1.
Introdução:
A
Grande
Guerra
Patriótica
em
Perspectiva
Definir
a
Segunda
Guerra
Mundial
como
tendo durado de 1939 a 1945 é
um
grave
etnocentrismo. O
conflito
que
começa
em
1939 e continua
por
1940
nada
tem de mundial: trata-se de uma
guerra
européia
apenas
e,
aliás,
bastante
rápida
e
limpa
se comparada a tantas outras.
Depois
da
evacuação
de Dunquerque,
em
junho
de 1940,
além
disso, o
conflito
mal
pode
ser
considerado
europeu,
quanto
mais
mundial. Sobram
apenas
a Grã-Bretanha e Alemanha,
nenhum
dos
dois
com
os
meios
de
sobrepujar
o
outro:
se
por
um
lado
a
Batalha
da Inglaterra é
um
fiasco
para
os
alemães,
os
britânicos
também
ainda
nem
consideram
voltar
para
o
continente
do
qual
acabaram de se
retirar.
O
que
resta
de
guerra
são
pequenos
encontros
no
Mediterrâneo
(onde
a
nova
aliada
da Alemanha, a Itália,
tenta
em
vão
provar
seu
valor)
e as
ações
submarinas no
Atlântico.
Que
houve uma
guerra
mundial é
indiscutível,
mas
ela
se inicia
somente
com
o
ataque
japonês
a Peal Harbor,
em
dezembro
de 1941, seguido da
mais
insensata
de todas as
decisões
insensatas de Hitler —
declarar
guerra,
sem
a
menor
necessidade,
aos
Estados
Unidos — e termina
com
a
rendição
da Alemanha,
em
maio
de 1945.
Antes
e
depois
desse
período,
o
que
existe
são
incontáveis
conflitos
regionais,
em
todas as
partes
do
globo,
que
se fundem
em
um
só
quando
do
ataque
a Peal Harbor.
Muitos
desses
conflitos,
vale
a
pena
ressaltar,
são
anteriores
à
guerra
mundial e
outros
ainda
vão
prosseguir
por
muito
tempo
depois
que
ela
termina.
Para
os chineses,
por
exemplo,
a
guerra
já
começa
em
1937,
para
os
gregos,
ela
se estende
até
1949.
Dentre
os
vários
conflitos
que
“formam” a
Segunda
Guerra
Mundial,
entretanto,
nenhum
pode se
comparar,
seja
qual
for o
prisma
que
se
escolha
para
observá-los, à
Grande
Guerra
Patriótica,
nome
com
o
qual
os
soviéticos
batizaram
seu
confronto
com
a Alemanha
nazista,
de
junho
de 1941 a
maio
de 1945.
A
enormidade
dessa
guerra
é
tamanha
que
apenas
quantificá-la
já
exige
esforços
extremos
de
abstração.
Afirmar,
nas
palavras
de
um
historiador
militar
inglês,
que
“a
Segunda
Guerra
Mundial foi
essencialmente
ganha
e perdida na
Frente
Leste[1]”,
é
quase
um
truísmo
—
ou,
pelo
menos,
deveria
ser.
A historiografia
ocidental
tende a
dar
muita
ênfase
a
sua
própria
participação no
conflito
e,
por
razões
ideológicas
durante
a
Guerra
Fria,
a praticamente
ignorar
o
papel
fundamental
desempenhado
pela
União
Soviética.
O
fato
dos
arquivos
russos serem restritos e
sua
historiografia
bastante
parcial
também
não
ajudam
em
nada
a
que
se tenha uma
visão
mais
global
de
como
a
Grande
Guerra
Patriótica
se insere
dentro
da
perspectiva
da
Segunda
Guerra.
Em
comparação
com
as
batalhas
na
Frente
Leste,
tudo
mais
o
que
se fez na Europa
Ocidental
parece
mínimo
em
escala.
Para
citar
apenas
um
caso:
quando
da
maior
invasão
anfíbia
de
todos
os
tempos,
o celebrado
Dia
D — uma
vitória,
aliás,
bastante
suada — 62% dos
efetivos
da Wehrmacht estavam
baseados
no
leste
e os 38% restantes espalhados pelas todas as outras
frentes[2].
Batalhas
ocidentais,
como
a da Inglaterra, do
Atlântico,
El Alamein e Normandia,
apesar
de
sua
enorme
importância
estratégica,
empalidecem
quando
comparadas às
batalhas
de Kursk, Stalingrado, Moscou
ou
Berlim.
Alguns
números,
então:
em
toda
a
Segunda
Guerra,
as
forças
armadas
alemães
sofreram
mais
de 13
milhões
de
baixas,
das
quais
quase
11
milhões
apenas
na
Frente
Oriental[3].
Já
o
número
total
de
soviéticos
mortos
durante
a
guerra
era,
até
bem
pouco
tempo
atrás,
estabelecido
como
sendo de 20
milhões.
Agora,
entretanto,
depois
da glasnost, do
colapso
da
União
Soviética
e
com
a
abertura
gradual
dos
arquivos,
pesquisadores
começaram a
reescrever
a
história
da
guerra
—
vide
os
excelentes
trabalhos
de Duffy e da
dupla
Glantz e House,
respectivamente
de 1991 e 1995 — e desenterraram
fatos
ainda
mais
estarrecedores: de
acordo
com
as
recentes
pesquisas
da
dupla
citada,
por
exemplo,
as
baixas
militares
da
União
Soviética
são
de
pelo
menos
30
milhões,
dos
quais
11
milhões
mortos[4].
