Sábado, 27 de Agosto de 2005
Katrina
Mais uma mulher má, quente
e incontrolável na minha vida. Talvez a última.
A cidade está sendo evacuada. Eu não conheço ninguém e não
tenho carro. Uma amiga disse: don't worry, you're a part of
Tulane now, they'll take care of you. Pois a única ajuda que
Tulane está me dando é o seguinte aviso no
site: "Everyone
should begin implementing their personal hurricane plan
now." In other words, you're on your own, good luck.
O dia está lindo, ensolarado e calmo. O furacão deve bater
aqui na segunda, ao meio-dia. O storm surge, a onda que vem
depois do furacão, deve passar de seis metros. Como a cidade
fica entre um rio e um lago, espera-se que ela seja
simplesmente lavada do mapa - ela e quem ficar por aqui.
Minha velhíssima casa não me parece capaz de suportar uma
muralha d'água de seis metros mas enfim.
Eu me sinto em uma daquelas narrativas militares de
antigamente, quando avisavam a uma cidade murada que os
hunos estavam a dois dias de distância. E todo mundo ia
escrever seus testamentos e put their affairs in order.
Ainda não sei bem o que vou fazer. Muito provavelmente, me
trancar em casa, hope for the best, talvez morrer.
Mauro, vai postando umas confissões aí até eu voltar.
Na melhor das hipóteses, só vou ter internet de novo na
quarta, quando a universidade reabrir.
Na pior, bem, sinceramente, vai ou não vai dar um puta
release? Publicação póstuma do primeiro romance inédito do
blogueiro que saiu do Brasil pra ir pra Nova Orleans e
morreu na primeira semana. Porra, se isso não fizer o livro
vender, fudeu. E ainda dá pra empurrar o livro de contos, um
livro das prisões, um livro das confissões e uma coletânea
geral do blog. Sorte da ex que vai ficar rica.
Hmmm, se não fossem as três mulheres pelas quais estou
apaixonado, eu até encararia esse furação de peito aberto.
(Vocês sabem quem são e eu amo vocês.) Também, claro, beijo
pro meu pai, pra minha mãe, pra minha irmã e pra você, Xuxa.
Em suma, that's all, folks. Nada do que eu disse é
brincadeira. Acompanhem o
noticiário e torçam por mim.
UPDATE
Acabei de vir de uma reunião do Presidente da universidade
com os pais. Esse furacão não poderia ter acontecido em pior
hora. Estamos em pleno orientation week, as aulas começariam
da quarta, o campus está cheio de alunos se mudando, de pais
que vieram trazer os filhos, essas coisas. Já ouvi mais de
um: "Oh, why didn't I go to fucking Brown?!" O pior, claro,
é que esses milhares de novos alunos acabaram de chegar na
cidade, não conhecem ninguém, ainda não têm celular,
telefone ou internet em casa (eu, eu, eu.) Ou seja, estão
completamente indefesos.
Minha casa é muito frágil, realmente não dá pra ficar lá.
Tulane vai disponibilizar vários ônibus, que sairão do
campus hoje às 5 horas (daqui a 3 horas e meia) para levar
os alunos para a University of Mississipi at Jackson, onde o
pessoal vai ficar em abrigos improvisados.
Eu pretendo estar em um desses ônibus. Acho que vai ser, no
mínimo, uma história interessante pra contar, além de um
bonding experience.
O Oliver, naturalmente, infelizmente, não pode ir. Vou ter
que deixá-lo em casa, com muita água e comida, e torcer pelo
melhor. O roomante e a namorada vão dirigir até Houston com
o labrador deles, 350 milhas, eu poderia pedir para ir com
eles, ou pelo menos, para o Oliver ir com eles, mas ninguém
ofereceu, então, melhor me virar sozinho.
Vocês agora me dão licença, vou correr pra casa, arrumar as
coisas do Oliver, fazer a mala e tentar estar de volta aqui
no campus às 4. Prevejo caos e confusão. Espero ter que usar
toda minha brasilidade.
Estou levando Ulysses, do Joyce. Acho que dessa vez, eu leio
essa joça.
UPDATE II
Sao 5 da tarde, estou no centro esportivo de Tulane, em um
comp publico sem teclado brasileiro. O centro esportivo eh
de onde os onibus da evacuacao vai sair e tb funcionarah
como um abrigo de emergencia durante o furacao. Enquanto
esperamos os onibus, vimos dezenas de funcionarios entrarem
trazendo comida e sacos de areia. Estou tirando fotos, nao
sei quando vcs as verao.
Civilizacao eh uma coisa linda. Alem das filas nos
supermercados e nos postos de gasolina, alem das lojas
barricando as vitrines com madeira, em cada rua voce ve
cidadaos normais limpando as saidas dos bueiros e
recolhendos as folhas e o lixo da rua. Cada um fazendo sua
parte pra evitar uma inundacao do seu quintal. Realmente, a
sensacao eh de estar em um daqueles filmes de guerra em que
vc sabe que o inimigo chegarah em poucas horas e gasta todo
seu tempo se preparando pra ele.
Todo mundo lembrou de trazer travesseiro e cobertor, menos o
idiota aqui. Como bom brasileiro, pensei no meu banho e
trouxe toalhas e produtos de higiene, e pensei nas minhas
leituras, e trouxe Ulysses. Mas nao lembrei que teria que
dormir.
Fui um dos primeiros a chegar, jah me registrei e estarei no
primeiro onibus que sairah de Tulane.
A TV ligada no noticiario, ao meu lado, soh dah mas
noticias. Varios fatores meteorologicos contribuem para
fazer com que o furacao aumente de intensidade no caminho
pra cah, ao inves de diminuir como aconteceu em outras
vezes. Tomara que meu filho fique bem.
Vou sair agora pq tem uma japonesa na fila atras de mim.
UPDATE III
Enquanto o onibus nao sai, eu fico aqui falando com vcs. Sao
5:40.
Lembrem-se que estamos em orientation week, a primeira
semana do ano letivo, e muitos pais de calouros vieram
trazer pessoalmente seus pimpolhos para a primeira separacao
da familia. E que separacao traumatica e emocionante! Muitos
pais estao pedindo para irem junto com os filhos, muitos
filhos estao pedindo para irem junto com os pais, mas nao
tem jeito. Nos onibus de Tulane, soh alunos e funcionarios.
Entreouvido no celular: Jeff, you have no idea! I bet I'm
having a much more exciting orientation week than you!
Alias, nao sei como esse povo consegue. Estah todo mundo
aqui no hall falando no celular. Deve ser pra fora do
estado. Nao consegui falar com nenhum dos tres numeros de
celular locais para os quais liguei. A rede, obvio, estah
congestionada. Em Set.11, eu tb tentei ligar pra minhas
amigas em NY e soh consegui get through as 4 da tarde.
Ultima nota: que deus me ajude, mas quanta mulher bonita, na
flor da idade, de havaianas, anel de dedo do peh,
tornozeleira, pezinho feito, pedicure francesinha, esmaltes
de todas as cores, incluindo dourado, prateado, azul, verde,
ui, que delicia.
Agora nao tem mais fila, mas tb nao tenho mais nada a dizer.
Entao, tchau.
UPDATE IV
A Cruz Vermelha preve que, se a cidade nao for evacuada e
for de fato atingida por um furacao, as mortes podem chegar
a 100 mil. Bota gente nisso.
Jah me perguntaram se nao estou levando tudo muito bem.
Olha, os proximos quatro dias vao ser, no minimo,
desconfortaveis e estou sim muito preocupado com o Oliver.
Mas jah q o estupro eh inevitavel, o jeito eh pelo menos
aproveitar pra observar a natureza humana e cacar boas
historias.
Meu lema eh o seguinte: o que nao mata, sempre rende boas
historias. O que mata, entao, rende excelentes historias.
UPDATE V
Essa porra desse onibus nao sai. Jah sao 6:20.
Pela TV, a evacuacao estah indo muito bem, todas as
autoestradas estao andando, nada de caos em nenhum ponto da
cidade, nem engarrafamento.
Mas tambem, em parte, eh porque as ultimas duas evacuacoes
foram a toa. Fizeram o mesmo drama que fizeram agora, todo
mundo evacuou, deram problemas terriveis nas estradas, e
nada de furacao. Mudou de direcao na ultima hora.
Entao, muitos nativos simplesmente teimaram que dessa vez
nao vao sair. O estado jah gritou lobo vezes demais.
Foda-se. They will ride it out.
Good luck to us all.
UPDATE VI
Sao 5 e meia da manha, estou no ginasio da Jackson State
University, no Mississipi, em um computador emprestado. Por
aqui, tudo bem, mas nao vou abusar escrevendo muito, depois
faco um relatorio mais detalhado. Estou tirando fotos.
Domingo, 28
de Agosto de 2005
De Jackson, Mississipi a
Detroit, Michigan
Sao 9 da noite de domingo e
muita coisa aconteceu desde que postei pela ultima vez, 16h
atras - parece que faz 3 dias.
Abandonei o abrigo na Jackson State University, em Jackson,
Mississipi. Gosto de estar on my own. Depois de ficar micado
por um bom tempo no aerporto de Jackson, com o furacao se
aproximando e ameacando fechar o aeroporto e me deixar lah
micado de vez (foi por pouco), consegui um last minute seat
num voo pra Detroit.
Last minute mesmo, tive que pegar o aviao na pista e sentei
numa das cadeiras pra tripulacao. Estou agora em um
cibercafe do aeroporto de Detroit, que pelo menos eh um
aeroporto de verdade, e nao aquela pseudo rodoviaria que era
o aeroporto de Jackson.
Amanha de manha, pego um voo pra NY, para ficar na casa de
uma amiga querida que me convidou e ainda pagou minha
passagem.
As historias que tenho pra contar pra voces estao se
acumulando. Gosto de saber que, enquanto eu pulo de cidade
em cidade com a katrina atras de mim, voces acompanham minha
vida como se fosse uma novela. Gosto de estar sozinho mas
vcs nunca deixam eu me sentir 100% sozinho. Quando chegar na
casa da minha amiga, em NY, vou ter mais sossego pra contar
as historias todas. Juro.
Por enquanto, continuem pensando no Oliver pq eu tb soh
penso nele, e estou muito preocupado. Mas ele eh um cachorro
de rua, da favela, confio no seu instinto de sobrevivencia.
The worst-case scenarios preveem que a vida soh se
normalizaria em Nola em seis meses! Eh incrivel como nessas
duas semanas eu jah tinha enfiado Nola no meu coracao como
minha nova casa. Imaginar ela sendo destruida soh nao eh
pior do que imaginar esse furacao batendo no Rio. Ateh o
site de Tulane jah estah fora do ar. Serah que isso tudo foi
olho grande dos invejosos?
Tenho que ir, porque a internet aqui eh 20 dolares a hora.
Segunda,
29 de Agosto de 2005
Oliver
Sao 6 da manha e ainda estou
em detroit. Nao acredito que faz soh 48 horas que eu estava
dormindo pacificamente, pensando que sabado ia ser o dia do
oliver. Meu roomate ia passar remedio contra pulgas na casa
e eu e o oliver iriamos ficar na rua o dia todo. Eu ia levar
ele pra conhecer o levy e tulane. Ao inves disso, foi o dia
em que eu o abandonei.
Nao consigo me perdoar. Acabei de passar minha segunda noite
de refugiado, dormindo no chao em um aeroporto deserto
(tirei fotos), e passando um frio fudido. Nao trouxe casaco,
pq estava fazendo quase 40c em Nola. Acho engracado imaginar
que saih de casa sem conceber que iria acabar em NY.
A principio, fiquei colado nos teloes da CNN vendo noticias
sobre katrina e, finalmente, desabei, e chorei muito pelo
meu filho, sem acreditar que trouxe ele pra morrer nessa
terra, e pensando em todo o carinho e em todo o trabalho que
ele me deu nessas duas semanas pra se estabelecer em Nola.
Cara, como chorei. Devem ter achado que eu era o mais
apaixonado New Orlenian. Depois, tentei fugir dos teloes,
nao estava mais aguentando chorar tanto, mas esse aeroporto
maldito tem teloes ligados na CNN a cada 10m. Nao deu pra
fugir. Felizmente, foram todos desligados a meia-noite.
Uma ultima coisa: eu sei que sou interesseiro, mas quando vc
estah sozinho, refugee, on the road, tem que usar all the
help you can possibly get. Entao, faco questao de dizer pra
todo mundo que sou um evacuee de New Orleans, e isso ganha a
simpatia/empatia imediata das pessoas, elas se viram ao
avesso pra tentar ajudar. Quando eu falo do cachorro, entao.
Soh faco pensar no Oliver. Tomara que a ex consiga me
perdoar por deixa-lo lah. Tomara que eu consiga me perdoar.
Mas para os que achavam que dava, nao dava. Nos onibus de
tulane, ele nao iria. Tinham familias sendo separadas as
lagrimas e ninguem pode fazer nada. Voos out of new orleans,
no way, nao tinha mais nenhum. Carro, eu nao tinha. O que eu
nao fiz foi ver se algum dos vizinhos ficaria na cidade e
dar a chave da casa pra ele. Mas nao tive tempo. Tive que
evacuar em menos de uma hora.
Meu consolo eh que se a casa estiver de peh, ele vai ficar
bem.
PS: Ulysses nao dah. Joyce estava de sacanagem. Estou lendo
Decline and Fall, do Gibbon, que eu tb trouxe, meu segundo
livro favorito depois da Biblia.
New York
Jah estou instalado em NY. Os
estragos em New Orleans parecem que foram menores do que
poderiam ser. Pode ser que de pra eu voltar no fim de
semana. Seria minha prioridade. Tenho historias pra contar.
Mas antes vou tomar banho, trocar de roupa, tirar um
cochilo, essas coisas.
Daqui a pouco, eu volto.
Terça, 30 de
Agosto de 2005
Dicas de Refugiado
Caso voces algum dia precisem
abandonar suas casas e ficar em um abrigo para refugiados,
por favor, aceitem a sabedoria acumulada desse que vos fala.
Don't wear white underwear.
Take my word for it.
Perguntas
Liguei o MSN no cibercafé do
aeroporto de Detroit e encontro uma amiga. Começo a contar
pra ela minhas desventuras, evacuação de New Orleans, abrigo
em Jackson, chegada em Detroit, etc, e ela pergunta:
Por causa do Katrina, né?
* * *
1943. A família Rosenberg consegue escapar de Berlim.
Atravessam os alpes suiços a pé. Viajam clandestinos no
porão de um navio cercado de ratos. Fazem todo o tipo de
sacrifício.
Finalmente, chegam à América, exaustos, aliviados,
vitoriosos. E alguém pergunta:
Por causa daquele Hitler, né?
Não, Pedro Bó, é porque não gostamos daquela comida
gordurosa!
Quarta, 31 de
Agosto de 2005
Arrival in New York

