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  Alex Castro
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Gilberto Freyre, Autor de Casa-Grande & Senzala

Gilberto Freyre (1900-1987) é, com certeza, o maior estudioso do nosso país. Se for ler somente um livro sobre Brasil, leia Casa Grande & Senzala. Se for ler dois, leia Sobrados e Mucambos.

O Valor da ObraCasa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre

Casa Grande & Senzala talvez seja a obra mais genial já escrita em nossa língua. Ela atinge picos de maestria, insight e pura delícia que são impossíveis de descrever. Uma nação que tenha alguém do calibre de Gilberto Freyre para explicá-la para si mesma poderia se dar por satisfeita na busca de sua identidade nacional. Tudo o que você quiser saber sobre o caráter do povo brasileiro está lá: e nada mais.

Algo em Comum

Tínhamos algo em comum. Ele também foi educado em Escola Americana, mas preferiu ir fazer faculdade fora. Nunca largou o Brasil, entretanto.

Gilberto, o Reacionário

Politicamente, Gilberto era conservador de fazer dó. O homem se auto-exilou no exterior em repúdio à Revolução de 30! Apoiou todas as ditaduras que viu pela frente, de Salazar à Castelo. Enfim, quem não se engana de vez em quando?

Uma das coisas mais divertidas da bibliografia sobre Casa Grande & Senzala são as reações histéricas e descompensadas da esquerda às teorias gilbertianas.

Durante a ditadura, enquanto os militares babavam o ovo de Gilberto e ele, o deles, o establishment acadêmico, tradicionalmente dominado pela esquerda, boicotou o livro o quanto pôde.

Não foi fácil: Casa Grande & Senzala é magistral demais para sumir por pirraça política. Depois do fim da ditadura e da morte de Gilberto, o livro começou a ser avaliada de forma mais imparcial.

O Primeiro Historiador das Mentalidades

Gilberto inventou a história dos costumes, da vida privada. Em uma época em que ainda só se escreviam anais dos grandes acontecimentos (1930), Casa Grande & Senzala utilizava diários, brinquedos, anúncios de jornal, e o que mais caísse nas mãos de Gilberto, para narrar o dia-a-dia do Brasil colonial.

Sobrados e Mucambos, de Gilberto FreyreGilberto, o Racista

Basicamento, sua obra canta as glórias da colonização portuguesa e da miscigenação racial. Segundo ele, o português foi um excelente colonizador e a miscigenação racial, algo extremamente positivo. Se hoje ainda tem gente desejando que tivéssemos sido colonizados pelos holandeses, imaginem como isso tudo não soou revolucionário e iconoclasta em 1930.

Como o próprio conceito de "elogiar" alguma coisa é anátema à pesquisa acadêmica marxista, o livro foi e é xingado até hoje. Inclusive de racista, a maior injustiça de todas. Gilberto era conservador e reacionário, mas racista, nunca.

Foi ele que, pela primeira vez, trouxe negros e mulatos ao primeiro plano da história do Brasil.

Divina Trilogia

A divina trilogia de Gilberto Freyre é composta de Casa Grande & Senzala (Brasil Colonial), Sobrados e Mucambos (século XIX) e Ordem e Progresso (século XX). O mítico e legendário quarto volume, Jazigos e Covas Rasas, jamais foi escrito mas, borgianamente, seu título já é tão genial que é quase uma obra em si.

Eu só li os dois primeiros, que recomendo com todas as minhas forças. Na verdade, sua unicidade em tema, escopo e estilo é tamanha que parecem um livro só, dividido em dois.

O terceiro, Ordem e Progresso, está na minha fila há anos. Estou louco para lê-lo, e ao mesmo tempo, tenho medo de ler e, depois, não tê-lo mais pra ler. Acho que só leitores contumazes entendem essa sensação.
Ordem e Progresso, de Gilberto Freyre

O Sexo!

Não há obras acadêmicas mais indolentemente impregnada de sexualidade do que as de Gilberto. Reparem no seguinte trecho de Sobrados e Mucambos:

"Nos banhos mornos ou quentes em que as iaiás mais lânguidas deixavam orientalmente que as mãos das mucamas não só as despissem e vestissem, descalçassem e calçassem, despenteassem e penteassem, como lhes esfregassem o corpo, o ensaboassem, o untassem de essências de jasmim, o enxugassem com toalhas finas e lhes lavassem e secassem o cabelo solto, é que, ao caráter de "festas de preguiça" (que teriam essas abluções como outros ritos da vida das mulheres senhoris da era patriarcal e escravocrática), talvez juntassem, menos inconscientemente do que os prazeres do cafuné, aproximações de luxúria lésbica."


Meu sangue esquenta só de ler isso. A linguagem é poética; seu ritmo, ao mesmo tempo lânguido e sexy. Gilberto era pura literatura.

