Para os católicos, o Papa é infalível. Naturalmente, se um Papa discorda do outro, vale o mais recente. Papa morto, papa posto.
Peça para um físico calcular a velocidade média de um carro e ele irá prontamente presumir que o carro se desloca através do vácuo sem fricção alguma com o chão. E eu pergunto: quantas vezes você já dirigiu no vácuo?
Pois eu defendo que leitores de literatura também deveriam considerar os autores infalíveis - mesmo sabendo que não são.
Os Erros de Sherlock Holmes
Uma organização de estudiosos de Sherlock Holmes tem o seguinte, e curioso, teste de entrada. O candidato a membro precisa explicar algum erro flagrante das histórias, de modo a demonstrar que o erro, na verdade, não era erro.
Conan Doyle odiava Holmes e escrevia as histórias sem nenhum cuidado. Apesar de as histórias serem deliciosas, até o leitor mais distraído consegue reparar que a quantidade de erros lógicos, factuais, cronológicos, etc, é gigantesca.
Pois os membros da associação (por esporte, que fique bem entendido) tratam o texto de Conan Doyle como se fosse sagrado. Presumem que não há erros. As discrepâncias são propositais, basta serem explicadas.
Holmes e Watson saem apressados de Baker Street na terça-feira de manhã, mas só chegam ao seu destino, um subúrbio relativamente próximo, na quarta à tarde. Um erro primário de Conan Doyle? De jeito nenhum. Na verdade, foi durante essa tarde perdida que Holmes e Watson fizeram isso e aquilo, que provou-se fundamental para a resolução do mistério, apesar de Watson ter sido forçado a silenciar sobre esse assunto. O que parecia um erro bobo para o não-iniciado revela-se, na verdade, parte de uma conspiração esotérica.
Na verdade, todos sabem que Conan Doyle provavelmente escreveu aquela história em duas horas e ela foi para as prensas sem jamais ser relida, nem por ele e nem pela editora, que estava mais interessada em botar as revistas na rua o mais breve possível.
Mas e daí? Que benefício prático nos traz esse conhecimento? Se você descarta essa questão como um reles erro, não há nada a aprender dela, não há teorias interessantes, não há discussões empolgadas à volta da lareira.
Consideramos o autor infalível não em benefício dele, mas nosso.
O Obscurantismo de Sobre Héroes y Tumbas
Sobre Héroes y Tumbas, magistral obra-prima de Ernesto Sábato sobre a qual já escrevi, tem alguns trechos muito obscuros. O diálogo inicial é especialmente difícil de entender.
Temos uma pessoa relembrando estar relembrando o passado com outra pessoa. E essa simples conclusão da última frase eu demorei cinquenta páginas para formular. Há dois personagens, Martín e Bruno, e nunca temos certeza quem está contando a história e quem está lembrando ter ouvido o outro contar a história. Afinal, com quem aconteceram aqueles fatos? Com Bruno ou com Martín?
Além disso, a maioria dos diálogos não tem indicativo de quem falou ("disse Bruno", "respondeu Martín", etc) e nunca sabemos quem disse o quê.
Por fim, a própria narração se refere alternadamente aos personagens sem nomeá-los. "Rió suavemente, sin nostalgia." Quem? Bruno ou Martín? Não temos como adivinhar.
Seria fácil descartar Sábato (ainda mais assim, em começo de romance) como um autor descuidado e seguir viagem. Fácil demais. Mas isso não levaria a nada. Eu não lucraria nada. Eu não aprenderia nada.
Melhor dar a ele o benefício da dúvida. Melhor me refugiar na "infalibilidade do autor". Melhor concluir que a confusão foi proposital, que o trecho foi escrito deliberadamente para ser obscuro, que esse era o clima que Sábato queria criar. Melhor me perguntar porque ele tomou essa decisão. Melhor eu me perguntar como isso influencia o resto da história.
Que fique bem claro: minha indulgência com Sábato é para meu benefício, nunca para o dele. Se, ao final do romance, esse obscurantismo inicial não tiver se provado parte integrante e necessária da trama, eu vou concluir que ele realmente não sabia o que estava fazendo.
Afinal, nada impede que ele seja realmente descuidado ou incompetente.
A Opinião do Machado
Nada mais infantil do que ficar se perguntando se Capitu traiu Bentinho ou não.
E pior, muito pior, é ficar se perguntando o que o próprio Joaquim Maria achava da questão.
Ora, Dom Casmurro não é uma obra de Machado de Assis. Dom Casmurro, simplesmente, é.
Deixem o Joaquim Maria em paz. Que interroguemos Bentinho. Que busquemos pistas nas palavras de Capitu. Que façamos literalmente o que quisermos, mas dentro do romance, utilizando os elementos intrínsecos do romance.
Questionar o Personagem
Meu romance, Mulher de Um Homem Só, se prende especialmente a uma leitura casmurriana.
As pessoas me escrevem e não capto nenhuma indicação de que leram criticamente a narração de Carla. Gostaram muito do livro, mas aceitaram tudo o que ela disse assim como aceitam, digamos, o Evangelho de Mateus.
Quando deparam com alguma discrepância, quando sentem falta de alguma coisa, quando percebem instintivamente que algo foi omitido, são incapazes de questionar o personagem ou suas motivações. Jamais se perguntam: mas por que Carla não disse isso?
Não. Vêm perguntar a mim.
Explico, didaticamente: eu, Alexandre, não tenho nada a ver com isso. Não fui eu quem não disse nada. O romance é na primeira pessoa. O que você tem que se perguntar é: se isso é tão óbvio, é tão lógico, é tão gritante, por que Carla nunca menciona o assunto?
J. L. Borges: Omitir siempre una palabra, recurrir a metáforas ineptas y a perífrasis evidentes, es quizá el modo más enfático de indicarla.
Nunca lhes ocorreria a idéia de questionar a narradora. Como tinham acesso a mim, me questionaram. Se não tivessem, teria ficado por isso mesmo.
Talvez seja erro meu, por estar vivo. Mas cura-se.
O Romance que Caiu do Céu
Não é nem preciso considerar o autor é infalível.
Basta pensar o romance como uma obra una, inteiriça, acabada, que caiu do céu exatamente daquele jeito, e não como produto da mente de um autor que pode ser questionado ou desafiado. Basta lembrar que todas as chaves para entender um romance estão dentro dele, jamais fora.
O leitor que faz isso descobre que os romances se abrem em flor à sua frente, que camadas atrás de camadas vão sendo reveladas, que ele aprende coisas que nunca imaginaria.
Dar ao autor o benefício da dúvida não quer dizer deixar de ler criticamente, ou perdoar qualquer barbaridade. Pelo contrário, quer dizer, somente, reservar as críticas para o final, quando você puder enxergar a obra como um todo.
Questione o romance, questione os personagens, nunca o autor. O autor não tem mais nada a dizer.
Postada no blog entre Maio 4 e 5, 2004
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