SobreSites > Alex Castro > Artigos > Literatura > Lobo Antunes, Autor de Manual dos Inquisidores, Fado Alexandrino, O Esplendor de Portugal e Os Cus dos Judas
>
Página Inicial
Quem Sou Eu
As Prisões
Ficção:
Mulher de Um Homem Só
Onde Perdemos Tudo
Liberal Libertário Libertino
Dinheiro
Artigos:
Literatura
Crônicas
Acadêmicos
Internet
Comportamento
Guerra do Paraguai
Taras
Colunas
Fotolog
Podcasts
Lista de Presentes
Termos de Uso
Banners
Leituras
Links
Fale com o Autor
  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Lobo Antunes, Autor de Manual dos Inquisidores e Os Cus dos Judas

A biblioteca da PUC, meu playground particular, acabou de comprar literalmente uma pá de livros de Lobo Antunes e Mia Couto, ambos com fortes raízes na África. Rio Chamado Tempo, uma Casa ChamadaTerra, Um MIA COUTO

O moçambicano Mia Couto é, longe, o meu escritor favorito em língua portuguesa hoje. O homem faz coisas com a nossa língua que até deus duvida. Eu tenho todos os seus livros que saíram no Brasil, e mais um outro que ele teve a gentileza de me mandar pelo correio. A PUC tem outros dois, direto de Portugal.

E estou há anos para experimentar Lobo Antunes, um português cuja obra é, em grande parte, ambientada na África. A PUC comprou sua obra completa. Vocês sabem que gosto de começar pela obra-prima. Ouvi dizer que é Os Cus dos Judas. Vocês confirmam?

 Cus de Judas, Os ANTONIO LOBO ANTUNESQue livro do Lobo Antunes eu leio primeiro?

* * *

Só há um pequeno problema: o santo que mandou comprar esses livros maravilhosos para a biblioteca também foi demônio ao ponto de classificá-los na Coleção Didática. Ou seja: os livros só podem sair da biblioteca na sexta, a partir de 19hs, e têm que estar de volta na segunda de manhã. Justamente para evitar que aproveitadores como eu, que nem mais alunos são, fiquem com os livros em casa por seis meses, renovando pela Internet.

Mas não tem problema não. A Biblioteca entra em recesso na sexta, dia 17, e estarei lá, no fim da tarde, para levar os livros e ficar com eles em casa até depois do ano-novo.

É o único jeito.

Viciado em Lobo Antunes

Fiquei dez dias com três livros do Lobo Antunes, li como um desesperado, e só consegui ler dois. E nem encostei nos Mia Couto.

Os Cus de Judas é bom, mas não é nem a obra-prima de Lobo Antunes e muito menos um clássico da literatura universal. Talvez as pessoas ainda associem mais essa obra a ele por ter sido seu primeiro grande sucesso. Talvez ele tenha escrito tantos romances que fica difícil da crítica concordar em qual é o maior.

As metáforas são lindas, a linguagem flui, mas não senti nada por trás: somente a fachada, somente o jogo estético. O romance não me envolveu em nenhum momento, mal percebi os personagens.
  Manual dos Inquisidores, O ANTONIO LOBO ANTUNES
Fechei o livro e pensei: está aí o grande problema dessas invenções estilísticas do século XX, falta de conteúdo. Grande Sertão Veredas é bom pois aliava a prosa estonteante de Rosa a um enredo envolvente. O resto da sua obra é fraco (alguém tem saco pras novelas de Corpo de Baile?) pois a mesma prosa estonteante, sem um enredo envolvente por trás, é só jogo de cena.

Comecei a ler Manual dos Inquisidores e foi um baque. Estava diante de um novo Grande Sertão Veredas, um livro certamente grande, em todos os aspectos, ambicioso, voraz, sensacional.

Grande Sertão: Veredas JOAO GUIMARAES ROSANão tenho condição de descrever o estilo de Lobo Antunes em Manual dos Inquisidores. Só posso dizer que nunca vi nada parecido. Só posso dizer que funciona - e isso talvez seja o mais incrível.

80 anos de experimentação estilística no século XX, produzindo pilhas de romances ilegíveis, beat, surrealistas, finalmente culminaram em Manual dos Inquisidores, uma prosa radicalmente nova, desconcertante, viciante, mas totalmente integrada ao enredo, aos personagens, à história que se quer contar.

O estilo é desconexo, truncado e louco, mas necessário. O leitor avança de relato em relato, de história em história, de comentário em comentário, e se vê envolvido naquela multiplicidade de vozes, naquela enormidade situações, naquela tristeza profunda. No início, a prosa parece pesada, forçada. Em breve, já não podemos conceber que o livro tivesse sido escrito de outra forma.