Tantos
os
dados
alemães
quanto
soviéticos
referem-se
apenas
aos
militares,
que
fique
claro:
pela
própria
natureza
dessa
guerra,
as
mortes
de civis
em
ambos
os
lados
devem
ter
sido de
igual
magnitude,
senão
maiores,
e
impossíveis
de se
precisar.
As
estimativas
mais
altas,
embora
ainda
assim
razoáveis,
para
o
total
de
baixas
da
União
Soviética
estão na
ordem
dos 50
milhões[5].
Mas,
afinal
de
contas,
como
desabafou
recentemente
um
historiador
inglês,
o
quer
dizer
exatidão
estatística
quando
as
grandezas
envolvidas
são
tão
astronômicas? Faz alguma
diferença
se o
número
de
mortos
durante
os
três
anos
do
cerco
de Leningrado foi de 1
milhão
de
pessoas
—
um
terço
da
população
da
cidade
—
ou
de “apenas”
750
mil
quando
a
própria
magnitude
desses
números
escapa
à
nossa
compreensão[6]?
Basta,
portanto,
para
os
objetivos
desse
trabalho,
estabelecer
a
enormidade
—
mesmo
que
apenas
aritmética
— da
Grande
Guerra
Patriótica
e
sua
importância
dentro
do
contexto
da
Segunda
Guerra
Mundial e da
própria
História
do
Século
XX.
A
explicação
para
este
número
tão
monstruoso de
baixas
não
reside
apenas
nas
novas
e
mais
avançadas
armas
disponíveis
mas,
principalmente,
no
fato
desta
ter
sido uma
guerra
ideológica,
ou,
na comparação de Hobsbawm, o equivalente do
século
XX das
guerras
de
religião[7].
Tentar
compreender
a
Grande
Guerra
Patriótica
sem
pensar
o
nazismo
e o
comunismo
é
como
estudar
a
Guerra
dos Trinta
Anos
sem
levar
em
conta
o
catolicismo
e o protestantismo. Os
soldados
alemães
e
soviéticos
não
combatiam
apenas
por
objetivos
concretos,
como
conquista
de
territórios
ou
rotas
de
comércio
—
questões
sobre
as
quais
pode
haver
acordo
—
mas
também,
e
principalmente,
pela
fé
que
tinham
em
sua
religião,
em
seu
regime:
em
suma,
guerras
de
morte
travadas
entre
adversários
irreconciliáveis.
Opostos
ideológicos podem
até
conviver
em
clima
de
guerra
fria
e desconfiança
por
muito
tempo,
talvez
indefinidamente
dependendo das
ideologias.
Uma
vez
em
combate
aberto,
entretanto,
a
própria
fé
de
cada
regime
em
si
mesmo
impedirá
que
se deponham as
armas
até
que
um
dos
lados
esteja
não
apenas
derrotado,
mas
totalmente
destruído. O
conflito
entre
o
paladino
do
Comunismo
e o
paladino
do Nazi-Fascismo
não
poderia
ser
diferente,
uma
guerra
travada
por
muito
mais
do
que
território
e
riqueza,
mas
pelo
monopólio
da
verdade
e de uma
determinada
maneira
de
ver
o
mundo.
Como
poderiam
não
ser
altíssimas as
baixas
em
uma
guerra
na
qual
o
país
invasor
(em
primeira
instância,
a Alemanha)
vinha
munido
de uma
teoria
como
a Untermensch — entusiasticamente partilhada,
desnecessário
dizer,
pela
grande
maioria
dos
soldados
—
que
pregava
ser
o
inimigo,
literalmente,
um
subumano
e
merecedor,
portanto,
de
tratamento
condizente?
Além
disso, a
União
Soviética
não
era
signatária
da
Convenção
de
Genebra,
o
que
permitiu aos
alemães
alegarem
que
os russos
não
mereciam
nem
os
cuidados
mínimos
a
que
teriam
direito
os
prisioneiros
de
guerra.
Ou,
nas
palavras
do
General
Nagel, do
Departamento
de
Economia
da OKW[8]:
“Ao
contrário
de
outros
prisioneiros,
não
temos
obrigação
alguma de
alimentar
os bolcheviques capturados[9].”
Como
poderiam
não
ser
altíssimas as
baixas
em
uma
guerra
na
qual
o
país
invasor
(em
segunda
instância,
a
União
Soviética)
vinha
munido
de
um
desejo
de
vingança
sem
paralelos
na
História?
Nesse
caso,
nem
é
preciso
que
se
traga
a
ideologia
à
baila:
nunca
um
povo
que
sofreu o
que
os
soviéticos
sofreram teve
chance
de se
vingar
tão
rápido
de
seu
ex-nêmesis e
nunca
nenhum
soldado
teve
tanto
a
vingar
quanto
os
que
invadiram a Alemanha
em
1945. E
pior,
a
medida
que
a
contra-ofensiva
avançava, partindo do
coração
da
União
Soviética
em
direção
a Berlim, os
soldados
do
Exército
Vermelho
tinham
chance
de
testemunhar,
em
primeira
mão,
o
estado
em
que
se encontravam as
áreas
que
os
alemães
iam evacuando (e destruindo)
em
sua
retirada.
