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Monografia de conclusão de curso, curso de graduação em
História, UFRJ, 1999, orientador Manolo Florentino.
Introdução:
As Entranhas do Monstro
Esta monografia nasceu de minhas leituras de
História Militar e Naval. Dentre tantos conflitos e
batalhas, deparei-me com a pitoresca Guerra
Hispano-Americana. Mas, à medida que lia, eu acumulava
estranhamentos e dúvidas. E posso até acrescentar um
felizmente, pois o historiador vive é de dúvidas, não de
certezas, e a existência delas indica, pelo menos, uma
análise minimamente cautelosa das fontes. As dúvidas eram
várias, desde as menores - como podia uma colônia fazer 85%
de seu comércio exterior com um país que não a metrópole? -
até a maior de todas, que motivou a monografia.
Antes, uma nota pessoal: assim como Martí, também conheço
bem o "monstro e suas entranhas"; fui educado em escola
norte-americana e exposto a doses maciças de sua cultura.
Posso então até confessar que a "independência" cubana será
usada aqui apenas como um estudo de caso, um exemplo que me
permita tentar melhor compreender a sociedade
norte-americana e responder a estas grandes dúvidas que
ainda me perturbam. Já latente pelos anos de contato direto
com o "monstro" e estimulada pelos estudos recentes, a
pergunta que me faço é a seguinte: como pôde aquele povo
que, em 1776, promoveu tão democrática e igualitária
revolução ter sido o mesmo que, pouco mais de um século
depois, comportou-se de maneira tão colonialista e
imperialista ao fomentar e se aproveitar da "independência"
de Cuba?
Se eu achasse que a mudança de comportamento ianque (1) foi
conseqüência de um ou mais acontecimentos decorridos durante
este intervalo de tempo, a comparação perderia o sentido.
Mas, pelo contrário, comparo a independência norte-americana
à cubana pelo motivo simples de tentar provar que todos os
elementos filosóficos, culturais e políticos que
justificaram e instigaram a intervenção no Caribe em 1898 já
existiam em 1776, apesar das aparências em contrário. Os
eventos cruciais da história norte-americana entre 1776 e
1898 - a verbalização da Doutrina Monroe, a cunhagem do
termo Destino Manifesto, a "Era of Mixed Feelings", a
conquista de metade do território mexicano e a própria
Guerra Civil e Reconstrução - não serviram para alterar
substancialmente o pensamento estratégico nacional em
relação ao Caribe e a Cuba, ambos cobiçados desde muito.
Tentarei dar consistência ao meu argumento de que tudo o que
os norte-americanos fizeram em 1898, os Pais Fundadores
também teriam feito, de forma apavorantemente similar, se
apenas tivessem tido os meios e a motivação. Em suma:
demonstrar que o imperialismo ianque de 1898 não foi uma
desvirtuação dos ideais de 1776, mas uma conseqüência
natural deles.
E quando me refiro à Doutrina Monroe e ao Destino Manifesto,
não uso os termos "verbalizar" e "cunhar" por acaso. Pois
acredito que muito antes de ser oficializada como política
de governo em 1823, o conceito de "América para os [Norte-]
Americanos" já existia, exercendo forte influência no
processo revolucionário. Assim como a idéia de Destino
Manifesto não surgiu nos editoriais de John O'Sullivan para
o "Democratic Review", em 1845, mas apenas foi uma
verbalização especialmente feliz e duradoura de outro
conceito que definia a nação norte-americana desde seu
nascimento.
O ensaio, portanto, consiste de quatro partes. A primeira,
mais longa, é um panorama geral da Guerra Hispano-Americana.
Esse conflito funcionará como meu estudo de caso e será a
análise do comportamento e da retórica norte-americana
durante ele que provará minha hipótese. Também serão
introduzidos, nessa parte, alguns dos conceitos-chave
utilizados na análise posterior, como Destino Manifesto,
Isolacionismo e Navalismo. Por fim, dado que a maioria das
teorias explicativas dessa guerra centra-se ou no lado
norte-americano (quando feitas por eles) ou no lado cubano
(quando feitas por latino-americanos em geral), procurei
fazer um esforço para resgatar as motivações e contradições
dos esquecidos espanhóis.
A segunda parte é um breve resumo da independência
norte-americana, tendo-se sempre em mente o subtítulo dessa
monografia: "a 'independência' cubana vista através da
independência norte-americana". Ou seja, a descrição da
última será breve pois procuro nela apenas por parâmetros e
tendências através dos quais observar a primeira.
A terceira parte é um breve resumo da 'independência'
cubana. Ao contrário do que pode parecer, não se trata de
mera repetição da primeira parte. Enquanto a primeira busca
fornecer um panorama geral de todo o conflito, a terceira é
um olhar mais dirigido para o processo de independência em
si, um olhar que se beneficia dos subsídios estabelecidos na
primeira parte.
Finalmente, na quarta e última parte, a narrativa da
metamorfose da Emenda Teller em Emenda Platt será o fio
condutor da análise que buscará provar a hipótese proposta.
A íntegra das duas emendas pode ser encontrada nos
apêndices.
Fui avisado que poderia passar por pedante, mas não cedi: as
inúmeras citações em inglês e espanhol não foram traduzidas.
Qualquer historiador brasileiro que se preze - e são eles o
público-alvo dessa monografia - entende ambas as línguas o
suficiente para ao menos ler as citações. Além disso, no
interesse da precisão e pensando como leitor, eu sempre
prefiro ler as citações no original (quando entendo a
língua, claro) do que depender das incertas habilidades de
tradução dos autores.
Notas:
1. Antes que meus amigos "ianques" me linchem, eu gostaria
de deixar bem claro que usarei esta palavra por razões
puramente estilísticas, para evitar que uma repetição
constante do termo "norte-americano" torne a leitura deste
texto cansativa. Estou ciente da conotação negativa que a
palavra "ianque" recebeu com o passar dos anos - aliás, em
parte por causa de incidentes como estes que vou narrar -
mas garanto aos meus leitores, ianques ou não, que a
utilizarei apenas como sinônimo de "norte-americano", sem
segundas intenções. No mesmo assunto, não serão chamados os
cidadãos dos Estados Unidos pelo termo genérico "americano",
por se entender que americano é todo aquele que nasce nas
Américas, incluindo, claro, os próprios norte-americanos,
mas também nicaragüenses, índios ianomami e eu, que sou
sul-americano. Na verdade, de todas as suas violências
contra os vizinhos do sul, talvez a maior tenha sido roubar
para si um qualificativo que pertence a todos nós:
americano. Mas não no meu texto.
Parte I - E
Todos Viveram Felizes para Sempre: Brevíssima História da
Guerra Hispano-Americana
I.1 - Os Estados Unidos: Destino Manifesto versus
Isolacionismo
A Guerra-Hispano-Americana marca um rito de
passagem para os Estados Unidos. Uma escolha dolorosa é
forçada ao seu povo: optar por apenas um dentre dois dos
conceitos fundamentais que o definem. A América do Norte,
afinal, quer voltar-se para dentro ou para fora?
Estes conceitos, bastante presentes na cultura
norte-americana até hoje e já trazidos pelos "Pais
Peregrinos", eram o Isolacionismo e o Destino Manifesto (2).
Embora no final do século XIX ambas as idéias se anulem,
elas foram fundamentais, caminhando lado a lado, para a
formação da cultura norte-americana. A primeira, mais forte
a princípio e que vai perdendo terreno para a segunda,
definia os objetivos básicos dos peregrinos ao vir para as
Américas - fugir à opressão britânica e viver sob suas
próprias leis, sem se envolver com a politicagem do mundo
exterior. Já a segunda representava o eterno fascínio do
oeste, quase uma razão de ser para a nação norte-americana:
de que era seu Destino Manifesto eventualmente conquistar
todo aquele continente até o Pacífico.
Disse Charles Dickens, com seu olhar analítico de
estrangeiro: "The typical American would hesitate to
enter Heaven unless assured that he could go further west."
(3)
Em meados do século XIX, entretanto, essa razão de ser deixa
de existir. Todo o continente está conquistado. Com a ânsia
para o oeste ainda fortemente enraizada em sua cultura, o
norte-americano não tem mais para onde se espalhar. O
Isolacionismo e o Destino Manifesto, até então conceitos
completares, tornam-se, subitamente, opostos. Para continuar
a expansão que o definia, o povo norte-americano teria que
se lançar para fora de suas fronteiras, indo assim de
encontro ao ideal isolacionista e negando a própria base na
qual fora fundado o seu Estado. Durante toda a segunda
metade do século, da guerra contra o México (1846-1847) até
a guerra contra a Espanha (1898), o povo norte-americano
debate entre si e tenta se redefinir.
A América do Norte, então, voltando à pergunta inicial, quer
voltar-se para dentro ou para fora?
Notas:
2. Ambos os termos foram cunhados e definidos muitos anos
depois, mas sua essência já estava na mentalidade dos
primeiros Pais Peregrinos.
3. Citado em FRAENKEL, p. 433.
I.2 -
Espanha: Caos Político e Prioridades de Mãe
Para que se entenda o comportamento do
governo espanhol durante a crise com os Estados Unidos é
preciso que se compreenda corretamente quais eram suas
prioridades. Manter Cuba, com certeza, era uma delas e
muitos autores, por considerá-la a principal, julgaram como
falhos e incoerentes os atos da coroa espanhola. Não foi
este o caso. Dada a sua real prioridade, entretanto, que
tomava precedência sobre todas as outras, o governo espanhol
agiu com plena coerência e até, pode-se dizer, certo
sucesso: manter o regime monárquico.
A Espanha acabara de sair de uma época de extremo caos
político. Em 1868, uma revolução derrubara a dinastia
bourbônica do poder. Os próximos sete anos seriam
inacreditavelmente movimentados para tão curto período de
tempo: o país passou por governos provisórios, assembléias
constituintes, regências, uma tentativa de se instituir uma
nova dinastia monárquica, sua queda, ditaduras militares, a
proclamação da República - com quatro presidentes em onze
meses - além de, claro, inúmeros golpes de estado e guerras
civis (4).
