SobreSites > Alex Castro > Artigos > Literatura > Lima Barreto, Autor de O Triste Fim de Policarpo Quaresma, Memórias do Escrivão Isaías Caminha e Clara dos Anjos
>
Página Inicial
Quem Sou Eu
As Prisões
Ficção:
Mulher de Um Homem Só
Onde Perdemos Tudo
Liberal Libertário Libertino
Dinheiro
Artigos:
Literatura
Crônicas
Acadêmicos
Internet
Comportamento
Guerra do Paraguai
Taras
Colunas
Fotolog
Podcasts
Lista de Presentes
Termos de Uso
Banners
Leituras
Links
Fale com o Autor
  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Lima Barreto, Autor de O Triste Fim de Policarpo Quaresma

A Negritude de Lima Barreto

Triste Fim de Policarpo Quaresma LIMA BARRETOUma foto fez com que eu me interessasse novamente por Lima Barreto.

Li Policarpo Quaresma na escola e não me impressionei. Depois, aqui e ali, tudo o que ouvi falar dele (apesar de dito como elogio) me soou negativo. Parecia um daqueles típicos esquerdistas que culpam tudo (o capitalismo, as estruturas sociais, a burguesia) por seus problemas, tudo, menos a si mesmo.

 Amor de Perdição CAMILO CASTELO BRANCOPor exemplo, na introdução à Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, Antônio Houaiss compara ambos autores e diz o seguinte:

"Logo ressalta a diferença: é que, em última análise, a perspectiva de Camilo (...) não se alçou além da problemática individualista, como se, em cada caso, visse os modos de ser do homem intemporal, a-histórico, essencial (...) enquanto o nosso mulato (...) não teve ilusões a esse respeito, atribuindo não pouco, senão quase tudo, das mazelas e infelicidades dos seus heróis à própria estrutura social." (grifo meu)

Comentários assim, naturalmente, me empurravam cada vez mais pra longe de Lima Barreto.

O escritor Lima Barreto em foto tirada em 1919 no hospício Nacional; abaixo, sua ficha de internação achada nos arquivos do Instituto de Psiquiatria da UFRJEntão, esse mês, a Editora Agir (cujo editor, PRP, está com uma cópia de Mulher de Um Homem Só, que sabe lá quando vai ler) relançou a obra completa de crônicas do Lima Barreto. O livro também traz uma foto inédita do autor (à esquerda), tirada de sua ficha de internação no Hospício Nacional.

A foto me chamou a atenção por não ter nada a ver com a imagem oficial de Lima Barreto (mais abaixo), reproduzida em livros e manuais há 80 anos. A imagem oficial é, realmente, do mulato que dizem que ele era. A foto redescoberta mostra um negro.

Quem era Lima Barreto?

* * *

Por um lado, a foto nova reforça minha teoria exposta na Prisão Preconceito.

Lima Barreto devia mesmo ser negro. Caso fosse somente mulato, o sucesso teria-o esbranquiçado de tal modo que teria sido chamado de branco. Se o chamavam de mulato era porque o homem era tão preto, mas tão preto que chamá-lo branco teria sido risível. Veja mais detalhes na Prisão Preconceito.
Foto tradicional de Lima Barreto, quase branco
Por outro, me fez surgir uma nova idéia. Não há dúvida que, como raça não é um critério científico e objetivo, ela só existe subjetivamente, comparativamente.

Então, é possível que, aos nossos olhos, Lima Barreto pareça negro pois os 80 anos que nos separam foram de tal miscigenação que os brancos e negros mais puros acabaram se misturando. Ou, em outras palavras, hoje já não há mais negros retintos como havia naquela época, ressaca da escravidão. Lima Barreto parece negro se comparado aos negros misturados de hoje, mas parecia mulato comparado aos negros africanos da época.

O que vocês acham?

* * *

Eu não sei, mas a pergunta foi instigante o suficiente para me fazer mergulhar em sua obra.

* * *

Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881, sete anos antes da Abolição da Escravatura. Ele comenta que o assunto, para ele, não teve grande relevância, pois, nascido e criado no Rio de Janeiro, nunca tinha sequer visto um escravo. Incrível. Eu sabia que a escravidão já estava decadente na década de 80, mas vocês também não imaginam as ruas do Rio dessa época coalhadas de escravos?

Erros de Tradução

E quem diria que logo em um livro de crônicas de Lima Barreto, eu iria encontrar um terrível erro de tradução. Na crônica Mais Uma Vez, sobre esposas assassinadas por seu marido, ele escreve:

"O crime teve a repercussão que os jornais lhe deram e os arredores do necrotério estavam povoados da população daquelas paragens e das adjacências do beco da Música e da rua da Misericórdia, que o Rio de Janeiro bem conhece. No interior da morgue, era a freqüência algo diferente sem deixar de ser um pouco semelhante à do exterior, e, talvez mesmo, em substância igual, mas muito bem vestida. Isto quanto às mulheres - bem entendido! Ari ficou mais tempo a contemplar os cadáveres. Eu saí logo. Lembro-me só do da mulher que estava vestida com um corpete e tinha só a saia de baixo".

Ao lado da palavra morgue, um símbolo remetia a uma nota explicativa, ou melhor, a uma nota confunditiva, que dizia: "morgue: arrogância, orgulho."
Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá LIMA BARRETO
Hmmm, deixa eu ver se eu entendi. Os arredores do necrotério estavam povoados da população daquelas paragens, mas dentro da arrogância e do orgulho, a freqüência era diferente? Alguém entendeu alguma coisa?

