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Não Me Elogiem
Sério. Eu imploro. Sabe aquelas roupas pré-lavadas? Que você não precisa lavar? Pois é. Eu sou pré-elogiado, não precisa elogiar.
Meu ego já é grande demais, isso não faz bem. Critiquem. Perguntem. Opinem. Caiam de pau. Mas não me elogiem.
Cada vez que recebo um elogio, eu me sinto mal. Penso: será que mando bem mesmo? Não pode ser, não acredito nisso. Mesmo que mande, melhor achar que não mando, melhor me iludir, pra eu não deitar em berço esplêndido, pra eu continuar tentando me melhorar. Senão, fudeu.
Sabem aquele escravo que, nas grandes celebrações do Império, ia atrás de César sussurando: "Lembre-se, você é apenas humano"? Pois é disso que preciso.
Meus amigos já estão todos pré-avisados. Na remota possibilidade de eu algum dia virar uma pessoa pública, eles terão que confirmar que não foi o sucesso que me estragou. Ele sempre foi metido e insuportável, dirão nas coletivas para a imprensa, mesmo quando não era ninguém.
Gosto de saber que tem gente que lê o que escrevo e odeia. Sente nojo. Me acha pretensioso, óbvio, pedante. Eu me sinto confiante na humanidade. Penso: meu deus, nem todo mundo caiu no meu blefe, ainda há esperanças!
Como não dá pra reler Coelet todos os dias, o único crítico com quem sei que posso contar é o Oliver, o meu poodle.
Tenho um prazer perverso em chegar na área e ver minha última coluna espalhada no chão, amarelada de mijo, um cocô enorme em cima do meu nome.
É um banho de água fria no ego. É um exemplo concreto da transitoriedade das vaidades humanas. E é uma aula de jornalismo.
Todo jornalista que se preze deveria ter um cachorro em casa para poder ver concretamente (ver e cheirar, claro) qual é o destino inevitável de tudo o que escrevemos.
O Oliver quer nem saber: pode ser a última coluna bombástica do Hélio Fernandes, pode ser uma notinha boba do Márcio G., pode ser até uma crônica genial da Clarah.
No dia seguinte, ele caga em tudo.
Você Se Acha Muito Inteligente, Não É?
Eu fui reclamar do meu ego grande e o novo leitor Guilherme sugeriu:
"As vezes sinto a mesma coisa q vc no meu blog...mas escrevo bem pior q vc e quando leio blog tipo o seu vejo como eu sou um coco...procure ler outros blogs e verá q naum é tão bom assim"
Pô, Guilherme, o pior é que ler outros blogs não dá certo.
Há exceções, graças a deus. Outro título para os Blogs Favoritos poderia ser Gente que Manda Melhor que Eu. O Soares Silva, o Polzonoff, a Violeta, o Milton, a Tata, o PC, o Plausível, o Porfírio, o Zé, o Sérgio, o Inagaki, o Edson, a Dani, a Mariana e a Isadora, estão todos aí pra provar que eu não sou o único que manda bem nesse mundo.
Mas não foi fácil garimpar essas pérolas.
Você Se Acha Muito Inteligente, Não É?
Quando fiz faculdade, tinha uma senhora burríssima na minha turma. Ela se sentia completamente inferiorizada perto de mim e algumas vezes ficava agressiva. Um dia, ela se emputeceu e bradou, no meio da turma:
Você se acha muito inteligente, não é?
E eu respondi, com muita calma e sinceridade: não me acho, não; só pareço assim comparado à cavalgaduras como a senhora.
Foi um momento chato.
Eu Cresço É na Comparação
Eu gosto de ficar sozinho.
Quando estou sozinho, entro em contato comigo mesmo e todas as minhas limitações e defeitos afloram. Quando estou sozinho, tenho noção perfeita de tudo o que me falta aprender, sobre mim mesmo, sobre a vida, sobre a arte. Quando estou sozinho, eu me sinto o último dos homens. Sinceramente, não me acho nem um pouco inteligente, nem um pouco talentoso, nada. Sou um pobre mamífero com um longo caminho a percorrer.
Meu problema são os outros. Eu cresço é na comparação.
Converso com as pessoas e fico horrorizado com sua pequenez. Elas são burras, incultas, preconceituosas, medrosas.