Sua influência em mim é tão grande que incluí um parágrafo em sua homenagem em meu romance Mulher de Um Homem Só. Vejam se consegui captar o ritmo sexy e indolente do mestre:
Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre

"Lá do nosso jeito, a gente se entendia, e conversávamos muito, falávamos de Murilo, novela, política e fofocas em geral. Outras vezes, nem trocávamos palavra, e era assim que eu mais apreciava Júlia. Ela adorava mexer no meu cabelo, me pentear longamente, languidamente, lentamente, e eu gostava, me entregava, me prostrava, ficávamos no sofá da sala, ou até na rede mesmo, eu deitada sobre o colo de Júlia, sentindo a escova repuxar os cabelos, sentindo as pontas dos dedos massageando o couro cabeludo, sentindo aquela coceirinha marota nas raízes do cabelo, sempre naquela faina infindável, deliciosa, pachorrenta, úmida de tão boa, eu tenho cabelos longos, nunca cortei, vão até a cintura, e Júlia mastigava inveja, degustava mexer em meu cabelo, ajeitar, pentear e cheirar, e cuidadosamente enrolar em seus dedos e mãos e depois deixar desenrolar macio, e assim ficávamos as duas, horas, eu grávida e Júlia ali, puxando e repuxando, penteando e despenteando, depois, Raquel nascida, colocávamos o berço na sala e tudo continuava igual, eu dormia sentindo os dedos de Júlia em meus cabelos, acordava e ela ainda estava lá, e então, eu dormia de novo, e era tão bom, porque não havia palavras, não havia Murilo, não havia inconseqüência, não havia arte, não havia nada, só aquele momento, só nós duas, só aquele contato, e eu quase achava, eu me pegava imaginando que Júlia era minha amiga, uma daquelas amigonas de infância, companheira pro que descesse e subisse, sempre comigo, e assim eu me despejava naquele toque, me sumia naquele carinho, me desenganava naquele afago."
Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre

Gilberto Freyre e Podolatria

Eu já não engano mais ninguém. Todo mundo me conhece bem demais.

Reparem nesse trecho de uma entrevista que Gilberto Freyre, um autor que eu idolatro, concedeu à Playboy, em 1980.

Quem me mandou o trecho foi o chefe aqui do departamento de Português de Tulane, professor da aula de Literatura Lusófona que estou cursando:
PLAYBOY - E sua primeira experiência sexual com mulher, aos 15 anos, como foi?

FREYRE - É, foi muito brasileiramente, com uma empregada, doméstica. Nisso eu fui muito brasileiro, porque segui a experiência de muitos brasileiros, segundo creio...

PLAYBOY - Esse relacionamento durou quanto tempo?

FREYRE - Um, dois anos. De início no quarto dela, lá em casa, eu pulando o muro depois, para dar a impressão de que vinha de fora quando, entrava em casa. Mas depois tive encontros com ela fora de casa, quando, ela já era uma espécie de mulher independente.

PLAYBOY - Como era o tipo dela?Ordem e Progresso, de Gilberto Freyre

FREYRE - Era uma morena de tipo bem brasileiro, de um moreno claro, delgada de corpo, mãos e pés delicados, olhos muito bonitos. De origem humilde, mas com uma aparência aristocrática, com as graças de uma quase sinhazinha, sendo entretanto uma doméstica. Lembro-me que a beleza dos pés dela me impressionava... e devo dizer que pés bonitos de mulher são uma de minhas fixações sexuais. Quando, fui para os Estados Unidos e para a Europa e comecei a ver mulheres de pés grandes, sabe, isso foi um dos contrastes favoráveis ao Brasil que mais me impressionaram, o de não encontrar por lá aqueles pés bonitos, bem torneados, que são uma característica de grande parte das brasileiras.

PLAYBOY - E, além de sua fixação por pés femininos, o senhor tem alguma outra?

FREYRE - Eu direi que tenho uma fixação pela morenidade, embora já tenha tido experiências com louras. Na Universidade de Columbia, por exemplo, tive uma loura, bem lourinha, mas tão ardente quanto qualquer morena. Mas creio que a morenidade da mulher é uma de minhas fixações sexuais. Daí o meu grande entusiasmo, já velho, por Sônia Braga.

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Postada no blog em Dezembro de 2004

 

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Fico preocupado de ouvir um tradutor dizer que a pureza do original não existe ou que não deveria ser importante. Tremo de imaginar o que tradutores imbuídos dessa filosofia não devem modificar, interferir ou "melhorar" os livros que traduzem.

O Velho Libertário e o Jovem Discípulo      
Peço perdão por não ser mais o homem que escreveu esses livros. Mas nem mesmo naquela época eu era assim o tempo todo. O importante é que eu era assim no momento em que escrevi aquelas palavras. O importante é que você seja assim no momento de lê-las. O resto é ficção.