O editor, Fernando Paixão, está errado? Não. Como todo pecador, ele tem uma desculpa a mão: abriu o primeiro dicionário francês-português que lhe passou à frente e, lá estava, morgue como arrogância e orgulho. Se for preciso, ele mostra o dicionário para quem reclamar.

Sim, mas obviamente não é esse o significado que Lima Barreto pretendia usar. Como fica abundamente claro pelo contexto, ele usa morgue como sinônimo de necrotério, para evitar a repetição da palavra.

Quem diria que, 80 anos depois de sua morte, essa sua solução estilística iria descambar em tamanha imbecilidade?

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Lima Barreto estréia na literatura em 1909, com Recordações do Escrivão Isaías Caminha.

Foi uma decisão consciente. Na época, seu romance Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá já estava concluído, mas era, segundo ele, uma obra bem-comportada, "cerebrina, calma, solene e pouco acessível."

Já Isaías era, segundo seu autor, "um livro desigual, propositalmente malfeito, brutal, por vezes, mas sincero sempre. Espero muito nele para escandalizar e desagradar."

Pois o livro escandalizou e desagradou muito. O personagem-título é um mulato do interior, bem-educado, refinado, literato, criado com esmero por uma família protetora e acostumado a ser uma espécie de sábio local. Viaja ao Rio em busca de qualificação, cheio de sonhos, planos e projetos, e dá de cara com a crueldade da cidade grande. No interior, Isaías era filho, culto, estudado. No Rio, é só um mulatinho qualquer.

A primeira metade do livro mostra a surra de Isaías. Um a um, todos seus sonhos e ambições são destruídos, até não restar nada de sua sensibilidade, auto-estima e orgulho próprio.

Intimado a prestar depoimento sobre um roubo em seu hotel, Isaías ouve o delegado se referir a ele como "mulatinho" e isso simplesmente desestabiliza sua frágil sensibilidade. Reparem como seu patriotismo já remete ao Major Policarpo Quaresma:

"- Já apareceu o tal "mulatinho"?

Não tenho pejo em confessar hoje que quando me ouvi tratado assim, as lágrimas me vieram aos olhos. Eu saíra do colégio, vivera sempre num ambiente artificial de consideração, de respeito, de atenções comigo; a minha sensibilidade, portanto, estava cultivada e tinha uma delicadeza extrema que se ajuntava ao meu orgulho de inteligente e estudioso, para me dar não sei que exaltada representação de mm mesmo, espécie de homem diferente do que era na realidade, ente superior e digno a quem um epíteto daqueles feria como uma bofetada. Hoje, agora, depois não sei de quantos pontapés destes e outros mais brutais, sou outro, insensível e cínico, mais forte talvez; aos meus olhos, porém, muito diminuído de mim próprio, do meu primitivo ideal, caído dos meus sonhos, sujo, imperfeito, deformado, mutilado e lodoso. Não sei a que me compare, não sei mesmo se poderia ter sido inteiriço até ao fim da vida; mas choro agora, choro hoje quando me lembro que uma palavra desprezível dessas não me torna a fazer chorar. Entretanto, isso tudo é uma questão de semântica: amanhã, dentro de um século, não terá mais significação injuriosa. Essa reflexão, porém, não me confortava naquele tempo, porque sentia na baixeza do tratamento todo o desconhecimento das minhas qualidades, o julgamento anterior da minha personalidade que não queriam ouvir, sentir e examinar. O que mais me feriu, foi que ele partisse de um funcionário, de um representante do governo, da administração que devia ter tão perfeitamente, como eu, a consciência jurídica dos meus direitos ao Brasil e como tal merecia dele um tratamento respeitoso."

Na segunda metade, já um farrapo humano, Isaías consegue emprego de boy (na época, contínuo) em um grande jornal. Um subemprego, indigno de suas capacidades e de seus sonhos, mas que ele, arrasado e derrotado, agarra com unhas e dentes:

"Eu tinha cem mil-réis por mês. Vivia satisfeito e as minhas ambições pareciam assentes. Não fora só a miséria passada que assim me fizera; fora também a ambiência hostil, a certeza de que um passo para diante me custava grandes dores, fortes humilhações, ofensas terríveis. Relembrava-me da minha vida anterior; sentia ainda muito abertos os ferimentos que aquele choque com o mundo me causara. Sem os achar, em consciência, justos, acovardava-me diante da perspectiva de novas dores e apavorei-me diante da imagem de novas torturas. Considerei-me feliz no lugar de contínuo da redação do O Globo. Eu tinha atravessado um grande braço de mar, agarrara-me a um ilhéu e não tinha coragem de nadar de novo para a terra firme que barrava o horizonte a algumas centenas de metros. Os mariscos bastavam-me e aos insetos já se me tinham feito grossa a pele... De tal maneira é forte o poder de nos iludirmos, que um ano depois cheguei a ter até orgulho da minha posição."

Até a primeira parte, a intelligentsia da época deve ter lido compungida e interessada a história do pobre mulato lutando contra o preconceito.

A segunda parte, entretanto, é uma feroz crítica à literatura e imprensa da época. Isaías, inteligente e invisível como só os empregados mais baixos são, está em posição ideal para observar toda a hipocrisia e mediocridade dos meios intelectuais da época.

Com um único livro, Lima Barreto fez inimigos entre todos os que mandavam na cultura brasileira e só foi defendido por poucas vozes periféricas, como Monteiro Lobato. Por outro lado, sua estratégia deu certo: sua estréia não teve como passar desapercebida.

Muitos (quase todos!) dos personagens da segunda parte são inspirados em pessoas reais e fez muita falta uma edição crítica que explicasse quem era quem. Apesar de irrelevante para a apreciação literária do livro, seria uma fofocada legal.