Depois de décadas de ditadura salazarista, a Revolução dos Cravos, de 1974, traz a democracia de volta à Portugal. Manual dos Inquisidores acompanha a decadência e queda de um dos ministros de Salazar, e de como isso influencia sua família, seus subordinados e agregados.

A principal reclamação que fazem ao livro é ser caricato, como se os personagens não fossem realistas o suficiente. Talvez. Mas não acho que quaisquer personagens tenham obrigação de ser realistas. Em Manual dos Inquisidores, estamos mais preocupados com o painél do que com os personagens individuais.

Ler Manual dos Inquisidores foi uma das experiências mais sensacionais do ano.

* * *

Para quem não lembra, a biblioteca da PUC comprou muitas obras de Lobo Antunes, mas elas não podem sair da biblioteca, só na noite de sexta para voltar na segunda de manhã. Consegui ficar dez dias com Os Cus de Judas e Manual dos Inquisidores porque era recesso de natal.

Quando fui devolver, implorei, chorei, tentei de tudo para a bibliotecária-chefe me permitir ficar com eles mais uma semana, até o ano-novo, mas nada, ela foi implacável.

Resultado: quinta vou lá de novo, pegar um ou dois Lobos Antunes e tentar lê-los obcecadamente até o dia 3 de janeiro, quando terei que levá-los de volta. Lá se vão mais alguns livros maravilhosos ser lidos de forma errada.

Ser pobre é uma merda.

* * *

Alguém comprou Manual dos Inquisidores no Submarino, clicando pelos links aqui do blog.

Confesso que, apesar de grato, me bateu uma inveja: um livro maravilhoso, que devia ser lido no seu próprio ritmo, eu tive que ler a toque de caixa, em cinco dias, pra devolver correndo pra biblioteca, e agora esse cretino, por minha indicação, vai ler o Manual dos Inquisidores sem pressa alguma.

Ingrato. Podia ter mandado outro pra mim!

  Exortação aos Crocodilos ANTONIO LOBO ANTUNES  Ordem Natural das Coisas, A ANTONIO LOBO ANTUNES  Fado Alexandrino ANTONIO LOBO ANTUNES
Desgaste de Lobo Antunes

Quinta-feira, tirei dois livros do Lobo Antunes da Biblioteca da PUC: "As Naus" e "O Que Farei Quando Tudo Arde?"

Ambos têm que ser devolvidos na segunda de manhã. São 900 páginas da prosa enlouquecida do Lobo Antunes, dia e noite, hora após hora. Estou um trapo, meu cérebro está uma pasta. Ninguém merece isso.  Manual dos Inquisidores, O ANTONIO LOBO ANTUNES

Mas o homem é bom demais e não tem outro jeito. Os livros não foram lançados no Brasil. Custariam uma fortuna pra importar.

Depois, talvez eu tenha que me desintoxicar com Machado de Assis, pra lembrar como se escreve o português correto, frases com começo, meio e fim.

Mas Lobo Antunes é daqueles autores que faz você se sentir privilegiado de poder ler no original, como Mia Couto, Camões, Guimarães Rosa.

Desejem-me sorte.

* * *

Será que nenhum leitor caridoso me daria alguma das obras abaixo do Lobo Antunes? Das que estão disponíveis no Submarino (o homem escreveu dezenas de livros), as que me faltam são: Fado Alexandrino, Exortação aos Crocodilos e A Ordem Natural das Coisas.

  Exortação aos Crocodilos ANTONIO LOBO ANTUNES  Ordem Natural das Coisas, A ANTONIO LOBO ANTUNES  Fado Alexandrino ANTONIO LOBO ANTUNES

Gostou desse texto? Contribua com um autor falido. Compre qualquer desses títulos clicando pelos links acima e eu ganho uma pequena comissão. E que Kafka lhe abençoe.

Postada no blog em Dezembro de 2004

 

Mais Artigos de Literatura

 

A Bíblia Como Literatura
Muita gente se espanta ao saber que a Bíblia é o livro favorito de um ateu herege como eu. Inevitavelmente, são pessoas que nunca leram a Bíblia. A Bíblia é literatura pura. Sexo, morte, drama, traição, amor, paixão, redenção, castigo. Tudo o que caracteriza a boa literatura está lá.

Kafka, Um Autor Traído
Não há como falar de Kafka sem mencionar as violências e traições que sofreu tanto por parte de seus editores, como principalmente de Max Brod, seu pretenso melhor amigo.

