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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
A Importância da Revisão

Em 1989, eu fiz minha primeira e única oficina literária, na prestigiada Oficina Literária Afrânio Coutinho, em Ipanema. Eu tinha 15 anos e não conseguiram me ensinar nada que eu já não soubesse. Não por culpa do curso, mas dos alunos. Pelo menos, acumulei um divertido manancial de exemplos negativos.

A grande luta da professora era conseguir que os alunos revisassem seus textos. Uma velha senhora reagiu com tanto horror à essa sugestão profana que apertou seus originais contra o peito, por medo, talvez, de que a professora fosse revisá-los a força. E bradavam: "mas é uma obra de arte, não posso conspurcá-la!, saiu de mim assim!"

E eu, aos 15 aninhos, tinha vontade de bater-lhes a mão no ombro e dizer: meu amigo, a única coisa que sai de você assim, e fica assim, é a merda que você caga. Se pretende que alguém, algum dia, leia seus contos, é melhor revisá-los.

De lá pra cá, tenho topado com essa atitude ocasionalmente. Um grande número de artistas de fim de semana parece achar que arte é algum tipo de psicografia: jorra deles quase que à revelia em momentos de inspiração divina e basta não interferir pra ficar perfeito. Qualquer mexida posterior será a profanação de algo sagrado e divinamente verdadeiro. Arre.

Meu Humilde Aprendiz

Outro dia, eu estava conversando com um jovem escritor sobre a importância da revisão. Eu dizia que qualquer um, qualquer um mesmo, consegue escrever um rascunho de romance ou conto que seja cheio de potencial. Poucos vão conseguir transformar isso em literatura.

Cortar dói, mas é fundamental. Você tem que ter um objetivo, saber o que está tentando alcançar, e extirpar tudo que não esteja levando a esse objetivo. Via de regra, eu acho que a primeira versão tem que ser louca e livre, pura inspiração, deixar as coisas fluírem, não se preocupar com lógica, gramática, nada. Mas a segunda versao tem que ser fria e calculista.

E meu amigo perguntou, citando Os Dilemas da Tradução:

"Como você equilibra isso com o tal do 'sozinho no quarto com Cervantes'? (Post de 12 de setembro) Deixando o texto no original, eu entro em contato direto. Se eu mudar a história por esses motivos 'comerciais' eu perco a intimidade da coisa. O primeiro rascunho é natural. São de fato as palavas nuas e cruas do autor. O texto revisado, em que o autor troca as palavras que ele não acha legal, fica melhor, mas deixa de ser algo que saiu diretamente de sua alma. Isso é algo poético, mas olhe só, eu sou poeta. Como você equilibra esses dois pesos?"

Mas quem foi que disse que o primeiro rascunho é mais original que o texto revisado?

E ele respondeu, dando uma de humilde (porque eu não perderia meu tempo com ele se fosse realmente humilde):

"Eu não estou dizendo que é bom ou ruim. É porque foi você mesmo quem expôs esse conceito e estou te perguntando, mais uma vez, como humilde aprendiz, como você equilibra isso?"

Ora bolas, não se equilibra, porque o fundamental não se equilibra com o irrelevante.

Meu humilde aprendiz parece estar dando a entender que o contato com as palavras nuas e cruas de um autor é algo positivo. E eu pergunto: por quê?

Talvez em um diário ou em um blog, mas nada disso é arte. Pelo menos, não necessariamente.

Os poetas trabalham e trabalham, vestem todas essas palavras nuas, cozinham todas as cruas, reescrevem e rerescrevem suas poesias à exaustão até elas ficarem exatamente do jeito que querem.

Todo esse artesanato não faz dessas poesias menos poéticas. Nem mesmo faz delas mais poéticas, aliás. Faz delas poesias, simplesmente. Antes, eram só rascunhos. Não eram nada.

Dom Casmurro, de Machado de AssisO Primeiro Rascunho de Dom Casmurro

Uma situação hipotética. Digamos que Machado de Assis tenha escrito quatro versões de Dom Casmurro e você, arqueólogo literário, cruza de Harold Bloom com Indiana Jones, encontre a primeira versão.

É um manuscrito cheio de erros de ortografia, verbos mal conjugados, notas nas margens, manchas de café. Um personagem mencionado no capítulo LI nunca mais é mencionado, porque Machado se esqueceu dele. A morte de Capitu é mostrada em detalhes lancinantes e dramáticos, seu filho ao lado da cama, chorando e rasgando as vestes. E mais.

