Antes, leia Arte, Crime e Patrocínio
Qualquer tentativa de definir arte é tão inútil quanto a própria arte.

A Importância dos Enfermeiros
Tenho um amigo que está se formando em Enfermagem. Sua monografia de fim de curso é sobre a importância no enfermeiro no “processo de cura” que acontece nos hospitais. Ou algo assim. Basicamente, sua tese é que, apesar de ser muitas vezes injustamente desprezado, o enfermeiro é o elemento mais vital de toda a “cadeia curativa”, aquele que conecta todos os outros e faz tudo funcionar.
Tenho a impressão de que todos os profissionais acreditam, sinceramente, que a atividade que exercem é a mais fundamental e indispensável para o bom funcionamento do mundo.
Sim, sim, claro, todo mundo é muito importante, mas se não fôssemos nós, os encanadores, nada funcionaria direito, as pessoas ainda teriam que ir cagar na vala, tirar água do poço. Não há dúvida que nós, encanadores, somos o elemento-chave da civilização.
Não ria não, que você também deve pensar a mesma coisa sobre o seu ramo de atividade. “Mas o meu é realmente essencial!”, você diz. Ah, tá. Sei. Pode ficar certo que os pilotos de combate, os trocadores de ônibus e os engenheiros de telecomunicações acham a mesma coisa. Não há ocupação tão humilde que seus praticantes não se considerem fundamentais para o bom funcionamento da humanidade.
Até hoje, por exemplo, sou atacado por dubladores por todo o Brasil por causa do meu artigo Os Dilemas da Tradução. Meu nome é constantemente citado em fóruns e listas de discussão sobre o assunto - essa semana, sou assunto no Fórum Dublagem. Eles também acham que são a última linha de defesa da civilização. Já tive que ouvir que a dublagem é necessária para a manutenção da língua e, sem ela, a língua acabaria. Cito textualmente:
"Ela [a dublagem] é necessária para a manutenção da língua, Alexandre! Se todo filme, seriado, documentário e sei lá o que mais que entrar no Brasil só tiver a sua versão original veiculada no país, aonde vai parar a Língua Portuguesa? Vamos versar inglês, espanhol, italiano... e o pobre do "português", já adoentado, vai virar língua morta.”
Queria saber como funciona esse processo. Com certeza, todo mundo deve entrar em suas carreiras como indivíduos medianamente racionais. Depois de algum tempo só convivendo com aquelas mesmas pessoas, da mesma área, com a mesma formação, vão se fossilizando os gigantescos preconceitos que levam alguém a afirmar que, sem os dubladores, a língua teria morrido!
Reparem que não tenho nada contra enfermeiros ou dubladores. São apenas exemplos. Ninguém, ninguém mesmo, é tão importante quanto pensa ser – inclusive eu.
Vejam vocês as injustiças da vida! As pessoas me chamam de metido, ou fazem piadas em relação ao meu avantajado ego, mas ninguém nunca vai me pegar falando coisas parecidas sobre o meu trabalho.
A Utilidade Desvirtua a Arte
Só o artista sabe que sua atividade é 100% inútil. Ou deveria ser.
Quanto mais útil a arte, menos arte ela é. A arte não pode servir a nenhum propósito, seja provar uma teoria filosófica, defender um governo ou mesmo socorrer uma pobre classe social oprimida. Não faz diferença.
A utilidade desvirtua a arte. O que distingue a agricultura da ópera é que uma é absolutamente vital para a nossa sobrevivência; a outra, nem um pouco.
Na verdade, as pessoas têm razão. Se, de repente, todos os peões de obra, enfermeiros ou caixas de banco sumissem, a sociedade iria virar um caos.
Mas se todos os artistas e derivados (críticos de arte, professores de literatura, etc) sumissem, nada de mais aconteceria.
Sem os lixeiros, depois de amanhã não conseguiríamos nem transitar nas ruas. Sem todos os artistas plásticos, haveria apenas mais espaço nos pedestais das praças.
Somos artistas porque somos inúteis. Estamos fora da cadeia produtiva da sociedade e temos orgulho disso.
A Questão do Ego
Por um lado, eu poderia argumentar que temos os menores egos de todos, pois só nós, realmente, encaramos de frente a inutilidade de nossos esforços.
Por outro lado, convenhamos, que piada! Qualquer um que conviva com um artista sabe que temos os maiores egos de todos. Eu sei, às vezes é chato de aturar, mas são ossos do ofício. Jardineiros têm as mãos calosas, jóqueis têm as pernas arqueadas, nós temos os egos inflados.
Não acredite em artistas tímidos e humildes. Existem artistas hipócritas, mas essa é outra história.
É preciso muita coragem para encarar a tela vazia, a partitura em branco.
É preciso muita arrogância pra achar que você ainda pode ter algo a dizer em um campo onde já pastaram paquidermes como Mozart, Picasso ou Shakespeare.
É preciso muita segurança pra não desabar ao primeiro (ou ao centésimo-nono) cascudo que a vida, o público ou a crítica nos dão.
Assim como o primeiro gole para os alcoólatras, as ciências atuarias estão sempre aí, nos tentando com uma vida regrada corretando seguros e pagando o telefone em dia
Mais do que tudo, é preciso muito ego pra dedicar sua vida ao inútil.
Outros fazem pão e cheiram e provam o resultado de seus esforços. Outros se dedicam à medicina e vêem seus pacientes saindo do hospital curados de todo o tipo de doença.
Enquanto isso, minha amiga Isabel, uma mulher brilhante, pendura fotos de webcam em volta de uma pilastra. E eu, como diz minha irmã, escrevo sobre coisas que nunca aconteceram a pessoas que nunca existiram.
A arte, quando bem feita, é inútil. E é inútil tentar defini-la.
Leia também: O Dever do Escritor, uma discussão muito interessante sobre os objetivos da literatura e da arte de modo geral.
Postada no blog em Abril 15, 2004
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