Segunda,
Ago.29, K Day.
Enquanto o Katrina destruía minha cidade, cheguei em
Nova Iorque literalmente morto, exausto, preocupado,
depois de 52 estressantes horas on the road, de Nova
Orleans, a Jackson, Mississippi, passando por Detroit,
Michigan.
Shelter Identification
Bracelet

Quando nos inscrevemos para o abrigo em Reilly, nos
deram essa fitinha azul pra colocar no pulso. Ela nos
identificaria como refugiados, tanto para entrar no
ônibus quanto para comer no refeitório de Jackson State.
O pior é que dava meio que um ar de campo de
concentração.
Jackson Airport

Tarde de domingo, Agosto
28, k minus 1. Foi nesse dia que descobrimos, pela TV,
que as coisas seriam muito piores do que imaginávamos.
Eu estava desesperado pra sair de Jackson, pois o
furacão iria passar por lá e meu vôo para NY era só na
segunda de manhã, quando todos diziam que o aeroporto
estaria fechado. Felizmente, consegui um lugar de última
hora ainda na tarde de domingo.
Eu não era o único desesperado. O aeroporto estava com
gente saindo pelo ladrão, todos os vôos estavam lotados,
ninguém queria ficar stuck in Jackson, Mississippi.
Jackson State University
Shelter

Calouros, alunos de pós e funcionários de Tulane
abrigados no ginásio da Jackson State University, em
Jackson, Mississippi.
Madrugada de domingo, Agosto 28, k minus 1. Foi nesse
dia que descobrimos, pela TV, que as coisas seriam muito
piores do que imaginávamos.
Jackson State University
Shelter

Calouros, alunos de pós e funcionários de Tulane
abrigados no ginásio da Jackson State University, em
Jackson, Mississippi.
Madrugada de domingo, Agosto 28, k minus 1. Foi nesse
dia que descobrimos, pela TV, que as coisas seriam muito
piores do que imaginávamos.
Students Registering for
the Shelter Buses at Reilly Center, at Tulane

O
centro esportivo de Tulane, Reilly, foi onde os alunos
se concentraram para entrar nos ônibus que iriam para o
abrigo em Jackson State University. O Reilly também
funcionou como abrigo mais tarde.
Na foto, os alunos se inscrevendo para os ônibus.
Sábado, Agosto 27, K minus 2, o dia em que Nova Orleans
acordou sabendo que os hunos estariam chegando em dois
dias.
Students Going into Reilly
Center at Tulane to Register for Shelter Buses

O centro esportivo de
Tulane, Reilly, foi onde os alunos se concentraram para
entrar nos ônibus que iriam para o abrigo em Jackson
State University. O Reilly também funcionou como abrigo
mais tarde. Na foto, a galera entrando em massa.
Sábado, Agosto 27, K minus 2, o dia em que Nova Orleans
acordou sabendo que os hunos estariam chegando em dois
dias.
New Orlenians Clear
Gutters in Preparation for the Storm

Civilização é outra coisa.
Um pai e um filho, da esquina da Spruce (minha rua) com
Carrollton, limpando os bueiros, em preparação para as
inundações.
Sábado, Agosto 27, K minus 2, o dia em que Nova Orleans
acordou sabendo que os hunos estariam chegando em dois
dias.
Hurricane Preparations at
Reilly While Food is Brought in For Refugees

O
centro esportivo de Tulane, Reilly, foi onde os alunos
se concentraram para entrar nos ônibus que iriam para o
abrigo em Jackson State University. O Reilly também
funcionou como abrigo mais tarde.
Na foto, enquanto funcionários terminam de preparar o
Reilly para o furacão, outro funcionário traz água e
comida para o abrigo.
Sábado, Agosto 27, K minus 2, o dia em que Nova Orleans
acordou sabendo que os hunos estariam chegando em dois
dias.
Freshmen Thinking They
Would Move In

Caixotes dos calouros, ao lado de um dos dormitórios de
Tulane, crentes que iriam se mudar, na véspera do
anúncio do furacão.
Sexta, Agosto 26, K minus 3, o último dia em que New
Orleans foi dormir achando que estava tudo bem.
Multi Ethnic Student
Orientation

Achei
essa placa bem típica de um típico orientation week de
uma típica faculdade americana.
Sexta, Agosto 26, K minus 3, o último dia em que New
Orleans foi dormir achando que estava tudo bem.
St Charles Streetcar

O
bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda
existir) à universidade (se ainda estiver lá). A foto é
do ponto em frente à entrada principal.
Ago.25, Katrina minus 4
St Charles Streetcar

O
bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda
existir) à universidade (se ainda estiver lá). A foto é
do ponto em frente à entrada principal.
Ago.25, Katrina minus 4
St Charles Streetcar

O
bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda
existir) à universidade (se ainda estiver lá). A foto é
do ponto em frente à entrada principal.
Ago.25, Katrina minus 4
St Charles Streetcar 2

O bonde que eu pego
(pegava) pra ir de casa (se ainda existir) à
universidade (se ainda estiver lá).
Ago.25, Katrina minus 4
Tulane University Entrada
Principal

Entrada principal de Tulane, na St Charles Av.
Ago.25, Katrina minus 4
St Charles Streetcar

O
bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda
existir) à universidade (se ainda estiver lá).
Ago.25, Katrina minus 4
Como Um Refugiado do Sudão
Finalmente, um santo
leitor me mandou o texto da nota do Globo. Aqui vai:
Como um
refugiado no Sudão
O carioca Alex Castro, de 31 anos, tinha chegada a
Nova Orleans duas semanas antes da ordem de
evacuação, sábado. Professor de literatura
brasileira da Universidade de Tulane, viveu o drama
de ser obrigado a deixar seu poodle, Oliver, para
trás. "Fiquei sabendo que a universidade colocou
ônibus à disposição de alunos e funcionários para
que deixassem a cidade. Mas eram só eles. Estávamos
nos dias que antecederiam o início das aulas,
quarta-feira, e muitas pessoas tinham acabado de
chegar à cidade, parentes tinham levado alunos para
lá. Muitos falavam: 'meu pai pode ir? Meu irmão veio
aqui só para me trazer e não tem como sair'. Não
pude levar meu cachorro, Oliver. Não tenho carro,
não conheço ninguém na cidade, não tinha um plano de
evacuação, como todos lá têm. Quando tive que sair,
deixei água e comida para uma semana para o Oliver.
Pretendo voltar o mais rapidamente possível", disse
Castro ao GLOBO.
O professor, que conta seu drama em seu blog
http://www.liberallibertariolibertino.blogspot.com,
ficou 48 horas "como um refugiado do Sudão",
enquanto era levado para a universidade da cidade de
Jackson. Depois pegou um avião para Detroit e,
depois, para a casa de amigos em Nova York.
Pedidos
Estou bem mal. Mental e
emocionalmente exausto. Agora é que está batendo a
enormidade dessa porra. Mas tenho dois pedidos:
Parem de perguntar por notícias do bicho. Ele não fala,
não escreve, não manda email, claro que não tenho
notícias dele. Se tiver, eu aviso.
E, por favor, o mais importante, parem de vir me dizer
que vai ficar tudo bem. Caralho, você não sabe isso, não
tem nada o que você possa fazer, nem eu, é só uma frase
vazia usada pra acalmar gente histérica, o que não é o
meu caso - ainda. Se você quiser dizer que espera ou
torce pra que tudo fique bem, eu aceito at face value e
agradeço.
Mas eu confesso que me irrita muito essas pessoas que
botam a mão no meu ombro e dizem, com uma certeza que
não sei de onde veio, que vai ficar tudo bem.
I don't know that, neither do you. Em uma emergência, o
que conforta é amizade, concern, companheirismo, não
frases vazias.
Aliás, hoje saí no Globo, em um box que não aparece na
versão online. Se alguém puder transcrever a notinha nos
comentários aqui do blog, eu agradeço.
E muito obrigado a todos pelas muitas demonstrações de
carinho, afeto, amor. Eu amo todos vocês. Mesmo os que
me irritam com as frases vazias. Eu sei que é de
coração.
Quinta,
1o de Setembro de 2005
Errata
Só pra esclarecer: eu
nunca disse pro repórter do Globo que era professor em
Tulane. Pelo contrário, deixei bem claro o que vocês
estão cansados de saber, que sou estudante de
pós-graduação e que parte das minhas obrigações é dar
aulas, mas que ainda nem havia começado.
Se você acha que a imprensa nunca distorce nada em suas
matérias, por favor, entre em contato comigo, eu tenho
uma ponte baratinha pra vender.
Esperança para o Oliver
Finalmente, uma boa
notícia.

Grupos de pet rescuers estão se preparando para ir a
Nova Orleans, resgatar animais de estimação que ficaram
presos em suas casas. Entrei em contato com o pessoal da
Animal Rescue League of Boston, eles pegaram todos
os dados do
Oliver, já me ligaram pelo menos uma vez aqui em NY
para confirmar detalhes, e disseram que estão
coordenando com outros grupos, como o
Noah's Wish,
para dividir a cidade em áreas e cada grupo ficaria
responsável por salvar os pets de uma região. Eles devem
entrar na cidade hoje ou amanhã. Se minha casa ficou de
pé e as portas não abriram com o furação, o
Oliver ainda deve estar lá dentro, assustado e
fraco, mas vivo.
Ainda há esperança.
* * *
Enquanto isso, deixo vocês com as duas mais recentes
fotos do
Oliver (não vou dizer últimas) tiradas na quinta,
quatro dias antes do furacão.

