A Coisa Não-Deus, de Alexandre Soares Silva
Acabei de ler A Coisa Não-Deus, de Alexandre Soares Silva, e a minha primeira impressão foi: esse é o melhor livro que li esse ano.
Como afirmações desse tipo são sempre temerárias, ainda mais porque leio muito, resolvi repassar minha lista de leituras de 2003 para confirmar a façanha.
De cara, achei melhor contextualizar para "melhor obra de ficção que li esse ano", pois The Theory of the Leisure Class, do Veblen, Walden, do Thoreau e Decline and Fall of the Roman Empire, do Gibbon são, nessa ordem, os melhores livros que li esse ano. Naturalmente, perder desses três pesos-pesados não é demérito algum.
(Alexandre, o Sabino disse uma vez que escritores são como figurinhas: a gente troca com os amigos e ainda se orgulha de mostrar o álbum completo. Você tem esse Saramago? Eu tenho dois desse Ubaldo, quer trocar?, por aí vai. Por isso, não me sinto cabotino de citar tantos nomes de livros e autores. Aliás, na sua parada do orgulho leitor, o gordo lendo o Decamerão sou eu!)
Mas será que A Coisa Não-Deus é mesmo o melhor livro de ficção do ano? Passei a lista em revista.
Eu diria que os finalistas são Dias & Dias, da Ana Miranda, Aquele Rapaz, do Bernadet, Decamerão, do Bocaccio e Les Particules Eléméntaires, do Houellebecq.
Passo e repasso a lista, são nomes de relativo peso, será que A Coisa Não-Deus é mesmo o melhor livro do ano?, mas primeiras impressões são, realmente, essenciais.
Sinto que deveria colocar o Decamerão na frente e, vamos ser sinceros, o Decamerão é maravilhoso, é mesmo um patrimônio da humanidade que ainda estará sendo lido daqui a milênios. Mas é uma colcha de retalhos de histórias de qualidade bem discrepante.
Os outros três romances, todos tão contemporâneos quanto A Coisa Não-Deus, são sensacionais, mas talvez nenhum com status de obra-prima, de uma obra maior. Talvez nem A Coisa Não-Deus. Difícil dizer, em se tratando de livros tão recentes.
Mas releio, mais uma vez, minha lista de leituras e a impressão se mantém: A Coisa Não-Deus foi a melhor obra de ficção que li em 2003.
Estorvo, do Chico Buarque
Talvez eu não esteja sendo de todo justo. Logo depois de ler A Coisa Não-Deus, eu li Estorvo, do Chico Buarque. Na verdade, reli.
Estou escrevendo um artigo polzonoffiano sobre A Escola Urbana, uma nova modinha literária que incorpora todos os cacoetes e defeitos da literatura urbana dos últimos 80 anos. Estorvo (fácil, um dos piores romances de todos os tempos) está servindo de verdadeiro case-study do assunto.
Bem, perto de Estorvo, até Onze Minutos, do Paulo Coelho, me pareceu ótimo.
Porque o Livro É Bom?
Pra começar, o livro é engraçado, o que é um requisito sine qua non para grandeza artística. Um artista que não sabe rir, de si mesmo e dos outros, nunca será grande.
Mais importante, o livro é imaginativo, e não pede desculpas por ser imaginativo, algo que poucos livros hoje em dia se dão o direito de ser.
Estudo de Caso: Autran Dourado
Li em algum lugar, faz pouco tempo (ou foi o Alexandre Soares Silva escrevendo ou foi o Polzonoff escrevendo sobre A Coisa Não-Deus) que os autores brasileiros parecem ter sido convencidos, em algum momento, que imaginação e boa literatura não combinam. O ideal de todos parece ser reescrever Um Coração Simples, do Flaubert, o romance, por excelência, onde nada acontece.
O comentário me remeteu inevitavelmente a Autran Dourado. Sua obra-prima, Uma Vida em Segredo, é uma releitura de Um Coração Simples, feita, diz ele, antes de conhecer esse livro. Por tudo o que sei da integridade artística de Dourado, não há motivo para duvidar dele.
(Eu sempre adoro imaginar como seria um encontro entre prima Biela e Macabéa. Acho que vou acabar escrevendo esse pastiche algum dia. Pena que vai ser tão curto – e sem diálogos!)
Em seus ensaios, Dourado defende que o número de peripécias em uma narrativa é inversamente proporcional à sua qualidade literária. É como se quanto mais coisa acontecesse, quanto mais interferência houvesse, mais difícil fosse prestar atenção na arte. Dourado não só vive por essa lei como parece ter convencido bastante gente disso.
Não é que ele ache, por exemplo, que Guerra e Paz seja um mau livro: ele diz que só um Tólstoi teria conseguido escrever um bom livro com tanto enredo assim, de modo que é melhor nós, pobres mortais (no que ele humildemente se inclui), nem tentarmos.
