1.
Introdução:
A
Grande
Guerra
Patriótica
em
Perspectiva
Definir
a
Segunda
Guerra
Mundial
como
tendo durado de 1939 a 1945 é
um
grave
etnocentrismo. O
conflito
que
começa
em
1939 e continua
por
1940
nada
tem de mundial: trata-se de uma
guerra
européia
apenas
e,
aliás,
bastante
rápida
e
limpa
se comparada a tantas outras.
Depois
da
evacuação
de Dunquerque,
em
junho
de 1940,
além
disso, o
conflito
mal
pode
ser
considerado
europeu,
quanto
mais
mundial. Sobram
apenas
a Grã-Bretanha e Alemanha,
nenhum
dos
dois
com
os
meios
de
sobrepujar
o
outro:
se
por
um
lado
a
Batalha
da Inglaterra é
um
fiasco
para
os
alemães,
os
britânicos
também
ainda
nem
consideram
voltar
para
o
continente
do
qual
acabaram de se
retirar.
O
que
resta
de
guerra
são
pequenos
encontros
no
Mediterrâneo
(onde
a
nova
aliada
da Alemanha, a Itália,
tenta
em
vão
provar
seu
valor)
e as
ações
submarinas no
Atlântico.
Que
houve uma
guerra
mundial é
indiscutível,
mas
ela
se inicia
somente
com
o
ataque
japonês
a Peal Harbor,
em
dezembro
de 1941, seguido da
mais
insensata
de todas as
decisões
insensatas de Hitler —
declarar
guerra,
sem
a
menor
necessidade,
aos
Estados
Unidos — e termina
com
a
rendição
da Alemanha,
em
maio
de 1945.
Antes
e
depois
desse
período,
o
que
existe
são
incontáveis
conflitos
regionais,
em
todas as
partes
do
globo,
que
se fundem
em
um
só
quando
do
ataque
a Peal Harbor.
Muitos
desses
conflitos,
vale
a
pena
ressaltar,
são
anteriores
à
guerra
mundial e
outros
ainda
vão
prosseguir
por
muito
tempo
depois
que
ela
termina.
Para
os chineses,
por
exemplo,
a
guerra
já
começa
em
1937,
para
os
gregos,
ela
se estende
até
1949.
Dentre
os
vários
conflitos
que
“formam” a
Segunda
Guerra
Mundial,
entretanto,
nenhum
pode se
comparar,
seja
qual
for o
prisma
que
se
escolha
para
observá-los, à
Grande
Guerra
Patriótica,
nome
com
o
qual
os
soviéticos
batizaram
seu
confronto
com
a Alemanha
nazista,
de
junho
de 1941 a
maio
de 1945.
A
enormidade
dessa
guerra
é
tamanha
que
apenas
quantificá-la
já
exige
esforços
extremos
de
abstração.
Afirmar,
nas
palavras
de
um
historiador
militar
inglês,
que
“a
Segunda
Guerra
Mundial foi
essencialmente
ganha
e perdida na
Frente
Leste[1]”,
é
quase
um
truísmo
—
ou,
pelo
menos,
deveria
ser.
A historiografia
ocidental
tende a
dar
muita
ênfase
a
sua
própria
participação no
conflito
e,
por
razões
ideológicas
durante
a
Guerra
Fria,
a praticamente
ignorar
o
papel
fundamental
desempenhado
pela
União
Soviética.
O
fato
dos
arquivos
russos serem restritos e
sua
historiografia
bastante
parcial
também
não
ajudam
em
nada
a
que
se tenha uma
visão
mais
global
de
como
a
Grande
Guerra
Patriótica
se insere
dentro
da
perspectiva
da
Segunda
Guerra.
Em
comparação
com
as
batalhas
na
Frente
Leste,
tudo
mais
o
que
se fez na Europa
Ocidental
parece
mínimo
em
escala.
Para
citar
apenas
um
caso:
quando
da
maior
invasão
anfíbia
de
todos
os
tempos,
o celebrado
Dia
D — uma
vitória,
aliás,
bastante
suada — 62% dos
efetivos
da Wehrmacht estavam
baseados
no
leste
e os 38% restantes espalhados pelas todas as outras
frentes[2].
