti-católico. Introdução ao Existencialismo JOAO RIBEIRO JR.

Dostoievksi não é existencialista, conclui Kaufmann, mas Notas do Subsolo é a melhor introdução ao existencialismo que existe. (Aliás, eu discordo, mas tudo bem - texto fundador, sim, melhor? Longe disso.)

Um trecho:
Good heavens, gentlemen, what sort of free will is left when we come to tabulation and arithmetic, when it will all be a case of twice two make four? Twice two makes four without my will. As if free will meant that! (...) Consciousness, for instance, is infinitely superior to twice two makes four. Once you have mathematical certainty there is nothing left to do or to understand. There will be nothing left but to bottle up your five senses and plunge into contemplation. While if you stick to consciousness, even though the same result is attained, you can at least flog yourself at times, and that will, at any rate, liven you up. Reactionary as it is, corporal punishment is better than nothing.

O Erro de Nietszche e Libeca

 Irmãos Karamazov, Os FIODOR DOSTOIEVSKINietszche descobriu Notas do Subsolo em 1887, um ano antes de ficar definitivamente louco e começar a conversar com cavalos, e exclamou:
I did not even know the name of Dostoievski just a few weeks ago. (...) An accidental reach of the arm in a bookstore brought to my attention L'Esprit Souterrain, a work just translated into French. (...) The instinct of kinship (or how should I mention it) spoke up immediately: my joy was extraordinary.
Naturalmente, não havia, nem poderia haver, kinship. ou irmandade, possível entre Nieszche e Dostoievski. Os dois provavelmente teriam caído na porrada. Mas o erro de Nietsche era compreensível. Quem lê um único livro de um autor, fora de contexto, teria todas as justificativas do mundo para presumir estar lendo as próprias idéias do autor. Afinal, a maioria dos autores faz isso.

Na verdade, Nietszche presta um grande elogio a Dostoievski. O espírito da ficção é esse: criar pessoas reais, capazes de idéias reais, que não necessariamente são as nossas. O autor, idealmente, deve desaparecer, e levar consigo suas idéias e sua biografia, e deixar que seus personagens vivam e brilham, alimentados por sua energia vital.

Baseado nesse episódio entre Nietszche e Dostoievski, incluí o seguinte trecho em meu romance, Mulher de Um Homem Só: Memórias do Subsolo FIODOR DOSTOIEVSKI
"Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia, pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo - carregava uma edição sempre em sua bolsa, que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado - e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. Tinha uma idéia totalmente distorcida de Dostoievski, claro, baseada em uma amostra não-representativa, e, por isso mesmo, não terminou os Karamazovi, parecia que o autor estava traindo a si mesmo. Se tivessem lhe dito que o Dostoievski verdadeiro era o dos Karamazovi, teria ficado furiosa, gritaria heresia! Deveria ter acabado o romance. E era - ou se dizia, ou se pensava - uma rebelde, uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados em frente à praia e tinha um motorista sempre à disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso - por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as mulheres lavassem suas próprias calcinhas."
O trecho em itálico acabou sendo cortado da versão final, muito a contra-gosto, pois concluí que a narradora, Carla, uma mulher não muito intelectualizada, jamais faria um comentário alexandrino desses.

Notas do Subsolo continuará enganando muitos leitores por aí.

O Jogador, de Dostoievski Jogador, Um FIODOR DOSTOIEVSKI

Li bastante coisa de Dostoievski. Seu melhor romance é O Jogador. Dostoievski não teve tempo de estragar O Jogador. Já li duas vezes. É sensacional.

História de jogo e obsessão, passada no casino de Roletemburgo, na Alemanha (adoro esse nome), O Jogador foi escrito em menos de um mês, para pagar uma dívida do autor. Se ele não entregasse o romance, perderia os direitos às suas obras.Crime e Castigo FIODOR DOSTOIEVSKI

Ele contratou uma secretária (que depois tornou-se sua esposa) e ditou o romance pra ela. Quando terminou, não conseguiu encontrar seus credores e intuiu que tinham sumido para que ele perdesse o prazo. Foi então para uma delegacia e entregou o romance, registrado, ao delegado, confirmando que estava pronta na data acertada.

Na falta de tempo, Dostô não conseguiu enfiar no livro suas teorias nacionalistas, religiosas e reacionárias. Teve que se limitar em contar uma história sensacional de forma magistral.

Coitadinho. Sempre considerou O Jogador uma obra menor. Na verdade, somente isso já é um bom indicador da qualidade do livro.

Polina

Naturalmente, sou apaixonado por Polina, a melhor femme fatale de Dostoievski. Como escreveu uma crítica:
Polina was the original of all the proud, "demonic", passionate, exacting women of later novels, but it was in The Gambler that he painted his most complete portrait of her, a portrait detailed, intimate, affectionate and indeed tender.
E um trecho:
The thought that I was fully conscious of her inaccessibility, and of the impossibility of my ever realising my dreams, afforded her, I am certain, the keenest possible pleasure. (...) She had looked upon me in the same light that the old Empress did upon her servant--the Empress who hesitated not to unrobe herself before her slave, since she did not account a slave a man. Yes, often Polina must have taken me for something less than a man!