Eu tenho andado mais de uma hora por dia com ele pelas
ruas de Nova Orleans e, como ele não admite dormir no
chão, minha cama estava ficando toda imunda. Decidi
comprar esses sapatinhos para quando ele fosse andar na
rua. Nos primeiros dias, ele demorou a se acostumar mas
agora já está craque. As crianças da vizinhança adoram.
Todo mundo deve ter certeza que eu sou gay, mas foda-se.
Eu amo muito o meu cachorro, fiz muitos sacrifícios pra
trazê-los pros EUA e quero muito vê-lo de novo. Se ele
voltar são e salvo, eu vou ser voluntário desses pet
rescue groups. Podem cobrar.
* * *
Veja mais fotos do
Oliver ou as outras fotos relacionadas à passagem do
Katrina por Nova Orleans.
* * *
Continuo on the road. Hoje estou indo para Washington DC
e, na semana que vem, assim que eu tiver notícias do
Oliver, pra bem ou pra mal, vou pra Bay Area, na
Califórnia.
UPDATE
A moça do
Animal Rescue League of Boston acabou de ligar de
novo, cinco minutos depois de eu fazer o post acima. Os
dados do Oliver foram transferidos para o
American Humane
Association, que é quem vai tentar entrar na cidade
para resgatá-lo. Infelizmente, o governo não está
deixando ninguém entrar em New Orleans. Eles estão
tentando, sabem que se demorar muito vai ser tarde
demais, mas não podem prometer nada.
Sexta, 2
de Setembro de 2005
Liberdade de Expressão
Talvez eu esteja errado,
mas entendo liberdade de expressão assim:
Todo mundo tem direito a sua própria opinião, inclusive
sobre mim, inclusive sobre as coisas que fiz ou deixei
de fazer. Levo isso tão a sério que abro os meus
comentários a literalmente qualquer opinião. Podem
falar. Podem mesmo.
Nem todo mundo, entretanto, tem direito à minha amizade
e me dou o direito de excluir do meu círculo social
pessoas que tenham certo tipo de opiniões sobre mim. É
um direito que me dou, irrecorrível e tirânico, cujas
regras são totalmente subjetivas e não precisam ser
explicadas ou descritas.
É justo ou não é?
Porque eu agora não estou conseguindo pensar em nada,
mal como, mal durmo, estou totalmente transtornado. Mas
assim que essa situação do Oliver se resolver, seja ele
voltando pra mim ou sendo encontrado morto, vai ter
gente muito surpresa por eu não responder seus emails.
O Valor da Opinião dos
Outros
Uma das melhores coisas de
ter suas decisões pessoais analisadas e dissecadas por
milhares de pessoas é que isso te ensina, in a sobering
way, o valor real das opiniões dos outros: zero.
Às vezes, se a gente recebe só uma ou duas opiniões,
ainda pode acabar se deixando levar por uma delas. Mas,
quando são centenas, você percebe que simplesmente não
dá pra seguir a opinião dos outros. Porque opinião,
vocês sabem, é que nem cu: cada um tem a sua e é uma
mais diferente que a outra.
Tem gente que disse que foi egoísmo levar o Oliver pros
EUA - não entendi porque. Tem gente que disse que seria
egoísmo deixá-lo pra trás só pra não encarar o trabalho
que daria levá-lo. Etc etc. Teve gente até me criticando
pelos posts do louco do Bia.
Reparem: não estou nem dizendo que essas opiniões não
têm valor. Têm sim, e muito. Para quem as emitiu. Mas,
para quem escuta, não dá pra tomar 518 opiniões
conflitantes como guia de ação.
Pelo contrário, elas só nos fazem ver que, na vida, a
gente tem mesmo é que fazer o que acha certo e arcar com
as consequências. Porque depois, seja lá o que façamos,
sempre vai ter gente pra achar bom e sempre vai ter
gente pra achar ruim.
Notícias
Terei que sair de Nova
Iorque antes do esperado, então não vou mais pra
Washington. Pego um vôo amanhã e, a partir daí, estarei
em Berkeley, Califórnia, na casa da minha irmã, até tudo
se resolver.
O Idelber
realmente é uma pessoa de coração de ouro. O blog dele
se transformou em um centro de informações para
refugiados e parentes de desaparecidos. Valeu, Idelba.
As condições em New Orleans estão se deteriorando cada
vez mais e os animal rescuers não estão conseguindo
obter permissão para entrar. Enquanto escrevo isso, o
meu cachorro amado está morrendo de fome e sede e não
tem nada que eu possa fazer.
Nunca me senti tão desgraçado, fudido, impotente,
culpado. Se os merdas que comentam aqui acham que podem
fazer eu me sentir pior do que já estou, estão muito
enganados.
Sábado,
3 de Setembro de 2005
Berkeley, Califórnia
Estou em Berkeley, na casa
da minha irmã. E, sim, era mesmo minha irmã comentando
no blog e já pedi pra ela parar de expor e bater boca
com idiotas.
Uma coisa interessante dessa crise é que muitos amigos e
parentes que não conheciam o blog, ou então que
conheciam e não liam, agora estão visitando
obsessivamente atrás de notícias, e alguns até
comentando.
Meu pai inclusive tachou esse blog de espaço de
degenerados. E eu não pude nem discordar.
* * *
Depois de 40 graus em Nova Orleans e quase 30 em Nova
Iorque, chego em Berkeley e está uma friaca desgraçada.
Esqueceram de avisar pra esse povo aqui que estamos no
verão.
* * *
Agora é oficial. Tulane cancelou o semestre letivo. As
aulas só devem voltar em janeiro de 2006. Ou seja, cada
um por si, deus por todos. Muitas outras universidades
estão aceitando alunos de Tulane sem cobrar mensalidade,
créditos serão aceitos, etc etc. Toda ajuda para as
vítimas do Katrina.
O meu maior problema, como sempre, é grana. Cheguei até
a receber o primeiro cheque de Tulane, mas isso é tudo o
que tenho. Preciso de uma universidade que, além de
fazer o acima, também me pague uma bolsa como Tulane
pagava. Senão, não vou ter como me manter.
Eu sempre quis morar no Bay Area, o clima é agradável e
as pessoas são interessantes, o departamento de Espanhol
e Português de Berkeley é dos melhores dos Estados
Unidos e minha irmã, o marido dela e o
Idelber têm
excelentes contatos aqui.
Minha melhor estratégia, no momento, é tentar me virar
em Berkeley.
* * *
Eu gostaria de poder estar fazendo o que o
Idelber faz. O
homem é campeão. O blog dele continua sendo ponto de
encontro para toda a comunidade latina de Nova Orleans,
todas aquelas pessoas que eu conhecia de nome e agora
sabe-se lá quando vou conhecer. Salvando vidas, dando
dicas, democratizando a informação, criando emails,
promovendo reencontros.
Chego a me sentir meio culpado de não estar fazendo
tanto - mas eu não conhecia quase ninguém ainda e também
estou refugiado.
Estou lutando pelo
Oliver, que não tem mais ninguém para lutar por ele.
* * *
Recebo informações de que os pet rescuers já estão em
Nova Orleans resgatando os animais de estimação. Espero
ter mais notícias em breve. Parece que a lista deles já
está com mais de dois mil bichinhos pra resgatar.
Também estou tentando entrar em contato com a Rede
Globo. Eles estão com repórteres na cidade e poderiam
resgatar o
Oliver. Acho que daria uma boa reportagem. Tipo da
coisa que neguinho ama pra encerrar o Jornal Hoje. É das
minhas últimas chances.
Se alguém tem algum contato na Globo, por favor, ajude.
Com urgência. O
Oliver já está há uma semana trancado em casa. Se
tudo deu certo e ele ainda está lá, vivo mas fraco (o
cenário mais provável), o tempo dele está se acabando.
UPDATE
Falei com o pessoal da Globo em Nova York. Eles passaram
as informações sobre o Oliver pra equipe em Nova
Orleans, mas não prometeram nada, claro, a equipe ficará
lá por muito pouco tempo e sua mobilidade é restrita,
mas nunca se sabe. Quem souber rezar, pode rezar.
Chorando em Público
Eu me exponho muito. Gosto
de fazer isso. Sou romancista. Meu maior prazer é entrar
dentro das pessoas, sentir o que elas sentem,
conhecê-las. E se expor é o melhor modo de fazer
as outras pessoas se exporem também.
Quando eu escrevo sobre o meu choro e da minha dor, eu
coloco você em uma situação complicada. Emoções fortes
são sempre constrangedoras e algo ridículas. Pode ser
alegria, pode ser tristeza. Mas você fica sem reação.
O que fazer? Você pára e diz uma palavra amiga? O quê?
Será que não pode piorar? Será que você tem alguma coisa
nova pra dizer? Não será melhor ficar calado e fingir
que não viu? Mas não é omissão? Etc.
O modo como você, amigo leitor, reage às minhas palavras
me diz tanto sobre você quanto meus posts lhe revelam
sobre mim.
E existem as pessoas que vêem alguém chorando no
meio-fio, páram... e dão um chute. Não preciso dizer
quem são. As caixas de comentários estão aí pra isso.
Elas até assinam.
Essas pessoas não me incomodam. Não me machucam. Não me
irritam. Meus leitores antigos sabem que não me importo
com essas coisas. Se me importasse, não me exporia
tanto. Se me importasse com pessoas assim, imagina!,
minha vida seria insuportável.
Quando estou bem, eu os desprezo estoicamente. Quando
estou mal, bem, a dorzinha que seria a dorzinha do chute
é tão pequena perto da dor que estou sentindo que também
é digna de desprezo.
Mas, do ponto de visto do romancista, é fascinante. Quem
são essa pessoas? Como se tornaram assim? Como se
comportam com seus entes queridos? Será que têm alguém?
Que tipo de gente vê alguém fragilizado, chorando
sozinho, e sua primeira reação é ir lá e chutar, xingar,
falar um desaforo?
Olho pra cima, por entre as lágrimas, para quem me chuta
quando estou vulnerável e só o que vejo são pessoas
dignas de pena.
Muito mais pena do que eu, que estou aqui chorando no
meio-fio.
* * *
A internet definitivamente facilita a interação.
Hoje, chorando em público na internet, muita gente veio
sentar ao meu lado e falar comigo. Uns pra ajudar,
outros pra machucar.
Mas todas pessoas que simplesmente não conseguiram ficar
imunes, que não conseguiram passar e virar o resto,
pessoas às quais a minha ação forçou uma reação.
E, nessa reação, revelaram suas verdadeiras
personalidades.
* * *
A questão de se expor para forçar os outros a se exporem
também está desenvolvida na
Prisão Conformismo.
Domingo,
4 de Setembro de 2005
Um Mês Antes do Furacão
Fiz o post abaixo no
dia 29 de julho, um mês antes do Katrina bater em New
Orleans:
The University
of New Orleans Survey Research Center and the
Southeast Louisiana Hurricane Task Force found that
a major hurricane, with 130 mph winds and an
18-foot-high storm surge,
would not scare 60 percent of southeast Louisiana
residents.
"In 2002, an American
Red Cross estimate found
25,000 to 100,000 people would be killed if a
major hurricane hit the New Orleans area."
With an
above-normal 2005 hurricane season predicted and
over four months left, will you become an
I-10-clogging evacuation monkey?
Evacuees anguished at
leaving pets behind
As Valerie Bennett was
evacuated from a New Orleans hospital, rescuers told
her there was no room in the boat for her dogs. 'She
pleaded. "I offered him my wedding ring and my mom's
wedding ring," the 34-year-old nurse recalled
Saturday.'They wouldn't budge. She and her husband
could bring only one item, and they already had a
plastic tub containing the medicines her husband, a
liver transplant recipient, needed to survive.
Dureza.
Dog Tag
Quando fiz o dog tag do
Oliver, eu gostaria de ter colocado o meu celular - mas
eu não tinha celular nos Estados Unidos, e ainda não
tenho. Pensei em colocar meu email, mas achei que seria
o cúmulo da internetofilia colocar um email em um dog
tag. Resultado: o dog tag do Oliver só tem o nome dele,
o endereço e telefone da minha casa.
Digamos que ele seja encontrado. A pessoa vai passar na
minha casa, e não vai ter ninguém. Vai ligar pra lá, e
ninguém vai atender. E então?
Quem iria adivinhar que a cidade seria destruída e
abandonada e que minha casa estaria vazia? (Acho que só
mesmo alguns comentaristas aqui do blog, que parecem
saber tudo, inclusive o futuro.)
Raios raios raios.
* * *
Obrigado a todos que estão ajudando. Vocês são
maravilhosos. Agora, o que eu queria mesmo era poder
dormir.
Chutando o Balde
Não motivo para se
preocupar com privacidade e discrição a essa altura do
campeonato. Se tudo deu certo e o Oliver ainda está vivo
dentro de casa, seu tempo está acabando. Preciso de toda
a ajuda que puder arranjar. Foi esse blog maldito que me
levou pra Nova Orleans, vejamos se ele também me ajuda a
salvar meu cachorro. Façam o que quiserem com o texto
abaixo. Podem reenviar, postar em fóruns, qualquer
coisa. Preciso de vocês AGORA. Por favor.
* * *
Subject: Poodle Starving at 8231 Spruce St -
URGENT / REWARD
Quick Summary:
Oliver, male, grey poodle, 10 lb
Pictures of him:
http://www.flickr.com/photos/cruzalmeida/sets/89945
Locked inside: 8231 Spruce Street
(between Dante and Dublin, near S.Carrollton), Uptown,
New Orleans
Owner's Contact info: Alex Silva 510
644 2895 or 510 759 6290, cruzalmeida@sobresites.com
Alternate break-in point: backyard
door, second floor.
You have my permission to break in. Signed: Alexandre
Silva.
* * *
My name is Alex Silva, and I'm a Brazilian grad student
at Tulane. I had just moved into New Orleans when
Katrina struck. I knew no one, had no car, no
connections, no resources, no anything, and I was
forcibly evacuated along with Tulane's faculty and
students.
At that point in time, the extent of Katrina's damage
was not yet evident, and we were told we'd be away for
at most 4 days. As they did not allow pets in the
evacuation buses, I was forced to leave my dear dog,
Oliver, behind. This was an excruciating decision, as
Oliver has always been with me since I've owned him. In
fact, I brought him to New Orleans from Brazil, as he is
the most important thing in my life.
He's been inside my house since this past Saturday,
Aug.27th, and I left him with food and water for roughly
5-7 days. He used to be a street dog, so he's pretty
resourceful and knows how to save food. But he
must be starving by now!
He is a grey poodle and there are pictures of him here (http://www.flickr.com/photos/cruzalmeida/sets/89945).
He's locked inside the second floor of my house at
8231 Spruce Street, between Dante and Dublin,
near S.Carrollton, in Uptown, New Orleans. The
house is locked, whoever saves him would have to break
in. The door is a small price to pay for my best
friend's life.
My house phone number in New Orleans is 504 864 0626.
I'm currently at my sister's in California, my numbers
are 510 644 2895 and 510 759 6290. My email is
cruzalmeida@sobresites.com.
If there is anything anyone can do, I would be immensely
grateful and would pay a financial reward. This is my
LAST hope, or he'll surely DIE!
Please please help.
Segunda, 5
de Setembro de 2005
A Véspera
É difícil não ficar
pensando obsessivamente em Nova Orleans, a cidade que
aprendi a amar em somente duas semanas. Lembro daquela
velhinha que foi simpática comigo no bonde e penso: será
que ela conseguiu se salvar? Lembro do prédio
envidraçado da biblioteca e penso: será que os livros
estão bem? É bastante duro.
Cheguei em New Orleans na sexta, 12 de agosto.
Pelas duas semanas seguintes, praticamente só o que fiz
foi tentar regularizar minha situação burocrática, me
inscrever em matérias, tomar vacinas, tirar social
security number, fazer student ID, preencher formulários
do imposto de renda, abrir conta em banco, criar email
universitário, essas coisas.
Finalmente, na sexta, 26 de agosto, eu senti que tinha
terminado meu período de acomodação: já estava com o
social security number e meu primeiro cheque depositado
na minha recém-criada conta bancária, tinha recebido até
um carrel só pra mim na biblioteca. Minha cama estava
com edredon novo, o Oliver estava de sapatos, eu estava
matriculado em três disciplinas. À noite, li o excelente
A Severed Head, da Iris Murdoch, romance maravilhoso
emprestado da Biblioteca de Tulane, e fui dormir com meu
cachorro enroscado nas minhas pernas, pensando no
passeio que faríamos no sábado, enquanto o roomate
aplicava remédio anti-pulgas na casa.
Minha vida em New Orleans iria finalmente começar.
E, no dia seguinte, bang.
Quando a gente mais acha que está tudo resolvido, aí é
que a vida vem e dá uma rasteira.
Em Retrospecto
Em retrospecto, tudo é
muito fácil. Em retrospecto, todos os generais de
poltrona sempre sabem pra que lado mandar a cavalaria.
Em retrospecto, as batalhas acabariam sempre empatadas.
Pois, em retrospecto, eu deveria ter pego meu cachorro,
já nas primeiras horas de sábado, quando ainda deveriam
haver vôos, e ter embarcado no primeiro pra São
Francisco, e foda-se.
Mas o problema é que ninguém estava assim alarmado no
sábado. No sábado, todos achávamos que provavelmente
seria um alarme falso, como tantos outros, e todos
voltaríamos pra casa na segunda. Ou, então, se o furação
batesse, oh, seria uma tragédia, pois só voltaríamos pra
casa três dias depois, na quarta ou sexta. Tulane previa
recomeço das aulas pra quarta. Os alunos embarcaram para
os abrigos como quem ia para uma excursão do colégio.
Nunca imaginei, nem eu nem ninguém, que mesmo no pior
dos casos ficaríamos mais de uma semana sem poder voltar
para casa. Seria impensável.
E a porra do impensável aconteceu.
Pra mim, o mais incrível não é nem o furacão, ou os
levees terem arrebentado, ou a inundação da cidade. O
inacreditável é o governo da nação mais rica e
tecnologicamente avançada que o mundo já conheceu ter
deixado um de seus cartões-postais cair na anarquia de
uma guerra civil. Por que a cidade já não amanheceu, na
quarta-feira, dois dias depois do furacão, no dia
seguinte ao rompimento dos levees, totalmente sob
ocupação de centenas de milhares de tropas do exército?!
Como pode isso não ter acontecido?!
Qualquer idiota toma as decisões certas tendo todas as
informações. Gênio é quem toma as decisões certas sem
ter informação alguma.
Fico feliz de ver que tantos leitores sabiam exatamente
o que iria acontecer e o que deveria ser feito. Da
próxima vez que quiser investir em ações, vou olhar
alguns desses nomes nas caixas de comentários do LLL e
pedir umas dicas.
Pois eu não sabia, quando saí da minha casa no sábado a
tarde, que nos próximos dias iria acabar passando por
Mississippi, Michigan, New Jersey, New York, Illinois e
California. Eu não sabia que uma semana depois ainda
estaria refugiado só com a roupa do corpo. Eu não sabia
que aquele quarto que aluguei com tanta felicidade pra
ser a sede da minha futura vida nos Estados Unidos
poderia acabar se convertendo no túmulo do Oliver.
Se eu soubesse, teria trazido agasalhos. Se eu soubesse,
teria trazido meus documentos, meus dez DVDs com todo o
conteúdo do meu computador ou minhas notas a mão para
meus próximos romances.
Se eu soubesse, teria trazido o Oliver.
Terça, 6
de Setembro de 2005
O Oliver Está Vivo e Bem
Esse cachorro é duro na queda.
Ele foi resgatado por um fotógrafo chinês e, no momento,
está em um carro a caminho de Washington, DC.
(A ironia é que eu ia passar o Labor Day weekend in
Washington e estaria lá agora, se minha irmã não tivesse me
convencido a vir pra Califórnia antes.)
Eu sei que vocês estão curiosos, mas esperem um pouco.
Primeiro, tenho que tirar o nome dele das listas de cães a
serem resgatados.
Quarta, 7 de
Setembro de 2005
O Resgate do Oliver

