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  Alex Castro
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O Florete Alemão e a Clava Soviética: Inversão Ideológica na Segunda Guerra Mundial

Trabalho apresentado para a aula de História Contemporânea, curso de graduação em História, UFRJ, 1998, prof Silvio Carvalho.

 

1. Introdução: A Grande Guerra Patriótica em Perspectiva

    Definir a Segunda Guerra Mundial como tendo durado de 1939 a 1945 é um grave etnocentrismo.  O conflito que começa em 1939 e continua por 1940 nada tem de mundial: trata-se de uma guerra européia apenas e, aliás, bastante rápida e limpa se comparada a tantas outras.

   Depois da evacuação de Dunquerque, em junho de 1940, além disso, o conflito mal pode ser considerado europeu, quanto mais mundial.  Sobram apenas a Grã-Bretanha e Alemanha, nenhum dos dois com os meios de sobrepujar o outro: se por um lado a Batalha da Inglaterra é um fiasco para os alemães, os britânicos também ainda nem consideram voltar para o continente do qual acabaram de se retirar.  O que resta de guerra são pequenos encontros no Mediterrâneo (onde a nova aliada da Alemanha, a Itália, tenta em vão provar seu valor) e as ações submarinas no Atlântico.

   Que houve uma guerra mundial é indiscutível, mas ela se inicia somente com o ataque japonês a Peal Harbor, em dezembro de 1941, seguido da mais insensata de todas as decisões insensatas de Hitler — declarar guerra, sem a menor necessidade, aos Estados Unidos — e termina com a rendição da Alemanha, em maio de 1945.  Antes e depois desse período, o que existe são incontáveis conflitos regionais, em todas as partes do globo, que se fundem em um quando do ataque a Peal Harbor.  Muitos desses conflitos, vale a pena ressaltar, são anteriores à guerra mundial e outros ainda vão prosseguir por muito tempo depois que ela termina.  Para os chineses, por exemplo, a guerra começa em 1937, para os gregos, ela se estende até 1949.

   Dentre os vários conflitos que “formam” a Segunda Guerra Mundial, entretanto, nenhum pode se comparar, seja qual for o prisma que se escolha para observá-los, à Grande Guerra Patriótica, nome com o qual os soviéticos batizaram seu confronto com a Alemanha nazista, de junho de 1941 a maio de 1945.

   A enormidade dessa guerra é tamanha que apenas quantificá-la exige esforços extremos de abstração Afirmar, nas palavras de um historiador militar inglês, que “a Segunda Guerra Mundial foi essencialmente ganha e perdida na Frente Leste[1]”, é quase um truísmo ou, pelo menos, deveria ser.  A historiografia ocidental tende a dar muita ênfase a sua própria participação no conflito e, por razões ideológicas durante a Guerra Fria, a praticamente ignorar o papel fundamental desempenhado pela União Soviética.  O fato dos arquivos russos serem restritos e sua historiografia bastante parcial também não ajudam em nada a que se tenha uma visão mais global de como a Grande Guerra Patriótica se insere dentro da perspectiva da Segunda Guerra.

   Em comparação com as batalhas na Frente Leste, tudo mais o que se fez na Europa Ocidental parece mínimo em escala Para citar apenas um caso: quando da maior invasão anfíbia de todos os tempos, o celebrado Dia D — uma vitória, aliás, bastante suada — 62% dos efetivos da Wehrmacht estavam baseados no leste e os 38% restantes espalhados pelas todas as outras frentes[2] Batalhas ocidentais, como a da Inglaterra, do Atlântico, El Alamein e Normandia, apesar de sua enorme importância estratégica, empalidecem quando comparadas às batalhas de Kursk, Stalingrado, Moscou ou Berlim.

   Alguns números, então: em toda a Segunda Guerra, as forças armadas alemães sofreram mais de 13 milhões de baixas, das quais quase 11 milhões apenas na Frente Oriental[3] o número total de soviéticos mortos durante a guerra era, até bem pouco tempo atrás, estabelecido como sendo de 20 milhões Agora, entretanto, depois da glasnost, do colapso da União Soviética e com a abertura gradual dos arquivos, pesquisadores começaram a reescrever a história da guerra vide os excelentes trabalhos de Duffy e da dupla Glantz e House, respectivamente de 1991 e 1995 — e desenterraram fatos ainda mais estarrecedores: de acordo com as recentes pesquisas da dupla citada, por exemplo, as baixas militares da União Soviética são de pelo menos 30 milhões, dos quais 11 milhões mortos[4] Tantos os dados alemães quanto soviéticos referem-se apenas aos militares, que fique claro: pela própria natureza dessa guerra, as mortes de civis em ambos os lados devem ter sido de igual magnitude, senão maiores, e impossíveis de se precisar.  As estimativas mais altas, embora ainda assim razoáveis, para o total de baixas da União Soviética estão na ordem dos 50 milhões[5].