O livro termina, como todos os de Lima Barreto, em uma nota cruel de derrota e decepção. Todas as melhores intenções fracassaram, todos os sonhos ruíram, nada sobrou.

 Recordações do Escrivão Isaías Caminha LIMA BARRETOE Isaías reflete:

"Lembrava-me da vida de minha mãe, da sua miséria, da sua pobreza, naquela casa tosca; e parecia-me também condenado a acabar assim e todos nós condenados a nunca a ultrapassar. (...) Lembrava-me de que deixara toda a minha vida ao acaso e que a não pusera ao estudo e ao trabalho de que era capaz. Sentia-me repelente, repelente de fraqueza, de falta de decisão e mais amolecido agora com o álcool e com os prazeres... Sentia-me parasita, adulando o diretor para obter dinheiro... Às minhas aspirações, àquele forte sonhar da minha mocidade e eu não tinha dado as satisfações devidas. A má vontade geral, a excomunhão dos outros tinham-me amedrontado, atemorizado, feito adormecer o Orgulho, com seu cortejo de grandeza e de força. Rebaixara-me, tendo medo de fantasmas e não obedecera ao seu império. (...)

Sentia-me sempre desgostoso por não ter tirado de mim nada de grande, de forte e ter consentido em ser um vulgar assecla e apaniguado de um outro qualquer. Tinha outros desgostos, mas esse era o principal. Por que o tinha sido? Um pouco pelos outros e um pouco por mim."
Vida de Lima Barreto, A FRANCISCO ASSIS BARBOSA

Inexplicável Esquecimento

O pouco apego que as pessoas têm às palavras sempre me desespera. Ainda mais quando vêm de pessoas que vivem das palavras.

Uma de minhas edições conta com um longo prefácio de Francisco de Assis Barbosa, biográfo de Lima Barreto. Ele conta todos os preconceitos que o autor sofreu por sua cor, todos os inimigos que fez ao publicar Recordações do Escrivão Isaías Caminha, toda a sua intransigência de artista inconformado.

Clara dos Anjos LIMA BARRETOVinte páginas depois, Assis Barbosa comenta: depois de sua morte, Lima Barreto "cai em inexplicável esquecimento."

Essa única palavra me fez querer dar bofetadas no autor: "Inexplicável como, animal? Você não está justamente há 20 páginas explicando isso exaustivamente, narrando cada porta que bateram na cara dele, cada inimigo que fez, cada mesquinharia que sofreu? Como é que é inexplicável? Ou será que você já esqueceu tudo o que acabou de escrever?"

Eu sei, é birra de autor chato. Mas custava ter escrito, por exemplo, "imperdoável esquecimento"?

O Naturalismo de Clara dos Anjos As Novelas de Torquemada, por Benito Pérez Galdós

Clara dos Anjos foi um dos primeiros romances planejados por Lima Barreto. Seria um enorme épico sobre a escravidão, desenvolvido ao longo de várias gerações. Acabou sendo finalizado somente no último ano de vida do autor, como uma novela curta muito criticada.

A personagem-título é uma mulata pobre e sonhadora, excessivamente protegida pela mãe zelosa, e despreparada para os desafios da vida suburbana. Ela acaba sendo deflorada e abandonada por um rapaz inescrupuloso. Branco, claro.

 Relações Perigosas CHODERLOS DE LACLOSAté aí, nada de mais. Esse é basicamente, também, o enredo de Fortunata y Jacinta, obra-prima de Benito Perez Galdós e um dos melhores romances de todos os tempos - e, certamente, o ápice do tradicional romance realista europeu do século XIX. A única diferença é que a moça pobre de Galdós é tão branca quanto seu explorador.

E enquanto Galdós utiliza esse gancho para nos levar a um épico tour-de-force pela Madri da Restauração, Lima Barreto faz um romance naturalista.

Não entendo bem os acadêmicos e críticos literários, essas pessoas que rotulam e classificam livros.Grande Sertão: Veredas JOAO GUIMARAES ROSA

Muitos manuais, por exemplo, classificam Lima Barreto de Pré-Modernista.

Definir algo em função do passado já não é muito inteligente. Odeio termos como ex-mulher. Não acho que faça sentido se referir a alguém pelo que ela deixou de ser. A Di eu chamo de primeira esposa, o que ela sempre será, independente de eu ter a insensatez de casar de novo ou não. Apesar de tudo, o uso comum já tornou essa prática nefanda mais aceitável.

Por outro lado, pode haver maior trapaça intelectual do que criar um rótulo em função de algo que ainda não aconteceu?

Cortiço; Casa de Pensão, O ALUISIO AZEVEDOImaginem que acontecerá um evento incrivelmente importante em 2050 chamado de Bablibló, algo que irá simplesmente definir o milênio. Imaginem que toda a nossa geração fique sendo conhecida como Pré-Bablibliana. Imaginem que tudo o que vimos e fizemos seja compreendido em função de um evento que nem testemunhamos.

Pois bem, sem tirar nem por, esse é o grau de imbecilidade de chamar alguém de Pré-Modernista.

(As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, um dos maiores livros de todos os tempos, também é constantemente analisado, entendido e interpretado tendo como pano de fundo a Revolução Francesa, que só aconteceria 30 anos depois. É como julgar Grande Sertão Veredas em função da queda do Muro de Berlim. Um desrespeito.)