Vocês leitores são sensacionais. Como é que vocês me
acreditam em uma história ridícula dessas?! A cada detalhe
que eu acrescentava, eu pensava: porra, agora alguém vai ter
que dizer "Caralho, você tá zoando da gente. Quer mesmo que
eu acredite no fotógrafo chinês?!"
Não me entendam mal. Cada detalhe inverossível dessa epopéia
é verdade. Mas, nem eu, que sei que é verdade, acredito
ainda. Acho que só vou acreditar quando ele estiver aqui,
latindo na sala. Como é que vocês acreditaram e tiveram
tanta fé?
Eu amo vocês.
* * *
Hoje de madrugada, 7 de setembro, o Oliver chegou em
Washington DC e já está hospedado na casa dos sogros da
minha amiga Renata.
Tudo
começou mesmo com a Renata, uma das minhas amigas mais
queridas, uma pessoa que repetidamente me salva de mim mesmo
e das confusões em que me meto. Não satisfeita em me salvar
do Katrina (ela me mandou um email, quando eu estava no
abrigo, em Jackson, dizendo simplesmente, "vem aqui pra NY
ficar comigo agora, eu pago a passagem"), ela também foi
quem indiretamente salvou o Oliver.
Depois que eu saí de NY para vir para a Califórnia, no
sábado, ela foi passar o feriadão de Labor Day com os
sogros, em Washington. Na casa dos sogros, que são
colombianos (essa história é cheia de colombianos, inclusive
meu roomate fidaputa), ela conheceu um outro casal
colombiano, que estava lá com a filha, Marcela. A moça, mais
ou menos da nossa idade, era de New Orleans. As duas não
eram muito amigas mas começaram a conversar.
Pra começar, Marcela confirmou que o meu roomate era mesmo
um filho da puta - como se eu não soubesse. Em uma
emergência como essa, você não evacua a cidade com dois
lugares vazios no seu carro. Você oferece lugar pra quem não
tem carro. Até mesmo pra um vizinho que você não conheça
muito bem. Qualquer um. Muitas pessoas morreram por falta de
quem lhes desse carona pra fora da cidade.
Algumas horas depois, Marcela ligou pra Renata, disse que um
amigo dela maluco iria tentar penetrar em Nola pra tirar
umas fotos, passaria na casa dela pra pegar uns documentos
importantes e poderia tentar resgatar o Oliver. A Renata deu
meus dados todos mas nem ela nem eu tínhamos muitas
esperanças.
Todos os elos dessa cadeia eram extremamente tênues. It was
a long shot, at best.
* * *
O
herói dessa história se chama Mark. Falei com ele ao
telefone ontem mas não consegui pegar seu sobrenome. Aliás,
o homem não é chinês-chinês, e sim sino-americano.
Fotógrafo free-lance de revistas universitárias de
Washington, ele e um amigo decidiram penetrar em New
Orleans, documentar a tragédia do Katrina e tentar tirar
algumas boas fotos pra vender depois.
UPDATE
O nome dele é Mark M. Gong.
Confiram seu
portfólio
ou suas fotos de New Orleans pós-Katrina.
Chegando lá, viram que a coisa era mais complicada do que
imaginavam. Ruas alagadas ou bloqueadas por árvores ou
destroços, toque de recolher do exército, saques e tiros, um
caos.
Agora, tem mais um detalhe daqueles que fazem parecer que a
história foi escrita por um mau roteirista de Hollywood. Eu
posso até ver um leitor mais cético fechando o blog e
dizendo, putaqueopariu, até aqui eu até vinha acreditando,
mas agora esse gordo mentiroso exagerou! Mas, enfim, foi
assim que me contaram.
Mark ligou pra Marcela e disse que as coisas estavam muito
difíceis em Nola. Não iria dar pra pegar os importantíssimos
documentos dela e salvar o cachorro do amigo da mulher do
filho dos conhecidos dos pais dela. Talvez não desse pra
fazer nem um. O que ela preferia?
Não
sei quanto tempo Marcela pensou antes de responder, mas
acabou dizendo: salva o cachorro.
Na segunda de manhã, Mark e o amigo chegaram na minha rua. A
água estava batendo no segundo degrau da casa, ou seja,
havia cerca de um metro de água na rua. A princípio, ele
ficou relutante em arrombar a porta. Chamou pelo Oliver. Lá
de dentro, o cachorro latiu de volta.
Finalmente, ele tomou coragem e arrombou a porta.
A casa estava toda cagada e mijada, um fedor dos infernos.
Tirando isso, as janelas todas resistiram, tudo em ordem. O
Oliver não parecia triste ou fraco ou abatido mas sim (como
sempre) elétrico e cheio de energia. Mark não viu comida
nenhuma (eu tinha deixado 2kg nove dias antes, mas estavam
pelos cantos, ele pode não ter visto ou o Oliver pode ter
comido tudo) mas disse que ainda havia muita água no balde e
na bacia.
Ou seja, esse cachorro sem-vergonha, esse cachorro herói,
esse cachorro durão estava bem, agitado, latindo, e ainda
tinha guardado sua água muito bem. Não estava nas últimas
coisa nenhuma, como todo mundo achou, e provavelmente ainda
aguentaria vários dias por lá.
Nesse momento, o Mark cometeu um erro pelo qual ele iria se
arrepender amargamente nos dois dias seguintes. Ele não viu
a caixa de transporte do Oliver, a caixa na qual ele veio do
Brasil e que estava em lugar bem visível no meu quarto.
O Oliver é hiperativo. Ir com ele de carro até a esquina é
um sacrifício, ainda mais de New Orleans até Washington DC.
A caixa seria uma excelente maneira de garantir uma viagem
mais segura e tranqüila.
O Mark admitiu que, realmente, o primeiro dia no carro foi
meio infernal pros três mas que, no segundo, eles já tinham
"warmed up to one another".
Finalmente, hoje, quarta feira, as quatro da manhã hora
local, Mark e seu amigo deixaram o Oliver na casa dos sogros
da Renata.
* * *
Esse homem é meu herói. De verdade. Por uma série de razões.
A primeira é por ter conseguido entrar em Nola, sozinho, só
ele e um amigo, quando muita gente boa e mais cheia de
contatos não conseguiu. Depois, ele conseguiu achar meu
endereço em uma cidade desconhecida e totalmente
convulsionada, arrombou minha porta sem ninguém prendê-lo ou
linchá-lo, resgatou o Oliver e ainda dirigiu por dois dias
com aquele bicho maluco perturbando.
E tudo isso pelo cachorro do amigo da mulher do filho dos
conhecidos dos pais da amiga dele. Sensacional.
Ele hoje está chapado em casa. Vai dormir o dia todo.
Amanhã ou hoje mais tarde, vou falar com ele por telefone e
MSN, ele vai me dar mais detalhes, me mandar algumas fotos
da casa e do Oliver e escrever um breve relato aqui pro
blog. Provavelmente, essa história que contei aqui tem
vários errinhos factuais que ele deve poder corrigir.
Eu disse pra ele que o Oliver era famoso no Brasil todo e
que meu último post, avisando do resgate, já estava com mais
de duzentos comentários e ele morreu de rir.
Aguardem mais detalhes.

* * *
Agora, os meus problemas imediatos de refugiado:
1. Ser aceito oficialmente em Berkeley pra cursar
disciplinas aqui. Quase resolvido.
2. Continuar sendo regularmente pago pro Tulane. Eles
juraram que vão continuar pagando, mas a burocracia vai ser
complicada.
3 Arranjar um lugar pra ficar pelos próximos quatro meses,
em Berkeley, que aceite cachorro e que não seja absurdamente
caro. Tudo aqui é caríssimo e eu tenho que viver com $900
por mês. Encontrei
um site
maravilhoso, com muitas ofertas especiais pra refugiados
do Katrina, e estou saindo daqui a pouco para ver
apartamentos. Pode ser resolvido em breve, mas ainda assim
preciso de toda a ajuda possível.
UPDATE:
graças ao site acima, eu já consegui
um apartamento em Berkeley pra morar, de três quartos, na
melhor vizinhança da cidade, pagando a mesma coisa que
pagava em Nola, ou seja, quase nada.
4. Voltar pra Nova Orleans o mais rápido possível pra tirar
minhas coisas de casa. Já tive uma discussão com meu
roomate, ele queria me cobrar setembro, eu não vou pagar,
ele está ameaçando jogar minhas coisas na rua (ou seja, na
água) assim que chegar lá.
5. Finalmente, preciso de algum jeito de trazer o Oliver de
Washington DC pra Berkeley. Esse é o MAIOR problema e estou
aceitando qualquer oferta de ajuda, qualquer idéia,
anything. Naturalmente, eu já não tenho dinheiro pra nada.
UPDATE:
a
Continental Airlines
está transportando, de graça, animais de estimação que se
separaram dos donos. Tudo o que tive fazer é provar que eu
morava em New Orleans. Até sexta, o Oliver deve estar aqui.
Bendita
Continental.
Enfim, comparado com o meu inferno da semana passada, nada
disso parece importante. Essa não foi a primeira vez que
achei que tinha ficado livre desse bicho louco mas foi, com
certeza, a pior.
Estou escrevendo um post contando algumas das outras
aventuras do Oliver. Sobreviver o Katrina foi apenas sua
maior façanha, de modo algum a única.
* * *
A leitora Jade, de Washington, foi pra Nola como voluntária
e estava com todos os dados do Oliver. Ele teria sido
resgatado por ela, se o Mark não tivesse chegado antes. Eu
ainda consegui deixar uma mensagem no celular dela, dizendo
que não precisava mais. A Jade foi realmente sensacional.
Aproveitando que estava nas redondezas, ela tirou as fotos
abaixo, no bairro de Uptown, bem perto da minha casa. Minha
rua provavelmente está igualzinha:

* * *
Mais uma vez, obrigado a todos. Vocês conseguiram convencer
um velho cínico ateu que existe muito mais gente boa nesse
mundo do que eu imaginaria possível. Recebi emails,
telefonemas e ofertas de ajuda do mundo inteiro. Abaixo,
alguns exemplos:
Your plea for Oliver touched my heart as I am a poodle
owner (on my fourth and have had different poodles for
30 years). Oliver has been rescued by now I hope.
Because I can not locate anything on the Internet about
him tonight I feel sure that since so much is being done
to find all the pets for the people in NO surely Oliver
has been found safe. Please let me know. I live in
Oklahoma but if I had been in NO I think I would have
tried to get to him for you but I am an old woman (81)
but I love my Poodle "Rufus" (silver, tiny, toy) just as
you love "Oliver". Hug and prayers,
Just trying to help hope it does. I cannot imagine what
it would be like in a new country and lose your four
legged companion that has traveled as far as you. My
prays are still with you and "Oliver" I search for him
for you.
I wrote you yesterday and then talked to my husband. He
is a pilot for XXXX Airlines. If your poodle is located,
he said I could just fly him/her out to you. I can fly
for a lower fare than on the internet. He also said that
if you need us to keep it until you can get it back,
that is OK too. I am a school district administrator so
it would be best for it to be a weekend. However, if
your pet is found on a Monday, I will just go get it for
you. I just hope this works out for you and they can get
your pet. No, you would not owe me anything- I would
just do it to help you. Please keep me updated. Praying
for you and your pet,
I just read about your poodle. If you need to have it
housed after it is rescued, I would be happy to take it
for you until you are able to take it back. I have a 12
year old toy that was born in Ft. Walton Beach, Fl. I
used to live in Pensacola. My husband is a retired Navy
Pilot, and now flies for XXXX Airlines. I just housed 2
Brazilians this summer through the YMCA of Fairfield, OH
and SanPalo, for 3 weeks. My boys are probably close to
your age, but they are not here. One is 27 and in law
school at Ohio State, and the other is at the Coast
Guard Academy, in CT, and is hoping to become a pilot as
well. XXXXX gets his orders this coming Tuesday. I can
probably fly down to get the poodle once it is rescued.
Mine is only 9 pounds and fits under the seat in the
plane. I could possibly even fly out to Calif. to bring
you the poodle, as long as there is room on the plane.
Let me know if I can help you-my Scarlet is my daughter
to me. My prayers are with you.
I live in VA but read your post. My heart goes out to
you and everyone who went through the whole ordeal and
is continuing to deal with the trauma. I am a pet lover
myself so it breaks my heart that these pets are
missing. Did you get any info? will you keep me posted
if you have time. My prayers are with you.
Olhei um monte de fotos tuas... dá dozinho mesmo de não
poder fazer nada.Lembrei da minha poodle que era
parecidinha com o Oliver... espero que consiga salvá-lo.
de coração.. e que vc fique bem. está abroad, ainda? ou
já voltou? se precisar de um ombro ou colo amigo, estou
à disposição, viu?
Here is some more info that I came across yesterday in
my search for another what some people tell me at the
hospital that I work at was a lady carring her only
possesion she had left , no family , no home, no ID,
NOTHING. Just her little four legged companion of 9
years. They say it was a little poodle but, when she
tried to get on the bus with the dog they refused to let
her board with the dog. So I heard that the bus pulled
away and the camera crew video'd the little poodle
sitting there looking for its only friend it ever knew.
Tell me How can people be so cruel at times? Our pets
are our companions our love. and the little boy that
would not leave his dog "Snowball" but they made him
leave Snowball behind. The boy became so distraught he
starting getting really sick and vomitting. Thats wrong!
In my eyes! Hope this is another site to help you.
Praying for you !
My heart goes out to you....Have you had any word of
anyone going and getting Oliver? I am a poodle breeder
In Kansas (honest person) I will do my dead level best
to help you. I sit here alone with my little poodles
because my husband is in Iraq and I am in total tears
for your heart is with Oliver. I have seen the pictures
he is to beautiful. Oh, like you I pray for his safe
return to your loving arms. Please if you wish me to
help tell me what I could do. I would even if they have
him in a shelter take him in and take care of him for
you and get him shipped to you. I have shipped several
poodles to Calif. I have crates that are big enough for
him. Have have a new wonderful home in the country in
kansas. He would be safe ........Oh I pray he has made
it...... Please let me know I WILL HELP .... here is my
website I need to update it but since my husband has
been in Iraq for a year its been hard for me.
* * *
Leia
Oliver nos Estados Unidos, com meus motivos pra trazê-lo
pra cá, ou veja
todas as fotos dele.
UPDATE
Eu, em geral, evito de usar
muitos nomes próprios nas minhas histórias pra não
confundir, mas teve gente confundindo minha amiga Renata com
a colombiana amiga do Mark, então decidi incluir o nome dela
na história. Quem renunciou aos documentos pra salvar o
Oliver foi a Marcela. Vejam acima.
Quinta,
8 de Setembro de 2005
Tudo Está Bem Quando Acaba Bem
Vai acabando a aventura e as
pontas soltas vão sendo amarradas. Vamos à elas.
Mark
Gong
O nome do homem que resgatou o Oliver é Mark Gong. Ele tem
26 anos, mora em Maryland, é fotógrafo freelance e está
tentando trabalhar na grande mídia como fotojornalista. No
momento, sua prioridade é tentar vender as fotos que tirou
em Nova Orleans para alguma revista, jornal ou agência. Se
alguém tiver contatos e puder ajudá-lo, eu agradeço
pessoalmente.
Vocês podem conferir seu
perfil
(com uma pequena foto), seu
portfólio ou as fotos que tirou em
Nova
Orleans durante a viagem em que salvou o Oliver (algumas
abaixo). Vão lá, dêem opiniões, divulguem.