   Mas, afinal de contas, como desabafou recentemente um historiador inglês, o quer dizer exatidão estatística quando as grandezas envolvidas são tão astronômicas?  Faz alguma diferença se o número de mortos durante os três anos do cerco de Leningrado foi de 1 milhão de pessoas um terço da população da cidade ou de “apenas” 750 mil quando a própria magnitude desses números escapa à nossa compreensão[6]?

   Basta, portanto, para os objetivos desse trabalho, estabelecer a enormidade mesmo que apenas aritmética — da Grande Guerra Patriótica e sua importância dentro do contexto da Segunda Guerra Mundial e da própria História do Século XX.

   A explicação para este número tão monstruoso de baixas não reside apenas nas novas e mais avançadas armas disponíveis mas, principalmente, no fato desta ter sido uma guerra ideológica, ou, na comparação de Hobsbawm, o equivalente do século XX das guerras de religião[7] Tentar compreender a Grande Guerra Patriótica sem pensar o nazismo e o comunismo é como estudar a Guerra dos Trinta Anos sem levar em conta o catolicismo e o protestantismo.  Os soldados alemães e soviéticos não combatiam apenas por objetivos concretos, como conquista de territórios ou rotas de comércio questões sobre as quais pode haver acordo mas também, e principalmente, pela que tinham em sua religião, em seu regime: em suma, guerras de morte travadas entre adversários irreconciliáveis.

   Opostos ideológicos podem até conviver em clima de guerra fria e desconfiança por muito tempo, talvez indefinidamente dependendo das ideologias.  Uma vez em combate aberto, entretanto, a própria de cada regime em si mesmo impedirá que se deponham as armas até que um dos lados esteja não apenas derrotado, mas totalmente destruído.  O conflito entre o paladino do Comunismo e o paladino do Nazi-Fascismo não poderia ser diferente, uma guerra travada por muito mais do que território e riqueza, mas pelo monopólio da verdade e de uma determinada maneira de ver o mundo.

   Como poderiam não ser altíssimas as baixas em uma guerra na qual o país invasor (em primeira instância, a Alemanha) vinha munido de uma teoria como a Untermensch — entusiasticamente partilhada, desnecessário dizer, pela grande maioria dos soldados que pregava ser o inimigo, literalmente, um subumano e merecedor, portanto, de tratamento condizente?  Além disso, a União Soviética não era signatária da Convenção de Genebra, o que permitiu aos alemães alegarem que os russos não mereciam nem os cuidados mínimos a que teriam direito os prisioneiros de guerra Ou, nas palavras do General Nagel, do Departamento de Economia da OKW[8]: “Ao contrário de outros prisioneiros, não temos obrigação alguma de alimentar os bolcheviques capturados[9].”

   Como poderiam não ser altíssimas as baixas em uma guerra na qual o país invasor (em segunda instância, a União Soviética) vinha munido de um desejo de vingança sem paralelos na História?  Nesse caso, nem é preciso que se traga a ideologia à baila: nunca um povo que sofreu o que os soviéticos sofreram teve chance de se vingar tão rápido de seu ex-nêmesis e nunca nenhum soldado teve tanto a vingar quanto os que invadiram a Alemanha em 1945.  E pior, a medida que a contra-ofensiva avançava, partindo do coração da União Soviética em direção a Berlim, os soldados do Exército Vermelho tinham chance de testemunhar, em primeira mão, o estado em que se encontravam as áreas que os alemães iam evacuando (e destruindo) em sua retirada.

   Depois desse rápido panorama do conflito, cabe afirmar que o objetivo desse ensaio não é, e nem poderia ser, tratar da Grande Guerra Patriótica como um todo.  Pretendo abordar somente o que considero o seu aspecto essencial: o confronto das ideologias, sem o qual não é possível nem o mais limitado entendimento da guerra, e, dentro disso, uma dicotomia inerente a todo regime dominado por um partido único e forte: o confronto Exército vs. Partido, ou, em outras palavras, de um Exército profissional contra um Exército politizado.

   Especificamente, vou tratar de um momento bem limitado no tempo, verão e começo de outono de 1942, e das mudanças fundamentais ocorridas na estrutura tanto do Exército Vermelho quanto da Wehrmacht nesse período.  Pressionados pelas circunstâncias e pelo desespero, Hitler e Stalin se vêem obrigados a tomar medidas drásticas — e diametralmente opostas.

   Mas por que essa época em particular?  O que estava acontecendo em meados de 1942 para prontificar ambas as lideranças a reformas tão radicais?

 

2. 1942: Verão Negro para o Exército Vermelho e Zênite da Wehrmacht

    O verão de 1942 pode ser considerado, talvez, o momento-chave da Grande Guerra Patriótica e, com certeza, um momento crítico para ambos os lados.

   Do ponto de vista soviético, segundo alguns autores, o chamado “verão negro” foi o período mais difícil da guerra[10] Em 1941, Stalin ainda podia escudar-se na justificativa de a União Soviética ter sido atacada de surpresa e que o invasor, naturalmente, dispunha de ampla vantagem estratégica por causa disso.  No verão de 1942, entretanto, qual era