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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
A Imortalidade dos Ricos

Semana passada, morreu Glauco Rodrigues, 75, um dos maiores pintores brasileiros.

Glauco Rodrigues (1929-2004)Glauco foi, antes de tudo, um excelente retratista, conhecido por pintar retratos psicológicos, mostrando não só o exterior mas também o interior dos retratados.

Nas palavras do obituário de O Globo:

"Ele (...) conseguia captar como poucos a psicologia de cada retratado. Rodrigues criava retratos em que o ambiente e cada detalhe dizem muito sobre quem está sendo mostrado. Foi assim com o ator José Lewgoy, retratado usando um luxuoso quimono oriental de sua estimação, como um dândi. Foi assim também com o antropólogo Darcy Ribeiro, pintado cercado dos índios, sua fonte de pesquisa a vida inteira, e também das mulatas, objeto de desejo que o confesso mulherengo fez dançar no Sambódromo, um projeto de sua autoria."

Não sei o que a Violetinha acharia disso, mas Glauco também era bastante mercenário. Assim como a maioria dos grandes pintores vivos (algo que a mídia raramente menciona), ele ganhava dinheiro mesmo era pintando retratos dos ricos e riquíssimos, gente com cacife para pagar verdadeiras fortunas pela vaidade de ser retratada por um grande pintor.

Como a minha família, por exemplo.

* * *

Adoro passear pelo Museu Nacional de Belas Artes, aqui no Rio. A coisa que mais me chama a atenção são os diversos retratos de completos desconhecidos. Naturalmente, o que dá valor a esses quadros são os pintores. Mas quem eram essas pessoas?

Um quadro do Comendador Bulhões de Alcântara Machado e família, circa 1880, em sua chácara de Botafogo, por si só, não vale nada. Vale se tiver sido pintado por Victor Meirelles. O valor do Comendador está em ter podido pagar o absurdo que Meirelles deve ter cobrado para pintar seu retrato, garantindo assim a imortalidade de sua endinheirada família.

* * *

Minha mãe sempre teve delírios matriarcais, mesmo quando ainda era classe média. Era a irmã mais velha de uma família grande e puxava toda a responsabilidade pra si, controlava tudo, mandava até na própria mãe.

Depois de rica, tentou de tudo para virar matriarca de um grande e nobre família. Fazia questão de ajudar todos os parentes, dar casa e comida, trazê-los para debaixo de sua asa e sob seu controle. Nenhum ficava por muito tempo.

Parte fundamental de seu projeto de imortalização do clã era ter um retrato de sua família perfeita pintado por um grande artista.

Meu pai tinha muito dinheiro e gastava a rodo, mas resistiu bravamente. Era um gasto exorbitante e esdrúxulo, dizia ele.

Sejamos honestos. Meu pai realizou todos os seus desejos materiais. Tinha um Porshe 911 na garagem em plena década de 80, em uma economia fechada onde não entrava nada importado e o topo de linha nacional era o Alfa Romeo. Enquanto isso, minha pobre mãe só queria duas coisinhas: uma festa de debutante nababesca para a filha e o quadro da família na parede.

Ela também lutou bravamente. O desgaste foi tanto que eles se separaram poucos meses depois da tal super-festa, mas ela conseguiu tudo o que queria.

Por um lado, é um contra-senso rachar a família em nome de um quadro cujo objetivo é imortalizar a família.

Por outro, a família se racharia de qualquer jeito. Hoje, pelo menos, ela tem o quadro.

Mora modestamente. Vendeu todos as outras obras de arte. Ganha a vida dando aulas particulares. Nem recebe pensão.

Mas o quadro está lá na parede. A família perfeita.

* * *

Em 1987, meu pai finalmente cedeu e contratou Glauco Rodrigues para pintar o retrato da família. Eu tinha 13 anos.

O pintor subiu a serra e passou alguns fins-de-semana em nossa casa de campo, em Itaipava, perto de Petrópolis. Éramos tão chiques que tínhamos casa em Itaipava antes de Itaipava virar a Búzios da serra.