Eu não sei o que fazer pra agradecer a ele, mas aceito
sugestões. Ele deixou eu revelar seu email. Acho que ainda
não se deu conta de que resgatou um cachorro popstar.
Escrevam e contem pra ele: o endereço é markgong no gmail.
Moradia:
Hurricane Housing
Eu estava procurando apartamentos pra alugar em Berkeley e
adjacências, mas aqui é tudo absurdamente caro. Encontrar
uma vaga barata, que ainda por cima aceitasse cachorro, foi
simplesmente impossível. Até o menor quartinho custa quase
$800. Um apartamento quarto e sala não sai por menos de
$1100. Pra não falar dos vários anúncios exigindo roomate
gay. Eu quase respondi: amigo, sou solteiro e tenho um
poodle, you do the math.
Felizmente, um leitor me recomendou o site
Hurricane Housing,
organizado pela ong Move On. Infelizmente, já não sei mais
quem foi. Aliás, vocês vão ter que ser pacientes comigo. Foi
tanta gente maravilhosa oferecendo ajuda, dando dicas e
idéias, e eu estou tão baratinado e overwhelmed que
simplesmente já não consigo mais saber quem falou o quê. Se
eu deixei de agradecer sua ajuda ou oferta de ajuda, por
favor, me perdoe.
Enfim, o Hurricane
Housing é um site onde pessoas se oferecem pra hospedar
os desalojados do furacão. Pode ser por um dia ou por dois
meses, pode ser no chão da sala ou no quarto de hóspedes,
pode ser oferecendo comida ou não, com cachorro ou não.
O espírito de solidariedade desse povo está me deixando
soterrado. Acho que não posso mais voltar pro Brasil porque
da próxima vez que um marxista festivo vier torcer o nariz
pros EUA, eu vou querer dar porrada. Só num raio de 50
milhas do CEP da universidade haviam 878 pessoas oferecendo
hospedagem às vítimas do Katrina. 878! Isso é lindo demais.
As ofertas eram, via de regra, por cerca de um mês e sempre
gratuitas. Liguei para muitas das pessoas que permitiam
cachorros e fiz uma contra-proposta: ao invés de só um mês,
eu precisava de lugar pra ficar por quatro meses, pois
passaria o fall semester em Berkeley; por outro lado, não
precisava ser graça, eu poderia pagar um small rent, desde
que não precisasse dar depósito e fosse abaixo do valor de
mercado da região.
Acabei ficando na casa do David, um senhor de quase 60 anos,
casado, pai de sete filhos, todos já morando fora de casa.
Por $400 dólares, a mesma coisa que eu pagava por um quarto
em Nova Orleans, ele me alugou o basement de sua casa, com
três quartos, um banheiro de sonho, cozinha totalmente
equipada, entrada independente, quadra de basquete e quintal
pro Oliver. Um apartamento que, segundo ouvi, se alugaria
por $1500.
Ainda disse que seu cachorro (não conhecia a raça) de 13
anos tinha morrido três meses antes e que ele e sua mulher
estavam carentes de companhia canina. Ou seja, enquanto eu
estivesse fora, o Oliver não ficaria sozinho.
Meu cunhado, doutorando em Economia em Berkeley, ficou morto
de inveja: ele e minha irmã pagam três vezes mais pra morar
em um lugar três vezes menor.
Quem mandou não estudar em uma cidade onde passam furacões?
Transporte pro
Oliver: Continental Airlines

Mais uma vez, shame on me, não lembro mais quem sugeriu, mas
algum leitor tinha que dito que a
Continental Airlines
estava transportando, de graça, cachorros que tinham se
separado de seus donos durante o furacão.
Eu confesso que achei bom demais pra ser verdade. Fui no
site, não vi nada. Fui nas páginas sobre transporte de
cachorros, nada. Na dúvida, decidi ligar, não custava nada.
Já era um bom sinal ver que eles tinham um 0800 só pra
questões relacionadas à animais de estimação. Claramente é
uma empresa que valoriza o assunto.
Falei com a simpaticíssima Darla, na matriz, em Houston. Ela
pareceu não saber muito bem do que se tratava (o que mostra
que ainda não tinha sido feito antes) mas achava que tinha
recebido um email a respeito. Fuçou e encontrou. Sim, se eu
pudesse provar que era residente do estado da Louisiana, com
um documento oficial com foto e endereço, a
Continental
transportaria meu cachorro de graça até mim. De graça!
Demorei a acreditar. God bless America, god bless
capitalism!
Graças a Bush e Osama, os vistos americanos agora vêm com
foto. Ainda bem, senão, não rolaria. A supervisora da Darla
ainda fez um doce, porque no visto não consta o endereço,
mas é um documento oficial emitido pelo governo federal, com
foto e afirma que sou estudante da Universidade de Tulane.
Ora, se estudo em Tulane, onde mais eu moraria a não ser na
Louisiana?!
Mandei as fotos do Oliver pra Darla e ela achou ele lindo
demais. Me fez prometer que mandaria novas fotos pra ela
assim que nos reencontrássemos.
Vocês podem ficar certos que muito em breve vai ter um
banner ou botão da
Continental aqui. Não vou esquecer o que essa empresa
fez por mim e pelo Oliver.
Oliver em
Washington
Depois de nove dias sozinho em casa e dois dias no carro
entre Nova Orleans e Washington, o Oliver finalmente está
instalado na casa dos sogros da Renata.
Ele estava bem, agitado, nada magro, fedido, pêlo alto e
cheio de pulgas. No dia em que tive que evacuar, sábado, 27,
o roomate ia aplicar remédio pra pulgas na casa e eu
aproveitaria pra passar o dia fora com Oliver, inclusive
levando-o para banho e tosa.
Ele seguiu o sogro da Renata por todos os cantos e não quis
ficar sozinho de jeito nenhum. Carentíssimo. Também não
aceitou muito bem a comida que deram, mas isso é frescura
dele. Recomendei leite. Leite é a coisa que ele mais gosta.
Então, sexta-feira agora, às 11 da noite, eu vou buscar o
Oliver no Aeroporto de Oakland, vindo no vôo 359 da
Continental, com escala em Houston.
Quando na vida que eu iria me imaginar indo buscar cachorro
no aeroporto?
Realmente, esse bicho é incrível. Ele conhece os Estados
Unidos melhor do que muito americano e, com certeza, do que
a imensa maioria dos brasileiros.

Pensem bem: ele desembarcou em Miami e foi de carro comigo
até New Orleans: 1500km pelo Deep South. Depois, foi
resgatado de New Orleans e levado pra Washington DC também
de carro: 1700km, pelo coração da América. Agora, vai voar
de Washington pra Oakland, Califórnia, sozinho no avião:
4500km, de costa a costa. E, finalmente, quando eu for
voltar pra New Orleans com ele, em janeiro, provavelmente
vou comprar um carro aqui e ir dirigindo até lá: 4300km ao
longo da fronteira com o México.
Em termos de odômetro, o Oliver deve ter mais quilometragem
do que a maioria dos leitores.
Resumo da Ópera
No final, parece que acabei me dando muito bem.
Estou em um dos meus lugares preferidos (a Bay Area),
estudando em uma das melhores universidades do mundo (UC
Berkeley, Cal, pros íntimos), que tem um dos melhores
departamentos de Espanhol e Português do país, meu cachorro
chega amanhã, Tulane garante que continuará me pagando e
ainda arrumei um apartamento de três quartos, na melhor área
da cidade, por menos de um quarto do preço de mercado.
A única coisa que falta fazer é voltar pra New Orleans e
pegar o resto das minhas coisas.
Eu confesso que penso cada vez com mais saudosismo dessa
cidade que só conheci por duas semanas mas que, por duas
semanas, considerei minha. Acho que vai ser emocionante
voltar pra lá em janeiro e participar, pelos próximos cinco
anos, da reconstrução dessa cidade que é única no mundo.
Sexta, 9 de
Setembro de 2005
Contato Físico
Em poucos minutos, o Oliver
estará embarcando no vôo que o trará à Califórnia.
Amanhã, faz duas semanas que tive que evacuar de New Orleans
e deixar o Oliver pra trás. Ficar duas semanas sem ele me
fez entender muita coisa, desde aqueles solteiros pegadores
desesperados até aquelas solteironas dos gatos que
desistiram da vida.
Nesses últimos trezes dias nômade pelos Estados Unidos,
apesar de todo o amor que recebi de amigos e estranhos, eu
não beijei ninguém, não dormi abraçadinho com ninguém, não
fiquei sentadinho de bunda colada no sofá com ningém. Nada.
Não estou falando nem de sexo. Estou falando de uma coisa
muito mais básica, talvez até mais animal: contato físico,
sentir o calor do outro, dar um abraço apertado.
Estudos comprovam que ter um animal de estimação acalma os
nervos, baixa a pressão e diminui a incidência de ataques
cardíacos.
Ter um cachorro é uma delícia. Já falei sobre isso aqui
várias vezes. Se não fosse saber que o Oliver estava me
esperando, precisando de mim, quantas vezes eu não
teria voltado pra casa? Se não fossem os problemas dele que
só eu poderia cuidar, o quão eu não me deixaria afundar nos
meus próprios?
O Oliver é uma maquininha de amor, meu amigo, meu
companheiro. Estávamos passeando em média uma hora por dia
pelas ruas de Nova Orleans. Ele dormia entre minhas pernas
ou fazendo pressão contra o meu corpo. Ele também, de um
modo bem animal, queria ter a certeza física de que eu
estava ali.
Subitamente, percebi que eu estava desesperado por contato
físico. Durante essas meras duas semanas sem o Oliver, eu me
senti quase que um semi-humano. Um leproso. Sem ninguém pra
se encostar gostosamente em mim.
E pensei que deve ser por isso, buscando essa conexão mínima
entre dois seres vivos, que esses homens patéticos pegadores
passam o pente fino em boates noite após noite,
desesperados, tentando preencher um vazio que nem sabem o
que é.
E que também deve ser por isso que tantas mulheres desistem
da vida e tornam-se a velha dos gatos do 802, largando mão
dos homens complicados e confortando-se com o amor mais
tranquilo de cães e gatos.
Eu só sei que essa noite eu vou dormir com o Oliver.
* * *
Sobre as delícias de ter cachorro.
Domingo, 11 de
Setembro de 2005
A Casa Nova
Tudo na minha vida é mesmo
insólito.
Encontrar lugar pra ficar em Berkeley que aceitasse
cachorro e fosse barato provou-se impossível.
Finalmente, descobri um
site onde
voluntários cediam suas casas, quartos de hospédes,
sofás da sala, o que pudessem, para hospedar os
refugiados do furacão.
David, um típico californiano liberal (aqui, liberal
quer dizer de esquerda), estava oferecendo um
apartamento independente no primeiro piso da sua casa,
onde sua filha deficiente tinha morado durante 15 anos.
São três quartos grandes, banheiro e cozinha, em uma das
melhores ruas da cidade.
A oferta no site era pra ficar um mês de graça, mas como
eu passaria o semestre em Cal, fiz uma contra-proposta:
morar aqui por quatro meses, pagando o que eu pagava em
Nola. Pra ajudar um refugiado, David topou. Ao invés dos
$1500 que receberia por um apartamento desse tamanho,
nessa localização, receberia $400. Eu lambi os beiços.

Ou seja, aqui estou eu, morando em uma casa de família,
com meu cachorro, em um apartamento especialmente
desenhado para uma cadeira de rodas.
Reparem como tem corrimão por toda a casa. Até no box, o
que é ótimo - em Nova Iorque, no dia em que cheguei lá
fugido do furacão, eu levei um tombo no banho e fiquei
cheio de hematomas, inclusive na testa. Por outro lado,
o chuveiro é baixo e tenho que tomar banho agachado.

Minha grande dúvida foi: por que não tem pia no
banheiro? Reparem bem nas fotos. O banheiro tem privada
e box, mas a pia fica em um dos outros quartos. Fiquei
quebrando a cabeça. Com certeza, havia um motivo lógico
para isso, deveria ser mais eficiente para a moça por
alguma razão, mas simplesmente não consegui descobrir .
Perguntei ao David. Depois, claro, fiquei com vontade de
dar com a cabeça na parede de tão óbvio que era. Não vou
nem contar aqui, pra dar uma chance pra vocês. Vamos ver
se são mais espertos que eu.

Em frente à minha porta, há o quintal que agora é do
Oliver, as roseiras que ele vai defender dos veados como
parte do seu contrato de locação, uma quadra de basquete
e uma macieira e um limoeiro, ambos cheios de frutas.

Não sei vocês, mas vou sentar nas mesinhas do meu
quintal, comer maçã do pé, apreciar o pôr-do-sol e ver o
Oliver dar uma coça nesses veados comedores de rosas.
A Chegada do Oliver na
Casa Nova
Sexta-feira à noite, eu,
minha irmã e meu cunhado buscamos o Oliver no Aeroporto
de Oakland e eu e ele dormimos nossa primeira noite na
casa nova.

Na seção de desembarque de carga, outra new orleanian
esperava seus bichinhos transportados de graça pela
Continental. Quatro gatos, na foto acima. A família dela
saiu no domingo, véspera do furacão, e a filha ficou pra
trás, por causa dos gatos. Eles moravam no segundo andar
de uma casa, ao lado do 17th St breach. Quando o levee
rompeu, ela disse que as águas ficaram acima do segundo
andar, a filha deve que sair com os gatos pela janela e
ir pro telhado.
Felizmente, como estavam ao lado do levee, era terreno
alto, a água subiu só no exato momento do rompimento,
mas logo escoou pras áreas mais baixas da cidade.
O Oliver chegou em uma caixa tão bem fechada que não
consegui abrir nem no aeroporto nem no carro. Tive que
esperar chegar em casa. Abaixo, ele, no instante em que
foi depositado aos meus pés.

Achei que estaria nervoso ou estressado, mas não.
Parecia seu eu de sempre. Brincamos muito, ele estava
muito gostoso. E fiquei pensando: esse puto desse bicho
enfrentou o maior furacão de todos os tempos. Abaixo, eu
e ele, no Aeroporto de Oakland.

Quando comentei com o dono aqui da casa que o Oliver
latia um pouco, ele comentou: meu filho, contanto que
ele espante os veadinhos que vêm comer minhas rosas, eu
fico satisfeito. Não deu outra: assim que chegamos em
casa, vindos do aeroporto, tinha um cervo, todo
majestoso, comendo as rosas do homem a menos de dois
metros da minha porta. Infelizmente, o Oliver ainda
estava preso na caixa, mas o bicho fugiu assim que
chegamos.
No Rio, o Oliver não caçava nada. Em Nova Orleans, ele
caçava esquilos. Em Berkeley, caçará cervos. Fico
pensando que na próxima mudança teremos que ir pra
África, pra ele caçar rinocerontes. Abaixo, eu e o
Oliver, no quintal da casa nova.

