(continuação de A Galinha do Homem que Copiava)
Naturalmente, eu não podia ignorar um comentário de Luana Piovani e, no dia seguinte, fiz um post a respeito:
"A belíssima Luana Piovani, que trabalhou com Jorge Furtado em O Homem que Copiava, teve o seguinte a dizer sobre o post do dia 30 de junho:
"Só uma pergunta: Meu caro Alexandre, como pode ter tanta certeza que foi o próprio Jorge Furtado que escreveu em seu blog? abraço, Luana Piovani"
Ora, Luana, (aliás, adorei você como Morgana Le Fey, no Sítio) que pergunta boba! E como você sabe que quem mantém esse blog é mesmo o próprio Alexandre Cruz Almeida? Como você sabe que existe algum Alexandre Cruz Almeida?
Não sei se me lê, ou se tem acompanhado os textos sobre as prisões, imagino que seus vários compromissos não lhe deixem muito tempo pra ler blogs, mas digamos que eu seja, na verdade, uma mulher de 60 anos. E daí? Isso invalida alguma coisa?
Você deveria ler a Prisão Nº3: A Verdade, em que eu falo sobre essa nossa obsessão pelo meio que acaba nos cegando para a mensagem.
Teve gente que leu esse texto e gostou, se identificou. Será que o fato de não existir nenhum Alexandre Cruz Almeida e desse blog, na verdade, ser escrito a quatro mãos por duas adolescentes de Altamira, muda alguma coisa?
Eu acho, em geral, que quando o texto é bom, o autor torna-se irrelevante. Ele pode ter escrito o texto zoando. Pode ter escrito o oposto do que pensava. Não interessa. O que ele escreveu como mentira vai ver é a minha verdade. A ironia de um é o dogma do outro.
O destinatário é muito mais importante do que o remetente. É ele que decifra, interpreta e contextualiza a mensagem. Quem é o autor, o que ele queria dizer, isso tudo é besteira. Mesquinharia.
Então, Luana, eu te digo o seguinte: o Jorge Furtado, com o apoio dos meus outros leitores, me convenceu que o objetivo da galinha era mesmo despistar a imprensa.
Estou satisfeito. Mas será que era mesmo o Jorge Furtado? Nem vale a pena pensar nisso. Afinal, não foi ele mesmo que disse que o filme não é mais dele?"
Logo depois, no mesmo dia, Lázaro Ramos, a outra estrela do filme, fez um comentário realmente sensacional:
"Meu caro Alexandre,
Eu acho que a misteriosa Luana Piovani, assim como a galinha do filme, tb conseguiu despistar a imprensa ... (risos)
Talvez a intenção dela fosse satirizar o sensacionalismo caótico de seu blog libertário...onde para atrair seus leitores é preciso apelar para um suposto comentário de um Furtado qualquer, ou não.
Quem sabe foi o próprio Furtado? Quem sabe alguém furtou sua ilustríssima identidade?
Quem sabe o suposto Furtado reprenta aquela galinha em seu blog?
Pois é, meu caro Alexandre, a vida tem dessas coisas. Uma hora, somos originais; outra hora, somos cópia. Uma hora, enganamos; outra hora, somos enganados.
É o preço que pagamos quando nos entregamos cegamente à anarquia desenfreada da internet.
De qualquer forma, me amarro no seu blog e continuarei lendo, sem medo de ser liberal, libertário e libertino.
um abraço do seu amigo que copiava,
Lázaro Ramos"
Finalmente, para fechar o assunto, antes que ficasse enfadonho demais, fiz o seguinte post (Julho 7, 2003):
"Nos últimos dias, Jorge Furtado, Luana Piovani e Lázaro Ramos nos brindaram com comentários sobre o filme “O Homem que Copiava”.
Ou será que não?
A Luana Piovani, por exemplo, é de fato blogueira e navega bastante. Pra ela achar esse blog (durante alguma busca pelo seu nome mais o nome do filme) e comentar não seria nada do outro mundo.
Pro Jorge Furtado (como ele mesmo escreveu) fazer a busca que disse ter feito e cair aqui também não custa nada.
