A felicidade só pode existir no presente. No futuro, ela é um engodo. No passado, quase sempre uma aflição.
Felicidade futura é uma das ferramentas mais reacionárias e conformistas da todos os tempos. Em nome de uma pretensa felicidade eterna no paraíso, gerações e gerações se submeteram às mais desumanas tiranias. Em pleno século XXI, a quimera de uma boa poupança, sua casa própria e uma velhice tranqüila também faz com que milhões trabalhem como mouros hoje, dando suas vidas em holocausto a uma felicidade futura que pode jamais acontecer.
Mas a felicidade futura é um perigo por demais conhecido. Também terrível é a felicidade passada.
O Ponto de Ônibus
Existe um ponto de ônibus no qual vivi momentos de intensa felicidade.
Eu estava namorando uma colega de trabalho, Valéria. Ela era linda, sexy e inteligente. Psicóloga, mestre em Filosofia, me apresentou a Antônio Nóbrega e a Roberto Freire. Além disso, era uma verdadeira Rainha Má e tinha tesão em me fazer lamber seus pés e adorar suas botas.
Sinto muito sua falta em minha vida.
Todo dia, às seis, eu ia levá-la no ponto. Enquanto esperávamos seu ônibus chegar, nos beijávamos apaixonadamente.
Meu grande objetivo era fazê-la perder o número máximo de ônibus possível. Ela perdia o primeiro, perdia o segundo, tinha dias que perdia o terceiro e quarto, embalada nos meus beijos. Só não perdia mais porque estava indo para um segundo emprego e não podia se atrasar.
Hoje, esse ponto fica perto da minha casa. Dou voltas enormes para evitá-lo. Passar por ele me faz mal. Tanta felicidade morta tem um peso opressivo. Quanto maior a felicidade, mais fedorenta a massa putrefata.
Um triplo assassinato não teria deixado a atmosfera tão pesada quanto aqueles longos beijos ao pôr-do-sol. Passo por lá e posso sentir o velho ponto de ônibus me atormentando, esfregando minha felicidade passada em minha própria cara, me acusando de não ser tão feliz quanto era, de não ser tão feliz quanto poderia ser.
Fantasmas Nada Assustadores
Nas histórias de terror, os fantasmas são vítimas de terríveis violências, pobres pessoas de cabeças decepadas e unhas arrancadas, impedidas de alcançar o descanso eterno pelas dramáticas circunstâncias de suas mortes, condenadas a vagar por nosso mundo buscando por seus algozes.
Que escritores mais sem imaginação! Fantasmas assim nada têm de assustadores.
Eu poderia chegar em casa todos os dias e conviver com eles sem problema algum.
Boa noite Headless Nick, boa noite Gaspar, como vão?, ainda sentindo cócegas no braço decepado?, já conseguiu encontrar o seu assassino?, não?, puxa, que chato, alguma pista?, me passa o porto?, ah, é verdade, você é imaterial, pode deixar que eu pego, etc.
Assassinato, morte e mutilação, além de não serem tão terríveis assim, pelo menos dão assunto.
Uma Casa Verdadeiramente Mal-Assombrada
Muito pior seria morar em uma casa verdadeiramente mal-assombrada.
Imaginem uma ex-casa de festas, onde adolescentes perderam a virgindade juntos em êxtases de felicidade, onde casamentos representaram a culminação dos desejos de várias vidas, onde casais se conheceram e experimentaram aquela alegria primordial de se encontrar sua alma gêmea.
Acontecimentos posteriores não importam. Acontecimentos posteriores sempre estragam tudo. A ex-virgem ficou grávida, o cara fugiu e deu a maior merda. O casamento acabou em adultério e recriminação menos de um ano depois. O casal que se conheceu nunca se juntou, pois ele foi transferido e ela não quis ir atrás. Não interessa.
Aqueles momentos foram tão infinitamente extasiantes que ficaram cravados na estrutura do universo, impregnados nas paredes da casa, se recusaram a deixar de existir e caminhar para as trevas do passado juntos com os outros momentos comuns.