Já Aluísio de Azevedo é considerado um Naturalista, discípulo de Zola, escritor de romances de tese.Mulato, O ALUISIO AZEVEDO

Eu diria que O Cortiço é o ápice do romance brasileiro do século XIX se O Cortiço não fosse o ÚNICO romance brasileiro do século XIX minimamente legível. Os outros têm até algum interesse histórico, são belas crônicas de época, divertidos de ler, etc, mas Literatura mesmo eu só vejo em O Cortiço - e, sim, estou lembrando de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

 Germinal EMILE ZOLAVoltemos aos rótulos. Eu quero que alguém me explique a diferença entre Naturalismo e Pré-Modernismo. Usemos dois exemplos. Quais são as diferenças de estilo, lógica interna, tema, etc etc, entre O Mulato (1881), de Azevedo, e Clara dos Anjos, (1922), de Lima Barreto, separados por um longo fosso de quarenta anos?

Aliás, o próprio Lima Barreto também era discípulo de Zola e sua intenção inicial era fazer de Clara dos Anjos um "Germinal negro".

Eu até gosto de ambos os romances, mas, se estão enquadrados em rótulos diferentes, então, desculpem minha ignorância, não entendi a classificação.

O Final Brusco de Clara dos Anjos Memórias Póstumas de Brás Cubas MACHADO DE ASSIS

Uma das críticas mais comuns à Clara dos Anjos é ser um romance mal acabado. Tremenda injustiça. É um romance de final brusco, como o meu Mulher de Um Homem Só, o que não quer dizer desleixo na feitura.

Eu sou suspeito, claro, mas o final brusco foi o que mais me agradou. Não há explicações, elucubrações, não sabemos o futuro dos personagens, nem como a situação se resolveu. O deflorador safado sai de cena discretamente, andando feliz pela rua com o bolso cheio de dinheiro: parece que ainda mais aparecer no romance, mas não: já fez o que tinha que fazer e some.

A cena final é absolutamente soberba. Como todo final genial, redime numa canetada todos os defeitos do romance.

Uma amiga da família - alemã, raça pura - leva Clara, grávida, à casa da família de seu deflorador. Elas contam sua história triste mas a mãe do rapaz retruca que ele saiu do estado e que, de mais a mais, não tem nada a ver com o que o filho faz ou deixa de fazer. O que elas queriam que ela fizesse? Clara responde, singelamente, que queria que ele se casasse com ela, e a mãe expectora:

Clara dos Anjos LIMA BARRETO"Que é que você diz, sua negra?"

O pai do rapaz aparece e as coisas ficam ainda piores. Ele sabe o filho vil que tem e confessa à Clara todo a sua vergonha de pai fracassado. Literalmente, cai de joelhos, chorando, aos pés da moça, no que talvez é a cena mais patética de toda a literatura brasileira.

E, sem mais delongas, o romance termina nessa nota:

"Na rua, Clara pensou em tudo aquilo, naquela dolorosa cena que tinha presenciado e no vexame que sofrera. Agora é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos. (...) Num dado momento, Clara ergueu-se da cadeira em que se sentara e abraçou muito fortemente sua mãe, dizendo, com um grande acento de desespero:

- Mamãe! Mamãe!

- Que é minha filha?

- Nós não somos nada nesta vida."

O Exagero

Outra crítica comum a Lima Barreto e, em especial, à Clara dos Anjos, é o exagero caricatural de seus personagens. Uma famosa crítica literária comenta que o deflorador de Clara era tão mau, mas tão mau que até seus animais de estimação (galos de briga) eram maus.

Ora, e daí? Lima Barreto não era pós-realista? Por que cobram realismo de seus personagens?

Lima Barreto e Máximo Górki

O escritor Lima Barreto em foto tirada em 1919 no hospício Nacional; abaixo, sua ficha de internação achada nos arquivos do Instituto de Psiquiatria da UFRJMuita gente compara Lima Barreto a Górki e, de fato, há pontos em comum. O primeiro era leitor do segundo, um dos poucos escritores brasileiros da época que tinha lido e recomendava os russos, não só Górki, mas também Tólstoi e Dostoievski. Ambos escreviam sobre as agruras da arraia miúda, ambos se empolgaram com a Revolução de Outubro.

Mas as diferenças terminam por aí. Na verdade, ambos os escritores poderiam ser casos de estudo sobre como se pode escrever sobre a mesma coisa de formas totalmente diferentes. Górki era só força e poder. Não foi escolhido à toa como a voz literária de uma revolução dinâmica e triunfante que prometia mudar o mundo.Máximo Górki (1868-1936)

Górki descreve as agruras dos pobres e incultos, aquelas vidas duras e vazias, amarradas à mais cruel ignorância, e você sente que tudo aquilo está acabando. Que Górki está narrando os últimos estertores de uma realidade em extinção. Que, quase como que num ato de poder seu, tudo aquilo será mudado, tudo melhorará, todos os percalços serão superados.

A genialidade suprema de Górki está em narrar página após página das mais baixas pequenezas humanas e, no final, deixar seu leitor de peito inflado, deixar seu leitor com aquela fé quase comunista de que tudo aquilo será inexoravelmente destruído, que toda aquela pobreza e mesquinharia está com seus dias contados, que estamos na véspera de uma nova Era na humanidade. É um feito e tanto.

Lima Barreto é o exato oposto. Quem o descreve como escritor bem-humorado de tipos tipicamente cariocas deve ter lidos uns livros diferentes dos que eu li.

O Cemitério dos Vivos LIMA BARRETOSeus três principais romances, Policarpo, Isaías e Clara, são histórias de pessoas que começam na vida com força, orgulho, confiança e bondade, mas são sistematicamente moídas, destruídas, achapadas, até a mais sua completa dissolução moral, até não sobrar literalmente nada daqueles sonhos ingênuos, daquelas boas intenções iniciais.