Finalmente, em 1875, acontece a Restauração Bourbônica, em
uma tentativa de debelar o caos. O novo rei, de apenas
dezessete anos, consegue pacificar e reorganizar o país, mas
vive pouco. Depois de uma década, ele morre, deixando duas
filhas e uma esposa grávida. Pior, a esposa é austríaca, uma
estrangeira, extremamente impopular, portanto, para se
tornar a suprema mandatária do país. Com uma incrível
habilidade política, dada a rejeição popular da Rainha, os
membros do gabinete real impedem a queda imediata do regime,
mas nem mesmo tamanha engenhosidade conseguiria manter a
monarquia se, no ano seguinte, não nascesse um menino.
Proclama-se então a Regência, até que Afonso XIII,
recém-nascido, tenha idade o suficiente para assumir o
trono. A Monarquia é salva no último instante, mas sua
condição permanece crítica. Os dias de caos políticos ainda
estão perto o bastante para não poderem ser impunemente
esquecidos e, além disso, boa parte do país não vê com bons
olhos a perspectiva de ser governado por uma austríaca pelos
próximos dezesseis anos. Qualquer deslize e a Monarquia pode
cair.
A Regente Maria Cristina de Habsburgo bem sabe disso. Mas
não admite a hipótese de que seu filho, o legítimo herdeiro
do trono, perca sua coroa por causa dos erros de sua mãe.
Isso nunca. Aconteça o que acontecer, faça-se o que for
necessário, a prioridade da Regente é que Afonso XIII seja o
Rei de Espanha.
Notas:
4. GARCIA, pp. 287-288.
I.3 - Cuba:
La Isla Siempre Leal e a Guerra das Manchetes
Cuba recebeu poucas recompensas por ter sido
la isla siempre leal. Enquanto os movimentos de
independência se espalhavam como uma peste pelo resto da
América Latina, Cuba e Porto Rico, por serem ilhas
facilmente defensáveis e bem guarnecidas pelos espanhóis,
estavam relativamente a salvo das forças de Bolívar (5) e
permaneceram sob o poder da Espanha. A recompensa que os
fazendeiros cubanos esperavam por sua lealdade, entretanto,
não veio. Cuba continuou a ser espoliada como uma colônia
qualquer.
O ressentimento cresceu e, em 1868, estoura a Guerra dos Dez
Anos. Dez anos e 200 mil mortos depois, a situação da ilha
melhorara pouco. Os espanhóis, cheios de promessas para
fazer os revoltosos baixarem armas, cumpriram poucas. Para
todos os efeitos, Cuba permanecia colônia.
Enquanto isso, prosperavam as relações comerciais com os
Estados Unidos e, no começo da década de 90, os
norte-americanos compravam 85% do tabaco e açúcar que a ilha
produzia (6). Em Nova Iorque, está sediado um governo cubano
"no exílio", dedicado a promover a independência de Cuba e a
angariar fundos e simpatias do povo norte-americano.
Em 1895, eclode nova guerra de independência, liderada pelo
grupo de Nova Iorque e financiada, em parte, pelos ianques.
Extremamente bem comandados, os guerrilheiros cubanos evitam
batalhas contra os espanhóis e lhes causam todo o tipo de
embaraço. Os peninsulares, então, percebendo que as táticas
de guerra convencional nunca dobrariam os rebeldes, se
adaptam as circunstâncias. Uma guerrilha só é eficiente se
conta com o apoio do povo. Como disse um dos mais bem
sucedidos guerrilheiros de todos os tempos, Mao Tsé-Tung,
cinqüenta anos depois, "o povo é a água na qual nada o
peixe da revolução." O corolário desta máxima, muito bem
compreendido pelos espanhóis, era que, em se tirando a água,
morria o peixe. Para tanto, eles criam os reconcentrados,
campos de concentração para onde deslocam populações
inteiras de camponeses, para mantê-los sob guarda e
impedi-los de auxiliar a revolta. As condições higiênicas,
entretanto, eram as piores possíveis. Segundo documentos dos
próprios espanhóis (7), mais de 400 mil pessoas morreram
somente nos reconcentrados - sem contar os mortos da guerra
em si.
Enquanto isso, em parte graças ao forte lobby cubano nos
Estados Unidos, mas também aos interesses norte-americanos
na região, os jornais ianques fazem a festa. A bravura dos
guerrilheiros, a monstruosidade dos espanhóis e os métodos
usados por estes para debelar a revolta dão excelentes
manchetes. E em pouquíssimo tempo, no esforço de publicar
reportagens cada vez mais sensacionalistas, os jornais já
estão inventando ostensivamente as notícias (8).
Uma história, provavelmente apócrifa, reflete o espírito da
época: estacionado em Havana, um repórter do importante The
Journal nova-iorquino telegrafa o seguinte para a matriz:
"Everything is quiet. There'll be no war. I wish to return.",
ao que seu chefe, o poderoso William Randolph Hearst,
prontamente responde: "Please remain. You furnish the
pictures and I'll furnish the war (9)."
O "marketing" da causa cubana foi tão bem conduzido e a
campanha da imprensa marrom tão exagerada que a opinião
pública norte-americana realmente passou a ver nos espanhóis
monstros sanguinários, enquanto se identificava de corpo e
alma com a luta pela liberdade em Cuba. Mas essa reação não
foi tão grande ao ponto de efetivamente provocar a guerra,
como ainda teimam em afirmar alguns autores.
Nenhum governo se levanta em armas apenas por pressão da
opinião pública, ainda mais quando fazer isso - apesar de
pretensamente em defesa da liberdade - vai contra um dos
pilares culturais da nação: o Isolacionalismo.
Quais foram as verdadeiras razões que levaram os Estados
Unidos a invadir Cuba?
Notas:
5. HERRING, p. 394
6. GARCIA. p. 367
7. O'TOOLE, p. 48
8. É dessa época o termo "Imprensa Marrom" ou, no original,
Yellow Press, por causa da cor dos dois principais jornais
nova-iorquinos disputando quem conseguiria inventar as
histórias mais escabrosas: o The Journal, de William
Randolph Hearst, e o The World, de Joseph Pulitzer. Os
desenhistas da época - ainda era muito caro e economicamente
inviável publicar fotografias em jornais - também davam
largas asas a imaginação. O famoso desenho de Remington é
prova disso. WERSTEIN, p. 20
9. O'TOOLE, p. 82
I.4 - A
Doutrina Navalista: Um Capitão Norte-Americano Legitima o
Expansionismo
Não é apenas a guerra de independência que
despertava o interesse dos norte-americanos em relação a
Cuba. Já em 1823, John Quincy Adams, Secretário de Estado e
futuro presidente, escrevia o seguinte:
"These islands [Cuba e Porto Rico] are natural
appendages to the North American continent and one of
them, Cuba, (...) has become an object of transcendence
importance to the political and commercial interests of
our Union. (...) There are laws of political as well as of
physical gravitation, and if an apple (...) cannot choose
but fall to the ground, Cuba, forcibly disjoined from its
own unnatural connection with Spain and incapable of
self-support, can gravitate only towards the North
American Union, which, by the same law of nature, cannot
cast her off its bosom. (...) In looking forward for the
probable course of events for the short period of half a
century, it is scarcely possible to resist the conviction
that the annexation of Cuba to our federal republic
will be indispensable to the continuance and integrity of
the Union itself (10)." (grifos meus)
Contra as vozes que se erguem em defesa do tradicional
isolacionismo, outros expansionistas também se manifestam.
Argumentam eles que, assim como dizia Adams, Cuba e Porto
Rico são importantes demais para serem confiadas a governos
novos e instáveis, ou para que se permita que caiam nas mãos
de outra potência européia. Em 1890, estas idéias se
cristalizam no livro The Influence of Sea Power Upon
History, do capitão da Marinha norte-americana A.T.
Mahan (11), cujas palavras são acolhidas com ardor por todo
o mundo e dão início a doutrina chamada de Navalista. O que
ele diz, basicamente, é que para um país ser grande ele
precisa de uma grande frota. E naquela época do carvão, ter
uma grande frota significava ter várias bases navais
espalhadas pelo globo, onde seus navios pudessem se
reabastecer.
No caso específico dos Estados Unidos e da sua relação com o
Caribe - reparem que Cuba nunca é mencionada, mas está
implícita em todo o texto a seguir, por ser a chave que
domina a região - as palavras de Mahan teriam influência
duradoura e crucial na política externa norte-americana. Sua
maior preocupação são as conseqüências que adviriam da
abertura de um canal através do istmo centro-americano:
"It is evident (...) that this canal, by modifying the
direction of trade routes, will induce a great increase of
commercial activity (...) throughout the Caribbean Sea; and
that this (...) will attract, as never before, (...) the
(...) ambition of maritime nations. Every position in that
sea will have enhanced commercial and military value,
and the canal itself will become a strategic center of (...)
vital importance. (...) It will (...) wholly belong
to the belligerent which controls the sea by its naval
power. (...) When the ishtmus is pierced, (...) isolation
will pass away, and with it the indifference of foreign
nations. (...) Each (...) will seek points of support and
means of influence in a quarter where the United States
always has been jealously sensitive to the intrusion of
European powers. (...) Among the islands (...) there
are many positions of great importance, held now by
weak or unstable states. Is the United States willing
to see them sold to a powerful rival? (...) To get the full
benefit of superior geographical position, (...) the United
States will have to obtain in the Caribbean (...) bases
of operations which (...) will enable her fleets to
remain as near the scene [o canal] as any opponent. (...)
With such outposts in her hands, (...) the preponderance of
the United States (...) follows (...) with mathematical
certainty. (...) Whether they will or no, Americans must
now begin to look outward (12)." (grifos meus)
Do ponto de vista norte-americano, a situação geopolítica no
Caribe é cada vez mais frágil. Já que o governo espanhol se
mostra incapaz de debelar a rebelião cubana, fatalmente
algum dos dois piores medos ianques aconteceriam: ou a ilha
se tornaria independente, fraca e instável, ou a Espanha,
não tendo meios para mantê-la, acabaria vendendo-a a alguma
outra potência européia. Várias vezes tentam os
norte-americanos comprar Cuba, sem sucesso. O Ministro do
Exterior espanhol da época chega a comentar que preferia
afundá-la no oceano, a vê-la nas mãos dos norte-americanos
(13).
Na última década do século, entretanto, três novos fatores
alteram essa equação: a difusão do Navalismo de Mahan na
elite política e militar norte-americana; a incapacidade dos
espanhóis em debelar a rebelião de Cuba, mesmo usando
métodos tão radicais e violentos; e a forte pressão da
opinião pública por uma guerra que consideravam justa e
necessária.