Depois
desse
rápido
panorama
do
conflito,
cabe
afirmar
que
o
objetivo
desse
ensaio
não
é, e
nem
poderia
ser,
tratar
da
Grande
Guerra
Patriótica
como
um
todo.
Pretendo
abordar
somente
o
que
considero o
seu
aspecto
essencial:
o
confronto
das
ideologias,
sem
o
qual
não
é
possível
nem
o
mais
limitado
entendimento
da
guerra,
e,
dentro
disso, uma
dicotomia
inerente
a
todo
regime
dominado
por
um
partido
único
e
forte:
o
confronto
Exército
vs.
Partido,
ou,
em
outras
palavras,
de
um
Exército
profissional
contra
um
Exército
politizado.
Especificamente, vou
tratar
de
um
momento
bem
limitado no
tempo,
verão
e
começo
de
outono
de 1942, e das mudanças
fundamentais
ocorridas na
estrutura
tanto
do
Exército
Vermelho
quanto
da Wehrmacht nesse
período.
Pressionados pelas
circunstâncias
e
pelo
desespero,
Hitler e Stalin se vêem
obrigados
a
tomar
medidas
drásticas — e
diametralmente
opostas.
Mas
por
que
essa
época
em
particular?
O
que
estava acontecendo
em
meados
de 1942
para
prontificar
ambas as
lideranças
a reformas
tão
radicais?
2. 1942:
Verão
Negro
para
o
Exército
Vermelho
e
Zênite
da Wehrmacht
O
verão
de 1942 pode
ser
considerado,
talvez,
o momento-chave da
Grande
Guerra
Patriótica
e,
com
certeza,
um
momento
crítico
para
ambos
os
lados.
Do
ponto
de
vista
soviético,
segundo
alguns
autores,
o chamado “verão
negro”
foi o
período
mais
difícil
da
guerra[10].
Em
1941, Stalin
ainda
podia escudar-se na
justificativa
de a
União
Soviética
ter
sido
atacada
de
surpresa
e
que
o
invasor,
naturalmente,
dispunha de
ampla
vantagem
estratégica
por
causa
disso. No
verão
de 1942,
entretanto,
qual
era
a
desculpa?
Mais
de
um
ano
se passara, os
soviéticos
haviam sofrido
perdas
inimagináveis
nesse
meio
tempo
e os reveses no
campo
de
batalha
ainda
continuavam: no
espaço
de
poucos
meses
em
meados
de 1942, a
península
de Kerch, na Criméia, foi
tomada,
a
Batalha
de Kharkov perdida, Sebastopol caiu
depois
de
nove
meses de
cerco,
a
cidade
de Rostov abandonada
sem
luta
e os
alemães
avançavam
pelo
Cáucaso,
em
direção
à Stalingrado, ao
leste,
e aos
ricos
campos
petrolíferos
de Baku e Grozny, ao
sul.
Um
verão
negro,
sem
dúvida,
e Stalin
tinha
razão
em
estar
preocupado:
para
lidar
com
as
novas
dificuldades,
mudanças estruturais no
Exército
e no
modo
de
conduzir
a
guerra
se faziam
prementes.
Para
os
alemães,
os
prospectos
também
não
pareciam
nada
bons.
Na
verdade,
o “verão
negro”
é
assim
chamado
por
ter
sido o
ponto
mais
baixo
da
União
Soviética
na
guerra:
daí
em
diante,
o
país
iria se
recuperar,
retomar
a
iniciativa
e, mantendo-a
por
boa
parte
do
tempo,
começar
a
série
de
vitórias
que
o levaria,
eventualmente,
à
vitória
final.
Em
consequência, a Alemanha estava no
zênite
do
seu
poderio
militar
e,
para
alguns,
as
nuvens
no
horizonte
próximo
se tornavam
cada
vez
mais
discerníveis: a Wehrmacht, pode-se
dizer,
vencera
demais,
estava
muito
distante
de
sua
base
de suprimentos e sofrera
perdas
enormes
em
homens
e
material
no
atrito
com
os
soviéticos.
Chegava a
hora
de
pagar
o
preço.
Na
opinião
de
alguns
autores,
como
Hobsbawm,
desde
essa
época
que
a
guerra
já
estava perdida
para
os
alemães,
apesar
disso “não
parecer
imediatamente
óbvio,
pois,
afinal,
o
Eixo
atinge o
auge
de
seu
sucesso
em
meados
de 1942 e
não
perde
totalmente
a
iniciativa
militar
até
1943[11].”
Ou,
na
metáfora
de Glantz e House
sobre
os
resultados
do
primeiro
ano
do
conflito:
“O ‘florete’
alemão,
criado
para
vencer
conflitos
limpa
e
eficientemente,
perdeu o
fio
devido
ao repetidos e muitas
vezes
desastrados
golpes
da
simples,
primitiva,
mas
enorme
clava
soviética[12].”
Por
fim,
outro
especialista,
Duffy, coloca a
questão
nos
seguintes
termos:
“A
guerra
alemã estava perdida,
em
termos
de
qualquer
cálculo
racional
de
recursos
materiais
e
humanos.
