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  Alex Castro
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Sou Janela, Não Pedra

O Cabotino, de Paulo Polzonoff JrQuando eu tinha onze anos e estava na quinta série, eu era o moleque mais insuportável do colégio. Além de muito inteligente, tinha a língua rápida e achava que podia fazer qualquer coisa. Aliás, eu e um colega, igual a mim em todos os quesitos, fazíamos de tudo mesmo.

No fim do ano, a direção decidiu nos expulsar. Éramos moleques de imenso potencial, apesar de incontroláveis, e os professores ainda não queriam desistir de nós: pediram que fôssemos poupados. Infelizmente, pelo menos um teria de ser exemplarmente justiçado, senão a escola viria abaixo.

Nunca entendi bem quais foram os critérios, e só vim a saber disso muitos anos depois, mas o escolhido pra ficar fui eu. Meu amigo acabou expulso, o escândalo foi tanto que parecia o fim do mundo, parecia que aquela expulsão, aos onze anos, determinaria todo o curso da sua vida, destruiria suas possibilidades de sucesso, felicidade e adequação ao modus vivendi, e que ele já estava pré-condenado à sarjeta, vocês sabem como são essas coisas, ainda mais em colégio católico, e meu amigo passou mesmo por uma fase bem revoltada, quem não passou?, e hoje, aos 30 anos, é designer, mora em Milão e sua segunda filha nasceu no dia do meu casamento. Ou seja, a vida é muito maior do que essas besteirinhas.

Mas o valor metafórico da história é grande. Eu nunca vou esquecer que, por critérios insondáveis, uma pessoa igual a mim foi severamente punida por fazer as mesmas coisas que eu fazia. E eu não. Eu ganhei uma segunda chance. Aprendi a lição. Na sexta série, eu já voltei bem comportado. Continuava espaçoso, falante e apaixonado pelos holofotes, como até hoje, mas sem barbarizar.

Pensei nisso porque, finalmente, li O Cabotino, o livro do Polzonoff. Impressionante como pensamos as mesmas coisas e temos opiniões muito parecidas. Ainda bem que escrevi sobre a Escola Urbana antes de ler o livro, senão não teria escrito nunca.

Infelizmente, a recompensa dessa sina de honestidade do Polzonoff foi ser odiado, desprezado, vilipendiado.

É isso que quero pra mim? Lá vai outra pessoa fazendo o mesmo que eu faço e levando na cabeça.

Eu, que sempre disse o que bem entendia, talvez esteja na hora de medir as palavras.

Vejam bem: não por medo de ser odiado, desprezado, vilipendiado, mas por medo de ser odiado, desprezado e vilipendiado por nada, por motivo fútil.

É uma questão de escolher as batalhas.

O Polzonoff é um crítico, essa é sua vocação e sua sina. Ele tem o instrumental teórico para criticar e a inteligência pra defender. Eu, coitado, não tenho nada disso, só opiniões fortes que ficam por isso mesmo, que não preciso emitir e nem tenho como defender.

Sou escritor, essa é minha vocação e minha sina. E ainda espero levar muito na cabeça também, ser odiado e desprezado e vilipendiado, mas pelos meus romances, pelas minhas prisões, pelas minhas idéias radicais, pelas coisas que valem a pena pra mim. E tomara que eu leve na cabeça: se não levar, é porque ninguém está lendo, então, de que adianta?

O longo artigo sobre a Escola Urbana foi a última vez em que falei mal de alguns de meus colegas. Pretendo ainda escrever muito sobre literatura, mas teoria, exposição do meu projeto literário, recomendações de livros.

Criticar? Chega. Livros ruins, melhor ignorá-los.

Na vida, podemos fugir de tudo, da profissão, do nosso país, de nossa língua, só não podemos fugir dos nossos contemporâneos, que sempre serão nossos contemporâneos. Daqui a dez mil anos, Shakespeare continuará contemporâneo de Cervantes e eu sempre serei contemporâneo do Mirisola.

A vida é longa, o mercado é pequeno. Cala-te boca.

Se me pegarem de novo falando mal dos meus contemporâneos, podem puxar minha orelha.

Vou produzir, outros que critiquem. E quando quiserem saber minha opinião sobre algo literário, vou dizer: leiam o Polzonoff. Se minha opinião não for aquela, será bem próxima.

E deixa o bravo do Polzonoff lutar essas batalhas por mim. Ele está mais capacitado do que eu para defender minhas opiniões.

Das outras batalhas, cuido eu.

Entenda o que é a Escola Urbana.

Postado no blog em Janeiro 29, 2004

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