Depois dessa primeira versão, escrita em uma noite sôfrega depois de pegar um amigo de infância olhando muito para os braços de D.Carolina, ele passou dois anos reescrevendo o romance. Eliminou de vez o personagem esquecido. Para maior efeito dramático, cortou todo o longo trecho da morte de Capitu, que lhe deu tanto trabalho escrever, e colocou apenas uma breve menção de sua morte. Costurou o livro bem costurado, reescreveu as frases toscas, alimentou a dúvida final, eliminou as inconsistências, checou a ortografia. Dom Casmurro, de Machado de Assis

E eu pergunto: qual Dom Casmurro é o mais verdadeiro, o mais original, o mais artístico? O manuscrito sujo de café ou a versão que a gente pode comprar em qualquer livraria por cinco tostões? A que é fruto de um impulso de inspiração que durou duas horas ou de toda uma vida de sabedoria acumulada do autor?

Se você acha que o Dom Casmurro atual é o melhor, aconselhei meu amigo poeta, a melhor coisa que pode fazer pelos seus leitores é fazer o que Machado fez pelos dele: releia, revise, reescreva seu texto.

A Prosa Espontânea de Kerouac

Jack Kerouac era partidário de uma teoria chamada spontaneous prose (prosa espontânea).

Sua obra-prima, e um dos meus livros preferidos de todos os tempos, On the Road, foi escrita em três semanas, sem parar pra pensar, sem parar pra nada. Para não ter que parar nem para trocar a folha da máquina, ele colou uma folha na outra e fez um enorme rolo de papel onde datilografou o romance. O rolo está em exposição permanente em Nova Iorque.

On the Road, de Jack KerouacIsso tudo é muito bonito e folclórico mas só estamos falando de Kerouac hoje porque seu editor, o genial literato Malcolm Cowley, fez com que ele reescrevesse On the Road, à sua revelia, diversas vezes. Kerouac pegou um ódio mortal de Cowley, mas é fácil ver quem tinha razão. Os livros posteriores de Kerouac, não editados por Cowley, são ilegíveis.

Prosa espontânea é importante na primeira versão mas, depois, tem que ser moldada na forma que se quer.

O Monte de Argila

Acho tudo isso tão dolorosamente óbvio que quase tenho vergonha de falar. Esse artigo ficou na minha gaveta por mais de um ano. Mas é tão grande o número de pessoas que vêm me dizer esse tipo de besteira que achei melhor já ter uma resposta pronta, e aqui está ela.

Publicar um conto ou uma poesia do jeito que saiu é como um escultor apresentar uma pilha de argila e falar que aquilo é a escultura. Ah não, foi assim que caiu, assim ficou. Pelo contrário, a arte dele vai justamente se manifestar na forma como ele moldará aquele monte de argila.

Qualquer um consegue escrever um primeiro rascunho promissor. O nome disso é diário, agora blog.

Escritor é quem consegue transformar aquela massa de palavras em arte.

Citações

A seguir, algumas coisas que outros disseram sobre esse assunto:

"The two most important tools an architect has are the eraser in the drawing room and the sledge hammer on the construction site." Frank Lloyd Wright

"Hemingway rewrote the ending to A Farewell to Arms 39 times. When asked about how he achieved his great works, he said, "I write 99 pages of crap for every one page of masterpiece." He has also been quoted as saying "the first draft of anything is shit." (não me lembro de onde tirei isso!)

"The physicist's greatest tool is his wastebasket." Albert Einstein

"Rewrite and revise. Do not be afraid to seize what you have and cut it to ribbons? Good writing means good revising." Strunk and White, Elements of Style

Leia agora Você e Cervantes, Sozinhos no Quarto, o trecho de Os Dilemas da Tradução que deu origem à essa conversa.

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Postada no blog em Outubro de 2004



 

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Fico preocupado de ouvir um tradutor dizer que a pureza do original não existe ou que não deveria ser importante. Tremo de imaginar o que tradutores imbuídos dessa filosofia não devem modificar, interferir ou "melhorar" os livros que traduzem.

O Velho Libertário e o Jovem Discípulo      
Peço perdão por não ser mais o homem que escreveu esses livros. Mas nem mesmo naquela época eu era assim o tempo todo. O importante é que eu era assim no momento em que escrevi aquelas palavras. O importante é que você seja assim no momento de lê-las. O resto é ficção.

O Dever do Escritor 
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O Dever do Colunista 
Quando mataram a Liana e o Felipe, boa parte dos colunistas da grande imprensa não teve pudor algum em somente repetir o blá-blá-blá do senso comum. Cadê o profissionalismo dessa gente?

