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  Alex Castro
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Incrível Capacidade de Não-Escrever - Alexandre Cruz Almeida

A Não-Alienação Não Leva a Nada

Em 2002, recém-falido, eu não tinha eira nem beira. Não via TV, não lia nenhum jornal ou revista, livros só da biblioteca e acessava a Internet via conexão discada, sempre precariamente, sempre rápido, e ainda gastava todo o meu dinheiro com pulsos excedentes. Futuro profissional? Nenhum. Dava aulas de inglês no cursinho do bairro e olhe lá.

Nunca fui tão feliz como em 2002. Foi o auge da minha alienação. Jamais fui tão egocêntrico. De certo modo, quando se vive assim, é quase como se o mundo não existisse. Mergulhei dentro de mim mesmo, descobri civilizações inteiras lá dentro, dobrei o Cabo Bojador, exporei a fossa das marianas.

Se eu passasse 10% do meu tempo na Internet era muito.

Nessa época, nasceu a persona do Liberal Libertário Libertino e foram gestadas (se não escritas) as prisões.

Em 2004, não sou mais alienado.

Em parte por causa da minha coluna na Tribuna, eu assino, e leio de cabo a rabo, a Folha, o Globo e a própria Tribuna. Além disso, também leio, na Internet, bons pedaços do JB e New York Times. E ainda fico passando a limpo sites de notícias como Ananova, Slate, Wired e outros, verdadeiro colunista-predador em busca de assuntos e novidades.

Meu horizonte profissional mudou. Sou colunista de jornal, emplaquei diversos serviços de consultoria para grandes empresas, mantenho alguns sites, mas continuo dando aulas no mesmo cursinho de bairro.

Tenho Velox e passo o dia inteiro conectado. Quando não estou escrevendo pro blog, estou editando posts, catando imagens, subindo imagens pro servidor, buscando links pros posts, pesquisando para uma coluna, entrevistando alguém, divulgando meu blog, respondendo comentários, comentando no blog dos outros, negociando trocas de links e divulgação, pra não falar, claro, de trabalhar pros meus clientes de consultoria e corrigir deveres de casa.

Alguns, quase todos, aliás, diriam que a minha vida melhorou.

Tenho dormido três horas por noite e estou cansado. Passo, fácil, 70% (talvez mais) do meu tempo conectado. Saio pouco. Leio quase nada. Há muito tempo, não saio flanando sem rumo pelas ruas.

Sinto falta do meu egocentrismo. A não-alienação não leva a nada.

Vocês Pensam?

Mas como posso escrever novas prisões se estou preso nessa rede de contatos? Como posso refletir se nunca mais fico sozinho? Não tenho tempo nem mais de ler, quem dirá de pensar.

Quantas vezes por dia vocês páram e pensam? Não estou falando de deixar o pensamento vagar enquanto cagam. Estou falando de pensar, pensar mesmo. Refletir sobre alguma coisa específica. Tentar chegar a alguma conclusão sobre alguma coisa. Levantar questões.

Alguém pelo menos sabe do que estou falando?

Pois é disso que sinto falta.

Pragmatismo Versus Conformismo

Em post anterior, Não Existe Almoço Grátis: Conformismo Nunca, Pragmatismo Sempre, alguém comentou que existe uma linha muito tênue entre essas duas coisas.

Na verdade, a diferença entre ambos os conceitos é enorme e grotesca, mas existem pontos de contato e interseção.

Pragmatismo é o que eu tenho que fazer pra conseguir o que eu quero. O pragmatismo é sempre ativo, mesmo que você, ativa e pragmaticamente, decida que a melhor coisa se fazer naquele momento é se ajoelhar e lamber as botas do inimigo. De forma pensada e consciente.

Conformismo é uma atitude perante a vida, é um temperamento, é uma doença cultural. Conformismo é fazer as coisas sem saber porquê, é obedecer as ordens sem se perguntar de onde elas vieram. É o não-questionar.

Muitas das pessoas que se acham as mais revolucionárias e rebeldes são, na verdade, tremendamente conformistas. Conheço muitos vanguardistas de butique. Na verdade, você dizer com quem anda não quer dizer nada. Se anda com os vanguardistas, com os revolucionários, com os radicais mas nunca questiona o que eles dizem, se você somente repete o que eles falam, se engole todos os dogmas acriticamente, então, meu amigo, você é um conformista.

Há pontos de interseção entre o pragmatismo e o conformismo. Quando você é forçado, pragmaticamente, a não fazer nada, um observador superficial pode achar que você está sendo conformista.

Na verdade, não há mesmo como ele saber. A diferença está no seu coração.

E Se Todo Mundo Fizesse Como Você?

Invariavelmente, alguém sempre pergunta isso. É uma das objeções mais idiotas que se pode fazer contra qualquer argumento ou idéia.

Imaginem um engenheiro projetando um prédio, calculando todas as variáveis possíveis, força do vento, erosão do solo, etc, e um intrometido vem dizer: e se cair um cometa no prédio?

Porra, diria o engenheiro, a possibilidade de isso acontecer é tão pequena que não precisa ser calculada, ou mesmo levada em conta.

Eu digo mais: a possibilidade de um cometa cair em um prédio é infinitamente maior do que a de todas as pessoas adotarem o meu estilo de vida. Até que porque a primeira é improvável, mas a segunda é impossível.

Naturalmente, isso não é algo que eu precise levar em conta quando exponho minha filosofia. Ainda mais importante, não é nem mesmo desejável.

Não estou falando com os outros. Não estou pregando no deserto para modificar o comportamento dos homens.

Estou falando comigo mesmo. Estou expondo como cuido da minha vida.

Você, por favor, cuide da sua como achar melhor.

Sou Mais Eu do Que o Mundo

Há pessoas combatem a alienação. São uns criminosos contra a humanidade. Sem nossa alienação, o que seria de nós?

Para escrever a coluna sobre o John Kerry, tive que pesquisar bastante, em jornais e blogs. Estou muito antenado (ou seja, nada alienado) sobre o assunto eleições norte-americanas.

Poucos assuntos poderiam ser mais relevantes. A vitória de um ou de outro candidato terá um impacto direto em nossas vidas.

Mas e daí? Essa não-alienação vai me ajudar em quê? Sou uma pessoa melhor por estar mais informado sobre a eleição? Isso me tornou mais maduro, mais sábio? Isso vai me ajudar na minha vida? Vou poder influir no curso dos acontecimentos?

Outro dia, num teste-surpresa, minha mulher pediu pra eu dizer três coisas que ela não gostava de comer. Eu não soube dizer nenhuma.

Saber que coisas minha mulher não gosta de comer é um conhecimento infinitamente (repito, infinitamente) mais importante do que saber qualquer coisa sobre as eleições norte-americanas, inclusive o simples fato de que elas vão acontecer.

Quanto mais antenado fico com o mundo, mais me distancio de mim mesmo. Sou mais eu do que o mundo a qualquer hora. Quem perde com esse processo de distanciamento sou eu, não o mundo. Está na hora de revertê-lo.

Há um universo inexplorado dentro de cada um de nós. O Waldomiro, o MST, os tiros na Rocinha, o homem na lua, a batalha de Stalingrado, tudo isso empalidece comparado aos enormes mistérios que carregamos conosco de um lado pro outro.

Eu quero explorar os meus.
 

Esse artigo continua em Como Perder a Vida na Internet

Postada no blog em Abril 26, 2004

 

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