Batalhas
ocidentais,
como
a da Inglaterra, do
Atlântico,
El Alamein e Normandia,
apesar
de
sua
enorme
importância
estratégica,
empalidecem
quando
comparadas às
batalhas
de Kursk, Stalingrado, Moscou
ou
Berlim.
Alguns
números,
então:
em
toda
a
Segunda
Guerra,
as
forças
armadas
alemães
sofreram
mais
de 13
milhões
de
baixas,
das
quais
quase
11
milhões
apenas
na
Frente
Oriental[3].
Já
o
número
total
de
soviéticos
mortos
durante
a
guerra
era,
até
bem
pouco
tempo
atrás,
estabelecido
como
sendo de 20
milhões.
Agora,
entretanto,
depois
da glasnost, do
colapso
da
União
Soviética
e
com
a
abertura
gradual
dos
arquivos,
pesquisadores
começaram a
reescrever
a
história
da
guerra
—
vide
os
excelentes
trabalhos
de Duffy e da
dupla
Glantz e House,
respectivamente
de 1991 e 1995 — e desenterraram
fatos
ainda
mais
estarrecedores: de
acordo
com
as
recentes
pesquisas
da
dupla
citada,
por
exemplo,
as
baixas
militares
da
União
Soviética
são
de
pelo
menos
30
milhões,
dos
quais
11
milhões
mortos[4].
Tantos
os
dados
alemães
quanto
soviéticos
referem-se
apenas
aos
militares,
que
fique
claro:
pela
própria
natureza
dessa
guerra,
as
mortes
de civis
em
ambos
os
lados
devem
ter
sido de
igual
magnitude,
senão
maiores,
e
impossíveis
de se
precisar.
As
estimativas
mais
altas,
embora
ainda
assim
razoáveis,
para
o
total
de
baixas
da
União
Soviética
estão na
ordem
dos 50
milhões[5].
Mas,
afinal
de
contas,
como
desabafou
recentemente
um
historiador
inglês,
o
quer
dizer
exatidão
estatística
quando
as
grandezas
envolvidas
são
tão
astronômicas? Faz alguma
diferença
se o
número
de
mortos
durante
os
três
anos
do
cerco
de Leningrado foi de 1
milhão
de
pessoas
—
um
terço
da
população
da
cidade
—
ou
de “apenas”
750
mil
quando
a
própria
magnitude
desses
números
escapa
à
nossa
compreensão[6]?
Basta,
portanto,
para
os
objetivos
desse
trabalho,
estabelecer
a
enormidade
—
mesmo
que
apenas
aritmética
— da
Grande
Guerra
Patriótica
e
sua
importância
dentro
do
contexto
da
Segunda
Guerra
Mundial e da
própria
História
do
Século
XX.
A
explicação
para
este
número
tão
monstruoso de
baixas
não
reside
apenas
nas
novas
e
mais
avançadas
armas
disponíveis
mas,
principalmente,
no
fato
desta
ter
sido uma
guerra
ideológica,
ou,
na comparação de Hobsbawm, o equivalente do
século
XX das
guerras
de
religião[7].
Tentar
compreender
a
Grande
Guerra
Patriótica
sem
pensar
o
nazismo
e o
comunismo
é
como
estudar
a
Guerra
dos Trinta
Anos
sem
levar
em
conta
o
catolicismo
e o protestantismo. Os
soldados
alemães
e
soviéticos
não
combatiam
apenas
por
objetivos
concretos,
como
conquista
de
territórios
ou
rotas
de
comércio
—
questões
sobre
as
quais
pode
haver
acordo
—
mas
também,
e
principalmente,
pela
fé
que
tinham
em
sua
religião,
em
seu
regime:
em
suma,
guerras
de
morte
travadas
entre
adversários
irreconciliáveis.
Opostos
ideológicos podem
até
conviver
em
clima
de
guerra
fria
e desconfiança
por
muito
tempo,
talvez
indefinidamente
dependendo das
ideologias.
Uma
vez
em
combate
aberto,
entretanto,
a
própria
fé
de
cada
regime
em
si
mesmo
impedirá
que
se deponham as
armas
até
que
um
dos
lados
esteja
não
apenas
derrotado,
mas
totalmente
destruído. O
conflito
entre
o
paladino
do
Comunismo
e o
paladino
do Nazi-Fascismo
não
poderia
ser
diferente,
uma
guerra
travada
por
muito
mais
do
que
território
e
riqueza,
mas
pelo
monopólio
da
verdade
e de uma
determinada
maneira
de
ver
o
mundo.