Já
em
1942,
oficiais
bem
informados do OKH[13]
estavam
cientes
do
desastre
de
proporções
gigantescas
que
se desenhava[14].
Em
suma,
se o
verão
não
havia sido
negro
como
para
os
soviéticos,
o
outono
seguinte
e os
próximos
verões
não
prometiam
muito:
Hitler
tinha
razão
em
estar
preocupado.
Para
lidar
com
as
novas
dificuldades,
mudanças estruturais no
Exército
e no
modo
de
conduzir
a
guerra
se faziam
prementes.
Que
mudanças?
3. Totemismo e
Escapismo:
A Wehrmacht de Hitler
Em
1939, o
Exército
alemão
que
vai à
guerra
é,
como
qualquer
outro
exército,
o
braço
armado do
regime
vigente.
Em
uma Alemanha de
partido
único,
entretanto,
isso
equivale a
dizer
que
a Wehrmacht,
em
grande
parte
e
como
não
poderia
deixar
de
ser,
era
também
o
braço
armado do
Partido
Nazista.
A
História
de
como
o
Nazismo
venceu a
luta
Exército
vs.
Partido
na Alemanha é
longa
e
complexa
demais
para
ser
contada
aqui
e se confunde
com
a
própria
História
da
ascensão
dos
Nazistas
ao
poder.
Para
os
propósitos
desse
trabalho,
basta
que
se liste
brevemente
os
seguintes
fatos:
que
a
luta
Exército
vs.
Nazismo
de
fato
aconteceu;
que
o
Exército
apoiou a
ascensão
dos
Nazistas
ao
poder
como
melhor
alternativa
ao
comunismo
(e na
crença
errônea,
segundo
Clark, de
que,
se o
apoio
do
Exército
“fizera” Hitler, bastava a
retirada
desse
apoio,
a
qualquer
hora,
para
que
Hitler caísse[15]);
que
uma das
prioridades
de Hitler,
assim
que
chegou ao
poder,
foi
subordinar
o
Exército
ao
seu
comando
o
mais
rapidamente
possível,
com
a
justificativa
de
que
a
Grande
Guerra
havia sido perdida
por
causa
dos
erros
de
cálculo
de
um
Estado-Maior
independente
demais
e
que
não
respondia a
ninguém;
e
que,
por
fim,
pelo
menos
até
1938,
militares
alemães
ainda
se davam ao
trabalho
de
reclamar
formalmente
a Hitler
contra
sua
interferência
em
assuntos
que,
segundo
eles,
só
diziam
respeitos
aos
militares.
Que
o
Partido
ganhou a
batalha
contra
o
Exército
isso
é
óbvio,
senão
a Alemanha
Nazista
não
teria podido
fazer
a
guerra.
Mas
existem
diversos
tipos
de
vitória:
lidando
com
os
militares,
Hitler usou da
mesma
tática
através
da
qual
o
Partido
Nazista
conquistara a Alemanha.
Como
explica Goebbels, há duas
maneiras
de se
fazer
a
revolução:
a
simples
é
metralhar
a
oposição
até
que
os sobreviventes reconheçam a
superioridade
dos atiradores; a
outra
é
transformar
a
nação
através
de uma
revolução
mental
e
ganhar
os
corações
dos
opositores
ao
invés
de aniquilá-los —
naturalmente,
segundo
Goebbels,
esse
é o
método
nazista[16].
Stalin,
homem
simples,
executou
ou
prendeu
pelo
menos
30
mil
de
seus
oficiais,
criando
assim
um
Exército
Vermelho
composto
quase
que
somente
de
comunistas
ardorosos —
mas
não
necessariamente de
militares
competentes.
Hitler preferiu a
alternativa
mais
sutil
e se utilizou dos
mais
diversos
recursos
psicológicos
(nas
palavras
de Clark, totêmicos[17])
para
associar
sua
figura
a do
Exército.
Por
exemplo,
a
introdução
da
suástica
nos
uniformes
e
em
todos
os
outros
símbolos
militares,
como
flâmulas
e
bandeiras,
servia
para
identificar
cada
vez
mais
o
Partido
com
o
Exército
aos
olhos
do
povo,
independente
do
grau
de
alienação
política
de
cada
oficial.
Além
disso, o
antigo
juramento
militar,
prestado à
constituição
republicana, foi substituído
em
1934
por
um
juramento
a
própria
pessoa
de Hitler, no
qual
cada
soldado
jurava
obediência
incondicional
a
ele,
o Führer do Reich e
comandante
supremo
do
Exército[18].
A
outra tática de Hitler foi cortar totalmente os militares da
vida política do país e tirar-lhes qualquer autonomia que
pudessem ter tido. O golpe final nessa batalha entre o
Exército e o Partido Nazista foi, segundo Clark[19],
a unificação de todos os departamentos e ministérios
militares (dentre os quais o OKH, o Alto Comando do
Exército, era dominante) em um novo órgão sob o comando
direto do Führer, o OKW, ou Alto Comando das Forças
Armadas. Hitler agora controlava tudo o que dizia respeito
aos militares, desde a decisão de quando ir à guerra (antiga
prerrogativa do OKH) até os estabelecimento dos objetivos de
guerra e como alcançá-los.