Na verdade, quem menos deseja um conflito era o próprio
presidente norte-americano, McKinley. Tentando apaziguar seu
gabinete e seus eleitores, ambos sedentos de sangue, ele faz
uma última e generosa proposta de comprar Cuba e é mais uma
vez rejeitado.
Não lhe sobram muitas alternativas. Por fim, lança aos
espanhóis um eufemismo de ultimato: a não ser que haja um
armistício em Cuba, ou que se dê autonomia a ilha, McKinley
não poderia mais conter os ânimos de toda uma nação; haveria
guerra.
Notas:
10. HERRING, p. 396, O'TOOLE, pp. 36-37
11. Muitos historiadores navais consideram, com um pouco de
exagero, o livro de Mahan como responsável direto pela
guerra. Não há dúvida, entretanto, que sua influência foi
enorme, não apenas para a condução desta guerra, como na
história militar do próximo quarto de século. Poucos anos
depois de publicado, seu livro já era leitura obrigatória
para todos os oficiais das marinhas britânica, alemã e
japonesas. A corrida armamentista naval européia do começo
do século foi a conseqüência natural da aplicação prática de
suas teorias. E quando chega a Grande Guerra, seu livro era
quase uma bíblia para os oficiais de todas as Marinhas
envolvidas, inclusive a russa e a alemã. Pode-se dizer,
desta vez sem exagero, que a Primeira Guerra no mar foi
disputada por Mahan contra Mahan.
12. Esta citação é na verdade um pout-pourri, fiel ao máximo
ao raciocínio de Mahan, do primeiro capítulo de seu livro
com um artigo que ele escreve apenas um ano antes da guerra,
"The Interest of America in Sea Power." MAHAN, pp. 34-35,
FRAENKEL, pp. 45-49.
13. O'TOOLE. pp. 37-38
I.5 - A
Teoria do Dominó: O Leão se Prostra aos Salchicheiros
Madri está em uma situação dificílima. O
governo sabe bem o tamanho da discrepância entre o poder
militar dos dois países, e não tem dúvidas quanto ao
desenlace de uma guerra entre eles. Há apenas um problema: o
povo não sabe disso.
O cidadão médio se refere aos norte-americanos pelo nada
elogioso apelido de salchicheiros e nunca iria admitir que a
coroa cedesse Cuba a um país que poderia ser tão facilmente
derrotado pelo leão espanhol (14). Qualquer tentativa do
governo de negociar com os norte-americanos é imediatamente
acompanhada por tumultos nas ruas e manifestações de
protestos. O gabinete real não demora a perceber a terrível
verdade: o povo, cheio de si, não perdoaria qualquer
exibição de fraqueza perante os norte-americanos. Nesse
caso, a Monarquia, que já está bamba, fatalmente cairia.
Entre dois fogos, o governo faz o que pode: troca os
militares linha-dura em Cuba por outros moderados, admite a
hipótese de conceder autonomia a ilha e promete que a guerra
será conduzida de forma mais humana. Estas medidas,
infelizmente, não satisfazem ninguém, com uma única exceção.
O povo cubano já não quer mais saber de autonomia e avisa
que só baixará armas por uma independência incondicional. A
opinião pública norte-americana, inflamadíssima, continua
alvo da campanha incansável da imprensa marrom e não se
esfriará tão cedo. O círculo dos navalistas quer apenas uma
desculpa para se apossar de um ponto tão estratégico, e não
deixaria meros detalhes como esses interferir em seus planos
geopolíticos. E na Espanha, o povo já se revolta mesmo por
estas pequenas concessões feitas aos desejos
norte-americanos.
Apenas McKinley se apazigua e convence, a duras penas, seu
gabinete e seus eleitores a dar um voto de confiança às
novas medidas espanholas. Se elas surtirem efeito, não
haverá mais motivo para derramamento de sangue. Mesmo assim,
os norte-americanos não ignoram o clima político em Madri.
Em seu relatório ao presidente, o embaixador ianque desenha
um quadro perfeito da situação crítica na qual se encontram
os espanhóis. Depois de confirmar que o descontentamento
popular é geral e que já se conspira abertamente contra o
regime, ele relata um diálogo com o Ministro das Colônias,
Sigismundo Moret:
"I asked him if he believed that Marshal Blanco [novo
comandante militar moderado em Cuba] could restore complete
order in Havana and Moret replied that order would be
promptly and finally re-established. (...) The Spanish
Ministry have decided that they have made all concessions to
the United States that they can make, without endangering
both their own power and the continuance of the present
Dinasty. (...) [But] when it becomes clear that [Blanco]
cannot succeed or that the United States must intervene, the
Queen will have to choose betwen losing her throne or
losing Cuba at the risk of war with us. (15)"
(grifo meu)
O governo espanhol trabalha freneticamente pela paz. É
preciso evitar a todo custo que se chegue na encruzilhada
descrita pelo embaixador norte-americano, pois uma vez lá,
sabe-se que a decisão da Rainha está tomada. Sua prioridade
não é manter Cuba, e sim o trono de seu filho.
Ao mesmo tempo que tentam pacificar a ilha, os espanhóis
mandam seus diplomatas em peregrinação pelas chancelarias
européias, pedindo auxílio no caso de uma guerra contra os
norte-americanos. Para justificar o porque disto, elaboram
uma variante precoce da "Teoria do Dominó": se os
norte-americanos invadirem Cuba, a monarquia da Espanha com
certeza cairá. Se a monarquia da Espanha cair, o que será
das outras monarquias européias? Uma vez aberto este
precedente, não iriam os republicanos se aproveitar da
chance para também tentar derrubar as suas próprias
monarquias? E quem garante que os norte-americanos não
pegariam o gosto por roubar colônias européias? Hoje, é
Cuba. Amanhã pode ser a Guiana Francesa ou as Índias
Ocidentais (16).
O argumento, entretanto, cai em ouvidos moucos. As demais
monarquias não movem um dedo para ajudar a Espanha. Até que
porque a teoria é falha. Afinal, a Espanha perde Cuba mas
mantêm o trono.
De qualquer modo, em fevereiro de 1898, dois eventos
consecutivos e fora do controle da coroa espanhola
precipitam os acontecimentos.
Uma carta do embaixador espanhol nos Estados Unidos, em que
ele critica o presidente McKinley de "policastro, debil e
populachero (17)" é publicada pelos principais jornais,
sob as nada sóbrias manchetes de sempre: "O Pior Insulto da
História Norte-Americana" e etc.
Como se para comprovar o seu desespero em evitar a guerra, o
governo espanhol humilhantemente pede desculpas formais aos
Estados Unidos, mesmo tendo sido o comentário feito em uma
carta particular, na qual o embaixador tinha todo o direto
de expressar suas opiniões pessoais sobre qualquer um.
E antes mesmo que este escândalo pudesse esfriar, explode no
porto de Havana o cruzador norte-americano Maine, matando
263 tripulantes no - até então - pior desastre naval dos
Estados Unidos.
Aquilo significa guerra.
Notas:
14. TERRERO, pp. 617-618
15. O'TOOLE, pp. 113-114
16. Ib., pp. 70-71
17. SALCEDO RUIZ, p. 851
Parte I.6 -
E Todos Viveram Felizes para Sempre...
Sobre a guerra, escreve Mahan: "We cannot
expect ever again to have an enemy so entirely inept as
Spain showed herself to be (18)." A derrota espanhola é
rápida, fácil e total. Seus militares também sabem, tão bem
quanto a Rainha, pelo o que lutaram: não por Cuba - que
consideravam perdida - mas por sua própria honra.
Uma derrota no campo de batalha, raciocina o
comandante-em-chefe da Marinha espanhola, apesar do sério
golpe ao orgulho nacional, manteria intacta a honra do país.
Entregar Cuba aos norte-americanos, por outro lado, não só
derrubaria a Monarquia como seria a maior vergonha da
história da Espanha. Quando sai ao mar para enfrentar os
ianques, portanto, já está resignado o velho almirante em se
sacrificar para salvar a honra nacional (19). O resultado do
combate não poderia ser outro. Ele perde todos os seus seis
navios e 160 homens. Os norte-americanos contam um morto.
O baque na moral espanhola, certa de uma vitória fácil, é
tremendo. Com alguma razão, o povo sente-se traído por seus
militares e políticos, que lhe havia escondido a real
condição de penúria das forças armadas:
"Esta ignorancia [do povo] puede tener algo de desculpa,
pero esta opinión [de que a Espanha era capaz de derrotar os
Estados Unidos] era compartilhada por la Prensa y técnicos
[militares] a los que a História no puede absolver (20)."
A Espanha já não é uma potência há mais de século, mas seus
cidadãos apenas se dão conta disso agora, depois de sofrer
tão humilhante derrota. Perde-se, de uma só vez, não apenas
Cuba, mas também Porto Rico e as possessões do Pacífico,
Guam e as Filipinas. É o "Finis Hispaniae (21)",
"o maior erro cometido em nossa história (22)."
Um contemporâneo assim descreve o pós-guerra imediato:
"Tan rápido y decisivo desastre produjo en España
sensación de estupor. Aun los que se tenían por pesimistas
no se figuraban que tan fácilmente hubiéramos podido ser
vencidos. Como es proprio de nuestro carácter meridional, la
mayoría de las gentes pasó sin transición de las más locas
ilusiones al no menos loco aplanamiento: antes de la derrota
los Estados Unidos eram poca cosa para nosotros; después
nosotros no valíamos nada, éramos en el mundo um cero á la
izquierda (23)."
E vale a pena lembrar que, apesar de todos os pesares,
dificuldades e derrotas militares, a Monarquia consegue o
extraordinário feito de sobreviver. Em 1902, o jovem Afonso
XIII, de dezesseis anos, assume o trono da Espanha e sua
mãe, coitada, finalmente aposenta-se da vida pública.
Já os norte-americanos, obviamente, têm muito o que
comemorar. Haviam ganho uma guerra justa - segundo os seus
conceitos - e liberado um povo oprimido. Como diz o
embaixador norte-americano em Londres, John Hay:
"It has been a splendid little war, begun with the
highest motives, carried on with magnificent intelligence
and spirit, favored by the fortune which loves the brave
(24)."