O medo talvez seja o que mais me me surpreende. Vejo adolescentes abdicando dos seus sonhos por medo do futuro, procurando carreiras seguras, pensando em emprego estável. Vejo quase todos tomados por um irresistível medo da vida. Pior, medo de si mesmos, de descobrir quem realmente são.
Eu juro que não me acho nada de mais. Mas basta passar duas horas com os humanos que começo a me considerar quase um buda. Meu ego ameaça alçar vôo e eu me sinto mal, minha própria arrogância me intoxica, e bate aquela necessidade de ficar sozinho de novo, de tentar reencontrar a perspectiva de minha própria pouca importância.
Quando fujo das pessoas não é por não gostar delas, mas por não gostar da pessoa que eu me torno perto delas.
* * *
Escrever isso não foi fácil. Sei que confessei coisas impopulares. Mas, como disse na Prisão Conformismo, estou perdendo a capacidade de prever qual será o impacto das minhas palavras. Já não sei mais o que as pessoas vão achar de mim. E também não ligo. Falo. E conto com vocês para o feedback.
Meu Pseudo-Brilhantismo e Esse Blog
O leitor Saint-Clair perguntou:
"Eu queria só ter uma pergunta respondida: Por que você escreve esse blog? (Não é para dizer o quanto é brilhante?)"
Ilusão de Ótica
Cetecler, eu agradeço os elogios, mas não sou brilhante e nós dois sabemos disso. Somos homens lidos: podemos puxar da cartola, sem precisar pensar muito, dezenas de nomes de pessoas realmente brilhantes.
Um dos problemas do Brasil é que nossos padrões são baixíssimos. Como disse o Polzonoff uma vez, o Brasil é um lugar onde o Jô Soares é visto como intelectual:
"Considero-o emblemático. Um verdadeiro símbolo do que é a inteligência para nós, brasileiros. Uma pessoa que assistir ao Programa do Jô todos os dias e reparar na platéia vai entender porque o Brasil é um país atrasado. (...) Sinto um quê de decepção ao ver que Jô Soares é o máximo a que se almeja chegar, intelectualmente, no Brasil."
Eu até admito que eu possa parecer brilhante pra algumas pessoas, aquelas que só leram Paulo Coelho e Sidney Sheldon, que nunca tiveram um professor carismático na escola, que só visitam blogs ki falaum axxim, etc, mas é ilusão de ótica. Se evoluírem além desse estágio, vão descobrir que não sou nada de mais.
Para acelerar esse processo de evolução, eu recomendo que leiam meus mestres: Henry Miller, Walt Whitman, Henry Thoreau, Ralph Waldo Emerson, La Mettrie, Roberto Freire.
Quem gosta do que eu falo vai gostar mais ainda de beber na fonte. E vão perceber o meu verdadeiro tamaninho.
Humildade
Por favor, não estou sendo humilde. Eu desprezo a humildade e os humildes com todas as minhas forças. Não me conformo de algo tão nocivo e pernicioso quanto a humildade ser considerado virtude.
Ou a pessoa é humilde mesmo, e só merece desprezo, ou é uma falsa humilde, e aí é uma hipócrita. De qualquer modo, não há salvação para os humildes até que fiquem de pé e reconheçam o seu próprio valor.
Sobre o Blog
O primeiro aniversário desse blog está chegando e vou escrever alguns textos sobre como ele nasceu, porque foi criado e o que ele já conseguiu alcançar. Enquanto isso, acho que vale uma resposta rápida.
Escrevo esse blog por 3 motivos:
1) Disciplina
Passei 2002 quase sem escrever e queria um motivo para voltar a escrever sempre, todos os dias, e bem.
2) Divulgação
Daqui a pouco, vou começar a tentar vender livros por aí e seria bom não ser mais um completo desconhecido. Além disso, para um escritor freelancer, um blog é um portfólio maravilhoso.
3) Exposição
Parte do meu projeto de libertação e descoberta pessoal inclui eu me expor ao mundo, sem máscaras, sem medo de preconceitos ou da opinião alheia. Meio que como aquele passo dos Alcoólicos Anônimos em que você procura as pessoas que feriu e pede desculpas.
Postada no blog entre Fevereiro 23 e 24, 2004
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