Para
complicar ainda mais a questão, o OKH não era simplesmente
subordinado ao OKW mas, muitas vezes, agia como órgão
irmão. Embora ambos estivessem sob o comando direto de
Hitler, cada um tinha seu Estado-Maior próprio e áreas de
atuação diferentes: o OKH, a frente leste e o OKW, a frente
oeste. A fronteira entre essas áreas passava a meio caminho
entre Belgrado e Budapeste[20]
— tornando qualquer ação militar na região do Danúbio um
pesadelo burocrático! — mas esse era o menor dos problemas.
Como cada oficial era mantido cuidadosamente ignorante sobre
o que acontecia na outra frente, a principal justificativa
de Hitler para rejeitar as opiniões de seus Estados-Maiores
era que nenhum daqueles oficiais tinha uma visão geral do
conflito. Naturalmente que não — afinal, todo o sistema
havia sido elaborado justamente para que apenas Hitler
pudesse ter essa perspectiva global!
A
consequência lógica de tudo isso para a Wehrmacht é
simples: uma vez que estavam vivos (ao contrário dos
oficiais fuzilados por Stalin) e totalmente impedidos de se
envolver em questões externas à corporação, como política,
ou até mesmo grande estratégia, os militares alemães tinham
que se voltar para dentro.
O
Exército, apesar de “domado”, não havia sido politizado,
mas, pelo contrário, alienado da política. Sem mais o que
fazer, os alemães desenvolviam novas doutrinas táticas que
enfatizavam cada vez mais a autonomia dos soldados e
oficiais no campo de batalha — como compensação de terem
perdido a voz quanto às grandes questões de estratégia. Não
há melhor exemplo da autonomia tática do soldado alemão que
a teoria da Auftragstaktik (ou comando orientado de
missão), segundo a qual os subordinados deveriam ser
instruídos quanto aos objetivos a serem alcançados, mas, ao
mesmo tempo, receber ordens o mais abertas o possível em
relação a como cumprir esses objetivos. Como consequência,
os oficiais alemães, no campo de batalha, tinham não somente
estímulo para tomar a iniciativa como eram também os mais
versáteis na adversidade, em reagrupamentos ou retiradas[21].
Outra
pequena vitória do Exército é que, durante todo o período
anterior à guerra, ele conseguiu se manter livre da
influência mais direta das instituições nazistas na conduta
de seus assuntos internos. O novo juramento militar de 1934
é significativo ao refletir essa realidade um tanto dúbia:
os soldados juram lealdade pessoal a Hitler, não ao
Partido Nazista.
Mas a
verdade é que Hitler ganhara a batalha: nas palavras de
Clark, ele tivera sucesso em cortar a autonomia das forças
armadas sem, com isso, alienar os oficiais contra ele e nem
interferir nas suas bases de hierarquia, disciplina e
eficiência, impelindo-os “a uma devoção escapista aos mais
tacanhos detalhes técnicos de cada tarefa[22].”
Essa
era a Wehrmacht que invadiu a União Soviética, menos
uma guerra e mais uma cruzada religiosa:
“A ascendência que Hitler havia estabelecido sobre seus
generais na política era tão absoluta que ele não temia que
os seus feitos no campo de batalha, por mais espetaculares
que fossem, ameaçassem seu domínio sobre eles. De fato, o
Führer considerava que sua autoridade pessoal sobre o
Exército seria confirmada pela campanha, de poderoso
conteúdo ideológico, e justificada pela atenção especial
que ele pretendia dedicar à sua condução. (...) Na primavera
de 1941, a Wehrmacht se erguia vitoriosa, invicta, treinada
e equipada à perfeição, uma maquina de lutar
maravilhosamente equilibrada e coordenada no auge de seu
poderes marciais. Aonde ir agora? A mera força
gravitacional, ao que parece, já deveria atraí-la em direção
ao seu único inimigo restante no continente[23].”
(grifo meu)
4. Soluções Simples e Fiasco no Gelo: O Exército Vermelho de
Stalin
Descrever a situação do Exército Vermelho antes da guerra é
tarefa bem mais simples do que fazer o que mesmo com a
Wehrmacht, pois afinal, Stalin, como já foi dito, dos
dois métodos revolucionários citados por Goebbels, escolheu
também o mais simples: extermínio. De 1937 até a invasão
alemã de 1941, Stalin limpou o Exército Vermelho de qualquer
traço de dissidência, pensamento diferente do seu e
criatividade. Com raras e honrosas exceções — exceções
essas que iriam salvar a União Soviética muito em breve —
quase todos os oficiais destacados por suas habilidades
militares foram “expurgados”.
Clark
faz uma comparação interessante entre a atuação de Hitler e
Stalin no confronto Exército vs. Partido. Ambos os líderes,
de ditaduras personalistas e de partido forte, tiveram que
enfrentar o problema de domar os militares e subordiná-los
aos seus próprios fins. A maneira como fizeram isso,
entretanto, foi bem diferente e deixou seqüelas profundas em
ambos os países:
“Hitler ‘contornou’ seus generais e, em poucos anos,
conseguira excluí-los da política, onde haviam reinado
supremos por meio século. Então, com uma mistura de
suborno, adulação e intimidação, ele conseguiu fazer com que
canalizassem suas energias e seu conhecimento para um único
campo: a eficiência militar. Mas o corpo de oficiais
soviético não foi isolado, ele foi esmagado. Quando
terminaram os expurgos, o Exército Vermelho estava obediente
ao ponto da imbecilidade; confiável mas sem experiência;
desprovido de peso ou ambição política em detrimento de sua
iniciativa e desejo de inovação[24].”