O Golpe de Mersault 
Camus distorce tanto nossa percepção que esquecemos que Mersault cometeu, de fato, o crime pelo qual está sendo acusado! O homem é culpadíssimo!

Heróis e Vilões 
Qualquer bom autor sabe fazer seu leitor ir aonde ele bem quiser, como um treinador balançando o osso na frente do cachorro. A good author can get away with anything.

Duas Leis das Artes Dramáticas 
Quem mais seria o vilão da história? Um estava morto, a outra era a mocinha e a outra era uma negona que tinha entrado no meio da trama. Só sobrava realmente ele.

A Escola Urbana 
Uma nova escola literária vem tomando conta da literatura brasileira há mais de 30 anos. Por falta de nome melhor, eu a chamo Escola Urbana.

Pacto da Mediocridade 
Que pacto de mediocridade é esse? Se nem os nossos formados em Letras-Inglês lêem Shakespeare no original, pra que servem? Não é esse seu trabalho?

Um Épico Injustiçado: O Senhor dos Anéis   
Os doutores da Academia, que suspiram por grandes épicos da humanidade como "La Mort d'Artur" e "Bewoulf", torcem os narizes para "O senhor dos anéis". É pena. Iriam adorar. O livro foi escrito para eles e por um deles.

Literatura Imaginativa   
os autores brasileiros parecem ter sido convencidos, em algum momento, que imaginação e boa literatura não combinam. O ideal de todos parece ser reescrever Um Coração Simples, do Flaubert, o romance, por excelência, onde nada acontece.

Romance do Não-Dito: Aquele Rapaz, de Jean-Claude Bernadet    
Aquele Rapaz é curto pois tudo foi cortado. Aquele Rapaz é riquíssimo, mas nada está lá impresso. Aquele Rapaz, na verdade, é somente um guia de leitura para um outro romance, maior e muito mais grosso, que simplesmente não existe.

Saber Ler Literatura   
Saber ler literatura é saber que abordar qualquer obra de arte jamais será uma atitude passiva. A verdadeira obra de arte exige compromisso, exige ação, exige feedback. Arte não se aprecia. Se apreciou, ou não é arte ou você entendeu errado. Verdadeira arte não se aprecia pois apreciar é uma atitude passiva e a verdadeira arte cobra interação.

A Grande Conversa   
Os clássicos não são só livros consagrados: eles são as vozes da Grande Conversa. Não estão mortos: eles falam, eles gritam, eles choram, uns com os outros, o tempo todo. Heráclito teoriza, Aquino racionaliza, Cervantes ri, Descartes sugere uma outra opção, Kant contextualiza e Marx destrói.

Lady Averbuck   
Ela parece merecer o apelido de Lady Averbuck. Tudo indica que é uma pessoa insuportável, mal humorada, ranzinza, arrogante e totalmente louca. O que importa é que ela é uma puta escritora.

Paulo Coelho na ABL   
Paulo Coelho pode ser um péssimo escritor, mas é um escritor. E isso, convenhamos, já é mais do que podemos falar sobre muitos dos membros da Academia, como Getúlio Vargas e Roberto Marinho.

Autores Libertários  
Muita gente tem me pedido sugestões de leitura. Autores bons há muitos. Mas como, em geral, quem me pede isso gostou desse blog, vou dar aqui uma lista dos meus pares, ou seja, autores que seguem, em larga medida, a linha filosófica desse brog: Whitman, Miller, Freire, Kerouac, Thoreau, Emerson, Sartre, La Mettrie.

Mais Livros do Mal  
Sentei em uma daquelas poltronas maravilhosas (tinha 3 horas de hora pra fazer!) e li vários contos de cada livro. Estava torcendo, sinceramente, pra algum deles ser ruim e eu não ter que levar. Afinal, não é?, autor novo, todos jovens, nunca se sabe. Não foi o caso.

Literatura Contemporânea e Livros do Mal

Ultimamente, só venho lendo clássicos. Estou há mais de um mês no Dom Quixote, por exemplo. Sinto muita falta de literatura contemporânea, mas infelizmente isso custa dinheiro. Clássicos eu pego na biblioteca, eu baixo pela Internet e até mesmo compro edições baratíssimas em tudo quanto é sebo. Já, por exemplo, o novo livro do Bernardo Carvalho só comprando e pelo preço integral: não tem jeito.

 

LIBERAL LIBERTÁRIO LIBERTINO

Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.