Podolatria

Há sempre um elemento de podolatria explícita nas obras de Dostoievski - menos, incrivelmente, em Crime e Castigo. Alguns dos melhores trechos estão em O Jogador. Quase posso imaginá-lo ditando esses trechos para a pudica secretária que viria a ser sua esposa.

Já no finalzinho, o narrador está aos pés da mulher que levou todo seu dinheiro:

And she lifted up a really ravishing foot - small, swarthy, and not misshapen like the majority of feet which look dainty only in bottines. I laughed, and started to draw on to the foot a silk stocking, while Mlle. Blanche sat on the edge of the bed and chattered. (...)

"What? You mean to say that we should spend the whole in two months?"

"Certainly. Does that surprise you very much? Ah, vil esclave! Why, one month of that life would be better than all your previous existence. One month - et apres, le deluge! Mais tu ne peux comprendre. Va! Away, away! You are not worth it. Ah, que fais-tu?"

For, while drawing on the other stocking, I had felt constrained to kiss her. Immediately she shrunk back, kicked me in the face with her toes, and turned me neck and prop out of the room.
Nova Tradução Brasileira

A Folha de São Paulo publicou a resenha abaixo, da nova tradução brasileira do excelente Boris Schnaiderman:
Jogador tem fluência do original

O título não é aquele a que você está acostumado, mas não há motivo para desconfiança, pois a tradução é excelente.

Sob o nome de "Um Jogador - Apontamentos de um Homem Moço", a Editora 34 lança no Brasil o mais conciso romance de Fiódor Dostoiévski, em tradução de Boris Schnaiderman.

Schnaiderman é cultuado como um dos maiores tradutores de literatura russa para o português, e explica em seu posfácio o porquê de ter adotado uma escolha de título diferente da habitual. A língua russa não tem artigos. O título original é simplesmente "Igrok", normalmente traduzido, quer em português, quer em outros idiomas, como "O Jogador", com artigo definido. O tradutor argumenta, contudo, que o emprego do artigo definido se deve ao fato de os editores usualmente eliminarem o subtítulo da obra que ele aqui inclui, traduzindo como "Apontamentos de um Homem Moço".

"Realmente o artigo só pode ser o indefinido. Baseado nisso e no texto do romance, eu o vejo como a confissão de um jogador russo, aliás bem russo, agressivamente russo, nunca "o jogador", como personalidade genérica." Longa discussão refere-se a quanto há de Dostoiévski na vida desse "agressivamente russo" Aleksiéi Ivanovitch, instrutor dos filhos de um general que padece de paixão por sua enteada, Polina, numa fictícia estação de águas, Roletemburgo.

Sabe-se que Dostoiévski realizou viagens pela Europa Ocidental, e consumiu-se em paixões tanto pela roleta, quanto por uma Polina Súslova. Mas seria empobrecedor reduzir "Um Jogador" à categoria de "roman à clef", no qual cada personagem e evento do livro corresponderia a fatos da vida real de seu autor. Parece mais justo afirmar que Dostoiévski lançou mão de sua experiência para elaborar uma de suas mais poderosas obras. A expressão "capitalismo-cassino", tão cara a Robert Kurz, vem à mente nesta Roletemburgo em que todas as relações estão monetarizadas, e no qual a posse de papel-moeda perseguido nas mesas de jogo determina inexoravelmente a inserção e as escolhas de cada personagem. Jogador, Um FIODOR DOSTOIEVSKI

O narrador afirma que "no catecismo das virtudes e méritos do civilizado homem ocidental, entrou historicamente, e quase na qualidade de primeira condição, a capacidade de adquirir capitais". Para além do conteúdo, entretanto, o que mais conquista no aspecto formal do "Jogador" é a escrita "conturbada" tão característica de Dostoievski, e que o aproxima tanto da literatura moderna. O ritmo da prosa, às vezes, nos lembra de seus tempos de autor de folhetim, por deixar em finais de capítulo um "suspense" que só será resolvido nas páginas seguintes.

Não custa lembrar que o escritor russo, em sua época, foi acusado de "escrever mal", por não se preocupar em repetir palavras, nem ter preciosismo nas regras gramaticais. Schnaiderman jamais incorre na tentação de "corrigir" Dostoievski, empolando a obra com tom solene que seria estranho a seu autor. O texto chega ao leitor lusófono com a mesma fluência e simplicidade de vocabulário do russo. Se o tradutor, na "língua de chegada", pode ser definido como co-autor da obra por ele vertida, então não seria exagero ver em Schnaiderman o co-autor ideal de Dostoievski."
O Jogador - O FilmeThe Gambler

O Jogador é um dos poucos livros realmente bons cujo filme é tão bom, ou melhor, do que o livro. O filme, de 1997, nunca passou nos cinemas por aqui, mas dá pra ser alugado nos bons videoclubes.

A genialidade do filme está em incorporar a conturbada gênese do livro em seu enredo, mostrando, alternadamente, Dostoievski seduzindo a secretária e o narrador sendo humilhado por Polina, e ainda traçando paralelos entre a obsessão por jogo tanto do autor quanto do personagem.

Filmaço.

Com certeza, O Jogador é a melhor introdução à Dostoievski. Talvez seu melhor livro: o mais despretensioso, o com menos idéias, o que insulta menos as opiniões e o respeito próprio do leitor.

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Postada no blog em Janeiro de 2005

 

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