A família tinha um setter chamado Clark, morto em junho,
aos 14 anos. O Oliver, ainda por cima, herdou todo o
enxoval do Clark (foto abaixo). Eu fiquei olhando
aquelas coisas todas, uma por uma, e juro que me vieram
lágrimas nos olhos de pensar naquele cachorro tão amado,
tão saudoso. Tinham brinquedos, remédios, cumbucas,
camas, coleiras, roupas, guias, biscoitos, you name it.
Oliver adorou.

Sábado, ficamos o dia todo na cama. Depois de duas
semanas nômade, dormindo na sala dos outros, eu estava
realmente precisando disso.
Apertei muito o Oliver, agradeci mentalmente a todos
vocês e pensei em quanto somos afortunados de somente
estar juntos de novo. Na foto abaixo, ele mostrando o
seu dog tag com endereço de Nova Orleans, que ele não
vai mais precisar.

Ah, aproveitei o dia na cama pra ler From a Buick 8, do
King. Chato. Mas foi o primeiro livro que eu tive
tranquilidade de ler desde a evacuação.
* * *
Eu acho esse tipo de post extremamente chato e
desinteressante. Não é algo que eu jamais postaria no
blog, somente contaria por email pra amigos e família.
Mas vocês pedem tanto, enfim, aqui vai. Espero em breve
voltar a só publicar coisas realmente interessantes
nesse blog.
Quarta,
14 de Setembro de 2005
O Meu Dom
Estava conversando com
A-Mulher-Que-Eu-Amo no MSN. A gente se conheceu no Rio, no
final de julho, e rolou uma coisa muito estranha, uma
atração enorme, uma força que veio sei lá de onde. Deixar
ela pra trás no Rio dificultou ainda mais a partida.
Ao longo dessa crise, foi ela quem esteve mais próxima a
mim, foi ela que carreguei no meu coração enquanto pulava de
estado em estado, foi com ela que eu falava sozinho nos
piores momentos. Ela também esteve sempre do meu lado, via
MSN ou telefone, longas conversas que me mantiveram são e
humano.
Uma vez tudo acabado, eu perguntei pra ela: você acabou de
me ver em meio à maior crise da minha vida, e acho que a
gente aprende muito sobre as pessoas durante as crises, o
que você aprendeu sobre mim durante esse drama que você
ainda não sabia?
E ela: aprendi que você sabe fazer amigos. Isso é um dom.
* * *
Depois desse estresse, muita gente veio me dizer que sou
safo, que sempre consigo me virar, that I always land on my
feet.
Eu até concordo. Sim, eu sou safo. Sim, eu sei me virar.
Sim, I always land on my feet.
Mas não por nenhum mérito meu. Só porque eu sou cercado de
pessoas maravilhosas, que me ajudam, que me amam.
Se tenho algum mérito, é esse.
Quinta, 15 de
Setembro de 2005
Fotos do Oliver em Washington
A Marcela é a santa que
convenceu o Mark Gong a salvar o
Oliver e ainda abdicou dos seus documentos. O Dr Jaime é
o santo que hospedou o
Oliver em Washington, levou ele no veterinário e ainda
comprou uma nova caixa.
Depois, os dois foram levá-lo ao aeroporto.

Reparem como esse cachorro sem-vergonha está à vontade nas
fotos.
Sexta, 16 de
Setembro de 2005
Waterloo & Katrina, Nova
Orleans & Rio
Quando a gente está no meio da
batalha de Waterloo, nunca se dá conta de estar no meio da
batalha de Waterloo. Ficamos mais preocupados em desviar de
balas, proteger as costas, atacar a cavalaria inimiga, essas
coisas. Considerações geoestratégicas são colocadas em
segundo plano. O soldado que parou muito tempo pra pensar
"caramba, não é que estou no meio de uma das batalhas mais
decisivas de todos os tempos!" levou uma espada nas costas
antes de terminar o pensamento.
Durante as últimas duas semanas, eu mal tive tempo de pensar
direito nessa tal Katrina. Estava preocupado com minha
segurança e com a do Oliver ou se conseguiria dinheiro pra
pagar as passagens, vaga em Berkeley, transporte pro Oliver
ou apartamento pra alugar e, até mesmo, simplesmente, se
Tulane continuaria me pagando.
Agora, a poeira começou a assentar. Faltam muitos problemas
pessoais pra resolver. Os maiores deles são arrancar algum
dinheiro de Tulane antes que minhas parcas economias acabem
e pegar minhas coisas em Nova Orleans, mas já estou
tranquilo o suficiente para conseguir pensar nessas coisas E
também no Katrina de modo geral.
E começo a me dar conta de que talvez tenha vivido o
episódio mais fantástico da minha vida. Que talvez, daqui a
60 anos, quando a gurizada me apontar, eu vou ser não o vovô
que escreveu Mulher de um Homem Só ou que ganhou o primeiro
Nobel de literatura do Brasil (ha ha), mas o vovô que
sobreviveu àquele furacão, o Katrina. E vão recomendar: mas
não pergunta nada pra ele, não: se não... ele conta!
É até covardia falar em maior tragédia da história tão pouco
tempo depois do tsunami, mas, de certo modo, o Katrina foi
ainda mais surpreendente. Quem imaginaria uma catástrofe
desse tipo em uma avançada cidade ocidental? Já houve algum
outro caso de metrópole do primeiro mundo assim devastada em
tempo de paz? Imaginar que isso pode acontecer na maior
potência de todos os tempos é assustador - e humbling.
* * *
E a diáspora? Os um milhão e meio de habitantes de New
Orleans estão agora espalhadas pelo país. Quando foi que o
ocidente viu um êxodo desses? O famoso êxodo dos judeus,
cantado pela Bíblia, foi minúsculo em comparação a esse. Só
Tulane deve ter mais alunos do que haviam judeus naquela
época.
Imaginem se fosse Salvador. Imaginem Salvador evacuada e os
soteropolitanos todos espalhados pelo Brasil, só com a roupa
do corpo, se perguntando quando poderiam voltar, olhando na
CBN os destroços do Elevador Lacerda.
Essas pessoas vão voltar? Terão o que fazer em Nova Orleans
se voltarem? O que vai ser de Nova Orleans se NÃO voltarem?
É de dar nó na cabeça.
* * *
Quando a ex foi contratada pra dar aulas no Timor e ajudar a
elaborar o novo currículo, eu pensei: puxa, lá vai ela viver
fortes emoções em um país se recriando do zero, enquanto eu
vou pra uma comportada metrópole ocidental viver uma
comportada carreira acadêmica.
Quem imaginaria que a viagem aventuresca seria a minha!
* * *
Eu tenho certeza que vai ser empolgante estar em Nova
Orleans durante a reconstrução.
De certo modo, Nova Orleans tem muito a ver com o Rio. São
cidades que despertam fortes paixões.
Enquanto eu crescia, no Rio, amando a cidade loucamente,
cercado de pessoas que também amavam a cidade loucamente, eu
tinha essa impressão que todas as pessoas amavam suas
cidades do mesmo jeito. Que os curitibanos também amam
Curitiba tanto quanto os cariocas amavam o Rio, etc etc. Mas
não é verdade.
À medida que fui viajando, fui percebendo que a maioria das
pessoas ama sim, de certo modo, o chão em que nasceu, mas
não apaixonadamente. São poucas as cidades que geram
verdadeiras relações apaixonadas com seus habitantes. Rio,
Nova Iorque, Paris, Nova Orleans.
Talvez a explicação seja a diferença. Acho que se você é de
Chicago e se muda pra, sei lá, Detroit, as coisas vão ser
diferentes, mas não tanto. Já Nova Orleans realmente tem uma
cultura única, pra bem ou mal. Se você nasceu em Nova
Orleans, se você ama Nova Orleans, bem, não adianta se mudar
pra Nova Iorque, São Francisco ou Miami: as coisas que você
amava em New Orleans não estarão lá.
Por isso, eu tenho fé que Nova Orleans será reconstruída.
Os paulistas são práticos. Se São Paulo fosse destruída,
talvez decidissem que seria mais eficiente ou mais
economicamente interessante reconstruí-la de outro modo, em
outro lugar, com outro nome.
Já os cariocas, sei não, mas acho que pararíamos tudo pra
reconstruir o Rio exatamente como era.
* * *
Mas não faltam dificuldades.
Funcionários da indústria de turismo local dizem que todos
os pontos turísticos da cidade estão prontos para serem
reabertos, desde os restaurantes do French Quarter até os
hotéis do centro e CDB, incluindo boa parte do Garden
District e Uptown. Só tem um problema: quem vai trabalhar
nesses estabelecimentos? Quem perdeu tudo, quem morreu, quem
talvez nem volte mais eram justamente os garçons,
faxineiros, motoristas, etc, que moravam nas áreas mais
afetadas.
E aí? Quem vai fazer o serviço sujo?
* * *
Também me preocupa a questão ambiental. A enchente de Nova
Orleans não foi como as que vi no Rio, destrutivas mas
escoadas em um dia.
Nola está há mais de duas semanas imersa em águas infestadas
de petróleo, metais pesados e químicos venenosos. Quando
essas águas forem escoadas, como estará a cidade embaixo
dela? Haverá verde, árvores, arbustos, gramados? Será que o
cheiro será tolerável? Sendo bem prático, será seguro pra
andar com o Oliver, que tem a cabecinha quase no nível do
chão?
* * *
Eu vou voltar. Afinal, enquanto estou aqui, na Califórnia,
no bem-bom, Tulane continua me pagando - pelo menos,
teoricamente; ainda não chegou nenhum cheque.
Seria muita canalhice em janeiro eu dizer: olha só, Tulane,
está tudo tão bom em Berkeley, acho que vou ficar por aqui
mesmo. Como cantariam os golfinhos, so long and thanks for
all the checks.
A verdade é a seguinte: se as pessoas não voltarem, a
universidade acaba. Se a universidade acabar (Tulane é o
maior employer de Orleans parish), a cidade vai atrás.
* * *
Morei no Rio por 31 anos e 6 meses. Morei em Nova Orleans
por duas semanas.
Não estou com saudades do Rio. Não ainda. Talvez porque
passei 6 meses me despedindo do Rio, me despedi muitíssimo
bem.
Mas estou morrendo de saudades de Nova Orleans, uma cidade
que fiquei 6 meses conhecendo à distância e 2 semanas
flanando pra conhecê-la pessoalmente.
Tenho saudade de todos aqueles lugares legais pelos quais
passei e pensei: puxa, ainda vou vir muito aqui.
Como em qualquer final de casamento, sinto falta do futuro
que teria, do futuro que me foi arrancado.
Mas vou recuperá-lo. Nova Orleans e eu ainda teremos nossa
história de amor.
Sexta, 23 de
Setembro de 2005
Badulaques e Coisinhas
O pessoal daqui (esses
capitalistas imperialistas nojentos, como gosta de dizer os
marxistas tomando chope no Baixo Leblon) tem sido de uma
bondade absurda. Continuo recebendo ofertas de ajuda de
todos os lados. É tanta ajuda que quase me sinto soterrado.
Já não sei bem o que fazer.
Por um lado, eu não me sinto tão necessitado assim. O Oliver
estando são e salvo, eu ainda mal consigo acreditar nisso,
parece que todos os outros problemas são pequenos. Se perder
alguma coisa, vão ser só (só!) objetos pessoais
inestimáveis, mas não propriedade - casa, carro,
eletrodomésticos, computador.
Por outro, eu sei que também me fudi. Todas essas idas e
vindas pelo país custaram caro. Nesse meu primeiro mês de
Estados Unidos, eu gastei os mil dólares que trouxe do
Brasil, os 900 que recebi de Tulane e ainda me endividei em
mais 700. E daqui a pouco vou ter que voltar pra Nola pra
tentar resgatar o que sobrou e gastar ainda mais um pouco.
Aqui, em Berkeley, só tenho casa porque estou alugando um
porão por menos de um terço do valor de mercado.
Então, aceito a ajuda que me oferecem, mas não é fácil,
apesar de tentador.
Recebi um cartão de estudante, que me dá direito, entre
outras coisas, a tirar livros na biblioteca da universidade
e de andar à vontade nos ônibus da cidade. Além disso,
ganhei quase $300 em gift certificates da Levi's, GAP,
Target (loja de departamento) e Longs (farmácia), pra ajudar
a refazer o guarda-roupa e a despensa. E, melhor de tudo, me
deixaram entrar no meal plan, ou seja, posso comer à vontade
nos refeitórios de Berkeley.
Já é um desafogo de despesas.
* * *
Ontem, sonhei que estava no meu saudoso Renault (se eu
tivesse carro em Nova Orleans, minha história teria sido
muito diferente), vindo pela Radial Oeste e virando à
esquerda na UERJ, depois de passar pelo Maracanã, pra entrar
na Grajaú-Jacarepaguá, subir aquela linda serra e chegar em
casa, onde o Oliver estaria me esperando.
Aí acordei e lembrei que não tenho carro, não tenho casa e
tenho que lamber os beiços de ainda ter o Oliver.
* * *
Faz pouco mais de um mês que saí do Brasil. Talvez o mais
difícil dessa história seja lembrar que não é uma viagem
tumultuada mas divertida e que, daqui a pouco, eu vou voltar
pro meu apartamento na Freguesia, pra minha cama de casal,
minha mesa presidente, meus livros, meu microondas e minhas
coisinhas em geral. Tudo como eu deixei no começo de agosto.
Tenho que me lembrar que minha casa agora é aqui. Onde quer
que eu a estabeleça.
* * *
Quando saí do Rio, tive que deixar quase tudo pra trás. Dos
meus milhares de livros, trouxe 49. Poucas roupas.
Pouquíssimos objetos pessoais. Os poucos livros, roupas e
objetos pessoais que eu trouxe foram aqueles dos quais
realmente eu não poderia, não conseguiria me separar. A
seleção foi cuidadosa.
Não é irônico pensar que, na prática, eu posso bem ter
separado as minhas coisas mais importantes só para perdê-las
Pois as coisas que deixei pra trás, no Rio, ainda estão lá,
seguras e inteiras, em um quartinho que aluguei. Já os meus
tesouros mais preciosos, em Nova Orleans, podem já nem mais
existir.
A raquete de ping-pong, absolutamente única e inestimável,
que é do meu pai desde que ele era moleque, notas para
romances e histórias que não tenho de cabeça, minha Bíblia
do Jerusalém toda escritas nas margens.
Badulaques e coisinhas.
Quarta, 5 de
Outubro de 2005
Pedido de Ajuda
Meu roommate deve voltar pra
Nola no dia 11 ou 12 e está ameaçando jogar minhas coisas
pela janela, a não ser que eu pague os aluguéis de setembro
e outubro - ou seja, $800. Voltar de avião e pegar tudo
sairia por cerca de $500, também caríssimo.
Idéias, sugestões?
Será que alguém em New Orleans se disporia a ir até a minha
casa, catar as poucas coisas que eu tenho, colocar na mala
que está no chão e, ou guardar a mala ou despachá-la pra
mim? De qualquer modo, eu pagaria pelo trabalho,
naturalmente.
É pouca coisa mas são justamente minhas coisinhas mais
preciosas, aquelas das quais eu, ironicamente, não queria me
separar de jeito nenhum, incluindo objetos pessoais, notas
de romances, arquivos de computador e minhas bíblias.
HELP!!
Update
Não, eu acho que não devo mais nada. Fiquei lá só duas
semanas, não faz sentido ficar pagando indefinidamente. Como
está, já foram as duas semanas mais caras da história -
$600.
A porta agora está aberta, qualquer um pode entrar antes
dele chegar e pegar minhas coisas.
Ele também aluga a casa e está indo pra Nola justamente pra
tirar as coisas dele lá de dentro e não precisar mais pagar
aluguel. Disse ele que pagou setembro e outubro, mas não sei
é verdade. Se pagou, é burro. Ninguém em Nola está pagando
aluguel. Estão esperando baixar a poeira pra renegociar tudo
com os proprietários.
Reparem que não quero roubar nem prejudicar o cara de modo
nenhum. Quero apenas tirar minhas coisas de lá antes que ele
chegue pra evitar bate-boca.
Sábado, 8 de
Outubro de 2005
Últimas Pontas Soltas
Um outro professor do meu
departamento em Tulane acabou de ligar, direto do meu quarto
em Nova Orleans, onde está recolhendo minhas coisas.
Agradecimentos ao Chris Dunn, dept chair, que arranjou o
contato.
Um transferência de dinheiro que minha irmã fez pra minha
conta em Nova Orleans no dia do furacão e que tinha se
perdido no limbo bancário finalmente caiu essa semana. Já
estávamos começando a ficar desesperados. Lendo as letrinhas
miúdas, descobrimos que os bancos, desde que operem de
"boa-fé", não se responsabilizam pela finalização
bem-sucedida de tranferências financeiras - muito menos se o
problema for causado por um "ato de deus".
O departamento de payroll de Tulane jurou que ontem, 7 de
outubro, enviaram pra mim por correio os três cheques que
estavam me devendo, o que quer dizer que vou poder pagar o
empréstimo de $2,000 que fiz com UC Berkeley.
As coisas vão se resolvendo.
Domingo, 9 de
Outubro de 2005
Cachorros Assassinados em Nova
Orleans
Várias famílias de Nova
Orleans se refugiaram em escolas, durante e logo após o
Katrina. Quando foram evacuados pelo Exército, não puderam
levar seus animais de estimação. Sem outra opção, prenderam
os bichinhos nas salas de aula e, contando com a chegada dos
pet rescuers, deixaram recados comoventes nos
quadros-negros, dando seus dados e pedindo para tomarem
conta de seus animais.
Poucos
dias depois, em quatro dessas escolas, os pet rescuers
encontraram 29 gatos e cachorros brutalmente fuzilados, as
cápsulas vazias ainda espalhadas pelo chão, muitos alvejados
pelas costas enquanto tentavam fugir e outros pela boca ou
pelo ânus, com requintes de crueldade.
Acho que uma história dessas seria terrível pra qualquer um.
Em mim, chega a dar enjôos e tonturas. Por muito pouco, não
foi o Oliver. Eu ainda mal consigo acreditar no milagre que
é ter ele aqui comigo.
Dana Deutsch
faz parte de um dos grupos de pet rescuers e ela documentou
suas viagens à região, os
animais resgatados e, o pior de tudo,
as escolas onde os corpos foram encontrados.
A Pasado's Safe
Heaven, organização de defesa dos animais, é a única a
estar investigando esses crimes. Estão gastando $500 por
autópsia de cada corpo e ainda realizando testes balísticos.
Ofereceram recompensa de $10,000 por qualquer pista que leve
aos criminosos. Como são um grupo pequeno, estão pedindo
doações especialmente para essa investigação.
Você pode ler
os últimos updates do caso e, se puder, faça
uma doação.
Domingo,
16 de Outubro de 2005
Fotos do Resgate do Oliver