Dourado é um artesão da língua, com mais de 60 anos de estrada. Ninguém pode ser mais correto do que ele: o homem é praticamente infalível. Mas, se nunca falha, também nunca acerta. Seus livros são perfeitos, verdadeiras obras-primas da ourivesaria, mas sem gosto (a palavra que me vem à cabeça é bland), meio mortos e frios, sem vida, sem energia. Eu procuro o que criticar e não encontro, os romances são, via de regra, excelentes, mas há uma falta dramática de alguma coisa que não sabemos precisar.
Eu gosto de Dourado e não digo isso levianamente. Já li O Risco do Bordado, Um Cavalheiro de Antigamente, Uma Vida em Segredo, Ópera dos Mortos, Os Sinos da Agonia, Uma Poética do Romance, A Serviço Del-Rei e A Barca dos Homens. E vou ler outros, pois não desisti dele. Pra quem se pretende artesão-aprendiz como eu, é sempre útil (pra não dizer gostoso) apreciar o trabalho de um mestre-artesão, mesmo que falte alguma coisa que não se sabe bem o que é.
De todos esses livros, só mesmo Uma Vida em Segredo pode ser considerado um grande romance, apesar de ser releitura de Um Coração Simples, apesar de ser frio e imóvel e apesar de se inserir solidamente na emocionante tradição no romance no qual nada acontece.
Enfim, a vida é injusta. Alexandre Soares Silva acabou de chegar e já desbancou, com um só livro, o mestre-artesão de 60 anos de experiência. A crítica só não sabe disso ainda, mas vai saber.
Tolkien e a Literatura Épica
Perdeu-se o gosto pela literatura imaginativa.
A gente lê A Coisa Não-Deus e fica com essa impressão, insidiosa, ali na esquina da cabeça, de que estamos lendo literatura infanto-juvenil. Sabemos que não, pelo menos nós que temos mais de meio cérebro, mas a impressão é irresistível. E lamentável.
É como se tanta explosão de criatividade não pudesse ser voltada para adultos. Adultos são sóbrios e caretas, adultos não se interessariam por um anjo que aprendeu inglês lendo The Great Gatsby e, por isso, chama todo mundo de "old sport". Não, imagina, só crianças gostariam de uma coisa dessas.
Mas, se quisermos rebater esse preconceito, teremos problemas. Afinal, que outros livros de literatura contém tamanhas explosões de criatividade?
Os primeiros nomes que vêm à cabeça são, claro, das chamadas subliteraturas, horror e ficção científica, e a literatura infanto-juvenil. Lobato, Rowling, Tolkien, Asimov, Bradbury, Lovecraft, King. Um dos excelentes livros que li esse ano, La Invención de Morel, de Bioy Casares, também se insere nessa tradição imaginativa da ficção científica.
Não vou entrar no mérito de definir o que é literatura e o que é subliteratura, isso é um trabalho de sísifo que só gente numa mesa de bar, cheia de chope na cachola, se propõe a fazer. Quando você senta no computador, já se dá conta que é melhor falar de coisas menos polêmicas e mais seguras, como o conflito no Oriente Médio.
Mas resta o fato de que a maioria dos autores borbulhantes de imaginação são considerados como paraliteratura.
J.R.R. Tolkien (atenção: spoiler abaixo)
Tolkien é muito, muito melhor escritor do que lhe atribuem. O Senhor dos Anéis é um dos melhores livros de todos os tempos e digo isso sem medo da retaliação dos imbecis. Ele se insere solidamente na grande tradição das narrativas épicas e não fica a dever a nenhuma. De fato, é a síntese de todas, com uma roupagem moderna e mais acessível.
Apesar do uso dos arquétipos facilmente identificáveis, característico da tradição épica, O Senhor dos Anéis nunca é um romance fácil, que se revela à primeira agulhada. Ao contrário, ele é complexo (e não estou falando, naturalmente, do enredo e das referências mitológicas) e suas múltiplas camadas de significado sempre guardam um novo e delicioso segredo para nós.
Quase todos, por exemplo, lêem o romance como sendo a história do Frodo (ao mesmo tempo, herói trágico por excelência e, na mais recente tradição do século XX, homem comum pego em acontecimentos maiores que ele) ou do Aragorn (o herói épico tradicional).
Mas esqueçam o pobre ring bearer (como é que traduziram isso em português?) ou o rei bã-bã-bã: leiam o livro como a história de um jardineiro simples que seguiu seu patrão em uma missão ao outro lado do mundo e de como ele conseguiu salvar seu mundo, seu condado, casar, ter filhos e ser feliz, tendo, no processo, por sua firmeza de caráter, encontrado forças para fazer o que nem mesmo os mais poderosos conseguiriam: usar o anel e não ser corrompido por ele.
Lendo o romance sob esse prisma, muitos símbolos e temas mudam totalmente de significado e o livro ganha um twist muito diferente. Experimentem.