Além disso, tinham adquirido as primeiras possessões fora do
continente, provando que o seu Destino Manifesto não
precisava, necessariamente, ser confinado à America do
Norte. Segundo muitos historiadores, é neste momento, quando
o Destino Manifesto claramente suplanta o Isolacionismo, que
os Estados Unidos se transformam em uma verdadeira potência
mundial. O Isolacionismo, claro, ainda existe. Ambos os
conceitos moldam o caráter norte-americano até hoje.
A vitória também traz paradoxos. O que fazer com os povos
conquistados, cubanos e filipinos? Podem os navalistas
deixá-los livres para que sejam "roubados" por outras
potências? Podem os norte-americanos dominar um outro povo
sem que isso anule a própria filosofia pela qual eles vivem?
O debate se estende por anos.
O presidente McKinley, que quando soube da tomada das
Filipinas - executada sem o seu conhecimento - admitiu não
fazer nem a mais vaga idéia de perto de onde elas ficavam
(25), confessa mais tarde que foi o próprio Deus que, lhe
baixando uma noite na Casa Branca, informou-o que era seu
dever sagrado cuidar desses primitivos até que eles pudessem
se cuidar sozinhos:
"I am not ashamed to tell you, gentleman, that I went
down on my knees and prayed Almighty God for light and
guidance more than one night. And one night it came to me
this way - I don't know how it was, but it came: (...) that
we could not leave them to themselves - they were unfit for
self-government - and they would soon have misrule and
anarchy over there worse than Spain's was; and that there
was nothing left for us to do but to take them all, and to
educate the Filipinos, and uplift and civilize and
Christianize (26) them, and by God's grace do the very best
we could by them, as our fellow-men for whom Christ also
died. And then I went to bed, and went to sleep and slept
soundly, and the next morning I sent for the chief engineer
of the War Department (our mapmaker), and I told him to put
the Philippines on the map of the United States, and there
they are, and there they will stay while I am President
(27)!"
E para provar que não há problema algum em governar um povo
sem o seu consentimento, o senador Albert Beveridge ainda
exemplifica: "Afinal, não governamos nossos filhos sem o
seu consentimento (28)?" Mais sincero, o editorial do
St. Louis Post-Dispatch afirma: "The Filipino are
treacherous and deceitful. Besides, we want his country
(29)!" Houve até quem trouxesse o velho Abe Lincoln a
discussão: "No nation was ever created good enough to
own other (30)." Mas ele é ignorado.
E os filipinos também. Mal agradecidos - e comprovando o
preciso julgamento do St. Louis Post-Dispatch - eles não
aceitam a ajuda cristã que lhes é generosamente oferecida e
resistem aos ianques. Em três anos de guerrilha, é
necessário que os norte-americanos matem 250 mil deles para
que, finalmente, o restante possa ser, quase cinqüenta anos
depois, considerado capaz de se auto-governar.
Pra finalizar, os cubanos tinham finalmente alcançado o
objetivo pelo o qual lutavam há mais de trinta anos: a sua
independência. Exceto por alguns pequenos detalhes sem muita
importância - como, por exemplo, o fato de os Estados Unidos
terem o direito de invadir a ilha quando bem entenderem, de
manter ali uma base naval eterna e de determinar ao seu
bel-prazer a política externa do país - Cuba possuía
independência plena.
Obviamente, como se vê, depois desse "splendid little war",
todos viveram felizes para sempre...
Notas:
18. POTTER, p. 185
19. O'TOOLE, p. 121
20. TERRERO, p. 617-618
21. Ib., p. 619
22. SALCEDO RUIZ, p. 853
23. Ib., p. 855
24. DULLES, p. 168
25. FRAENKEL, p. 18
26. Vale a pena lembrar que os filipinos já "estavam"
cristianizados, mas eram todos católicos, e isso,
obviamente, não conta. McKinley e todo o seu gabinete era
formado por protestantes.
27. O'TOOLE, pp. 385-386
28. FRAENKEL, pp. 54-55
29. Ib., p. 18
30. O'TOOLE, p. 387
Parte II -
A Revolução Norte-Americana: Os Rebeldes Relutantes e uma
Quase Guerra Civil
O processo de independência dos Estados
Unidos se inicia com o fim da Guerra dos Sete Anos
(1756-1763). Depois dela, o Império Britânico, vitorioso, se
vê no direito de coletar os seus merecidos espólios de
guerra. Infelizmente, já tendo tomado posse do Canadá e de
quase todas as colônias francesas nas Américas, os
britânicos (31) não tem mais de onde tirar dinheiro senão de
suas próprias colônias norte-americanas. Em conseqüência,
estes colonos, que haviam sustentado a maior parte da luta e
esperavam também por uma justa compensação, acabam sendo
vítimas de impostos cada vez mais severos por parte de uma
metrópole em séria necessidade de capital.
Nasce, neste momento, a discordância tarifária que
culminaria em revolução. Discordância essa, vale a pena
ressaltar, basicamente econômica e, em breve, política, mas
nunca cultural. Parte do problema, aliás, é que os
norte-americanos se consideram tão britânicos quanto os
próprios britânicos e, portanto, exigem tratamento de
acordo. Greene dedica quase um capítulo inteiro de seu livro
para demonstrar a veracidade desta afirmação, citando que,
até mesmo durante a guerra, Pais Fundadores como Jefferson e
Franklin continuavam a se referir a si e ao seu povo como
britânicos, ou "Britons". Dentre as diversas citações
coligidas por Greene, selecionei as palavras de Francis
Hopkinson, um daqueles pouco glamurosos signatários da
Declaração de Independência, como as que melhor traduzem
este espírito da época:
"We in America are in all respects Englishmen,
notwithstanding that the Atlantic rolls her waves between us
and the throne to which we all owe our allegiance (32)."
O objetivo primeiro dos norte-americanos, portanto, não é a
independência - o que a elite da colônia considerava ser
prejudicial a muitos de seus interesses comerciais - mas
apenas o reconhecimento da igualdade que se consideravam
merecedores. Com base nesta pretensa igualdade, argumentam
eles que a Coroa britânica não tem direito de aumentar ou
criar novos impostos sem o consentimento de seus súditos,
pois impostos consistem em uma doação voluntária do povo ao
seu soberano. Já o Parlamento Britânico, naturalmente, não
vê a situação da mesma maneira.
Este impasse político, causa primordial da eclosão da guerra
de independência e essencial para entendê-la, é assim
resumido por Merk:
"Parliament (...) [held] the constitutional theory that
the Empire is unitary, with authority centering in London,
and that this authority possessed a right to impose
decisions on the overseas dominions. [North-Americans]
proceeded on the theory that the Empire is federal, that the
overseas dominions are autonomous, that colonial
legislatures are co-ordinate with Parliament under the King,
and that subjects of the King were not bound by acts of
Parliament unless they give consent (33)."
Tomado então, como descreveu McDonald, por um "almost
paranoid fear that the Americans were plotting independence
(34)," o Parlamento adota medidas tarifárias cada vez
mais severas contra a colônia, dedicadas especialmente a
estrangular o porto de Boston onde, imaginava-se, estaria o
foco da incipiente revolta.
Foi um grave erro de cálculo da parte dos britânicos. O seu
temor de uma independência norte-americana, até aquele
momento infundado, começa a se concretizar. Nas colônias, o
descontentamento é geral. Sentindo-se acuados pela pressão
britânica, grupos tradicionalmente antagônicos como os
ianques da Nova Inglaterra e os grandes fazendeiros da
Virgínia unem-se contra a tirania da Metrópole. São estas
duas comunidades que, pouco favorecidas pelo sistema
colonial, têm portanto menos a perder com a sua queda e
lideram assim o processo de independência (35).
A grande maioria da população, porém, pelo menos neste
momento, ainda está extremamente relutante em trocar os
confortos do Império pelas incertezas abstratas da
autonomia. Além do mais, é sempre bom lembrar, eles se
consideravam britânicos, e até mesmo bons súditos, e
esperavam somente que o seu Rei reconhecesse este fato e os
tratasse de acordo. Kammen define-os como "reluctant
rebels and 'boldly cautious' liberals," pois o que
desejavam era apenas retornar ao confortável status quo
pré-1763 - o fim da Guerra dos Sete Anos - quando a Coroa
Britânica parecia bem menos economicamente voraz do que na
presente década de setenta, protegendo assim seu capital e
propriedades dos impostos excessivos da Metrópole (36). Por
tudo isso, estes "reluctant rebels" vão esperar até
o último instante possível, já durante a guerra contra os
britânicos, para realmente se comprometer com a causa e
assinar a Declaração de Independência.
O duplo caráter do movimento, portanto, se abre diante de
nós: ao mesmo tempo em que são liderados por uma minoria
revolucionária - e nem tão revolucionária quanto parece,
pois pretendem manter grande parte da estrutura política
britânica e sua filosofia se baseia nos "Rights of Free
Englishmen" - a maioria da população é francamente
restauradora e, até certo ponto, comodista, apenas se
juntando à revolta quando esta atinge o seu inevitável
point-of-no-return.
Em decorrência desta dualidade, a guerra de independência
norte-americana adquire também inusitadas características de
guerra civil (37). Como se disse, no fundo, todos se
consideram britânicos e leais súditos da Coroa. Nada mais
natural, portanto, que uma parte desta população permaneça
estritamente fiel ao seu Rei, decidindo que a revolta é
ilegal e se juntando às tropas britânicas para debelá-la.
Quando chega a guerra, portanto, os norte-americanos estão
divididos entre Patriotas e Legalistas, e pior, sem saber
quem é quem. Ao contrário da futura Guerra Civil, não existe
nem mesmo um critério geográfico preciso para se distinguir
os beligerantes.
Apesar de todas as dificuldades e auxiliada por uma inédita
incompetência militar britânica, a Revolução sobrevive tempo
o bastante para ser resgatada pela França e pela Espanha,
ansiosas em se vingar do Reino Unido pela recente derrota na
Guerra dos Sete Anos. Em 1781, as tropas britânicas se
rendem aos norte-americanos e, dois anos depois, assina-se o
tratado de Paris.
Os Estados Unidos, independentes em teoria desde 1776,
estão, finalmente, independentes de fato.
Notas:
31. Nós, brasileiros, temos o péssimo hábito de nos
referirmos a todos os britânicos como ingleses - o que
equivale a chamar todo brasileiro de paulista. Naturalmente,
todo inglês é britânico, mas nem todo britânico é inglês. No
interesse da precisão, no meu texto, os britânicos serão
britânicos.