Lima Barreto não nos dá nenhuma esperança de aquilo poderia ter sido, ou que vá a ser, diferente. Pelo contrário, ele se esforça para mostrar que as coisas não poderiam ter se passado de outro jeito. Simplesmente não há salvação.

Dois trechos de Cemitério dos Vivos, relato semi-auto-biográfico de sua internação em um hospital psiquiátrico, recentemente relançado:

"Veio-me repentinamente, um horror à sociedade e à vida; uma vontade de absoluto aniquilamento, mais do que aquele que a morte traz; um desejo de perecimento total da minha memória na terra; um desespero por ter sonhado e terem me acenado tanta grandeza, e ver agora, de uma hora para outra, sem ter perdido de fato a minha situação, cair tão, tão baixo, que quase me pus a chorar que nem uma criança. (...)
Clara dos Anjos LIMA BARRETO
Eu me tinha esquecido de mim mesmo, tinha adquirido um grande desprezo pela opinião pública, que vê de soslaio, que vê como criminoso um sujeito que passa pelo hospício, eu não tinha mais ambições, nem esperanças de riqueza ou posição: o meu pensamento era para a humanidade toda, para a miséria, para o sofrimento, para os que sofrem, para os que todos amaldiçoam. Eu sofria honestamente por um sofrimento que ninguém podia adivinhar; eu tinha sido humilhado, e estava, a bem dizer, ainda sendo, eu andei sujo e imundo, mas eu sentia que interiormente eu resplandecia de bondade, de sonhos de atingir a verdade, do amor pelos outros, de arrependimento dos meus erros e um desejo imenso de contribuir para que os outros fossem mais felizes do que eu, e procurava e sondava os mistérios da nossa natureza moral, uma vontade de descobrir nos nossos defeitos o seu núcleo primitivo de amor e de bondade."

 Recordações do Escrivão Isaías Caminha LIMA BARRETOPor fim, o retrato de Menezes, o pseudo-dentista fracassado de Clara dos Anjos. Pressionado, ele acaba cedendo a alcovitar a relação entre Clara e seu futuro deflorador. O trecho abaixo é uma pequena obra-prima, exemplo proverbial do maior talento de Lima Barreto: descrever a derrota, a baixeza, a tristeza, sem meias-tintas, sem pena, sem redenção possível:

"Na segunda-feira, à noite, depois de ter andado por toda a parte, com a sua velha mala de ferros de cirurgião-dentista, Meneses foi-se postar no botequim do Fagundes. Sentou-se, como de hábito, na última mesa, aos fundos, encostada à parede, com um jornal debaixo dos olhos e um cálice de parati na frente. Ele bebia aos goles, à vista de todos, sem vexame algum. Fazia-lhe mal, como mal faz a todo mundo; mas era solicitado a beber para se atordoar, para não se recordar, para não estar só com o seu passado, para afugentar o terror que a vida lhe inspirava, na miséria, quase indigência em que se achava, naquela idade avançada de mais de setenta anos, alquebrado, doente, sem uma amizade forte, sem um parente que o amparasse, sem uma pensão qualquer. (...)

Estava sem força moral, temia tudo, temia o menor sopro, o mais inocente farfalhar de uma árvore. Toda a criação estava contra ele, conjugava-se para perdê-lo - que podia fazer contra tudo e contra todos? E a miséria? E a fome? Se se revoltasse, que seria dele, sem futuro, sem emprego, sem amigos, sem parentes, doente? Era bem triste o seu destino... Onde estava a sua mecânica? Onde estava a sua engenharia? Amontoara livros e notas pueris, e nada fizera. Levara bem cinqüenta anos, isto é, desde que saíra da casa dos pais, a viver uma vida vagabunda de ciganos, sem nunca se entregar seriamente a uma única profissão, experimentando hoje esta, amanhã aquela. De que lhe valera isto? De nada. Estava ali, no fim da vida, obrigado a prestar-se a papéis que, aos dezesseis anos, talvez não se sujeitasse, para disfarçadamente esmolar o que comer com os seus parentes. Teve vontade de chorar. (...)

Meneses, porém, continuava passivamente a desempenhar o seu indigno papel. Se não o achava decente, conformava-se diante da sua atroz e irremediável miséria. Não se julgava mais um homem..."

Lima Barreto vs Machado de Assis

Dom Casmurro, de Machado de AssisLima Barreto gostava de repetir que odiava Machado e adorava Azevedo. Embora sua obra claramente reflita essa afinidade, ao morrer, ele tinha em sua casa todos os livros do primeiro e nada do segundo.

 Raízes do Brasil SERGIO BUARQUE DE HOLANDASérgio Buarque de Holanda tem uma teoria interessante para explicar isso:

"Enquanto os escritos de Lima Barreto foram, todos eles, uma confissão mal-disfarçada, os de Machado foram antes uma evasão e um refúgio. O mesmo tema, que para o primeiro representa obsessivo tormento e tormento que não pode calar, este o dissimula por todos os meios ao seu alcance. (...) [Sua revolta determina muitas de suas reações pessoais, inclusive] a singular e renitente ojeriza contra todos aqueles que (como João do Rio e talvez o próprio Machado de Assis) tendo razões para partilhar das mesmas amarguras, tudo fazem no entanto para parecer insensíveis a elas, por enganar-se a si mesmos e tentar iludir aos outros."

O preconceito racial e social certamente marca a vida e a obra de Lima Barreto. O problema é que o escritor fez disso a sua vida. Ao mesmo tempo que sua obra demonstra que ele era um escritor talentoso e competente, ela também demonstra que ele aparentemente ainda se via como um mulatinho acuado pelo mundo, lutando sozinho contra tudo e contra todos.

