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O Alexandre Soares Silva comentou hoje sobre dois golpes comuns das artes dramáticas: o golpe da espiga e o golpe do vovozinho. Adorei e recomendo, como sempre. Eu nunca tinha pensado no golpe da espiga, mas o do vovozinho eu já identifiquei há tempos - e sempre me incomodou.
Algo semelhante ao golpe do vovozinho é o momento chora-aqui-ó, muito comum em filmes dramáticos. Chorei tonéis em Lista de Schindler, mas sempre com aquela sensação incômoda lá no fundo. O filme, tristíssimo e lindo, não precisava usar um truque tão barato e fácil quanto essa profussão de momentos chora-aqui-ó.
Aproveito o artigo do Soares Silva pra dividir com vocês duas leis das artes dramáticas que descobri. Elas foram primeiro observadas e catalogadas no cinema mas, naturalmente, também se aplicam à literatura, teatro e histórias em quadrinhos.
Lei da Falta de Suspeitos
No final do filme Ghost, para grande surpresa da platéia, o melhor amigo do Patrick Swayze se revela o bandido da história.
Grande surpresa de quem não sabe contar, claro. Quem mais seria o vilão da história? Um estava morto, a outra era a mocinha e a outra era uma negona que tinha entrado no meio da trama. Só sobrava realmente ele.
Uma variação da Lei da Falta de Suspeitos é a Lei do Bom Ator Sobrando. No filme Assassinato na Casa Branca (Murder at 1600), Alan Alda é um dos primeiros nomes nos créditos. Entretanto, ao longo do filme, o homem não faz quase nada.
Lá pelo final já era óbvio que Alda iria se revelar o grande bandido da trama e que seu nome nos créditos e seu alto cachê se justificariam com um dramático monólogo vilanesco nos últimos quinze minutos. Não deu outra. O que mais um ator do calibre dele estaria fazendo ali?
Lei do Sonho
Em Caçada ao Outubro Vermelho (Hunt for the Red October), o personagem de Sam Neill, pouco antes da fama em Jurassic Park e ainda servindo de escada a Sean Connery, fica repetindo incessamente que, assim que chegassem na América, iria se dedicar a criar coelhos. Seu sonho era ter um rabbit farm in Iowa.
Na sátira do Mad, o personagem de Sean Connery comenta: "É uma pena ouvir isso."
"Por quê?", pergunta o outro.
"Porque, em filmes como esse, quem tem um sonho sempre morre."
Batata. Podem começar a olhar. Tirando as exceções grotescas (quando é o mocinho falando, etc), quem tem um sonho sempre morre.
Postada no blog em Fevereiro 08, 2004
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