Eu tive que
evacuar Nova Orleans no sábado, 27 de agosto, menos de
duas semanas depois de me mudar pra cidade. Eu não conhecia
ninguém, não tinha contatos, os ônibus e abrigos da
universidade não aceitavam cachorros. Não tive opção a não
ser deixar meu poodle,
Oliver, que eu tinha acabado de trazer do Brasil,
trancado dentro de casa e torcer pelo melhor.

A medida que os dias iam passando, eu ficava
cada vez mais desesperado. Parecia que não seria
possível voltar para Nova Orleans tão cedo. Até os pet
rescuers não estavam conseguindo entrar. Eu não conseguia
parar de pensar no pobrezinho do
Oliver morrendo de fome lá dentro.

Mobilizei o blog, os leitores do blog mobilizaram seus
amigos, foram feitos posts e mais posts e, finalmente, um
amigo de um amigo de um amigo, um fotográfo que foi pra Nova
Orleans documentar os efeitos do furacão, conseguiu entrar
em minha casa e
salvar o Oliver. Ele tinha ficado preso lá dentro por
nove dias, depois de enfrentar o pior furacão da história
dos Estados Unidos - e ainda estava todo energético e ativo
quando eles chegaram.
Foi
um
verdadeiro milagre. Cada vez que eu
olho pra ele, cada vez que a gente brinca, cada vez que
eu o acaricio, eu lembro de como passou perto. Milhares de
bichinhos de Nova Orleans não tiveram tanta sorte e morreram
de fome.
Alguns foram fuzilados. Agora mesmo, os pet rescuers
continuam seu trabalho, mas a maioria dos animais resgatados
está
fraca e agonizante.
O nome do fotógrafo é
Mark
Gong. Suas fotos da destruição do Katrina estão
aqui.
O homem nas fotos é o amigo que o acompanhou a Nola -
infelizmente, não sei seu nome. Reparem como o sem-vergonha
do
Oliver parece estar se divertindo.
Comparem as fotos acima, do resgate, em 5 de setembro, com
essa aqui à direita, que tirei da minha casa em 13 de
agosto - o dia em que cheguei em Nova Orleans, achando que
era pra ficar.
Vejam também minhas fotos do
Oliver, de
Nova Orleans e do
Katrina.
Mais uma vez, muito, muito obrigado a todos os que ajudaram,
rezaram, comentaram, deram força e não me deixaram ficar
nunca sozinho durante essa barra. Vocês são os melhores
leitores do mundo.
Sexta, 21 de
Outubro de 2005
Minha Casa
Essas fotos da minha casa
foram tiradas no dia 8 de outubro, pela pessoa que foi
lá buscar minhas coisas. Reparem o estado da rua e da
fachada.

Duas organizações de resgates de animais passaram por
lá. Uma no dia 30 de setembro e outra somente dois dias
antes, em 6 de outubro. A primeira afirmou que o
cachorro já não estava mais lá e a segunda, que
encontrou um cachorro no porch - não sei que cachorro
era, nem se foi levado.
Ou seja, se eu tivesse dependido dessas organizações, o
Oliver só teria sido resgatado no dia 30 de setembro,
mais de um mês depois do furacão. Será que ainda estaria
vivo?
* * *
Reparem, na terceira foto acima, que um dos quadrados de
vidro da porta estava quebrado e o Oliver estava louco
pra fugir por ele. Então, eu tive que trançar um fio de
plástico nas grades da porta de metal, tudo por causa
desse bicho louco.
Na primeira foto abaixo, dá pra ver bem o buraco no
vidro.
* * *
Três momentos da minha rua, 13 de agosto, 5 de setembro
e 8 de outubro:

Dois Ciganos
Eu e o Oliver chegamos nos
Estados Unidos por Miami. Atravessamos a Florida inteira
de carro, passamos pelo Alabama e pelo Mississipi, e
chegamos em New Orleans, Louisiana.
Quando fui evacuado, eu fui até o Mississipi de ônibus
e, de lá, peguei aviões para Detroit, Michigan; Jersey
City, New Jersey e New York, New York. Depois de alguns
dias em New York, eu peguei um avião, parei em Chicago,
Illinois e vim acabar em San Francisco, California.
Enquanto isso, o Oliver foi resgatado pelo Mark e
atravessou, de carro, os estados da Lousiana,
Mississipi, Tennessee e Virginia e chegou na capital,
Washington, DC. Então, pegou um avião, fez uma parada em
Houston, Texas e finalmente aterrisou aqui em San
Francisco, California.
Por fim, minhas coisas foram resgatadas de New Orleans
por um colega de Tulane, que colocou tudo no carro,
cruzou a Lousiana e o Texas (que é absurdamente grande)
até Austin, de onde foram enviadas pra mim.
A ruiva disse que vai mandar uns lenços vermelhos e
argolas pro Oliver e pra mim. Somos dois ciganos.
Sábado,
29 de Outubro de 2005
Minhas Coisas Resgatadas
Ontem, finalmente, não apenas
recebi meu primeiro cheque de Tulane como também chegaram as
minhas coisinhas pessoais que o meu santo amigo (que eu nem
conheço) salvou da minha casa em Nola.
Para os leitores voyeurs (minha irmã fala que vocês
acompanham a minha vida como se fosse o Big Brother),
cliquem nas imagens abaixo e leiam nas notas a minha
descrição de cada objeto.
São todas besteirinhas, mas são as
minhas
besteirinhas. Quando saí do Rio e tive que me desfazer de
quase tudo, essas foram aquelas coisas das quais eu não quis
me separar. A minha casa, pensei, é onde estão essas
coisinhas.

Ficou faltando: um urso e um macaco de pelúcia, presentes de
duas grandes amigas, e um button, presente na Bel, que
estava preso ao macaco (devem estar junto com a minha roupa,
que ficou em Nola, na casa do vizinho); minha roupa de cama
e banho com minhas iniciais bordadas e um pendurador de
bananas, presentes da minha mãe, que não sei se foram
guardados junto com as roupas; uma caneca de "Eu (coração)
Rio", lembrança de um dia muito especial de turismo na minha
cidade, que ficou na cozinha; um mapa do Rio em alto relevo
e um poster da primeira exposição de Arte Naif,
pré-lançamento do museu, que ficaram na parede; e um
presentinho da ruiva que deve ter sido embalado junto com as
roupas.
Os posteres da parede, as coisas na cozinha e as toalhas no
banheiro eu acho que não vejo mais.
Quinta, 3 de
Novembro de 2005
Cachorros Resgatados e Depois
Abandonados
Dana Kay revela mais fotos de
suas viagens de pet rescuing em Nova Orleans. Ela disse ter
visto, em muitas casas, marcas como as das casa abaixo:
mostrando que os animais tinham sido "resgatados" por um
grupo, que entrou na casa e lhes deu água e comida, mas os
deixou lá, por algum motivo, e depois foram encontrados
mortos por outro grupo.