Já dizia o bigodudo: quando olhamos o abismo, o abismo olha em nós. A diferença entre ser marcado por uma dificuldade e permitir que essa dificuldade molde sua vida e torne-se a parte central dela é, justamente, a diferença entre Machado de Assis e Lima Barreto.
Triste Fim de Policarpo Quaresma LIMA BARRETO
O escritor Lima Barreto em foto tirada em 1919 no hospício Nacional; abaixo, sua ficha de internação achada nos arquivos do Instituto de Psiquiatria da UFRJPartidário entusiasta da Revolução Russa, Lima Barreto sofria do típico déficit de responsabilidade que caracteriza a esquerda: nada é culpa do indivíduo, tudo pode e deve ser imputado à perversa estrutura social burguesa racista etc etc.

Sua motivação para escrever Recordações do Escrivão Isaías Caminha foi mostrar que "um rapaz com as disposições de Isaías pode falhar, não em virtude de suas qualidades intrínsecas, mas batido, esmagado, prensado pelo preconceito."

Não acho nem que estava errado, ainda mais sendo mulato no Rio da belle epoque. Mas também acho tal atitude contraproducente. Ninguém se melhora quando acha que toda a sociedade está contra ele, que todos os seus obstáculos são externos, que não há nada que se possa fazer. Como me disse um amigo negro: "Se eu for achar que todo emprego que me recusam é porque eu sou negro, não faria outra coisa."

Melhor fez Machado, que foi viver sua vida e, naturalmente, era isso que despertava raiva em Lima Barreto. O próprio sucesso de Machado ia contra toda a ideologia de Lima Barreto e comprovava que um mulato podia, sim, ser bem sucedido. A roda da vida não esmagará todos. O indivíduo pode triunfar por mérito próprio, mesmo contra enormes dificuldades.

Sim, há esperança.

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá LIMA BARRETOSome authors grow on you.

Eu nunca fui muito com a cara de Lima Barreto. Li Policarpo Quaresma na escola, achei chato, nunca mais pensei nele. Agora, com o lançamento de suas crônicas completas pela Agir, me bateu uma curiosidade e li um livro de crônicas dele que tinha aqui. Abriu meu apetite e acabei lendo também Clara dos Anjos, Recordações do Escrivão Isaías Caminha e alguns contos. Antes que eu percebesse, tinha escrito nove longos posts sobre ele e incluído dois de seus livros em minha Lista de Presentes.

O escritor Lima Barreto em foto tirada em 1919 no hospício Nacional; abaixo, sua ficha de internação achada nos arquivos do Instituto de Psiquiatria da UFRJA simpaticíssima leitora e mecenas Maryanne, de Cuiabá, leu meu romance, adorou e, de acordo com os novos Termos de Uso, achou que eu merecia um mimo.

Mandou para mim Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Devorei no mesmo dia e, pronto, dou o braço a torcer. Realmente, Lima Barreto não é um figurante na Literatura Brasileira. O homem é bom mesmo.

Maryanne, muito, muito obrigado.

* * *
 Lima Barreto: Prosa Seleta LIMA BARRETO
Gonzaga de Sá é um romance que parece simples e curto, mas não é. Alfred Bosi considera-o a mais curiosa síntese de documentário e ideologia que conheceu o romance brasileiro.

O pretexto da história é simples: um funcionário de repartição pública decide escrever a biografia de um colega recém-falecido. A tal biografia nada mais é do que um veículo para longas caminhadas pelo Rio de Janeiro, nas quais são expostas os pensamentos, esperanças e, principalmente, desilusões de Gonzaga de Sá.

Lima Barreto é o poeta do fracasso. Em suas mãos, os personagens sofrem fracassos totais, absolutos, inevitáveis e irrecorríveis. Gonzaga de Sá não seria exceção. Depois de um livro inteiro de observações intelectuais e controladas, ele, por fim, desaba:
"Pensei que os livros me bastassem, que eu me satisfizesse a mim próprio... Engano! As noções que acumulei, não as soube empregar nem para minha glória, nem para minha fortuna... Não saíram de mim mesmo... Sou estéril e morro estéril... As palavras me faltam; as idéias não encontram expressões adequadas, para se manifestarem... Enfim, estou no fim da vida, e só agora sinto o vazio dela, nota a sua falta de objetivo e de utilidade.... (...) Tenho desgosto de mim, da minha covardia... Tenho desgosto de não ter procurado a luz, as alturas, de me ter deixado ficar covardemente entre tais patos. (...) O que mais me aborrece é ter chegado a esta idade vazio de tudo, vazio de glória, de amizade, só,e quase isolado dos meus e dos que me podiam entender. Estou abandonado como um velho tronco desenraizado num areal... (...) Fugi das posições, do amor, do casamento, para viver mais independente... Arrependo-me!..."
Um solilóquio desses me gela o sangue. Poderia ser o Lima Barreto. Poderia ser eu. Provavelmente, era. Provavelmente, será.