Esse
exército politizado pós-expurgos sofre seu batismo de fogo
já em 1939: questões de segurança levam a União Soviética a
invadir a pequena Finlândia. Em um dos maiores fiascos
militares do século, o ardor comunista dos politizados
oficiais soviéticos leva uma surra das balas finlandesas:
mais de 1 milhão de soldados do poderoso Exército Vermelho
levam quase três meses para derrotar os 300 mil homens
(sendo que 80% de reservistas) das forças armadas da
Finlândia.
O
revés tem importantes consequências, uma das quais é difícil
de se estimar a grandeza: que o fiasco finlandês confirma as
idéias de Hitler sobre a inferioridade do soldado soviético
isso é certo. E embora não se possa afirmar — como já se
fez — que é esse desprezo que convence Hitler a invadir a
União Soviética[25],
fica no ar outra dúvida: teria esse desprezo levado Hitler a
subestimar demais a capacidade militar soviética e de
cometer erros e negligências que não teria cometido contra
um inimigo que levasse mais a sério? Difícil dizer.
Já a
outra consequência é bem mais palpável: Stalin fica chocado
com a incompetência do seu “exército político”. Mal as
tropas voltam para casa e já se começa a implementar um
plano geral de reformas militares. Aliás, uma das
justificativas de Stalin para as derrotas soviéticas do
primeiro ano da Grande Guerra Patriótica era que o país
tinha sido pego, literalmente, de calças na mão, no meio das
reformas. É verdade, mas também é verdade que, não
houvessem essas reformas nem sido começadas, a situação
teria sido bem pior.
A
maioria das reformas (mudança do tamanho das divisões,
criação de novos corpos de carros blindados, etc) foge ao
objetivo desse trabalho, com uma exceção: a questão dos
Oficiais Políticos.
5. Guerra Patriótica, e Com Razão: Muda o Eixo da Propaganda
Soviética
Oficiais Políticos, Oficiais de Conduta, Oficiais de
Liderança, Comissários Políticos, cada país lhes dá o nome
que quer, mas regimes partidários não podem abrir mão deles
assim como não podem abrir mão de seus exércitos. Oficiais
Políticos são aqueles que vigiam os que estão com as armas,
aqueles cujo trabalho é justamente garantir que as armas não
estejam nas mãos “erradas”. O Oficial Político faz parte do
Exército e vai para a frente de combate mas, salvo exceções,
não luta: vigia. Uma de suas funções é cuidar para que a
moral esteja sempre alta, o que equivale dizer, entre outras
coisas, que ninguém pode resmungar contra o regime em sua
frente.
Em
tempos revolucionários, como, por exemplo, na própria
Revolução Russa, Oficiais Políticos são necessários até
mesmo do ponto de vista militar: em situações de crise e
guerra civil como aquela, é imperativo saber quem está do
seu lado e quem não está. Já em outras situações,
entretanto, como nos casos de Hitler e Stalin, Oficiais
Políticos nada mais eram que os olhos e ouvidos do regime e,
como tal, mal vistos por soldados e oficiais.
Desaparecidos da União Soviética depois da Guerra Civil, os
Oficiais Políticos ressurgem durante os expurgos. Como se
sua presença já não fosse suficiente por si só para baixar o
moral das tropas, os novos Oficiais Políticos ainda dividem
o comando de cada unidade com o seu comandante militar
propriamente dito. Em suma, as decisões têm que ser tomadas
em conjunto pelos dois, ou, pelo menos, aceitas por um
deles; naturalmente, a responsabilidade é de ambos. Não é
difícil de se imaginar como esse sistema pode ser desastroso
em situações de crise ou de emergência, quando decisões têm
que ser tomadas em segundos e unidade de comando é
fundamental.
De
qualquer modo, os soviéticos não precisaram imaginar: bastou
a curta guerra com a Finlândia para que ficasse provado que
o sistema não funcionava em combate. Uma das primeiras
mudanças da reforma militar de 1940 é justamente a extinção
do comando duplo: os Oficiais Políticos continuam onde
estão, com as mesmas obrigações de zelar pela moral e pelo
ardor ideológico dos soldados, apenas não dividem mais a
direção das unidades com seus comandantes propriamente
ditos.
Poderia se dizer que os soviéticos aprenderam a lição:
embora úteis para a manutenção do regime em tempo de paz,
Oficiais Políticos são uma séria desvantagem em tempo de
guerra. Logo, entretanto, Stalin reverte posições: a 22 de
junho de 1941, a Alemanha invade a União Soviética e, menos
de um mês depois, impressionado com a enormidade das
derrotas soviéticas, Stalin reintroduz os Comissários
Políticos e o sistema de comando duplo.
A
guerra continua e Werth[26]
menciona até que, depois das primeiras batalhas do verão de
1941 e do cerco a Moscou, houve um novo tipo de expurgo no
Exército Vermelho: um expurgo militar entre os políticos do
Exército, ao invés do tradicional expurgo político entre os
militares[27].