Não, meus amigos. Um momento realmente feliz nunca deixa de existir. Ele continua reverberando para sempre. Sua existência é tão concreta que ele quase pode ser visitado, como se visita a casa de um velho amigo.
E imaginem que terror seria chegar em casa e tentar tomar tomar um café na cozinha logo no momento em que o tal casal está se conhecendo melhor - o quê?, você também colecionou Watchmen?, não acredito!
Ao contrário dos assassinados, mutilados e amaldiçoados, esses dois nem mesmo conversam comigo, não me dão a menor bola, não me fazem companhia. Só querem saber um do outro. Eles se bastam para a eternidade.
Lá em cima, a mesma coisa. Nas noites em que os virgens se manisfestam, tenho que ir dormir no sofá: eles fazem muito barulho e ocupam a cama toda. Já tentei inclusive mudar a cama de quarto e nada. Eles seguem a cama. Deve ter sido naquela cama mesmo. Inferno.
A felicidade dos outros sempre é algo sufocante. Se o outro for nós mesmos, alguns anos antes, é pior ainda.
Água e Chocolate
Eu e minha esposa mal tínhamos nos conhecido e decidimos passar um fim-de-semana juntos. Éramos adultos e barbados e, mesmo assim, num arroubo de rebeldia juvenil, não contamos a ninguém para onde estávamos indo nem com quem.
Pegamos um ônibus para um balneário próximo, fomos nos comendo já no ponto e ao longo de todo o trajeto, mal nos segurando pra não transar pelo caminho.
Paramos em uma vendinha e, enquanto nos agarrávamos cada vez mais intensamente, compramos água, guaraná, chocolate em barra e biscoito recheado de chocolate. Devidamente munidos de calorias em estado bruto, nos enfiamos no quarto mais barato da pensão mais vagabunda e lá ficamos, de sexta a segunda, só saindo para comprar mais água e chocolate.
Na segunda, já sabíamos que queríamos passar o resto da vida um com o outro, faltava só ajeitar os detalhes. Nove meses depois, estávamos morando juntos.
De Castigo
Há momentos de felicidade que nos exaurem e há os que nos recarregam. O segredo é fugir dos primeiros e buscar os últimos.
Via de regra, eu evito o ponto de ônibus e não penso muito nele. E, quando estou deprimido, visito o meu primeiro fim-de-semana com minha mulher.
Como Funes, o memorioso, eu fecho os olhos, dou um passinho pro lado e estou lá. Ele existe ainda, concretamente, fisicamente, sempre ao meu alcance. Sinto tudo o que senti, vejo tudo o que vi. E volto de lá refeito, recarregado, pronto pra outra.
Os meus últimos dias foram difíceis. Não saí de casa, não comi nada, não usei o computador, não tive ânimo de pegar nem O Globo debaixo do carpete. Chorei e chorei.
A porta do meu fim-de-semana estava trancada. Fiquei de castigo no ponto, sozinho, esperando por um ônibus pra me tirar dali.
E o ônibus nunca veio.
* * *
O bom de estar deprimido é que pelo menos volto a escrever direito. Esse post é como deveriam ser (e como costumavam ser) todos os posts desse blog.
O título é referência aos "ghosts of christmas past" (fantasmas dos natáis passados), de A Christmas Carol, do Dickens. Funes, o memorioso é protagonista de conto homônimo do Borges, um cara que lembra de absolutamente tudo, com um único problema: pra lembrar de um dia ele precisa de um outro dia. Nearly Headless Nick é um fantasma quase sem cabeça dos livros do Harry Potter e Gaspar é o Gasparzinho depois de velho.
Uma versão bastante editada desse texto foi publicada na Tribuna da Imprensa, no dia 1 de junho de 2004. A versão não-editada que você está lendo nesse blog é de minha inteira responsabilidade e contém informações que não foram aprovadas e muito menos publicadas pela Tribuna da Imprensa. Quaisquer reclamações, portanto, devem ser dirigidas a mim.
Postada no blog em Maio 25, 2004
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