Pode ser que sejam mesmo eles? Pode. Pode ser algum engraçadinho zoando? Pode. Pode ser eu sacaneando vocês? Pode. Pode ser que o primeiro email foi mesmo do Jorge Furtado, mas o segundo, o da Luana, foi de um gaiato qualquer e eu decidi entrar na onda e postei como Lázaro Ramos? Pode.
Dá pra descobrir a verdade? Dá, claro. Nenhuma dessas pessoas é o Papa, todas têm meios diretos de contato relativamente acessíveis. Por que não escrever pro blog da Luana Piovani e perguntar se foi ela mesmo?
Porque não vale a pena.
O Harry disse: "Acho que entendi a sua pegadinha. Realmente foi genial. Você quer que eu pergunte como você pode ter certeza de que foi a Luana Piovani que te mandou esse e-mail. Provavelmente não foi. Mas isso não importa. O que importa é que você não conseguiu me pegar!"
Não tentei pegar ninguém. Tentei mostrar que não dá pra ter certeza quem mandou esse email – quem mandou nenhum email, aliás. E que não devemos nos preocupar muito com isso.
A mensagem é mais importante do que o mensageiro.
Se gostam do que escrevo, se isso ensina alguma coisa a vocês, se tem algum valor, então, pra vocês, isso é verdade. E continuará sendo verdade se eu for um gordinho sincero no Rio ou um gaiato irônico de Pernambuco. Não faz diferença.
O Walkbot escreveu: "Será que o fato de vc ser na verdade uma velhinha não muda nada mesmo? Ou duas adolescentes? Pode ser que pra nós, que não podemos saber a verdade, isso não importe, mas e suas intenções? E seus propositos? Isso não muda tbm? Não dá outro significado, mesmo que oculto, mesmo que seja só para vc mesmo? Ou os meios não importam, só o resultado justifica?"
Em termos literários, sim. Só o resultado justifica. Muitas vezes, o resultado é radicalmente diferente dos meios. Muitas vezes, o leitor entende algo radicalmente diferente do que o autor quis dizer. Mas aquilo que ele entendeu é importante pra ele, aquilo que ele entendeu é o que ele precisava entender. Tanto faz se o autor queria dizer outra coisa.
Concordo em tudo com o post do Lázaro Ramos: "Pois é, meu caro Alexandre, a vida tem dessas coisas. Uma hora, somos originais; outra hora, somos cópia. Uma hora, enganamos; outra hora, somos enganados. É o preço que pagamos quando nos entregamos cegamente à anarquia desenfreada da internet."
A Internet, por definição, é anárquica. Caminhamos cegos, captando sussurros em uma sala apinhada de gente. Ninguém é de ninguém, tudo é virtual, qualquer coisa é possível. Pode ser mesmo a Luana Piovani ali no seu blog. Por que não? Pode ser qualquer um, virtualmente qualquer um, se dizendo a Luana Piovani? Por que não?
Reparem que chamo o meu leitor de Lázaro Ramos. Afinal, foi com esse nome que ele se apresentou a mim e comentou no meu blog. O Harry Letterx e o Walkbot, dois dos meus leitores mais fiéis, não nasceram com esses nomes. Já a Eliane Pauvolid e o Gervásio Galante usam seus nomes reais. O que eu tenho a ver com isso? As pessoas podem se dar ou ter os nomes que quiserem. Harry Letterx é um nome tão bom quanto Lázaro Ramos ou Eliane Pauvolid.
O que me importa é que existe uma pessoa e ela está falando comigo, e eu quero ouvi-la. Ficar me perguntando quem ela é seria tão esdrúxulo quanto exigir CPF e RG de quem postasse aqui.
Só há uma diferença entre a verdade e a mentira: a mentira é sempre verossímil. A verdade, muitas vezes, é inacreditável."
Pra terminar: muitas semanas depois, um dos meus colegas de mestrado confessou ter feito os comentários da Luana Piovani e do Lázaro Ramos. Disse que estava me testando... e que eu passei. Ou seja, a indústria brasileira está com capacidade ociosa por causa de pessoas como ele.
O comentário do Jorge Furtado, quem sabe, pode até ter sido autêntico.
Leia agora o que os meus leitores tiveram a dizer sobre toda essa longa polêmica
Postado no blog entre Julho 2 e 7, 2003
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