Na situação desesperadora na qual o país se encontrava,
havia cada vez menos tolerância para com a incompetência e a
inépcia: independente de ardor comunista, quem não provasse
seu valor em batalha era dispensado dos postos de comando em
favor dos futuros grandes líderes da guerra, que vinham
sendo promovidos rapidamente hierarquia acima.
No
ano que se seguiu, o Exército Vermelho continuou sofrendo
derrota em cima de derrota, recuando e se reorganizando,
absorvendo todos golpes alemães. Por fim, em outubro de
1942, após mais uma série de derrotas e com a cidade que
levava seu nome sendo atacada por todos os lados, Stalin
revoga novamente, como já fizera após a Guerra da Finlândia,
o comando duplo. Os Oficiais Políticos, mais uma vez,
perdem suas prerrogativas de comando.
A
atitude de Stalin em relação aos Oficiais Políticos parece
ambígua. Ele os tira de cena logo depois do fiasco
finlandês, como se tivesse percebido o quão pouco eles
ajudam em tempo de guerra mas assim que outra guerra se
impõe — uma bem mais séria, aliás — uma de suas
primeiras medidas é ressuscitar os Comissários e seu comando
duplo. No ano seguinte, depois de uma série de derrotas tão
terríveis que nenhuma outra nação teria podido absorvê-las e
sobreviver, Stalin elimina de vez os Oficiais Políticos.
O que
eles representavam para Stalin? Um recurso de manutenção do
sistema em tempo de paz? Uma arma de guerra para as horas
de desespero? A lógica de Stalin me escapa e uma discussão
mais detalhada a respeito de suas motivações também foge ao
escopo desse trabalho. Mas talvez a chave do enigma esteja
em um pequeno fato que muitos autores parecem ignorar: vai
ver Stalin conhecia até bem demais a realidade de um Oficial
Político. Afinal, fora nesse posto que ele passara boa
parte da Guerra Civil — onde, aliás, ao vigiar os militares,
adquiriu a desconfiança deles que nunca mais abandonou[28].
Paralelo às idas e vindas dos Comissários Políticos no
Exército Vermelho, também é interessante notar uma outra
mudança no eixo retórico de Stalin: forçado pelas
necessidades da guerra, seu discurso passa de comunista para
nacionalista. Ao contrário de sua retórica anterior,
comunista e internacionalista, tecendo elogios às virtudes
soviéticas e do Partido, Stalin agora apela para o
sentimentos mais nacionalistas, até mesmo regionalistas, de
cada um.
Werth, observador atento dos jornais da época, comenta que,
subitamente, logo após a invasão alemã, a ênfase na palavra
“soviéticos” desaparece e o eixo da propaganda governamental
passa a girar em torno da Rússia, das virtudes russas, da
herança cultural e histórica russa que tem que ser
preservada, da coragem russa contra o inimigo, etc[29].
Até mesmo a vitória na Batalha de Moscou Stalin dedica aos
trabalhadores moscovitas, embora estivessem estado
envolvidos na defesa da cidade mais de 1 milhão e 250 mil
soldados, dos quais grande parte, naturalmente, não era de
Moscou[30].
Não
se luta mais pelos ideais de antes, pelos ideais da
Revolução, ou da Guerra com a Polônia ou com a Finlândia.
Não se luta mais pelo comunismo internacional ou pelos
trabalhadores do mundo que se unirão a nós. Essa é a Grande
Guerra Patriótica e o prêmio pelo qual se luta é a
Pátria-Mãe Rússia. Ou, nas palavras de Hobsbawm, “a
verdadeira base da vitória soviética foi o patriotismo da
maioria da nacionalidade da URSS, os russos, cerne do
Exército Vermelho e para quem o regime soviético apelou em
seu momento de maior necessidade. De fato, a Segunda Guerra
Mundial se tornou conhecida na URSS como a Grande Guerra
Patriótica, e com razão[31].”
6. Conclusão: O Que Há em Um Título?
Um
exemplo contemporâneo e — creio eu — relativamente inocente
das várias ênfases que se pode dar à ideologia partidária,
nacionalista ou personalista está na própria bibliografia
desse trabalho. “When Titans Clashed: How the Red Army
Stopped Hitler” de David Glantz e Jonathan House, foi
publicado em 1995, com base nas mais novas descobertas
documentais na Rússia e já é tido como um dos melhores
livros revisionistas sobre o tema. O título, entretanto, me
causou estranheza logo de início e me lembrou de um amigo
que voltou de viagem dizendo ter visitado Paris, Londres e a
Grécia.
Por
que a falta de paralelismo em “Como o Exército Vermelho (a
instituição) Deteve Hitler (a pessoa)”? Porque não falar em
termos instituição/instituição (“Como o Exército Vermelho
Deteve a Wehrmacht”) ou pessoa/pessoa (“Como Stalin
Deteve Hitler”)? Além disso, existem também outras
combinações, como a ideológico-partidária (“Como o Comunismo
Deteve o Nazismo/Nazi-Fascismo), ou a nacional (“Como a
União Soviética Deteve a Alemanha”). E se decidirmos por um
não-paralelismo, por que não tentar outras combinações? As
possibilidades são muitas: “Como Stalin Deteve o Nazismo”,
“Como a União Soviética Deteve a Wehrmacht”, “Como o
Comunismo Deteve Hitler”, etc.