* * *

Em uma atitude que me lembrou Sábato, Lima Barreto também faz uma crítica, de certo modo, à inteligência e à educação. Pois de que adiantam inteligência e educação se não levam a uma maior felicidade?
"Porque não sou assim como aquele barrigudo senhor, inconscientemente animalesco, que não pensa nos fins, nas restrições e nas limitações? Longe de me confortar a educação que recebi, só me exacerba, só fabrica desejos que me fazem desgraçado, dando-me ódios e talvez despeitos! Por que ma deram? Para eu ficar na vida sem amor, sem parentes e, porventura, sem amigos? Ah! se eu pudesse apagá-la do meu cérebro! (...) Repara (...) como esta gente se move satisfeita. Para que iremos perturbá-la com as nossas angústias e nossos desesperos?"
* * *

Por fim, em uma crítica social mais ao estilo de Lima Barreto, Gonzaga de Sá simplesmente não compreende porque aquelas pessoas humildes continuam vivendo naquelas condições, porque não se revoltam:
"Eu não compreendo (...) um animal dotado de senso crítico, capaz de colher analogias, levantar-se às quatro horas da madrugada, para vir trabalhar no Arsenal de Marinha, enquanto o Ministro dorme até às onze, e ainda por cima vem de carro ou automóvel. Eu não compreendo (...) que haja quem se resigne a viver desse modo. (...) Porque aqueles homens maltratados pela vida, pela engrenagem social, cheios de necessidades, excomungados falariam tão santamente entusiasmados pelas coisas [tanques, encouraçados, aviões militares] de uma sociedade em que sofriam? Porque a queriam de pé, vitoriosa - eles que nada recebiam dela, eles que seriam espezinhados pela mais alta ou pela mais baixa das autoridades, se alguma vez caíssem na asneira de ter negócios a liqüidar com alguma delas?"
* * *

Maryanne, mais uma vez, muito, muito obrigado. Como vê, adorei o seu presente e foi muito bem utilizado. Não sei o que faria sem mecenas como você.

Gostou desse texto? Contribua com um autor falido. Compre qualquer desses títulos clicando pelos links acima e eu ganho uma pequena comissão. E que Kafka lhe abençoe.

Postada no blog em Dezembro de 2004

 

Mais Artigos de Literatura

 

A Bíblia Como Literatura
Muita gente se espanta ao saber que a Bíblia é o livro favorito de um ateu herege como eu. Inevitavelmente, são pessoas que nunca leram a Bíblia. A Bíblia é literatura pura. Sexo, morte, drama, traição, amor, paixão, redenção, castigo. Tudo o que caracteriza a boa literatura está lá.

Kafka, Um Autor Traído
Não há como falar de Kafka sem mencionar as violências e traições que sofreu tanto por parte de seus editores, como principalmente de Max Brod, seu pretenso melhor amigo.

Declínio e Queda do Império Romano, por Edward Gibbon 
Em sua época, as pessoas liam Gibbon para conhecer a história de Roma. Para nós, o livro é duplamente interessante: lemos Gibbon para conhecer as opiniões de um cavaleiro inglês do século XVIII sobre a história de Roma.

A Importância da Revisão
Um grande número de artistas de fim de semana parece achar que arte é algum tipo de psicografia: jorra deles quase que à revelia em momentos de inspiração divina e basta não interferir pra ficar perfeito. Qualquer mexida posterior será a profanação de algo sagrado e divinamente verdadeiro. Arre.

Lusitano e Brasileiro: Duas Línguas Cada Vez Mais Distintas
Portugueses e brasileiros já não falam a mesma língua faz tempo. Os editores de ambos os países que ignoram esse fato o fazem em detrimento dos leitores (que não entendem lhufas) e autores (cujas obras são mal-transmitidas).

Ernesto Sábato, Autor de Sobre Heróis e Tumbas 
Estou lendo, e me deliciando, e me perdendo, em Sobre Héroes y Tumbas, de Ernesto Sábato, um livro ao mesmo tempo épico, filosófico, sensível, excitante, apocalíptico.

Junichiro Tanizaki: Um Velho Podólatra e Fetichista
Tanizaki, considerado um dos maiores, senão o maior, romancista japonês, é praticamente desconhecido aqui. Teve um livro traduzido pela Brasiliense na década de 80 e depois nada. Finalmente, em 2000, a Companhia das Letras começou a publicar sua obra aqui.

Sex in Contemporary Fiction 
It's not that good sex is impossible to write about. I'd say good sex is irrelevant to write about. Writing about good sex would be like writing about someone's long, nice, happy life: boring, boring, boring.

Henry Miller, Autor de Trópico de Capricórnio
Henry Miller é tão grande que se dá ao luxo de ser grande até nos defeitos. Louco. Arrogante. Prolixo. Confuso. Apaixonante. Energético. Passional.

Litoral, de Pedro Süssekind 
Em cada uma das histórias, a cidade do Rio de Janeiro é a personagem principal, o tema e o enredo. Dá vontade de pegar Pedro Süssekind pelo braço e passear com ele pelas ruas do centro.

Gilberto Freyre, Autor de Casa-Grande & Senzala
Casa Grande & Senzala talvez seja a obra mais genial já escrita em nossa língua. Ela atinge picos de maestria, insight e pura delícia que são impossíveis de descrever. Uma nação que tenha alguém do calibre de Gilberto Freyre para explicá-la para si mesma poderia se dar por satisfeita na busca de sua identidade nacional.

Lobo Antunes, Autor de Manual dos Inquisidores
80 anos de experimentação estilística no século XX, produzindo pilhas de romances ilegíveis, beat, surrealistas, finalmente culminaram em Manual dos Inquisidores, uma prosa radicalmente nova, desconcertante, viciante, mas totalmente integrada ao enredo, aos personagens, à história que se quer contar.

Herman Melville, Autor de Moby Dick
Moby Dick pode ser chato o quanto quiser. O livro continuará pra sempre na lista dos grandes clássicos da humanidade pois nenhum outro livro tem um final tão sensacional.

Lima Barreto, Autor de O Triste Fim de Policarpo Quaresma
Estou lendo, e me deliciando, e me perdendo, em Sobre Héroes y Tumbas, de Ernesto Sábato, um livro ao mesmo tempo épico, filosófico, sensível, excitante, apocalíptico.