Como
poderiam
não
ser
altíssimas as
baixas
em
uma
guerra
na
qual
o
país
invasor
(em
primeira
instância,
a Alemanha)
vinha
munido
de uma
teoria
como
a Untermensch — entusiasticamente partilhada,
desnecessário
dizer,
pela
grande
maioria
dos
soldados
—
que
pregava
ser
o
inimigo,
literalmente,
um
subumano
e
merecedor,
portanto,
de
tratamento
condizente?
Além
disso, a
União
Soviética
não
era
signatária
da
Convenção
de
Genebra,
o
que
permitiu aos
alemães
alegarem
que
os russos
não
mereciam
nem
os
cuidados
mínimos
a
que
teriam
direito
os
prisioneiros
de
guerra.
Ou,
nas
palavras
do
General
Nagel, do
Departamento
de
Economia
da OKW[8]:
“Ao
contrário
de
outros
prisioneiros,
não
temos
obrigação
alguma de
alimentar
os bolcheviques capturados[9].”
Como
poderiam
não
ser
altíssimas as
baixas
em
uma
guerra
na
qual
o
país
invasor
(em
segunda
instância,
a
União
Soviética)
vinha
munido
de
um
desejo
de
vingança
sem
paralelos
na
História?
Nesse
caso,
nem
é
preciso
que
se
traga
a
ideologia
à
baila:
nunca
um
povo
que
sofreu o
que
os
soviéticos
sofreram teve
chance
de se
vingar
tão
rápido
de
seu
ex-nêmesis e
nunca
nenhum
soldado
teve
tanto
a
vingar
quanto
os
que
invadiram a Alemanha
em
1945. E
pior,
a
medida
que
a
contra-ofensiva
avançava, partindo do
coração
da
União
Soviética
em
direção
a Berlim, os
soldados
do
Exército
Vermelho
tinham
chance
de
testemunhar,
em
primeira
mão,
o
estado
em
que
se encontravam as
áreas
que
os
alemães
iam evacuando (e destruindo)
em
sua
retirada.
Depois
desse
rápido
panorama
do
conflito,
cabe
afirmar
que
o
objetivo
desse
ensaio
não
é, e
nem
poderia
ser,
tratar
da
Grande
Guerra
Patriótica
como
um
todo.
Pretendo
abordar
somente
o
que
considero o
seu
aspecto
essencial:
o
confronto
das
ideologias,
sem
o
qual
não
é
possível
nem
o
mais
limitado
entendimento
da
guerra,
e,
dentro
disso, uma
dicotomia
inerente
a
todo
regime
dominado
por
um
partido
único
e
forte:
o
confronto
Exército
vs.
Partido,
ou,
em
outras
palavras,
de
um
Exército
profissional
contra
um
Exército
politizado.
Especificamente, vou
tratar
de
um
momento
bem
limitado no
tempo,
verão
e
começo
de
outono
de 1942, e das mudanças
fundamentais
ocorridas na
estrutura
tanto
do
Exército
Vermelho
quanto
da Wehrmacht nesse
período.
Pressionados pelas
circunstâncias
e
pelo
desespero,
Hitler e Stalin se vêem
obrigados
a
tomar
medidas
drásticas — e
diametralmente
opostas.
Mas
por
que
essa
época
em
particular?
O
que
estava acontecendo
em
meados
de 1942
para
prontificar
ambas as
lideranças
a reformas
tão
radicais?
2. 1942:
Verão
Negro
para
o
Exército
Vermelho
e
Zênite
da Wehrmacht
O
verão
de 1942 pode
ser
considerado,
talvez,
o momento-chave da
Grande
Guerra
Patriótica
e,
com
certeza,
um
momento
crítico
para
ambos
os
lados.
Do
ponto
de
vista
soviético,
segundo
alguns
autores,
o chamado “verão
negro”
foi o
período
mais
difícil
da
guerra[10].
Em
1941, Stalin
ainda
podia escudar-se na
justificativa
de a
União
Soviética
ter
sido
atacada
de
surpresa
e
que
o
invasor,
naturalmente,
dispunha de
ampla
vantagem
estratégica
por
causa
disso. No
verão
de 1942,
entretanto,
qual
era