As letras DOA significam Dead on Arrival, ou seja, que os
animais na casa já estavam mortos quando foram encontrados.
Cara, depois de ver essas fotos eu chorei tanto, agarrei o
Oliver tanto, vocês não imaginam.
Sexta, 11 de
Novembro de 2005
O Mais Bem-Sucedido
Experimento em Prevenção de Crimes da História
Nova Orleans era uma das
cidades mais violentas dos Estados Unidos. Entretanto, o
último homicídio na cidade aconteceu no dia 27 de
agosto. De lá pra cá, nada.
Do
New York Times de ontem:
There is no precise
precedent for this transformation in the crime rate,
law enforcement officials and academic experts say.
While the few residents who have returned are
holding their breath to see how long it lasts, the
sudden change has become a subject of intense
interest for those who study crime.
"This is one of the
most interesting experiments in crime we've ever
seen," Mr. Scharf said. "Without effective courts,
corrections or rehabilitation, we have reduced the
crime rate by 100 percent."
Hurricane Katrina,
Mr. Scharf continued, "was one of the greatest
crime-control tools ever deployed against a
high-crime city."
Before the storm,
New Orleans was reeling, with a daily round of
killings and gunfire as bad as any in the city's
history; Mr. Scharf projected that without the
hurricane there would have been 316 killings there
in 2005.
Domingo,
13 de Novembro de 2005
Diáspora
A evacuação de Nova Orleans
causou uma das maiores diásporas da história ocidental.
Quase um milhão de pessoas se espalhou pelo país e pelo
mundo. Eu e o Oliver inclusive.
Os jovens de hoje em dia estão tão acostumados à existência
de Israel que se esquecem que, durante quase dois mil anos,
os judeus andaram pelo mundo sem pátria. Naquela época,
quando dois judeus se despediam um do outro, era comum
dizerem: "ano que vem, em Jerusalém!" Ou seja, tomara que
ano que vem recuperemos nossa pátria e, então, todos nos
encontraremos lá.
E eu acho graça pois já perdi a conta de quantos "ano que
vem, em Nova Orleans" eu já ouvi - de gente que não conhecia
essa frase dos judeus, claro. De certo modo, parece a melhor
coisa a se dizer no fim da conversa.
Definitivamente, diáspora é tudo igual.
Segunda, 14 de
Novembro de 2005
Housing in New Orleans
Atualmente, minha maior
preocupação para o ano que vem é: onde morar em uma cidade
em que as casas que não foram destruídas estão mofadas
E mais caras que o normal?
Tulane, em uma jogada ousada pra solucionar o problema,
fretou dois navios de cruzeiro, que ficarão ancorados no
porto, com um serviço de shuttle para a universidade. O
preço das cabines será o mesmo dos dormitórios.
Eu achei genial. Mas não resolve meu problema. E o Oliver?
Quarta, 23
de Novembro de 2005
Saber a Hora de Parar
Algumas notícias sobre Nova
Orleans falam de solo contaminado por metais pesados e
muitas doenças respiratórias em cães e gatos. Entrei em um
fórum sobre animais de estimação em Nola para me informar.
Atualmente, de acordo com os membros do fórum, o maior
perigo não é nenhum desses. São os pet rescuers.
Como assim?, perguntei. Os santos pet rescuers?
Sim, os santos pet rescuers.
O cidadão sai pra trabalhar, deixa seu cachorro em casa e,
quando volta, a sociedade protetora dos animais já arrombou
sua porta e resgatou o bicho! E haja trabalho pra
recuperá-lo depois.
A vida é uma piada.
Segunda, 5 de
Dezembro de 2005
Recebi $2,538 do Tio Sam
A
FEMA (a agência
governamental mais desorganizada dos EUA) acabou de me
mandar um cheque de $2,538 dólares, para cobrir despesas
extras de aluguel e deslocamento pós-Katrina. Acontece que,
segundo eles, eu não tenho direito a esse benefício, por
não ser cidadão.
As informações sobre o assunto são totalmente
desencontradas.
Junto com o cheque, eu tenho que devolver um formulário no
qual eu digo se sou ou não cidadão. Eles avisam que não
enviar o formulário preenchido pode fazer com que eu tenha
que devolver o dinheiro. Presumivelmente, enviar o
formulário preenchido dizendo que eu
não sou cidadão com
certeza vai fazer com que eu
tenha que devolver
o dinheiro.
No
fórum para alunos estrangeiros de Tulane, cada um conta
uma história diferente. Muitos tentaram devolver os cheques
e não sabiam a quem, ou têm medo de devolver, pois os
cheques cairiam no buraco negro da desorganização da FEMA e
poderiam ter que devolver o dinheiro
de novo!
Muitos foram informados pela própria Fema, por telefone, que
F1s e J1s tinham direito ao dinheiro. Outros F1s e J1s foram
informados para se dizer Qualified Alien no tal formulário
pós-cheque, mas o site da FEMA diz
explicitamente que Qualified Alien é somente quem tem
green card ou status de refugiado ou asilado.
Basicamente, isso vai dar dor-de-cabeça.
O site da FEMA contém diversos avisos alertando contra os
perigos legais de tentar obter esses auxílios financeiros
sob falsos pretextos. Quanto a isso, estou com a consciência
limpa. Na verdade, eu só entrei em contato com a agência
porque, para poder receber alguns auxílios de Tulane, os
alunos precisam ser registrados na FEMA.
As informações que forneci foram rigorosamente verdadeiras.
Quando em dúvida, errei pra baixo. Disse que não tinha
perdido absolutamente nada. Fiquei até surpreso de saber que
a FEMA não cobre perdas físicas. Se você tinha seguro, o
seguro paga. Se não tinha, deveria ter. O dinheiro da FEMA,
via de regra, é para cobrir despesas com transporte e
aluguel - que foram, claro, as
minhas duas grandes
despesas.
Então, considerando tudo isso, minhas opções são:
1) Tentar devolver o cheque
voluntariamente.
Difícil. Não confio na FEMA. Eles nem deviam ter me mandado
esse cheque. Essa porra pode acabar sumindo.
2) Guardar o cheque e
esperar.
Perigoso. O cheque pode ser sustado ou perdido e eles, ainda
assim, podem querer o dinheiro de volta. Aí eu fodo dobrado.
3) Depositar o cheque e
esperar.
Provavelmente, a opção mais segura. Agi de boa-fé, não
menti. Vou considerar o cheque um empréstimo a juro zero do
governo americano pra me ajudar a reerguer. Não vou fugir da
FEMA. Eles têm todos os meus dados. Se e quando pedirem o
dinheiro de volta, eu devolvo. Provavelmente, vai dar até
pra parcelar. E, se pedirem, é porque sentiram falta do
dinheiro e ele não vai cair no limbo quando chegar lá.
Eu poderia também não
devolver o formulário pós-cheque em que afirmo não
ser nem cidadão nem qualified alien. Aparentemente, não
tenho obrigação legal de preencher esse formulário. Segundo
a carta anexa, se eu não preenchê-lo, eu não vou receber
nenhuma ajuda adicional
e posso
(may) ter que devolver o dinheiro. Só.
Por outro lado, se essa história der merda no futuro, podem
qualificar isso de má-fé.
Dado que a FEMA é uma zona completa, acho que o mais seguro
é depositar o cheque (que é meu, está nominal a mim e me
pertence), obeceder a todas as instruções (preencher e
devolver o formulário pós-cheque, por exemplo) e aguardar
algum novo contato.
Alguém sabe mais? HEEEELP!
Quinta, 10 de
Janeiro de 2006
A Vítima Profissional
As
Ajudas que Recebi
Eu saí de casa faz quatro meses e meio achando que iria
passar dois dias fora. Ainda não voltei. Aliás, para aquela
casa especificamente, jamais voltarei.
Nesse meio tempo, passei por sete estados norte-americanos,
dormi na casa de três pessoas e repeti muitas vezes a mesma
cueca.
Por todo esse caminho, fui ajudado de todos os jeitos que
uma pessoa pode ser ajudada. Como disse minha irmã, cheia de
ironia, só faltou as alunas da universidade se cotizarem pra
dar pros pobres refugiados do Katrina. Conhecendo Berkeley,
deve ter faltado pouco. Ou então, vai ver fui eu que não
recebi o email.
A Universidade da Califórnia em Berkeley, uma das melhores
do mundo, aceitou a mim e a outros 250 estudantes sem
processo de seleção algum. Fiquei feliz de ter tirado notas
boas, para mostrar que não apostaram no cavalo errado.
Da universidade, eu ganhei comida (quantas refeições
quisesse nos refeitórios mais $1,300 nos restaurantes do
campus), livros, roupas e material escolar ($1,000 na loja
da universidade), certificados para usar em lojas ($150 na
Gap, $100 na Target, $100 na Longs, $75 na Levi 's),
passagem de volta (certificado de $300 na Southwest),
empréstimo imediato e sem juros de $2,000 (já paguei),
atendimento médico, jurídico, oftalmológico gratuito (não
usei), membership da academia (não usei, *suspiro*). Tirando
o empréstimo, ninguém me deu dinheiro da mão: foi tudo por
meio de vales.
Teriam me arranjado um lugar pra ficar, se eu já não tivesse
encontrado uma família maravilhosa que me hospedou, com quem
passei o thanksgiving e natal e para quem só estou pagando
um quarto do valor de mercado pelo meu apartamento de três
quartos porque insisti.
Enquanto isso, o Oliver foi atendido de graça pela
associação protetora dos animais local e a empresa
telefônica me deu uma linha subsiada para vítimas de
desgraça (se chama LifeLine) e me liberaram de pagar a taxa
de $200 pelo cancelamento da linha, agora que estou indo
embora. Até o cara da
melhor pizzaria
do mundo me deu uma pizza de graça quando eu disse, com
lágrimas nos olhos e com toda a minha sinceridade, que o
Cheeseboard
seria a coisa que eu mais sentiria falta em Nova Orleans.
No Brasil, um amigo assumiu um frila que eu estava fazendo,
fez tudo a contento do cliente e se recusou a receber uma
parte.
A pedido de uma completa estranha, um completo estranho
resgatou meu cachorro e dirigiu meio país com ele
desesperado no carro - o maior favor que alguém já me fez,
um verdadeiro milagre pelo qual eu não páro de agradecer
todos os dias. Outro completo estranho resgatou boa parte
das minhas coisas, me mandou meus papéis e CDs pelo correio
e deu minhas roupas e livros para outra completa estranha
guardar. E uma outra completa estranha resgatou os papéis
vitiais que o primeiro completo estranho não viu e me
mandou.
Uma de minhas melhores amigas, quando soube que estava no
abrigo de Mississippi, me chamou pra ficar na casa dela, em
Nova Iorque, e pagou minha passagem. Minha irmã me recebeu
de braços abertos na Califórnia e fez as primeiras gestões
em relação à minha permanência na universidade. Depois do
resgate, o Oliver ficou hospedado na casa dos sogros de uma
amiga e foi transportado de graça pela Continental até a
Califórnia.
Quando liguei pra minha ex-esposa, no Timor, pra dizer que
tinha sido obrigado a deixar nosso cachorro querido pra
encarar sozinho um dos piores furacões de todos os tempos, o
nosso cachorro que ela ama tanto quanto eu, o cachorro que
eu trouxe desde o Brasil, eu estava talvez no momento mais
baixo e vulnerável da minha vida, me sentindo o último dos
homens, bem longe do penúltimo, e se ela tivesse dito um
"ai" que seja, e ela teria
todo o direito, acho que eu teria cometido haraquiri
na hora, mas ela ficou do meu lado do começo ao fim e foi a
pessoa mais maravilhosa e supportive que eu poderia
imaginar.
Tive somente um único dissabor. Uma pessoa que eu julgava
amiga próxima se aproveitou desse meu momento de maior
fraqueza pra me chutar enquanto eu estava no chão, e só esse
chute, infinitamente cruel, calculadamente pérfido, doeu
mais do que todas as provocações e insultos de gente que eu
não conhecia e para quem eu não ligava e não ligo. Dela eu
gostava muito. Nessas horas, a gente conhece as pessoas.
Por outro lado, gente positivamente filha da puta e
mau-caráter me ajudou de forma inesperada e, mesmo com
vontade de mandá-los à merda, aceitei e agradeci de todo
coração. Hoje, continuo achando que são filhos da puta e
mau-caráter (Hitler também adorava cachorros e era amado por
todo seu staff mais próximo, e daí?), mas me ajudaram quando
mais precisei e estou em dívida com eles.
Não acredito em respeito às leis, em contribuir para a
sociedade ou em contrato social mas, de um modo bem
primitivo, acho que honra e lealdade são tudo. Sei bem quais
são minhas dívidas e levo todas muito a sério. Mas é duro
estar em dívida com gente mau-caráter.
Aprendi muito. Sobre o mundo. Sobre as pessoas. Sobre os
Estados Unidos. Sobre mim mesmo. Sobre a generosidade,
bondade, humildade, gratidão.
Nunca fui tão ajudado.
Em Nova Orleans, com certeza, tudo vai mudar. Lá, todo mundo
é vítima do Katrina. Vai ser o fim dessa sopa.
Mal posso esperar.
Saber Ser Vítima
Ando lendo vários blogs de Nova Orleans, mantidos tanto por
gente que está lá quanto por refugiados como eu.
Um tema comum é que o resto dos EUA já se encheu o saco dos
refugiados do Katrina. Por todo o país, as pessoas que tão
bem acolheram os refugiados em um primeiro momento agora
estão dando tapinhas delicados em seus relógios: o quê?,
você ainda está aí?, quando vai voltar pra casa?
Os blogueiros acham que a raiz do problema é que os
refugiados não sabem agir como vítimas. Quiseram agir como
pessoas normais, mas um refugiado não é uma pessoa normal:
ele é uma vítima e tem que se comportar como tal. Humilde,
agradecido, bem-comportado.
Rapaz, sei exatamente do que estão falando.
Por um lado, tenho sorte. Não duvido se a Bay Area for a
área mais generosa dos Estados Unidos - uma combinação de
ser muito progressive/liberal com ser muito, muito rica.
Aqui ninguém me olhou feio por ser refugiado do Katrina.
Pelo contrário, ganho pontos em qualquer transação quando
menciono isso.
Mas, também, claro, eu sei ser uma vítima profissional.
Quero Voltar a Ser Eu Mesmo!
Ser uma vítima profissional não quer dizer, de modo algum,
mentir, ser falso ou ser hipócrita. Eu não sei fazer nenhuma
dessas coisas.
Mas quer dizer, simplesmente, ser mais abjetamente humilde
do que você normalmente seria, saber a hora e como pedir,
ser exageradamente agradecido, dizer que tudo está sempre
ótimo e supimpa, e nunca, sob hipótese alguma, reclamar ou
ser inconveniente.
E, olha, eu vou dizer uma coisa: aguentei a barra esse tempo
todo. Meu comportamento foi impecável. Vesti essa persona e
levei-a comigo por todos os lados.
Mas cansa. Cansa muito.
O peso psicológico é enorme, ainda mais pra um cara rebelde
como eu, acostumado a sempre fazer o que bem entende e
foda-se. Senti nas minhas costas todo o fardo do mal estar
da civilização.
Nunca me humilhei tanto. Nunca me reprimi tanto. Nunca
engoli tantas palavras, pedidos, reclamações, ironias,
inconveniências. Devo ter começado a alimentar um pequeno
câncer.
Eu sou soberbo e orgulhoso, inconveniente e reclamão.
Quero não mais precisar ser tão agradecido por tudo. Quero
poder reclamar da comida e do encanamento. Quero ter direito
de achar que não está tudo bem. Quero deixar de ser vítima.
Quero voltar a ser eu mesmo!
UPDATE
Pergunta de uma amiga no MSN:
Mas você não sente gratidão
naturalmente?
Ora, claro que sinto. Muita.
Nunca fui tão grato em minha vida. Mas ser vítima
profissional quer dizer ser
excessivamente
grato.
E você acha que é isso mesmo
que as pessoas querem?
Eu
sei que é isso que
as pessoas querem. Sempre soube. A diferença é que agora eu
sei por experiência própria.
Ou você nunca viu alguém oferecer alguma comida pra um
mendigo, ele recusar ou dizer que não gosta daquilo, e a
pessoa ficar revoltada? Ele mora na rua, está pedindo
esmola, estou querendo dar o resto do meu Big Mac pra ele,
como ele ousa dizer que não gosta de Big Mac?!
Não acho que sejam pessoas ruins: nem a que tentou dar o Big
Mac nem o que recusou. A natureza humana é assim.
Só porque o cara está precisando de ajuda, ele
automaticamente tem obrigação de aceitar qualquer ajuda que
você filantropicamente lhe ofereça. Se não aceitar, é porque
é um ingrato filha da puta e você, claro, que tem
auto-estima, não vai mais ajudar um canalha desses.
Vejam bem. Ser vítima profissional não quer dizer ser
hipócrita ou ingrato.
Na verdade, é mais como ser
extremamente bem
educado, ao ponto de tornar-se abjetamente humilde.
Sábado, 21
de Janeiro de 2006
Mortos e Desaparecidos em Nova
Orleans
Oficialmente, foram 1.383
os mortos do Katrina - sem contar os mais de 100 mil animais
de estimação mortos.
Mas, agora, quase cinco meses depois, as autoridades
finalmente divulgaram a lista dos desaparecidos:
mais de 3.200 pessoas. Embora alguns possam estar vivos
e deslocados, quase todo mundo que não está fugindo de
alguém já deu sinal de vida. Estima-se que grande parte
desses 3.200 estejam mortos e que seus corpos estejam ou
ainda sob os escombros, ou que tenham sido levados para o
rio, lago ou pântano.
Parece pouco comparado com o Tsunami, mas é bem mais do que
o 11/9.
* * *
Eu e Oliver chegaremos em Nola na terça, 24 de janeiro. Já
me voluntariei na
Sociedade Protetora dos Animais da Louisiana. Não
esqueço minhas promessas.
Sexta,
17 de Março de 2006
Memórias do Furacão
Já
aconteceu duas vezes. Eu cruzo com alguém no campus e penso:
conheço esse cara de algum lugar. Forço a memória e lá vem:
é mesmo, evacuamos juntos para o abrigo em Mississippi (ao
lado).
Seis meses depois, eu confesso que pela primeira vez estou
começando a achar ligeiramente (charmoso? interessante? não
sei bem) pensar que fiz parte da maior evacuação de todos os
tempos, que eu e mais um milhão de pessoas fomos evacuados
simultanea e obrigatoriamente de uma grande metrópole
ocidental, que nos espalhamos por todo o país (a eleição
para prefeito é mês que vem e têm mais eleitores fora da
cidade do que dentro), que a cidade foi posteriormente quase
destruída mas que, mesmo assim, entre mortos e feridos,
estamos aqui agora tocando nossas vidas de novo.
O primeiro ano em um novo país é sempre agitado e cheio de
desafios. Eu, que conhecia bem os Estados Unidos, nunca
imaginaria que meu primeiro ano aqui seria tão repleto de
aventuras e surpresas.
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