Conheço literatos que têm orgasmos com La Mort d'Artur, Nibelungenlied, A Eneida, A Odisséia, El Cid, Os Lusíadas e Bewoulf, mas torcem o nariz ao Senhor dos Anéis: subliteratura, escrito para crianças, só não é pior que Harry Potter, argh.
Sinto muita pena desses cidadãos. Não por serem imbecis preconceituosos, claro, pois se fosse sentir pena de todo imbecil preconceituoso, não faria outra coisa na vida. Sinto pena porque o Senhor dos Anéis foi escrito para eles, e por um deles, porque ninguém melhor do que eles poderia aproveitar todas as referências e estruturas simbólicas do texto e porque sei que eles também teriam os mesmos orgasmos múltiplos lendo Tolkien.
J. J. Veiga e a Literatura Distópica
J. J. Veiga foi dos poucos autores brasileiros que ousou ser imaginativo. Ao lado de Adonias Filho, Cornélio Penna e Lúcio Cardoso, J. J. Veiga faz parte do meu time de grandes autores brasileiros esquecidos. Em breve, vou falar longamente sobre cada um deles e fazer o que eu puder para ressucitá-los.
Outro dia, ouvi alguns literatos conversando sobre literatura distópica. Pra quem não sabe que bicho é esse, estamos falando do contrário da literatura utópica: a muito grosso modo, livros passados em mundos terríveis, em futuros indesejáveis.
Enfim, um deles estava todo feliz e orgulhoso por ter descoberto o russo Zamiátin, cujo principal romance é às vezes traduzido por aqui como Nós, às vezes como A Muralha Verde. E o literato dizia, educando os colegas, que muita gente pensava que a literatura distópica começa com Brave New World, do Huxley, ou 1984, do Orwell, mas que, na verdade, Zamiátin veio antes deles todos, estabeleceu todos as convenções do gênero e os dois citados nada mais fizeram que adaptar e atualizar Zamiátin.
E eu, que nunca estudei nem quero estudar literatura, que nunca tinha ouvido falar de literatura distópica e que só leio os livrinhos, olho as letrinhas e tento me divertir, comentei, que legal, e vocês já leram J. J. Veiga?
Sobrancelhas sobem, sorrisos irônicos brotam: não é aquele autor de livros infantis?
Ignorei o comentário.
Sei lá, falei, me parece ter algo a ver, Os Pecados da Tribo é um livro excelente e se insere exatamente nesse gênero literário que vocês estão discutindo. Além disso, os outros dois grandes romances dele, Sombras de Reis Barbudos e A Hora dos Ruminantes, também têm vários pontos de contato com a distopia, pois tratam de cidades pequenas invadidas por forças tirânicas e incontroláveis que tornam a vida insuportável.
Eles balançaram a cabeça, me deram um pirulito, coitadinho, ele nem sabe do que está falando, e me mandaram ir brincar lá fora. Duvido que algum deles tenha corrido atrás de J. J. Veiga depois para sequer ver qual era.
J. J. Veiga, assim como Lobato e Soares Silva, também escrevia para crianças. Parece inevitável. Os autores que realmente têm imaginação para dar e vender, mesmo que escrevam livros "sérios", acabam transbordando essa verve também sobre a literatura infantil – se é que existe esse bicho.
Seus três grandes romances, já citados, às vezes se confundem, em minha cabeça, com seus romances mais juvenis, como Relógio Belisário e Risonho Cavalo do Príncipe, e fico sem saber quais são os juvenis e quais são os adultos.
Quando penso mais um pouco, eu me pergunto, na verdade, se essa classificação existe ou faz o mínimo de sentido.
Também sinto isso em relação à Marco Túlio Costa, excelente escritor. Li vários de seus livros quando era adolescente, mas estou falando especialmente de O Canto da Ave Maldita (outro romance distópico por excelência que os doutores da PUC nunca vão ler) e O Pastor das Nuvens (romance simbólico passado em uma terra que, na verdade, é um tabuleiro de xadrez!), livros que não fariam feio em nenhuma antologia literária do mundo.
E penso: são mesmo livros infanto-juvenis ou são apenas livros? São livros que devem alguma coisa a alguém? São livros menores? São livros que precisamos ler fazendo concessões?
Não. Com certeza, não.
Links Relacionados:
Alexandre Soares Silva - O Blog do Alexandre, meu novo blog favorito
Paulo Polzonoff Jr. - Outro blog favorito, de um crítico literário sensacional
A Literatura da Falência do Macho - Excelente artigo do Polzonoff sobre Houellebecq, entre outros
Uma versão mais longa e mais bem comportada da 3a parte, Tolkien e a Literatura Épica, foi publicada na Tribuna da Imprensa, em 17 de dezembro de 2003, por ocasião da estréia de O Retorno do Rei, baseado na obra de Tolkien.
Postado no blog entre Dezembro 12 e 16, 2003
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