32. GREENE, cap. VIII, p. 182
33. MERK, p. 5
34. McDONALD, p. 955
35. Ib., p. 956
36. KAMMEN, pp. 232-233
37. Quando, por exemplo, dá-se o grito do Ipiranga
e se inicia nossa breve luta pela autonomia, já se
sabe, imediatamente, quem é brasileiro e quem é português,
sem ambigüidades. Apenas alguns peninsulares - como também
acontece na América Espanhola - por viverem há muito no
Brasil, aderem à causa da independência, mas, tirando isso,
os dois lados em combate encontram-se bem definidos. Como
veremos, o mesmo não acontece, de modo algum, na América do
Norte.
Parte
III - A 'Independência' de Cuba: Namoro de Portão e Piada do
Ano
Não por acaso, a história da "independência"
de Cuba, apesar de acontecida 126 anos depois da
norte-americana, tem início na mesma Guerra dos Sete Anos
(38). O Reino Unido, inimigo da Espanha, toma e ocupa esta
ilha, devolvendo-a apenas ao fim das hostilidades. Os onze
meses de domínio britânico, entretanto, teriam decisiva
influência na história cubana. Cuba, cujo comércio, como de
todas as colônias, era até então restrito apenas à
Metrópole, descobre, de súbito, as lucrativas vantagens de
ter seus portos abertos ao mundo. Segundo Suchlicki, nestes
poucos meses, mais navios visitaram a ilha do que em toda a
década anterior (39).
Com a volta do controle espanhol, voltam também as
restrições comerciais, mas já era tarde. A elite açucareira
cubana tinha provado - e gostado - das liberdades
alfandegárias e tentaria mantê-las. Depois da vitória dos
escravos no Haiti, por exemplo, esta elite manipula o temor
espanhol pela abertura deste perigoso precedente e consegue
que a Metrópole suspenda muitas das restrições comerciais
que existiam, como medida preventiva contra semelhante
catástrofe em Cuba. O efeito bola-de-neve causado pela
Guerra dos Sete Anos prossegue célere até que, em 1818, os
portos cubanos são finalmente abertos ao comércio mundial. A
bola de neve, entretanto, não pára aí e continua rolando
morro abaixo. Chega-se, no início da década de 1890, a uma
situação no mínimo peculiar: Cuba, colônia da Espanha, faz
apenas 6% de seu comércio exterior com a Metrópole! E para
onde vai o resto?
Para os Estados Unidos, é lógico. A dominação britânica cria
os primeiros laços que unem os norte-americanos a Cuba,
laços que se estreitam cada vez mais à medida que vão caindo
as restrições alfandegárias ao comércio da ilha. Afinal,
quem melhor para se negociar do que com um vizinho rico e
próspero? Enquanto a Espanha recebe apenas 6% da produção de
Cuba, 85% desembarcam nos Estados Unidos, cujos interesses
comerciais e estratégicos na ilha aumentavam enormemente.
Voltando mais uma vez no tempo, diversos fatores impedem que
Cuba seja tomada pela "febre independentista" que assola as
Américas na década de 1820. Entre eles, a imensa
prosperidade da elite açucareira, que tem pouco a reclamar
do jugo colonial, e o seu medo de que a independência
causaria uma rebelião dos escravos. O precedente do Haiti,
apesar de usado muitas vezes apenas como pretexto para
assustar os espanhóis, é um temor bem concreto na mente
desses homens. Cuba, mais ainda, além de facilmente
defensável por ser uma ilha e relativamente a salvo da
influência de Bolívar, torna-se foco congruente para onde
fogem os espanhóis legalistas derrotados nas independências
da América do Sul.
Um outro fator, entretanto, por sua íntima relação com os
Estados Unidos, merece ser tratado com mais cuidado. A elite
açucareira cubana temia que, uma vez independente, fosse
forçada pelos britânicos a abolir a escravatura (40). Por
motivo semelhante, a elite sulista norte-americana,
sentindo-se cada vez mais acuada pelo Norte, considerava
seriamente a hipótese de, fosse consumada a catástrofe da
abolição, mudar-se com suas malas, cuias e escravos para
Cuba. Em suma: a anexação, neste momento, favoreceria as
duas elites, cubana e sulista norte-americana, que flertam
com olhar de namorados. E não é apenas por motivos
comerciais que os ianques cortejam Cuba, mas também
estratégicos. Como dito na parte I, o Secretário de Estado e
futuro presidente, John Quincy Adams, desenvolve sua famosa
teoria da "fruta madura" já em 1823.
Mesmo no meio de tanto amor, entretanto, existem alguns
poréns. José Antonio Saco, por exemplo, um escritor afinado
com os interesses da elite cubana, apesar de admirar os
norte-americanos e de também temer uma revolta escrava,
levanta a seguinte restrição: em virtude da pequenez de Cuba
e da enormidade ianque, a ilha não seria apenas anexada e
sim absorvida; nunca desenvolveria uma cultura ou
nacionalidade próprias e acabaria diluída dentro da cultura
norte-americana (41). Alguns anos mais tarde, José Martí
concordaria com isso: "Ni nuestro carácter ni nuestra
vida están seguros en la tierra extranjera (42)."
Em breve, entretanto, novos fatores em ambos os países
virariam a situação ao avesso: o pé-firme da Espanha contra
a pressão abolicionista britânica acalma os ânimos da elite
cubana, e a conquista do México pelos Estados Unidos dá ao
sulistas tanto território por onde se espalhar que eles logo
se esquecem daquela pequena ilhota no Caribe. Um pouco mais
tarde, a Guerra Civil norte-americana encerra de vez esse
namoro de portão.
Enquanto isso, em Cuba, a elite açucareira está cada vez
menos satisfeita com a administração espanhola. A recompensa
que esperavam pela sua lealdade durante a "febre
independentista" nunca veio. Ao contrário, por ser
praticamente sua única colônia restante, a Espanha explora
Cuba ainda mais. A crise explode em 1868, na Guerra dos Dez
Anos, a primeira tentativa cubana de independência.
Quanto os Estados Unidos, eles não apenas não ajudam como
nem ao menos reconhecem a beligerância dos insurretos,
causando danos materiais e psicológicos ao movimento, ao
mesmo tempo em que também lucram com isso. Aproveitando-se
dos danos e falências causados pela guerra, os
norte-americanos compram fazendas e minas a preços
baixíssimos, aumentando assim a sua presença econômica na
ilha.
Ainda mais humilhantemente, caçoam dos cubanos por não
conseguirem nem vencer a sua própria guerra de
independência. À essa crítica injusta, José Martí responde
com admirável precisão: afinal, argumenta ele, "nosotros
no teníamos hessianos ni franceses, ni Lafayette o Steuben,
ni rivalidades de rey que nos ayudaram (43)", fazendo
referência às ajudas externas sem as quais os
norte-americanos, como vimos, também não teriam derrotado os
britânicos. E prossegue, explicando uma das razões
principais porque Cuba perdeu a guerra contra a Espanha:
"Nosotros caímos víctimas de (...) una confianza
infantil en la ayuda cierta de los Estados Unidos: '¡No han
de vernos morir por la libertad a sus propias puertas sin
alzar una mano o decir una palabra para dar un nuevo pueblo
libre al mundo!' Extendieron 'los limites de su poder en
deferencia a España'. No alzaron la mano. No dijeron palabra
(44)."
Finalmente, 200 mil mortos depois, os revoltosos baixam
armas, mediante várias promessas espanholas que nunca são
cumpridas. Crescem os ressentimentos e os cubanos não
desistem da independência.
Em Nova Iorque, forma-se uma Junta Revolucionária, dedicada
a angariar fundos e simpatias para a causa, preparando
terreno para uma nova guerra. Ao contrário do que afirmam
diversos autores, porém, o objetivo assumido da Junta não
era provocar a intervenção norte-americana. O que seus
membros queriam - e eles deixam isso bem claro em diversas
ocasiões - é que, iniciado o conflito, os Estados Unidos
façam o que não fizeram em 1868: reconhecer a beligerância
(45) dos insurretos.
Em relação ao afundamento do Maine, por exemplo - uma vez
estabelecido que os norte-americanos não destruiriam seu
próprio navio e que os espanhóis jamais teriam feito tamanha
besteira - a teoria mais em voga durante muito tempo foi que
o desastre havia sido causado por insurgentes cubanos,
interessados em arrastar os ianques para sua guerra de
independência (46).
Nada poderia estar mais errado. Em entrevista logo depois da
tragédia, o líder supremo da Revolução, Máximo Gómez, afirma
contundentemente que considera os Estados Unidos seu inimigo
e que tem mais razões para temer do que para desejar uma
intervenção norte-americana (47). Ainda mais contundente,
Horácio Rubens, o representante legal da Junta Nova
Iorquina, declara que quaisquer tropas norte-americanas
desembarcadas em Cuba serão tratadas como hostis e
combatidas pelos cubanos com o mesmo vigor com o qual
combatem os espanhóis (48). E quando acusado pelo próprio
presidente McKinley de provocar a intervenção
norte-americana, o mesmo Rubens retruca que tudo o que quer
dos Estados Unidos é sua neutralidade e o reconhecimento da
beligerância dos revoltosos (49).
Não pode haver, portanto, dadas tais afirmações de altos
líderes revolucionários, nenhuma dúvida de que os cubanos de
modo algum desejavam ou estimularam o envolvimento ianque na
guerra. Para cristalizar ainda mais este ponto tão crucial e
polêmico, vou citar - longamente, pois afinal ele é o maior
teórico da independência cubana - o próprio José Martí. Em
uma de suas famosas analogias, ele escreve que imaginar que
a solução para os problemas de Cuba é anexá-la aos Estados
Unidos equivale a tentar curar uma queimadura no dedo
atirando o corpo todo às chamas (50)! E depois desenvolve:
"La idea de anexión, por causas naturales y constantes,
es um factor grave y contínuo de la política cubana. (...)
Para que la isla sea norteamericana no necessitamos hacer
ningún esfuerzo, porque, si no aprovechamos el poco tiempo
que nos queda para impedir que lo sea, por su propia
descomposición vendrá a serlo. [Neste ponto, aparentemente,
Martí concorda com a teoria do "fruta madura", de Adams.]