Enfim, Glauco levou seu trabalho a sério. Não se misturou. Estava ali pra nos observar, não pra fazer social. Ficava se esgueirando pelos cantos, tirando fotos de tudo e todos, fazendo rabiscos em seu bloquinho.

Imagino os desafios de pintar um quadro desses. Glauco sinceramente tentou entender os retratados e pintar o que realmente eram. Por outro lado, os ricos, especialmente os ricos que encomendam serviços carerérrimos, são bastante sensíveis, pra não dizer outra coisa. Glauco não poderia se arriscar a pintar uma coisa que fosse considerada ofensiva.

Semanas depois, o quadro ficou pronto. Todos acharam horrível, menos minha mãe, que nunca esteve tão feliz.

Meu pai parecia 20 kg mais gordo, minha irmã estava com cara de nojo, minha mãe parecia uma vampira e o yorkshire da família parecia estar flutuando. Só quem ficou bem fui eu.

O preço: 15 mil dólares. Não, não estou convertendo para dólares o valor que pagamos na época. Pintor famoso na década de oitenta recebia em dólares mesmo. Em valores de hoje, segundo meu prestimoso leitor Marcelo, seriam cerca de 24 mil dólares ou 72 mil reais.

Até hoje, minha mãe olha o quadro e suspira: minha família perfeita!

Até hoje, principalmente hoje, meu pai olha o quadro e suspira: o que eu não faria com R$ 72.000!

E eu continuo achando o quadro muito fraco.
O famoso retrato da minha família, pintado por Glauco Rodrigues, em 1987 - Clique para ver em tamanho maior

* * *

Uma coisa é inegável: dinheiro não compra felicidade mas, em maior ou menor grau, compra imortalidade.

Leland Stanford era conhecido como um empresário corrupto da Califórnia. Antes de morrer, fez uma doação miliardária para a criação de uma universidade e, por isso, vive até hoje como patrono de Stanford University, seus pecados apagados como se nunca houvessem existido.

Os Castro Maya abriram sua casa e seu acervo de obras de arte ao público. Sabe-se lá quantos esqueletos havia em seus armários Luis XV.

Ricos de quinta como éramos, quase classe média alta (argh!), ficam restritos a somente pintar o retrato da família e torcer pelo melhor.

Minha mãe ainda mandou fazer um busto meu e um da minha irmã, pelo artista plástico Carlos Somlo.

Pra garantir pelo menos a imortalidade dos filhos.

* * *

Meu busto - Esculpido por Carlos SomloConfesso que imagino, em algum futuro longínquo, o quadro que separou meus pais pendurado em algum pequeno museu brasileiro.

Museu pobrinho, orçamento apertado, sem dinheiro pra ter um dos quadros mais famosos do Glauco, acaba comprando esse, desconhecido, nada badalado, baratinho em um leilão.

Afinal, pensa o curador, melhor um Glauco Rodrigues obscuro do que nenhum. Além disso, o quadro apresenta todas as técnicas de retratismo psicológico que o fizeram famoso.

E então, pelos séculos, enquanto a pintura embranquece aos poucos, os visitantes leriam na plaquinha ao lado: "Glauco Rodrigues, 1929-2004. Retrato da família Cruz Almeida, c.1990. Rio de Janeiro."

E as crianças apontariam rindo pra mim: olha, esse gordo lendo, aposto que ele não pegava ninguém! E que porra é essa na cara dele?

Crianças, crianças, quietas!, o nome disso era óculos, algo que as pessoas que não pegavam ninguém usavam no rosto. O pobre menino já envelheceu e morreu há séculos, não tem graça nenhuma! Vamos, vamos, antes que a exposição do Barroco Mineiro feche!

* * *

Esse é um cenário. Há outro. Vocês juram que não vão me achar muito egocêntrico se eu contar?

Afinal, sempre há a possibilidade de eu publicar um romance, depois outro, as pessoas gostarem, comprarem, daqui a alguns anos eu posso ser um escritor conhecido. Quem sabe até um escritor famoso. Possível é. Os leitores brasileiros gostam até de Estorvo, são capazes de qualquer coisa, até mesmo de me consagrar um grande escritor.

E qualquer réstia de sucesso que faça multiplicaria o valor do quadro.