Declínio e Queda do Império Romano, por Edward Gibbon 
Em sua época, as pessoas liam Gibbon para conhecer a história de Roma. Para nós, o livro é duplamente interessante: lemos Gibbon para conhecer as opiniões de um cavaleiro inglês do século XVIII sobre a história de Roma.

A Importância da Revisão
Um grande número de artistas de fim de semana parece achar que arte é algum tipo de psicografia: jorra deles quase que à revelia em momentos de inspiração divina e basta não interferir pra ficar perfeito. Qualquer mexida posterior será a profanação de algo sagrado e divinamente verdadeiro. Arre.

Lusitano e Brasileiro: Duas Línguas Cada Vez Mais Distintas
Portugueses e brasileiros já não falam a mesma língua faz tempo. Os editores de ambos os países que ignoram esse fato o fazem em detrimento dos leitores (que não entendem lhufas) e autores (cujas obras são mal-transmitidas).

Ernesto Sábato, Autor de Sobre Heróis e Tumbas 
Estou lendo, e me deliciando, e me perdendo, em Sobre Héroes y Tumbas, de Ernesto Sábato, um livro ao mesmo tempo épico, filosófico, sensível, excitante, apocalíptico.

Junichiro Tanizaki: Um Velho Podólatra e Fetichista
Tanizaki, considerado um dos maiores, senão o maior, romancista japonês, é praticamente desconhecido aqui. Teve um livro traduzido pela Brasiliense na década de 80 e depois nada. Finalmente, em 2000, a Companhia das Letras começou a publicar sua obra aqui.

Sex in Contemporary Fiction 
It's not that good sex is impossible to write about. I'd say good sex is irrelevant to write about. Writing about good sex would be like writing about someone's long, nice, happy life: boring, boring, boring.

Henry Miller, Autor de Trópico de Capricórnio
Henry Miller é tão grande que se dá ao luxo de ser grande até nos defeitos. Louco. Arrogante. Prolixo. Confuso. Apaixonante. Energético. Passional.

Litoral, de Pedro Süssekind 
Em cada uma das histórias, a cidade do Rio de Janeiro é a personagem principal, o tema e o enredo. Dá vontade de pegar Pedro Süssekind pelo braço e passear com ele pelas ruas do centro.

Gilberto Freyre, Autor de Casa-Grande & Senzala
Casa Grande & Senzala talvez seja a obra mais genial já escrita em nossa língua. Ela atinge picos de maestria, insight e pura delícia que são impossíveis de descrever. Uma nação que tenha alguém do calibre de Gilberto Freyre para explicá-la para si mesma poderia se dar por satisfeita na busca de sua identidade nacional.

Lobo Antunes, Autor de Manual dos Inquisidores
80 anos de experimentação estilística no século XX, produzindo pilhas de romances ilegíveis, beat, surrealistas, finalmente culminaram em Manual dos Inquisidores, uma prosa radicalmente nova, desconcertante, viciante, mas totalmente integrada ao enredo, aos personagens, à história que se quer contar.

Herman Melville, Autor de Moby Dick
Moby Dick pode ser chato o quanto quiser. O livro continuará pra sempre na lista dos grandes clássicos da humanidade pois nenhum outro livro tem um final tão sensacional.

Lima Barreto, Autor de O Triste Fim de Policarpo Quaresma
Estou lendo, e me deliciando, e me perdendo, em Sobre Héroes y Tumbas, de Ernesto Sábato, um livro ao mesmo tempo épico, filosófico, sensível, excitante, apocalíptico.

Dom Quixote, por Miguel de Cervantes
Muita gente gosta de ler o Quixote como a aventura de um homem bom que teve coragem de lutar por um mundo melhor. Mas essa é uma leitura bastante superficial. A verdade é que a cegueira e o fundamentalismo de Dom Quixote fazem com que ele prejudique muitas pessoas ao longo do caminho.

Dostoievski, Autor de Crime e Castigo e Irmãos Karamazov
Crime e Castigo se perde por ser um romance de idéias. A mão pesada de Dostoeivski não consegue dar voz igual aos seus personagens, não consegue fazer calar sua ideologia.

Autran Dourado, Autor de Uma Vida em Segredo
Dourado é um artesão da língua. Ninguém pode ser mais correto do que ele: o homem é praticamente infalível. Mas, se nunca falha, também nunca acerta. Seus livros são perfeitos, verdadeiras obras-primas da ourivesaria, mas sem gosto, meio mortos e frios, sem vida, sem energia.

O Pagador de Promessas, de Dias Gomes    
A peça é bonita, interessante, emocionante. Dias Gomes tem um impressionante ouvido para diálogo. Apesar disso, a estrutura maniqueísta da peça me pareceu mais velha do que andar pra frente.