Eso espera este país [Os Estados Unidos], y a eso debemos
oponermos nosotros. Lo que del Congreso se había de
obtener era, pues, una recomendación que llevase aparejado
el reconocimiento de nuestro derecho a la independencia y de
nuestra capacidad para ella, de parte del gobierno
norteamericano, que, en toda probabilidad, ni esto querrá
hacer, ni decir cosa que en lo menor ponga en duda para lo
futuro, o comprometa por respetos expresos anteriores, su
título al dominio de la Isla. [Cuba] (...) Nada, en
realidad, espero, porque, en cuestión abierta como ésta, que
tiene la anéxion de la Isla como uno de sus términos, no es
probable que los Estados Unidos den voto que en algún modo
contraríe el término que más les favorece. (...) Y una vez
em Cuba los Estados Unidos ¿quién los saca de ella(51)?"
(grifo meu)
Estando estabelecida a repulsa cubana a um envolvimento
militar ianque, uma pergunta bastante pertinente se faz
praticamente sozinha: se, em fevereiro, logo após o desastre
do Maine, Rubens e Gómez afirmam que os norte-americanos são
os inimigos e que os combaterão se preciso for, como pode
ser possível que, meros dois meses depois, as tropas
norte-americanas desembarquem em Cuba e contem com o total
apoio dos revolucionários, atuando, inclusive, em conjunto
com eles? É óbvio que algo de muito sério acontece durante
este intervalo, para alterar posições tão radicais quanto as
externadas pelos líderes insurretos.
A resposta para esta pergunta está grifada na citação do
sempre profético Martí. O que ele considera quase impossível
de fato ocorre. No dia 20 de abril de 1898, o congresso
norte-americano, através da Emenda Teller, compromete-se
oficialmente a não anexar Cuba, nas seguintes palavras:
"The United States hereby disclaims any disposition or
intention to exercise sovereignty, jurisdiction, or control
over said island [Cuba] except for the pacification
thereof, and asserts its determination when that is
accomplished to leave the government and control of the
island to its people (52)." (grifos meus)
Os cubanos, naturalmente, ficam eufóricos. A Emenda Teller
não apenas reconhece sua beligerância como também sua
independência. Não é de se estranhar, portanto, que os
norte-americanos sejam tão bem recebidos quando de seu
desembarque na ilha. Imaginam os cubanos, como coloca um
deles, que a Emenda Teller representa um inquebrável e
sagrado contrato tendo todo o mundo como testemunha (53).
Martí, nessa época, já estava morto, mas seu alerta fora
dado anos antes:
"Los hombres entusiastas que (...) admiran sin examen
suficiente las instituciones del pueblo norteamericano
[não percebem que estas mesmas instituições] (...) no han
logrado impedir la conversión del yankee demócrata y
universal en el yankee autoritário, codicioso y
agressivo (54)." (grifos meus)
Infelizmente, tomados por sua empolgação, os cubanos deixam
de ler as entrelinhas da emenda ou de, pelo menos, reparar
nas ambigüidades gritantes contidas nos termos que grifei.
Já um deputado norte-americano, anti-imperialista e
perceptivo, enxerga-as tão bem que chega a votar contra a
Emenda Teller - uma conduta à primeira vista no mínimo
contraditória. Mas, muito pelo contrário, a longa
experiência do deputado lhe indica perfeitamente o perigo
que se esconde por entre aquelas linhas e ele mais tarde
declara:
"I do not especially object to ambition for
aggrandisement, but I think if the United States is going to
be actuated by ambition she ought to say so, and not say she
is actuated by philantropy. I think hypocrisy is a vastly
worse vice than ambition or greed of territory (55)."
Na verdade, o mundo todo zomba da Emenda Teller. Por entre
os chefes de Estado europeus, ela é a piada do ano. Ninguém
abandona territórios conquistados, caçoam eles,
especialmente quando tão ricos como Cuba (56). Pode-se dizer
que só acredita na sinceridade da Emenda Teller quem já
queria e precisava acreditar nela: os próprios cubanos e,
sejamos sinceros, a idealista e bem-intencionada opinião
pública norte-americana.
A guerra é rápida e os espanhóis são logo escorraçados de
volta pra casa. Os norte-americanos, porém, continuam na
ilha. Em menos de três anos, a bondosa e dissimulada Emenda
Teller tinha se transformado na menos bondosa e ainda mais
dissimulada Emenda Platt, ou "dreadful document",
uma das mais vergonhosas páginas da história
norte-americana.
Cuba, depois de anos de luta, está finalmente independente.
Mas só no papel. E, na verdade, nem mesmo no papel. A
história de como a Emenda Teller se transforma na Emenda
Platt pertence ao próximo capítulo.
Notas:
38. A Guerra dos Sete Anos é tida, por muitos historiadores,
como a primeira das grandes guerras mundiais, pois envolveu
não apenas todas as potências européias como também suas
colônias espalhadas pelo globo. Lutou-se tanto na Índia como
no Brasil, onde o governador de Buenos Aires, Pedro
Cevallos, aproveitou-se do estado de guerra entre Portugal e
Espanha para conquistar os atuais Uruguai e Rio Grande do
Sul, adquirindo assim controle das duas margens do
estratégico Rio da Prata. Cevallos, ainda invicto e ávido
por novas vitórias, avançava rumo ao norte quando notícias
do armistício da Europa fizeram-no recuar e, muito contra a
sua vontade, devolver ao Brasil todo o território tomado. Já
a fase norte-americana da guerra, chamada de "French and
Indian War", foi essencial, entre outras coisas, para apurar
as habilidades guerreiras dos colonos. Durante a Revolução,
os ingleses não se confrontaram com meros fazendeiros
armados, mas com veteranos de guerra endurecidos por anos de
jungle warfare. Sem esta experiência militar prévia, é muito
provável que os patriotas não conseguissem se sustentar por
tanto tempo em luta contra o poderio britânico. Em Cuba,
como vai se mostrar, a Guerra dos Sete Anos também teve
efeitos duradouros.
39. SUCHLICKI, p. 44
40. Talvez tivessem até em mente o que vinha acontecendo com
o Brasil por volta dessa mesma época, cada vez mais acuado
pelo próprio Reino Unido a abolir a escravidão.
41. SUCHLICKI, pp. 59-60
42. MARTÍ, p. 670
43. MARTÍ, p. 652
44. Ib., p. 652
45. Na verdade, o congresso americano, depois de longos
debates, reconheceu a beligerância dos insurretos cubanos,
em 6 de abril de 1896. Apesar de ter sido uma grande vitória
moral para a Junta, infelizmente, apenas o poder executivo
podia reconhecer a beligerância de fato e o presidente de
então, Cleveland, se opôs a isso peremptoriamente. Aliás,
Foner dedica todo o seu décimo capítulo a demonstrar como
Cleveland fez todo o possível para impedir a independência
de Cuba e auxiliar os espanhóis no debelamento da Revolução.
Seu sucessor, McKinley, que também poderia ter reconhecido a
beligerância, insistiu em se dizer neutro até o início da
guerra e igualmente se recusou a reconhecer os rebeldes.
46. Como dizia Sherlock Holmes, uma vez eliminado o
impossível, tudo o que restar, mesmo o improvável, terá que
ser verdade. Uma vez que prove-se - o que não é muito
difícil - que nenhum dos países envolvidos tinha interesse
em afundar o Maine, a única hipótese provável que resta, por
incrível que pareça, é que o Maine tenha mesmo afundado por
acidente! Na verdade, uma comissão da Marinha
norte-americana especialmente encarregada de estudar os
destroços concluiu, em 1976, que a causa do afundamento foi
uma combustão espontânea no depósito de carvão do navio,
detonando assim o paiol de pólvora adjacente. Essa hipótese
chegou a ser bastante sugerida na época, inclusive pelo
próprio capitão do navio, mas o ímpeto guerreiro americano
estava empolgado demais para dar ouvido à teorias lógicas.
Ver O'TOOLE, pp. 397-400. Aliás, durante a era dos grandes
encouraçados movidos a carvão, a sua combustão expontânea
era causa frequente de acidentes e, muitas vezes,
verdadeiras tragédias. Um dos piores desastres da Marinha
Brasileira, por exemplo, o afundamento do Aquidabã na baía
de Jacuecanga, em 1906, foi causado pelo mesmo motivo. Em
suma: poucas vezes na história um acidente - se aceitarmos
esta teoria - poderia ter acontecido em pior hora e em pior
lugar. Ou, dependendo da sua perspectiva, em melhor hora e
melhor lugar.
47. FONER, p. 247
48. Ib., pp. 258-259
49. Ib., p. 248
50. MARTÍ, p. 662
51. Ib., pp. 655-659
52. FONER, p. 270, O'TOOLE, p. 171; para a íntegra da Emenda
Teller, ver o Apêndice I.
53. Ib., p. 279
54. MARTÍ, p. 661
55. FONER., p. 190
56. HERRING, pp. 398-399
Parte IV,
Conclusão - Os Pais Fundadores Teriam Ficado Orgulhosos: Um
Povo Missionário e o Mundo para os Norte-Americanos
Nada disso, infelizmente, teria surpreendido
Martí. Em artigo para o The Evening Post em 21 de março de
1889, ele escreve - com um traço amargo de ironia -
profeticamente alertando o povo norte-americano contra as
suas próprias tentações:
"No es de esperar, para honra de la especie humana,
que la nación que tuvo la libertad por cuna (...)
emplee el poder amasado de este modo para privar de su
libertad a un vecino menos afortunado (37)." (grifos
meus)
Mas o governo norte-americano, assolado pela euforia do
pós-guerra - ainda mais de uma guerra fácil como essa - não
iria dar ouvidos a apelos abstratos à "honra de la especie
humana". Tudo o que se pensa é em anexação e, para tanto,
explorar ou contornar as entrelinhas da Emenda Teller
torna-se prioridade absoluta. Outros, porém, defendem
medidas mais drásticas. Um editorial do Wall Street Journal
vai direto ao ponto:
[Nós, os Estados Unidos] "had made a grand mistake when
we promised to give the Cuban people independence. The
American people, unfortunately, are impulsive and
indiscreet. The promise ought to be broken because it is
our interest to break it. To retire from Cuba would be a
crime which would not be justified by a promise made in
ignorance to the Cubans (58)." (grifo meu)
Um senador concorda que a Emenda Teller foi feita "in a
moment of impulse but mistaken generosity (...) and it will
not be kept (59)." Outro importante homem de negócios
sugere que simplesmente se esqueça da Emenda Teller, em sua
opinião "hastly passed by all parties in Congress at an
excited hour (...) [and] an error (60)." Procurando por
brechas na lei, insinua-se até que, já que a Emenda Teller
fora apenas uma "declaração do congresso", ela
poderia ser repelida or retirada ("repealed or
withdrawn") se o congresso assim quisesse e votasse
(61).