Uma coisa é Victor Meirelles pintando o quadro da desconhecida família Bulhões de Alcântara Machado. O único atrativo seria, realmente, a assinatura de Meirelles.

Meu busto - Esculpido por Carlos SomloMas digamos que a escrava dos Bulhões de Alcântara Machado tivesse um filho, um mulatinho que cresceu pela casa, e o pintor incluísse os dois no quadro, lá no fundo. Digamos que esse molequinho crescesse, aparecesse e acabasse escrevendo Clara dos Anjos, Recordações do Escrivão Isaías Caminha e (quem não reconheceu, vai reconhecer agora) O Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Bem, meus amigos, esse seria um outro quadro. Esse seria um quadro que mereceria uma salinha a parte em um grande museu. Lima Barreto, enquanto criança, retratado por Victor Meirelles, no auge de sua fama. O passado retratando o futuro. As artes plásticas retratando as letras.

Seria bonito.

* * *

Mesmo que eu me torne apenas um escritor de médio-baixo escalão, o quadro já vai valer dinheiro. Por menor que seja minha nesga de fama, o quadro crescerá nos ombros da fama do Glauco.

Pior, o safado ainda me pintou lendo.

Imagina o bafafá na vernissage! Quando o MNBA abrir o quadro à visitação, com certeza os mais esotéricos irão dizer: é o destino! O pintor estava tão sintonizado às enegias artísticas do universo que ele pressentiu naquele menino, gordinho e absolutamente insuportável, o próximo Machado de Assis! Estava escrito!

O quadro é horrível, mas ainda não perdi as esperanças de ganhar algum dinheiro em cima dele. Nem que apenas vendendo esse artigo.

* * *

Os paulistas têm razão quando dizem que essa cidade é uma vila. Fui buscar informações sobre o Glauco Rodrigues na Internet e a única foto decente que encontrei para ilustrar esse post estava em uma entrevista do Glauco para o Jornal Copacabana, no ano passado.

A entrevistadora, Júlia Viegas, minha querida amiga e leitora, foi quem me indicou ao Caetano, então editor do TribunaBis. Júlia, dona de belos pés tamanho 41 (qualquer mulher que calce 41 já está a meio caminho andado de conquistar meu coração) saiu da Tribuna poucos dias depois. E eu fiquei me sentindo como aqueles heróis de filme que saem da casa um segundo antes de ela explodir.

Leia a entrevista.

 

Vida de Ex-Rico:
A Imortalidade dos Ricos

Gente que Sabe Seu Lugar
A Auto-Confiança dos Ricos
Reminiscências de Ex-Rico
Os Carros do Meu Pai
As God Is My Witness, I'll Never Wear Those Shoes

Postada no blog entre Março 23 e 26, 2004



 

Mais Crônicas

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Os Carros do Meu Pai  
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Acordo de madrugada, de repente no trânsito, no meio de um jantar chato, e começo a me auto-flagelar: por quê? O que eu poderia ter feito de diferente? Foi minha culpa? Onde foi que eu errei? Quero entender. Preciso entender. Uma necessidade doentia de entender ferve dentro com a intensidade da vontade de beber em um alcoólatra.

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Um leitor, de 18 anos, me mandou o seguinte email: "Queria saber como foram os teus 18 anos. O que tu pensava da vida, o que fazia, tua vida social..." Achei engraçado tentar lembrar dos meus 18 anos.

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Será A Minha Vida Mais Interessante Que A De Vocês? 
Não é que minha vida é mais insólita do que as outras, mas talvez somente eu esteja mais aberto para o insólito em minha vida.

As God Is My Witness, I'll Never Wear Those Shoes!    
Aquele mocassim é o símbolo do ponto mais baixo que cogitei descer. E não desci. Por decisão consciente, não desci. Por força de caráter, não desci. Do momento em que descalcei aquele sapato em diante, minha vida só fez melhorar.

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Gente que Sabe o Seu Lugar     
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Belmiro de Almeida é meu pintor favorito. Cada um de seus quadros conta uma história com começo, meio e fim.

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Se não tenho assunto, vou querer escrever pra quê? Vou é andar ao sol, ler um livro, dormir, qualquer coisa menos encarar a folha branca. Então, se não tenho assunto, vou querer conversar pra quê? Sobre o quê?