Dom Quixote, por Miguel de Cervantes
Muita gente gosta de ler o Quixote como a aventura de um homem bom que teve coragem de lutar por um mundo melhor. Mas essa é uma leitura bastante superficial. A verdade é que a cegueira e o fundamentalismo de Dom Quixote fazem com que ele prejudique muitas pessoas ao longo do caminho.

Dostoievski, Autor de Crime e Castigo e Irmãos Karamazov
Crime e Castigo se perde por ser um romance de idéias. A mão pesada de Dostoeivski não consegue dar voz igual aos seus personagens, não consegue fazer calar sua ideologia.

Autran Dourado, Autor de Uma Vida em Segredo
Dourado é um artesão da língua. Ninguém pode ser mais correto do que ele: o homem é praticamente infalível. Mas, se nunca falha, também nunca acerta. Seus livros são perfeitos, verdadeiras obras-primas da ourivesaria, mas sem gosto, meio mortos e frios, sem vida, sem energia.

O Pagador de Promessas, de Dias Gomes    
A peça é bonita, interessante, emocionante. Dias Gomes tem um impressionante ouvido para diálogo. Apesar disso, a estrutura maniqueísta da peça me pareceu mais velha do que andar pra frente.

Livro Zero, por Alexandre Plosk
Um jovem mata uma velha usurária, vai para a prisão e conhece uma moça chamada Sônia, que o levará para o caminho da redenção. Soou familiar? Livro Zero, romance de Alexandre Plosk, é uma releitura de Crime & Castigo.

Ambrose Bierce, Ray Bradbury e Carlos Fuentes
O fracasso de Bradbury em resistir ao tempo me fez pensar em Ambrose Bierce, o grande mestre contista norte-americano do século XIX. Bierce, apesar de também mestre do efeito surpresa, pasmem!, não envelheceu nem um dia. 150 anos depois, apesar de imitadas à exaustão por todos os que vieram depois, suas histórias ainda são surpreendentes.

Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro, de Márcio Souza
O amazonense Márcio Souza está publicando, desde 1997, uma série de romances históricos chamada Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro. Ostensivamente dialogando com O Tempo e o Vento, o autor busca traçar, em quatro volumes, a história da Amazônia no pós-independência.

A Colméia, de Camilo José Cela, e Os Maias, de Eça de Queiroz
Além de serem grandes obras-primas ibéricas, ambos os romances têm algo em comum: uma quantidade simplesmente assombrosa de personagens, que geram uma quantidade ainda mais avassaladora de tramas secundárias e terciárias, paralelas e perpendiculares.

Todas as Festas Felizes Demais, por Fábio Danesi Rosa
O livro é bom, mas Fábio é melhor. Não sei se dá pra entender. O fenômeno é bastante comum em autores iniciantes. O livro de estréia, por si só, não é bom, mas serve pra demonstrar que o autor sim é bom: competente, com domínio da técnica, ainda pode nos dar grandes alegrias.

Crônicos, de Daniela Abade
Mas, puta que o pariu, Crônicos, o novo livro de Daniela Abade, é simplesmente bom demais. No ifs and buts about it. Sem poréns e entretantos. Sem ressalvas e críticas construtivas. Sem precisar fazer descontos.

Quarto de Despejo, por Carolina Maria de Jesus
Manter os erros de português de Carolina é um meio garantir que ela seja vista somente como mais um literary freak. Nesse jogo entre pessoas limpinhas e cheirosas, Carolina só entra mesmo como atração principal. O jornalista que editou o livro é o mestre de cerimônias do circo, nós somos a platéia e Carolina, coitada, é a mulher-barbada.

O Código Da Vinci, por Dan Brown 
Elogiar o livro e acrescentar "mas não é literatura" é como ir a uma churrascaria, elogiar a carne e dizer: "hmm, essa picanha está muito suculenta, mas não é uma salada". Ora bolas, claro que não. Se você quisesse uma salada, por que teria entrado na churrascaria?

Arte É Criação 
Se Heifetz é tão artista quanto Beethoven, então Harold Bloom é tão artista quanto Shakespeare, e o mestre-de-obras é tão artista quanto o arquiteto.

A Infalibilidade do Autor 
Dar ao autor o benefício da dúvida não quer dizer deixar de ler criticamente, ou perdoar qualquer barbaridade. Pelo contrário, quer dizer, somente, reservar as críticas para o final, quando você puder enxergar a obra como um todo.

Horácio Quiroga
Estação de Amor, de Horácio Quiroga, é uma linda história. Mas o melhor mesmo é o posfácio, escrito por Pablo Rocca. Não existe história tão boa que não possa ser arruinada por uma crítica rasteiramente ideológica.

Knut Hamsun 
Knut Hamsun é considerado o maior escritor norueguês. Imaginem como seria nossa relação com Machado de Assis se, depois de ter escrito Dom Casmurro e Brás Cubas, ele tivesse virado serial-killer. Pois é.

Roberto Freire 
Qualquer um que pretenda viver com mais liberdade tem, necessariamente, que passar por Roberto Freire. Sua auto-biografia me permitiu entender melhor o homem que ele é. Me permitiu também entender o homem que eu posso vir a ser.

Cartas Portuguesas 
O livro que recebi de presente do meu mecenas Ricardo foi o Cartas Portuguesas, cinco cartas pretensamente escritas por uma freira lusitana a um cavaleiro francês, então estacionado em Lisboa, no século XVII.

Arte, Crime e Patrocínio 
Um artista plástico espalha caixas pretas pelo metrô de Nova Iorque, gera pânico e acaba preso. Arte? Ou crime? Outro, pinta de vermelho um iceberg. Arte? Ou futilidade? No Brasil, uma jovem