Mais tarde, o próprio senador Teller, criador da emenda,
volta atrás - ou revela-se, quem sabe - e torna-se um
verborrágico imperialista:
"Who else can govern Cuba today but the United States?
(...) In all their international relations I believe, for
many years to come at least, the Government of the United
States must speak to the world for Cuba (62)."
E vai mais além, dizendo que Cuba pertence aos
norte-americanos por "right of conquest" e que,
portanto, eles podem fazer dela o que bem quiserem (63).
Dentro do "establishment", porém, alguns ainda tentam
defender os cubanos, mas são poucos e de voz fraca. O
senador Bacon, em 1900, argumenta que, de acordo com a
Emenda Teller, as forças norte-americanas permaneceriam em
Cuba apenas até a sua pacificação. Entretanto, já reinava a
paz há dois anos e os ianques não apenas ainda estavam lá
como não haviam promovido ("erected") um governo cubano
legítimo - a ilha vinha sendo administrada por militares.
Além disso, os norte-americanos estavam governando Cuba,
exercendo controle e jurisdição, ao mesmo tempo em que
negavam soberania aos seus habitantes, o que ia literalmente
de encontro às palavras da Emenda Teller (64).
Mas Bacon é apenas um e seus adversários, que são muitos,
conhecem tão bem quanto ele a arte de distorcer as palavras
em favor de seus próprios interesses. Para o alívio dos
imperialistas, o senador Platt finalmente consegue, depois
de muito esforço, descobrir uma brecha por entre as palavras
daquilo que ele chamava "that foolish Teller resolution
(65)." Em 25 de fevereiro de 1901, é aprovada a Emenda
Platt, ostensivamente para confirmar e efetivar a
independência de Cuba.
Já em seu primeiro parágrafo, entretanto, vêm as condições
para que as tropas norte-americanas deixem a ilha: a
existência de um governo estabelecido cuja constituição
contenha os seguintes pontos - e segue enumerando
exigências. Parece inacreditável, mas o documento que
teoricamente promulga a independência de Cuba nada mais é do
que uma lista das imposições ianques sobre esta pretensa
"nação soberana"!
De acordo com a Emenda Platt, a república "soberana e
independente" de Cuba não pode, por exemplo, fazer tratados
ou declarar guerra a outros países sem a permissão dos
Estados Unidos, que se reserva direitos como manter uma base
naval eterna na ilha e invadi-la quando achar conveniente -
"the right to intervene (66)".
Mesmo depois de tudo isso, Foner, que estudou o assunto como
poucos e escreveu obra brilhante sobre a guerra, considera o
seu "most sickening aspect" a campanha
propagandística do governo norte-americano destinada a
convencer não somente ao seu próprio povo como também aos
cubanos que o objetivo da Emenda Platt era fortalecer
a independência de Cuba, e não destruí-la (67)!
Mestre na retórica, como todo bom político, Platt afirma que
sua emenda se aplica apenas para o período previsto no
trecho "except for the pacification thereof" da
Emenda Teller - trecho esse que já sabíamos ambíguo.
Pacificação, entretanto, é um processo demorado e deve ser
visto da maneira mais ampla possível. Sua emenda, assim,
insere-se nesse processo, sendo mesmo uma conseqüência da
Emenda Teller e em perfeita harmonia com seu espírito. E de
modo nenhum, apressa-se em acrescentar, um corolário da
Doutrina Monroe, como acusam alguns de seus injustos
detratores. A Emenda Platt, em sua essência, faz de Cuba não
apenas independente, como bem mais independente do que seria
sem ela, por estar esta independência garantida pelos
Estados Unidos. Para concluir - e sempre com um "straight
face", ironiza Foner - Platt enfatiza:
"Cuba needs a real not a paper independence, and
this the United States alone can assure her (68)!"
(grifos meus)
O leitor provavelmente terá reparado que todo este debate
deu-se entre a elite dos Estados Unidos. Citei editoriais,
homens de negócios, senadores, deputados e presidentes, mas
nenhum homem do povo. Foner, por causa disso, dedica o seu
nono capítulo para provar que este clima de imperialismo
reinante na época era obra dos políticos, estadistas e
intelectuais, nunca do norte-americano médio, e cita
inclusive observação de um britânico contemporâneo à guerra:
"The American man in the street is doubtless honest and
sincere in his zeal for Cuban freedom, but he is simply
shouting - without knowing it, of course - at the
prompting of others (69)." (grifo meu)
Depois de descrever todas as maneiras pelas quais este homem
comum tenta auxiliar a causa cubana dentro de seus modestos
meios, através de rifas, petições, etc, Foner fecha o
capítulo afirmando que atribuir toda essa solidariedade
popular apenas às maquinações da "imprensa marrom" e da
Junta nova-iorquina, à propaganda governamental e a um
desejo expansionista, seria denegrir demais o caráter do
povo norte-americano (70).
Merk, por seu lado, dedica todo um livro, Manifest
Destiny and Mission, para provar mais ou menos a mesma
tese: de que o Destino Manifesto e seus filhotes - o
imperialismo e o expansionismo - foram criações únicas dos
estadistas norte-americanos. O povo, apesar de tomado por um
sentido de Missão, pouco participou e quase nunca apoiou a
geopolítica de seus líderes, a não ser quando
extraordinariamente - e muitas vezes, artificialmente -
inflamado. Ele assim se explica:
"Imperialist doctrines were never true expressions of the
national spirit. (...) Manifest Destiny and imperialism were
traps into which the nation was led. (...) A truer
expression of the national spirit was Mission. This was
present from the beginning of American History (71)."
(grifos meus)
O que Merk não consegue ver é a finíssima linha que separa,
e muitas vezes embaralha, estes dois conceitos de Missão e
Destino Manifesto. Enquanto o Destino Manifesto, leia-se
imperialismo, não implica necessariamente em um sentido de
Missão, podendo ser muitas vezes 100% pragmático - como no
conselho dado a McKinley por um grande magnata:
"Government policy must be controlled by commercial
interests rather than by sympathy with a people struggling
for liberty (72)." - um verdadeiro espírito de Missão,
como o que Merk argumenta possuir o povo norte-americano
desde seu início, implica necessariamente em uma certa
medida de imperialismo e expansionismo, nem que seja
filosófico e não pecuniário.
Merk não percebe, apesar de ter sempre este tema em foco,
que é o próprio sentido de Missão que permeia e legitima
toda a doutrina imperialista norte-americana. Para McKinley,
por exemplo, um homem profundamente religioso e consciente
do papel que lhe cabia como líder do povo "missionário",
Cuba apenas estaria pronta para se auto-governar quando
houvesse na ilha "enough Americans to constitute a dorsal
spine of intelligent citizenry who can be trusted (73)",
ensinando assim aos pobres nativos o perfeito sistema
político ianque. Pois um sentido de Missão é justamente
isso: se considerar não apenas perfeito - ou, pelo menos, o
melhor - mas também se ver na obrigação de ajudar outros
menos esclarecidos a alcançar o seu nível de aprimoramento.
Portanto, um povo "missionário" sem os meios de espalhar sua
"verdade" é inofensivo. Um povo "missionário" que tenha
meios de espalhar a sua "verdade", mas que saiba aceitar
negativas e que respeite o direito dos outros em não querer
sua ajuda é apenas inconveniente. Já um povo "missionário"
com meios de espalhar sua "verdade" e que se ache no dever
de impô-la aos menos iluminados se configura em um sério
problema para todos que estão em seu raio de alcance. Pior,
um povo "missionário" que tenha os meios de espalhar sua
"verdade", a determinação de impô-la e que ainda use isso
como pretexto para justificar o imperialismo e o
expansionismo é um perigo para todos.
Em 1776, os Estados Unidos se enquadram no primeiro caso. Em
1898, no último.
Embora o sentimento de Missão já tenha vindo na mala dos
Pais Pioneiros, é com o sucesso dos Pais Fundadores que ele
atinge seu ápice. Para os norte-americanos da época, a sua
Revolução representa "the perfect revolution" e
pensam ter com isso descoberto "the ultimate solution to
mankind's long search for the proper way to organize society
(74)." O povo não cabe mais em si. Todos, do mais pobre
camponês ao mais rico negociante, "viewed themselves as
agents of God's will and purpose (75)." Thomas Jefferson
acredita piamente que a América do Norte representa "the
world's best hope (76)" e que "no constitution was
ever before as well calculated as ours for extensive empire
and self-government (77)." Outro Thomas, Paine, diz:
"We have it in our power to begin the world over again
(78)!" E para melhor, obviamente. A onda de euforia
gerada pelo sucesso da Revolução engloba inclusive os
poetas. Walt Whitman observa que a expansão continental
gerou "unparalled human happiness and national freedom
(79)" e Ralph Emerson conclui que "our whole history
appears to be a last effort of Divine Providence on behalf
of the human race (80)."
Segundo Williams, são duas as conseqüências principais desta
profunda e sincera crença na perfeição norte-americana:
primeiro, a tendência ianque de julgar todas as outras
culturas qualitativamente de acordo com o quão teoricamente
próximas elas estão de seu próprio "American Way (81)"
- idéia explícita na frase de McKinley de que Cuba somente
poderá se auto-governar quando possuir "enough Americans
to constitute a dorsal spine of intelligent citizenry."
A conseqüência mais importante, entretanto, é que, imbuído
de intensa generosidade cristã, este homem se considera no
dever de aperfeiçoar o mundo da mesma maneira como ele
próprio se aperfeiçoou. Inserida nisso, está uma outra noção
essencial na cultura norte-americana, herdada dos Pais
Peregrinos: a idéia de fronteira. Como afirma Carl Becker,
citado por Williams: "People who open and settle
frontiers must be always transforming the world into their
ideal of it (82)." Estranho seria se o povo
norte-americano, depois de dois séculos abrindo fronteiras
no continente, subitamente apagasse esse traço de seu
temperamento apenas porque não há novas fronteiras para
abrir - o que de fato acontece em meados do século XIX.