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Kafka já dizia que contra uma piada não há argumentos. É impossível se defender de zoação. Você fica calado e espera passar. Mas, quase sempre, essas grandes empresas são zoadas porque querem, porque deram abertura. Ou melhor, porque não receberam assessoria humorística apropriada.

O Mala Que Sabe o Preço de Tudo 
Você pede um sanduíche de filé de frango e o mala que sabe o preço de tudo grita: sete reais?! Que absurdo! Com esse dinheiro, eu compro um quilo de filé de peito!

Não Haverá Outro Dia 
O sol não vai mais nascer na vida de nenhum de nós. Quando a gente olha no relógio da vida e vê que está ficando tarde, a hora é de correr, não de deixar pra depois. O que não fizermos hoje, amanhã fica mais difícil, depois de amanhã talvez impossível.

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Segredos são cancerígenos. Eles andam dentro da gente pulsando, apodrecendo, querendo sair. Ninguém me tira da cabeça que essas pessoas que fazem um check-up e, quando vão ver, estão podres por dentro, é porque carregavam segredos demais.

Vergonha da Faxineira 
Na véspera da faxineira chegar, minha mulher passa o dia inteiro limpando tudo e a casa fica um brinco. Não entendo nada: mas criatura, não concordamos em chamar a faxineira justamente porque não tínhamos como dar conta disso?!

Você Se Acha Muito Inteligente, Não É?    
Todo jornalista que se preze deveria ter um cachorro em casa para poder ver concretamente (ver e cheirar, claro) qual é o destino inevitável de tudo o que escrevemos.

Meus Trinta Anos 
E aprenda que os homens devem ter sempre em mente a morte, e que nenhum pode ser considerado feliz até o dia em que leve sua felicidade para o túmulo em paz.

Trago Pessoa Amada em Três Dias 
Para cada pessoa que manda trazer seu amado existe (teoricamente) um amado relutante que queria apenas prosseguir com a sua vida.

Mas Que Calor, Hein?    
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Sou Janela, Não Pedra    
O longo artigo sobre a Escola Urbana foi a última vez em que falei mal de alguns de meus colegas.

Quem Tem Medo do Alexandre?     
Quem se propõe a ser jogador profissional de futebol, tem que estar pronto pra encarar o Ronaldinho. Quem se propõe a ser escritor de ficção, tem que estar pronto pra encarar Machado de Assis.

Meu Primeiro Dinheiro 
O primeiro dinheiro que ganhei na vida foram os 60 dólares de prêmio do Primeiro Concurso de Contos da Hebráica Rio, categoria infanto-juvenil, em outubro de 1988. Eu tinha 14 anos.

O Ônus de Lembrar 
Eu sempre me esqueço de trazer as coisas que deveria, eu sempre faço essa proposta de transferir o ônus de lembrar para a parte interessada e sempre me deparo com a mesma reação: ah não, esse ônus eu não quero, quero só o livro, você que se lembre.

O Aventureiro no Penhasco   
Às vezes eu me sinto como um daqueles aventureiros que atravessou um penhasco se equilibrando numa corda e agora fica lá do outro lado só gritando, vem gente, vem que é fácil, e se admirando de ver as pessoas tentando segui-lo e caindo. Eu não devo ser seguido. Talvez eu nem mesmo possa ser seguido. Talvez o meu caminho seja só meu.

Minha Primeira Vez   
Hoje, faz dez anos que Clarice, a malvadinha, me descabaçou. Eu, 19, virgem, ela, 17, sexualmente ativa há quatro. Estávamos saindo há cerca de três semanas. Ela me liga uma noite e diz que vai matar aula no dia seguinte pra passar a manhã comigo.

Liberal Libertário Libertino: Modo de Usar   
O leitor Hugo está resenhando minhas prisões em seu blog, Alta Fidelidade. Ele seleciona os trechos mais relevantes e os responde. O Hugo está, antes de tudo, se conhecendo. Não há viagem mais importante do que essa. Ao reagir a mim, ele está descobrindo seus limites, seus preconceitos, suas opções.