O Dever do Escritor 
Quem faz arte pra provar uma teoria filosófica, defender um governo ou mesmo socorrer uma pobre classe social oprimida não está fazendo boa arte. Está sendo, talvez, uma boa pessoa, um bom cidadão, um bom político, um bom filósofo. Mas um artista sofrível.

O Dever do Colunista 
Quando mataram a Liana e o Felipe, boa parte dos colunistas da grande imprensa não teve pudor algum em somente repetir o blá-blá-blá do senso comum. Cadê o profissionalismo dessa gente?

O Golpe de Mersault 
Camus distorce tanto nossa percepção que esquecemos que Mersault cometeu, de fato, o crime pelo qual está sendo acusado! O homem é culpadíssimo!

Heróis e Vilões 
Qualquer bom autor sabe fazer seu leitor ir aonde ele bem quiser, como um treinador balançando o osso na frente do cachorro. A good author can get away with anything.

Duas Leis das Artes Dramáticas 
Quem mais seria o vilão da história? Um estava morto, a outra era a mocinha e a outra era uma negona que tinha entrado no meio da trama. Só sobrava realmente ele.

A Escola Urbana 
Uma nova escola literária vem tomando conta da literatura brasileira há mais de 30 anos. Por falta de nome melhor, eu a chamo Escola Urbana.

Pacto da Mediocridade 
Que pacto de mediocridade é esse? Se nem os nossos formados em Letras-Inglês lêem Shakespeare no original, pra que servem? Não é esse seu trabalho?

Um Épico Injustiçado: O Senhor dos Anéis   
Os doutores da Academia, que suspiram por grandes épicos da humanidade como "La Mort d'Artur" e "Bewoulf", torcem os narizes para "O senhor dos anéis". É pena. Iriam adorar. O livro foi escrito para eles e por um deles.

Literatura Imaginativa   
os autores brasileiros parecem ter sido convencidos, em algum momento, que imaginação e boa literatura não combinam. O ideal de todos parece ser reescrever Um Coração Simples, do Flaubert, o romance, por excelência, onde nada acontece.

Romance do Não-Dito: Aquele Rapaz, de Jean-Claude Bernadet    
Aquele Rapaz é curto pois tudo foi cortado. Aquele Rapaz é riquíssimo, mas nada está lá impresso. Aquele Rapaz, na verdade, é somente um guia de leitura para um outro romance, maior e muito mais grosso, que simplesmente não existe.

Saber Ler Literatura   
Saber ler literatura é saber que abordar qualquer obra de arte jamais será uma atitude passiva. A verdadeira obra de arte exige compromisso, exige ação, exige feedback. Arte não se aprecia. Se apreciou, ou não é arte ou você entendeu errado. Verdadeira arte não se aprecia pois apreciar é uma atitude passiva e a verdadeira arte cobra interação.

A Grande Conversa   
Os clássicos não são só livros consagrados: eles são as vozes da Grande Conversa. Não estão mortos: eles falam, eles gritam, eles choram, uns com os outros, o tempo todo. Heráclito teoriza, Aquino racionaliza, Cervantes ri, Descartes sugere uma outra opção, Kant contextualiza e Marx destrói.

Lady Averbuck   
Ela parece merecer o apelido de Lady Averbuck. Tudo indica que é uma pessoa insuportável, mal humorada, ranzinza, arrogante e totalmente louca. O que importa é que ela é uma puta escritora.

Paulo Coelho na ABL   
Paulo Coelho pode ser um péssimo escritor, mas é um escritor. E isso, convenhamos, já é mais do que podemos falar sobre muitos dos membros da Academia, como Getúlio Vargas e Roberto Marinho.

Autores Libertários  
Muita gente tem me pedido sugestões de leitura. Autores bons há muitos. Mas como, em geral, quem me pede isso gostou desse blog, vou dar aqui uma lista dos meus pares, ou seja, autores que seguem, em larga medida, a linha filosófica desse brog: Whitman, Miller, Freire, Kerouac, Thoreau, Emerson, Sartre, La Mettrie.

Mais Livros do Mal  
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Literatura Contemporânea e Livros do Mal

Ultimamente, só venho lendo clássicos. Estou há mais de um mês no Dom Quixote, por exemplo. Sinto muita falta de literatura contemporânea, mas infelizmente isso custa dinheiro. Clássicos eu pego na biblioteca, eu baixo pela Internet e até mesmo compro edições baratíssimas em tudo quanto é sebo. Já, por exemplo, o novo livro do Bernardo Carvalho só comprando e pelo preço integral: não tem jeito.

 

LIBERAL LIBERTÁRIO LIBERTINO

Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.