Muito mais natural é que este povo vá buscar suas fronteiras
em outro lugar, seja ele Cuba, Vietnã ou a Lua.
Não apenas o espírito de Missão que ocasionou o envolvimento
norte-americano em Cuba existe idêntico durante a Guerra de
Independência, como também o interesse estratégico pela
ilha. Benjamin Fraklin, já em 1761, a lista como uma de suas
prioridades estratégicas (83), não usando, porém, metáforas
tão felizes como a da "fruta madura", que John Quincy Adams
somente cunharia em 1823.
Em suma: o que tentei demonstrar na quarta parte, primeiro
através da metamorfose da Emenda Teller em Emenda Platt e,
depois, com esta volta à América Revolucionária, é que todos
os elementos filosóficos, culturais e políticos que
justificaram e instigaram a intervenção de Cuba em 1898 já
existiam em 1776. Através de inúmeras citações de
contemporâneos de ambas as guerras, procurei provar como o
pensamento norte-americano e seu modo de julgar outras
culturas permaneceu quase inalterado durante estes anos.
Também, para dar ainda mais credibilidade à minha hipótese,
me restringi, a duras penas, de citar acontecimentos
relevantes da história norte-americana durante o intervalo
1776-1898, para demonstrar que nenhum deles modificou
significantemente o caráter de seu povo. Pelo contrário,
como disse na introdução, o imperialismo de 1898 é
conseqüência direta e já está inserido nos ideais de 1776.
Aos que contra-argumentarem que 1898 não poderia ter
acontecido sem a Doutrina Monroe, de 1823, eu concordarei,
com uma ressalva: o conceito de "a América para os [norte-]
americanos" é realmente fundamental para legitimar a
intervenção de Cuba, mas ele pode ser encontrado - não
apenas implícito, mas totalmente explícito e direto - nos
comentários eufóricos que citei alguns parágrafos atrás.
Aliás, a idéia por trás desta crença na perfeição do sistema
vai muito além de um mero "a América para os
norte-americanos": o que a geração de 1776 está dizendo
claramente e que vai se tornar a base da política externa
ianque no século vinte (vide a doutrina Truman) é "o mundo
para os norte-americanos!"
Não se trata, portanto, de uma simples questão de voltar no
tempo arbitrariamente. O conceito de "a América para os
norte-americanos", por exemplo, apesar de apenas assim
verbalizado em 1823, com certeza existe em 1776, mas ainda
não em 1620, na chegada dos Pais Peregrinos. Já a noção de
fronteira nasce quando o primeiro peregrino derruba a
primeira árvore, se transforma depois em continentalismo e,
somente em meados do século XIX, recebe a feliz denominação
de Destino Manifesto. Em ambos os casos, entretanto, a idéia
precede a sua verbalização tradicional.
Para encerrar, eu gostaria de passar a palavra a três dos
maiores imperialistas da história norte-americana, não
citados ao longo do texto por não serem contemporâneos das
duas independências com as quais trabalhei. Primeiro, John
Quincy Adams, falando em 1819:
"Any effort on our part to reason the world out of a
belief that we are ambitious will have no other effect than
to add to our ambition hypocrisy (84)."
Depois, Theodore Roosevelt, que apesar de ter lutado em
Cuba, pronunciou estas palavras somente em 1905, já durante
a sua presidência:
"All this country [Os Estados Unidos] desires is that the
other republics on this continent [As Américas] shall be
happy and prosperous; and they cannot be happy and
prosperous unless they maintain order within their
boundaries and behave with a just regard for their
obligations towards outsiders. (...) [Thus] chronic
wrongdoing, or an impotence which results in a general
loosening of the ties of civilized society, may (...) in the
Western Hemisphere (...) force the United States, however
reluctantly, (...) to the exercise of an international
police power (85)."
De acordo com Williams, "the United States was to
demonstrate [that] there is neither a logical nor a
pragmatic connection between more freedom at home and less
empire abroad (86)." O comentário que se segue,
encerrando este ensaio, prova não apenas esta última teoria
como também que muito pouco mudou na filosofia imperialista
norte-americana de 1898 para cá. Perguntado sobre o que
achava de uma intervenção ianque para derrubar Allende, o
novo presidente eleito do Chile, assim respondeu o poderoso
Secretário de Estado Henry Kissinger:
"I don't see why we need to stand
by and permit a country to go Communist due to the
irresposibility of its own people (87)!"
Notas:
57. MARTÍ, p. 652
58. FONER, p. 514
59. Ib., pp. 546-547
60. Ib., p. 413
61. Ib., p. 392
62. Ib., p. 420
63. Ib., p. 420
64. Ib., pp. 536-537
65. Ib., pp. 531-532
66. Ib., pp. 574-575; para a íntegra da Emenda Teller, ver o
Apêndice II.
67. Ib., p. 630
68. Ib., p. 630
69. Ib., p. 282
70. Ib., p. 178
71. MERK, p. 261
72. FONER, p. 209
73. Ib., p. 219
74. WILLIAMS, p. 53
75. Ib. p. 52
76. Ib., p. 53
77. Ib., p. 61
78. Ib., p. 41
79. Ib., p. 87
80. Ib., p. 87
81. Ib., p. 53
82. Ib., p. 99
83. Ib., p. 117
84. Ib., p. 67
85. Ib., p. 131
86. Ib., p. 121
87. Ib., p. xi
Apêndice e
Bibliografia
Apêndice I:
A Emenda Teller
RECOGNITION OF THE INDEPENDENCE OF CUBA
(1898)
Joint Resolution for the recognition of the independence of
the people of Cuba, demanding that the Government of Spain
relinquish its authority and government in the Island of
Cuba, and to withdraw its land and naval forces from Cuba
and Cuban waters, and directing the President of the United
States to use the land and naval forces of the United States
to carry these resolutions into effect. Whereas, the
abhorrent conditions which have existed for more than three
years in the Island of Cuba, so near our own borders, have
shocked the moral sense of the people of the United States,
have been a disgrace to Christian civilization, culminating,
as they have, in the destruction of a United States
battle-ship, with two hundred and sixty-six of its officers
and crew, while on a friendly visit in the harbor of Havana,
and can not longer be endured, as has been set forth by the
President of the United States in his message to Congress of
April eleventh, eighteen hundred and ninetyeight, upon which
the action of Congress was invited: Therefore, Resolved, by
the Senate and House of Representatives of the United States
of America in Congress assembled,
First. That the people of the Island of Cuba are, and of
right ought to be, free and independent.
Second. That it is the duty of the United States to demand,
and the Government of the United States does hereby demand,
that the Government of Spain at once relinquish its
authority and government in the Island of Cuba, and withdraw
its land and naval forces from Cuba and Cuban waters.
Third. That the President of the United States be, and he
hereby is, directed and empowered to use the entire land and
naval forces of the United States, and to call into the
actual service of the United States, the militia of the
several States, to such extent as may be necessary to carry
these resolutions into effect. Fourth. That the United
States hereby disclaims any disposition or intention to
exercise sovereignty, jurisdiction, or control over said
Islands except for the pacification thereof, and asserts its
determination, when that is accomplished, to leave the
government and control of the Island to its people.
Approved, April 20, 1898.
Apêndice II:
A Emenda Platt
Whereas the Congress of the United States of
America, by an Act approved March 2, 1901, provided as
follows:
Provided further, That in fulfillment of the declaration
contained in the joint resolution approved April twentieth,
eighteen hundred and ninety-eight, entitled "For the
recognition of the independence of the people of Cuba,
demanding that the Government of Spain relinquish its
authority and government in the island of Cuba, and withdraw
its land and naval forces from Cuba and Cuban waters, and
directing the President of the United States to use the land
and naval forces of the United States to carry these
resolutions into effect," the President is hereby authorized
to "leave the government and control of the island of Cuba
to its people" so soon as a government shall have been
established in said island under a constitution which,
either as a part thereof or in an ordinance appended
thereto, shall define the future relations of the United
States with Cuba, substantially as follows:
"I.-That the government of Cuba shall never enter into any
treaty or other compact with any foreign power or powers
which will impair or tend to impair the independence of
Cuba, nor in any manner authorize or permit any foreign
power or powers to obtain by colonization or for military or
naval purposes or otherwise, lodgement in or control over
any portion of said island."
"II. That said government shall not assume or contract any
public debt, to pay the interest upon which, and to make
reasonable sinking fund provision for the ultimate discharge
of which, the ordinary revenues of the island, after
defraying the current expenses of government shall be
inadequate."
"III. That the government of Cuba consents that the United
States may exercise the right to intervene for the
preservation of Cuban independence, the maintenance of a
government adequate for the protection of life, property,
and individual liberty, and for discharging the obligations
with respect to Cuba imposed by the treaty of Paris on the
United States, now to be assumed and undertaken by the
government of Cuba."
"IV. That all Acts of the United States in Cuba during its
military occupancy thereof are ratified and validated, and
all lawful rights acquired thereunder shall be maintained
and protected."
"V. That the government of Cuba will execute, and as far as
necessary extend, the plans already devised or other plans
to be mutually agreed upon, for the sanitation of the cities
of the island, to the end that a recurrence of epidemic and
infectious diseases may be prevented, thereby assuring
protection to the people and commerce of Cuba, as well as to
the commerce of the southern ports of the United States and
the people residing therein."
"VI. That the Isle of Pines shall be omitted from the
proposed constitutional boundaries of Cuba, the title
thereto being left to future adjustment by treaty."
"VII. That to enable the United States to maintain the
independence of Cuba, and to protect the people thereof, as
well as for its own defense, the government of Cuba will
sell or lease to the United States lands necessary for
coaling or naval stations at certain specified points to be
agreed upon with the President of the United States."
"VIII. That by way of further assurance the government of
Cuba will embody the foregoing provisions in a permanent
treaty with the United States.
Bibliografia
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WILLIAMS, William Appleman. Empire as a Way of Life. An
Essay on the Causes and Character of America's Present
Predicament Along With a Few Thoughts About an Alternative.
Nova Iorque: Oxford University Press, 1980.
Postada no
blog
em Junho e Julho de 2004
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