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  Alex Castro
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A Alienação dos Mais Jovens 

Conflito de gerações sempre houve.

Mas ser adolescente em 1910 era muito parecido com ser adolescente em 1890. Ser adolescente em 1980, entretanto, é uma experiência cada vez mais diferente do que ser adolescente em 2000.

As rápidas mudanças de tecnologia e comportamento estão alargando o fosso entre as gerações. O outro, ou seja, o membro de outra geração, torna-se cada vez mais distante e mais estranho.

Como o preconceito nada mais é do que medo do outro, medo do desconhecido, estou me deparando cada vez mais do que chamo de preconceito entre gerações.

O exemplo mais comum é um comentário, que tenho lido em algumas crônicas, ou ouvido da boca de pessoas entre 30 e 50 anos:

"Você acredita que meu filho/sobrinho/etc nunca viu uma vitrola? Que nem sabia o que era um LP?! Que viu um telefone de discar e me disse que nem sabia como se ligava naquilo! Que não fazia idéia de quem era Elis Regina!"

E todos balançam a cabeça, lamentam o pobre estado da juventude de hoje e pedem mais um chope.

Se o comentário fica por aí, tudo bem. Acho até normal as pessoas ficarem chocadas ao saber que objetos de uso comum do seu dia-a-dia e que seus ídolos de antigamente estão caindo no esquecimento. Afinal, isso nada mais é do que a nossa mortalidade sendo nos esfregada na cara. A fila anda.

Tenho 29 anos, dou aulas pras moleques entre 12 e 16 e, realmente, me choca constatar que eles desconhecem quem seja Ronald Reagan, Elis Regina e até mesmo Lulu Santos. Mas, no meu caso, é só surpresa mesmo (caramba, é o cara que canta o tema da Malhação, como é que vocês não conhecem?!) que não se transforma em julgamento de valor.

Quase sempre, entretanto, esse estarrecimento natural é rapidamente transformado em crítica sem fundamento. O comentário seguinte, depois que chega o chope, é sobre a alienação dos jovens, que só pensam em suas vidinhas e acham que o mundo começou com eles.

"Outro dia, estava no carro com minha filha e as amigas, e você acredita que nenhuma delas, nenhuma, tinha ouvido falar de Elis Regina?! Ah, mas elas conhecem Coldplay, KLB, Kelly Key, Jota Quest, essas besteiras todas! Mais um, Juvenal!"

E eu pergunto, sua filha nasceu em que ano? Ele responde que foi em 1985, ou seja, três anos depois da morte da Elis. Eu pergunto quando ele nasceu. 1950, é a resposta.

Muito bem. Me diga o nome de algum grande cantor brasileiro da década de 40, que encerrou sua carreira até 1950. Ele não sabe. Nenhum nome lhe vem à cabeça. Eu, que sou de 1974, estava com Ary Barroso e Carmen Miranda na cabeça.

Ok, algum ator então, sabe o nome de algum ator brasileiro de destaque da época? Não. Mais uma vez, nada. Nem um nome sequer. E eu, de novo, pensando em Carmen Miranda e me perguntando se Oscarito era dessa época.

Algum escritor, pelo menos, sabe o nome de um escritor? Essa achei que seria fácil. Até Machado de Assis e José de Alencar seriam nomes válidos. Mas ele balbucia: Nelson Rodrigues. Não conta. O pornógrafo estava começando carreira na década de 40, não encerrando. Aliás, ele morreu apenas dois anos antes de Elis.

Quer dizer, o puto não conseguiu dizer o nome de um, de um! artista brasileiro de renome que tivesse encerrado sua carreira antes dele nascer e ainda se acha no direito de espinafrar a filha e as amigas por não conhecerem alguém que deixou de existir três anos antes de elas começaram a existir.

Francamente!

Depois disso, começa o preconceito tecnológico. Não é um absurdo os moleques de hoje nunca terem visto uma máquina de escrever manual? Não são uns alienados por nunca terem escutado um LP? Não são uns ignorantes por não saberem usar um telefone de discar?

Não, não, não.

Por que cargas d'água alguém, qualquer um em qualquer época, teria obrigação de ter familiaridade com objetos que não estão mais em uso, que não servem mais pra nada e que pertencem a um passado cada vez mais remoto?

Afinal, será que os nascidos em 1950 andaram de tílburi, acenderam candeeiros ou usaram escarradeiras?

Então não fode.

Postada no blog em Dezembro 03, 2003

 

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