Assim
como Hitler muda o juramento militar alemão de um juramento
à constituição da pátria para um juramento a sua pessoa —
mas não ousa instituir um juramento ao Nazismo — e assim
como Stalin convenientemente ignora o comunismo
internacionalista quando lhe convém para louvar as virtudes
patrióticas russas, da mesma maneira os autores devem ter
tido esta ou aquela razão, nem que apenas inconsciente, para
sua escolha de palavras.
As
considerações possíveis são ainda em maior número que as
combinações: não ficaria bem “Como (lacuna) Deteve a
Alemanha” pois, afinal, a Alemanha está aí até hoje, e maior
do que nunca — assim como um crescente neo-nazismo também.
Por outro lado, “Como (lacuna) Deteve Hitler” é bastante
conveniente, já que ele foi, sem dúvida alguma, o maior
culpado por toda a confusão — e, claro, chutar cachorro
morto é sempre mais seguro.
E
quem deteve Hitler? A escolha mais lógica, seguindo um
paralelismo pessoa/pessoa seria “Como Stalin Deteve Hitler”
mas, convenhamos, ninguém quer encher a bola de Stalin, um
homem que até mesmo o mais ardoroso comunista reconhece ter
sido de personalidade no mínimo questionável. “Como o
Comunismo Deteve Hitler” soa bem, mas é ideológico demais;
parece situar a derrota de Hitler no modelo
marxista-determinista de História. As considerações, como
se disse, são muitas.
O
interessante é que se os autores talvez não tenham percebido
a peculiaridade de seu título, pelo menos perceberam o
problema. Em sua conclusão, comentam — com certa indignação
— que a capa da Time comemorativa dos 50 anos do Dia D
estampava uma foto de Eisenhower com a legenda: “o homem que
derrotou Hitler”. Ora, retrucam os autores, se algum
único homem merece esse rótulo não é Eisenhower e sim,
apesar de todos os seu inumeráveis defeitos, Stalin, ou,
mais especificamente, o Exército Vermelho e a população
soviética como um todo[32].
Talvez tenha sido dessa indignação, quem sabe, que nasceu o
título do livro.
O que
importa é que enquanto Stalin fazia manipulações semelhantes
com a opinião pública soviética, deixando de lado por algum
tempo a ideologia do partido para, em sua hora de
necessidade, enfatizar o patriotismo russo, Hitler seguia o
caminho oposto e tentava cada vez mais doutrinar no nazismo
uma Wehrmacht que saíra de casa não para lutar por um
Partido, mas pela Alemanha e pelo Reich.
A
verdade é que a moral do soldado alemão estava despencando.
Como os veteranos costumavam dizer, a guerra no oeste era um
esporte honrado enquanto que no leste era puro horror. Os
soldados precisavam de alguma motivação para a luta. Assim
tão longe de casa, como justificar que continuassem a morrer
pela distante Patria-Mãe? Para Hitler, a resposta estava
nas teorias nazistas, no Untermenschen e na
doutrinação dos soldados: uma sólida base ideológica
aumentaria o moral das tropas. A partir de julho de 1942[33],
portanto, Führungsoffiziers
[34](ou
Oficiais de Conduta, também chamados de Oficiais de
Educação, de Doutrinação ou de Liderança) começam a ser
despachados para as diversas divisões na Frente Leste, mas
esse tiro, assim como tantos outros disparados por Hitler
daí em diante, do seu zênite em meados de 1942 até o nadir
final em 1945, sai pela culatra.
Ao
invés de subir, a moral do soldado alemão continua
despencando. Ele agora, além de ter perdido a fé na
vitória, sente-se cada vez mais vigiado e oprimido — como
seus colegas soviéticos sentiam-se antigamente, quando se
encontravam na mesma posição. Até mesmo as lendárias
autonomia e flexibilidade alemãs a nível tático são
atingidas, já que nenhum militar tem mais coragem de tomar a
iniciativa, quando sabe que uma derrota, sob os olhos dos
rígidos Oficiais de Conduta, pode querer dizer a morte. Já
outros oficiais mais corajosos, como o general Guderian,
especialista em guerra de tanques e que chegou a chefe do
OKH, reclamavam constantemente do péssimo efeito que a
presença desses Oficiais de Conduta causava nas tropas e nos
outros oficiais[35].
Guderian falava em vão: Hitler cada vez mais paranóico dos
militares — especialmente depois da tentativa de assassinato
do verão de 1944 — já estava decidido sobre o caminho a
seguir. Ele chega ao ponto de, em janeiro de 1945, exigir
que todas as manobras a nível de corpo e de divisão passem
por ele antes de serem postas em prática[36].
Tamanho controle central, naturalmente, tornava a conduta
das operações militares impossível, mas isso também não
fazia mais diferença: em janeiro de 1945, a guerra já estava
decidida.
Concluo então esse ensaio com uma citação de Glantz e House:
“Paradoxalmente, enquanto Hitler lutava para eliminar
toda a iniciativa e flexibilidade do Exército alemão, Stalin
seguia em direção oposta. Em suas memórias, oficias
superiores alemães culpam a interferência e o controle
rígido de Hitler por toda a sorte de males, mas poucos deles
reconhecem que seus oponentes estavam desenvolvendo a mesma
estrutura de comando que já fizera da Wehrmacht
suprema[37].”
Notas: