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  Alex Castro
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Livro Zero, por Alexandre Plosk
 

Um jovem mata uma velha usurária, vai para a prisão e conhece uma moça chamada Sô   Livro Zero ALEXANDRE PLOSKnia, que o levará para o caminho da redenção. Soou familiar?

Livro Zero, romance de estréia de Alexandre Plosk (Planeta, 2004), é uma releitura de Crime & Castigo.

Alexandre também assinou a adaptação de Bellini e a Esfinge para o cinema, um filme excelente que valeria a pena só pela belíssima e ultrasexy vilã.
    Crime e Castigo FIODOR DOSTOIEVSKI
* * *

Livro Zero pode ser dividido em três partes:

Primeiro, Charles, publicitário de sucesso e autor frustrado, assassina uma usurária somente para ser preso e ter tempo de ler e escrever em paz.

O livro começa bem e é delicioso acompanhar as pernósticas elocubrações literárias de Charles, em sua busca pela inspiração perfeita.

    Bellini e a EsfingeSubitamente, entretanto, o livro dá uma guinada fantástica: Charles passa a ser considerado um verdadeiro messias dentro da prisão, tornando-se o catalizador de uma apocalíptica guerra religiosa.

Por fim, na terceira parte, vemos em flashback a intrigante e genial relação de Charles com a velha usurária e os passos que o levaram ao crime.

O livro, que começara muito bem, fecha com chave de ouro.

O problema é o meio.

* * *

Em A Relíquia, meu romance preferido do Eça, ele conta a história de Teodorico, um playboy português que vive sustentado pela tia beata. Lá pelas tantas, a tia decide doar toda sua fortuna para a Igreja. Teodorico fica desesperado:

Eu estava bem decidido a não deixar ir para Jesus, filho de Maria, a aprazível fortuna do Comendador G. Godinho. Pois quê! Não bastavam ao Senhor os seus tesouros incontáveis? (...) E ainda voltava, do alto do madeiro, os olhos vorazes para um bule de prata, e uns insípidos prédios da Baixa! Pois bem! disputaremos esses mesquinhos, fugitivos haveres, tu, ó filho do carpinteiro, mostrando à Titi a chaga que por ela recebeste, uma tarde, numa cidade bárbara da Ásia, e eu adorando essa chaga, com tanto ruído e tanto fausto, que a Titi não possa saber onde está o mérito, se em ti que morreste por nos amar de mais, se em mim que quero morrer por não te saber amar bastante!
Relíquia, A EÇA DE QUEIROZPara cair nas graças da tia, Teodorico vai em peregrinação à Terra Santa, trazer para ela esses mesmos suvenires que já no século III os espertos usavam para enganar os turistas. Pelo caminho, ele se envolve com mulheres a torto e a direito, e nunca perde seu ar cínico:
Obedecendo à recomendação da Titi, despi-me, e banhei-me nas águas do Batista. Ao princípio, enleado de emoção beata, pisei a areia reverentemente como se fosse o tapete de um altar-mor; e de braços cruzados, nu, com a corrente lenta a bater-me os joelhos, pensei em São Joãozinho, sussurrei um padre-nosso. Depois ri, aproveitei aquela bucólica banheira entre árvores; Pote atirou-me a minha esponja; e ensaboei-me nas águas sagradas, trauteando o fado da Adélia.
Por algum motivo que Eça tem o toque de gênio de jamais tentar explicar, Teodorico volta no tempo e acaba testemunhando, ao vivo, a paixão de Jesus.

* * *

Ao ler A Relíquia, eu fiquei incomodado com uma dúvida: afinal, o romance era sobre Teodorico e seu oportunismo ou sobre a viagem no tempo de volta à época de Jesus?

Se era sobre Teodorico, então o sonho é longo demais e quebra o ritmo da história. Se era sobre o sonho e os trechos sobre Teodorico eram somente para contextualizar o sonho, então estão longos demais e desviam atenção do principal.

De qualquer modo, alguma coisa está mais longa do que deveria.

* * *

A Relíquia é meu romance favorito do mestre Eça e não há demérito algum em comparar Livro Zero a ele: ambos parecem sofrer do mesmo problema.

A parte central de Livro Zero, sobre a guerra religiosa no presídio, é totalmente diferente, em estilo, tom e escopo, ao começo e ao final do livro. O leitor atento fica sem saber:

Será que o livro era sobre a tal guerra e o começo e o final eram somente meios para introduzi-la e amarrá-la?

Ou será que o livro era sobre um jovem autor querendo escrever seu livro e o grande trecho sobre a prisão era somente um engenho literário para que alcançasse a redenção?

           Hora da Estrela, A CLARICE LISPECTORDe qualquer modo, assim como em A Relíquia, fica a impressão de que alguma coisa está mais longa do que deveria.

* * *

Mudar de estilo no meio de um livro é sempre uma aposta arriscada.

Se o leitor gostou do tom e estilo do começo, pode ficar revoltado com a mudança: pôxa, mas eu estava gostando tanto, agora que estava pegando o ritmo!

E, se ele não gostou do estilo do começo, é bem capaz que abandone o livro antes mesmo de chegar ao segundo estilo que talvez gostaria.

Mas é de apostas arriscadas que se faz a boa literatura.   Livro Zero ALEXANDRE PLOSK

Ninguém arriscou mais do que Clarice Lispector, por exemplo. Metade do que ela escreveu simplesmente não deu certo, é ilegível. Na outra metade, estão algumas das melhores obras da nossa literatura.

* * *

Apesar da ressalva, Livro Zero é excelente.

Em uma época de livros pré-fabricados sobre meninas bêbadas e narradores solitários vivendo vidas sem sentido nas grandes cidades, é reconfortante ver uma obra verdadeiramente original, que se arrisca o tempo todo, não tem medo do ridículo e que ainda tem coragem de dialogar com um medalhão do porte de Crime e Castigo.

Vale muito a pena.

Leia meus artigos sobre Eça de Queiroz e Dostoievski.

Postada no blog em Abril de 2005

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O Velho Libertário e o Jovem Discípulo      
Peço perdão por não ser mais o homem que escreveu esses livros. Mas nem mesmo naquela época eu era assim o tempo todo. O importante é que eu era assim no momento em que escrevi aquelas palavras. O importante é que você seja assim no momento de lê-las. O resto é ficção.

O Dever do Escritor 
Quem faz arte pra provar uma teoria filosófica, defender um governo ou mesmo socorrer uma pobre classe social oprimida não está fazendo boa arte. Está sendo, talvez, uma boa pessoa, um bom cidadão, um bom político, um bom filósofo. Mas um artista sofrível.

O Dever do Colunista 
Quando mataram a Liana e o Felipe, boa parte dos colunistas da grande imprensa não teve pudor algum em somente repetir o blá-blá-blá do senso comum. Cadê o profissionalismo dessa gente?

O Golpe de Mersault 
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Heróis e Vilões 
Qualquer bom autor sabe fazer seu leitor ir aonde ele bem quiser, como um treinador balançando o osso na frente do cachorro. A good author can get away with anything.

Duas Leis das Artes Dramáticas 
Quem mais seria o vilão da história? Um estava morto, a outra era a mocinha e a outra era uma negona que tinha entrado no meio da trama. Só sobrava realmente ele.

A Escola Urbana 
Uma nova escola literária vem tomando conta da literatura brasileira há mais de 30 anos. Por falta de nome melhor, eu a chamo Escola Urbana.

Pacto da Mediocridade 
Que pacto de mediocridade é esse? Se nem os nossos formados em Letras-Inglês lêem Shakespeare no original, pra que servem? Não é esse seu trabalho?

Um Épico Injustiçado: O Senhor dos Anéis   
Os doutores da Academia, que suspiram por grandes épicos da humanidade como "La Mort d'Artur" e "Bewoulf", torcem os narizes para "O senhor dos anéis". É pena. Iriam adorar. O livro foi escrito para eles e por um deles.

Literatura Imaginativa   
os autores brasileiros parecem ter sido convencidos, em algum momento, que imaginação e boa literatura não combinam. O ideal de todos parece ser reescrever Um Coração Simples, do Flaubert, o romance, por excelência, onde nada acontece.

Romance do Não-Dito: Aquele Rapaz, de Jean-Claude Bernadet    
Aquele Rapaz é curto pois tudo foi cortado. Aquele Rapaz é riquíssimo, mas nada está lá impresso. Aquele Rapaz, na verdade, é somente um guia de leitura para um outro romance, maior e muito mais grosso, que simplesmente não existe.

Saber Ler Literatura   
Saber ler literatura é saber que abordar qualquer obra de arte jamais será uma atitude passiva. A verdadeira obra de arte exige compromisso, exige ação, exige feedback. Arte não se aprecia. Se apreciou, ou não é arte ou você entendeu errado. Verdadeira arte não se aprecia pois apreciar é uma atitude passiva e a verdadeira arte cobra interação.

A Grande Conversa   
Os clássicos não são só livros consagrados: eles são as vozes da Grande Conversa. Não estão mortos: eles falam, eles gritam, eles choram, uns com os outros, o tempo todo. Heráclito teoriza, Aquino racionaliza, Cervantes ri, Descartes sugere uma outra opção, Kant contextualiza e Marx destrói.

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Ela parece merecer o apelido de Lady Averbuck. Tudo indica que é uma pessoa insuportável, mal humorada, ranzinza, arrogante e totalmente louca. O que importa é que ela é uma puta escritora.

Paulo Coelho na ABL   
Paulo Coelho pode ser um péssimo escritor, mas é um escritor. E isso, convenhamos, já é mais do que podemos falar sobre muitos dos membros da Academia, como Getúlio Vargas e Roberto Marinho.

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LIBERAL LIBERTÁRIO LIBERTINO

Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.