A história da galinha do Homem que Copiava começou com uma simples pergunta sobre um filme e se transformou em uma discussão sobre a natureza da verdade e da identidade. Foi uma história fascinante que só poderia ter acontecido em um blog. Vou fazer o possível aqui para engessá-la em formato de artigo.
Tudo começou quando fiz o seguinte post no blog (Junho 25, 2003):
"É pra eu aprender a não zoar. Em geral, entendo tudo quanto é filme. Tem gente que me liga pra eu explicar enredos complicados de policial.
Mas essa eu não entendi. Não entendi mesmo. Poderia ficar calado, mas pra isso precisaria nascer de novo. Zoei dos meus alunos e Matrix. Vocês agora também têm todo o direito de zoar de mim.
Mas, pelamordedeus, alguém entendeu qual foi a função da galinha do final de O Homem que Copiava??
Spoiler Alert: Quem não viu o filme ainda, não leia os comentários, pois como isso se passa no final, qualquer explicaçãozinha superficial já vai entregar o filme todo."
Logo depois, o próprio Jorge Furtado, o diretor do filme (ou será que não), aparentemente encontrou meu blog através de uma busca e fez um comentário (Junho 28, 2003). Isso gerou um novo post (Junho 30, 2003):
"Quem já viu o filme, sabe do que estou falando. Quem não viu, melhor parar de ler por aqui, pois vou entregar o final. Aliás, se não viu, deixa de ser bobo e veja.
Enfim, é pra eu aprender a não zoar. Em geral, entendo tudo quanto é filme. Tem gente que me liga pra eu explicar enredos complicados de policial. Mas essa eu não entendi. Não entendi mesmo. Poderia ficar calado, mas, pra isso, precisaria nascer de novo e isso dá o maior trabalho. Zoei dos meus alunos não entenderem Matrix. Vocês agora também têm todo o direito de zoar de mim.
Mas, pelamordedeus, alguém entendeu qual foi a função da galinha do final do Homem que Copiava??
Fiz um post sobre isso alguns dias atrás e, agora, vocês podem me zoar mais ainda.
Eu, em geral, tenho um dom pra ver o simples. Trabalho como consultor de usabilidade, arquitetura da informação e conteúdo. Minha função, basicamente, é simplificar sistemas complexos, desde um site de e-commerce até uma intranet de call-center. E sou bom nisso.
Mas, dessa vez, eu mesmo me driblei. Fiquei buscando explicações complicadas e todo mundo me falando que era tudo mais simples do que parecia. Aliás, me driblei não. Fui driblado: caí direitinho no conto do André.
Finalmente (sério, vocês não amam a Internet?), o próprio Jorge Furtado encontrou meu blog em uma busca e veio dar a sua contribuição. Sim, isso mesmo: contribuição. Não veio explicar nem resolver nada. Como bom artista, Furtado sabe que, uma vez parido, o filme é tão dele quanto de qualquer outro e que sua opinião é só mais uma. A cacofonia de interpretações, pelo contrário, só faz valorizar uma boa obra de arte.
Enfim, com exclusividade para o LLL, Jorge Furtado comentando a galinha do Homem que Copiava. Para ver as opiniões a que ele se refere, cliquem nos comentários:
"Alô vocês.
Encontrei o blog procurando opiniões sobre o filme (google: “o homem que copiava” + blog). Gostei dos textos e adorei a discussão sobre a galinha.
Na minha opinião (o filme não é mais meu, cada um que invente um significado para ele) a Larissa e a Giovana estão certas. A galinha, na verdade, não tem nenhuma importância real. André inclui a galinha no plano apenas para que todos, inclusive imprensa e polícia, fiquem se perguntando para que serve a galinha, distraindo a atenção sobre o crime. Na cena final, no Corcovado, Cardoso lê a notícia sobre a morte de Antunes e comenta que “eles falam mais da galinha que do morto”. A idéia de André era exatamente esta.
Tem outra coisa: a inclusão da galinha é também uma crítica a mania que a imprensa têm de supervalorizar matérias com bicho (nos anos oitenta, era quase uma regra do Jornal Nacional terminar com matérias sobre bichos). No filme há uma matéria assim na tevê, a mãe de André assiste a um jornal que fala longamente sobre um leão marinho.
Mas já vi gente escrevendo que a galinha é uma referência ao Buñuel e também ao “Cria Cuervos”, do Saura, que tem uns pés de galinha inexplicáveis dentro da geladeira. Estamos pensando em fazer um “ciclo da galinha no cinema brasileiro”, com “O Homem que copiava”, “Cidade de Deus” (cena inicial) e “Ave”, curta do Paulo Sacramento.
Informo a todos que a galinha utilizada no filme não foi sexualmente molestada nem sofreu maus tratos. Isto, é claro, até o filme acabar. Depois ela foi assassinada, depenada, esquartejada, assada e comida com arroz.
Um abraço a todos."
Pra quem gosta de ler sobre cinema nacional, recomendo meu artigo sobre o Edifício Master:
O Lado Cômico do Edifício Master
O artista sabe o quanto está se expondo. Os entrevistados do Edifício Master sabiam? Acho que não. Falaram com uma simplicidade e uma sinceridade que não dedicamos nem aos nossos psicanalistas. Falaram sério e esperaram ser levados a sério. Será que ouviram as gargalhadas?"
Naturalmente, a história está só começando. Logo depois, apareceu também, para comentar, a Luana Piovani (Julho 2, 2003):
"Só uma pergunta: Meu caro Alexandre, como pode ter tanta certeza que foi o próprio Jorge Furtado que escreveu em seu blog? abraço, Luana"
Excelente pergunta, Luana.
(continua em A Diferença entre a Verdade e a Mentira, onde falo sobre anarquia e internet, identidade e privacidade e importância do autor versus importância da mensagem...)
Postado no blog entre Junho 25 e Julho 2, 2003
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