Livro Zero, por Alexandre Plosk
Um jovem mata uma velha usurária, vai para a prisão e conhece uma moça chamada Sônia, que o levará para o caminho da redenção. Soou familiar? Livro Zero, romance de Alexandre Plosk, é uma releitura de Crime & Castigo.

Ambrose Bierce, Ray Bradbury e Carlos Fuentes
O fracasso de Bradbury em resistir ao tempo me fez pensar em Ambrose Bierce, o grande mestre contista norte-americano do século XIX. Bierce, apesar de também mestre do efeito surpresa, pasmem!, não envelheceu nem um dia. 150 anos depois, apesar de imitadas à exaustão por todos os que vieram depois, suas histórias ainda são surpreendentes.

Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro, de Márcio Souza
O amazonense Márcio Souza está publicando, desde 1997, uma série de romances históricos chamada Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro. Ostensivamente dialogando com O Tempo e o Vento, o autor busca traçar, em quatro volumes, a história da Amazônia no pós-independência.

A Colméia, de Camilo José Cela, e Os Maias, de Eça de Queiroz
Além de serem grandes obras-primas ibéricas, ambos os romances têm algo em comum: uma quantidade simplesmente assombrosa de personagens, que geram uma quantidade ainda mais avassaladora de tramas secundárias e terciárias, paralelas e perpendiculares.

Todas as Festas Felizes Demais, por Fábio Danesi Rosa
O livro é bom, mas Fábio é melhor. Não sei se dá pra entender. O fenômeno é bastante comum em autores iniciantes. O livro de estréia, por si só, não é bom, mas serve pra demonstrar que o autor sim é bom: competente, com domínio da técnica, ainda pode nos dar grandes alegrias.

Crônicos, de Daniela Abade
Mas, puta que o pariu, Crônicos, o novo livro de Daniela Abade, é simplesmente bom demais. No ifs and buts about it. Sem poréns e entretantos. Sem ressalvas e críticas construtivas. Sem precisar fazer descontos.

Quarto de Despejo, por Carolina Maria de Jesus
Manter os erros de português de Carolina é um meio garantir que ela seja vista somente como mais um literary freak. Nesse jogo entre pessoas limpinhas e cheirosas, Carolina só entra mesmo como atração principal. O jornalista que editou o livro é o mestre de cerimônias do circo, nós somos a platéia e Carolina, coitada, é a mulher-barbada.

O Código Da Vinci, por Dan Brown 
Elogiar o livro e acrescentar "mas não é literatura" é como ir a uma churrascaria, elogiar a carne e dizer: "hmm, essa picanha está muito suculenta, mas não é uma salada". Ora bolas, claro que não. Se você quisesse uma salada, por que teria entrado na churrascaria?

Arte É Criação 
Se Heifetz é tão artista quanto Beethoven, então Harold Bloom é tão artista quanto Shakespeare, e o mestre-de-obras é tão artista quanto o arquiteto.

A Infalibilidade do Autor 
Dar ao autor o benefício da dúvida não quer dizer deixar de ler criticamente, ou perdoar qualquer barbaridade. Pelo contrário, quer dizer, somente, reservar as críticas para o final, quando você puder enxergar a obra como um todo.

Horácio Quiroga
Estação de Amor, de Horácio Quiroga, é uma linda história. Mas o melhor mesmo é o posfácio, escrito por Pablo Rocca. Não existe história tão boa que não possa ser arruinada por uma crítica rasteiramente ideológica.

Knut Hamsun 
Knut Hamsun é considerado o maior escritor norueguês. Imaginem como seria nossa relação com Machado de Assis se, depois de ter escrito Dom Casmurro e Brás Cubas, ele tivesse virado serial-killer. Pois é.

Roberto Freire 
Qualquer um que pretenda viver com mais liberdade tem, necessariamente, que passar por Roberto Freire. Sua auto-biografia me permitiu entender melhor o homem que ele é. Me permitiu também entender o homem que eu posso vir a ser.

Cartas Portuguesas 
O livro que recebi de presente do meu mecenas Ricardo foi o Cartas Portuguesas, cinco cartas pretensamente escritas por uma freira lusitana a um cavaleiro francês, então estacionado em Lisboa, no século XVII.

Arte, Crime e Patrocínio 
Um artista plástico espalha caixas pretas pelo metrô de Nova Iorque, gera pânico e acaba preso. Arte? Ou crime? Outro, pinta de vermelho um iceberg. Arte? Ou futilidade? No Brasil, uma jovem cria obras baseadas em buscas aleatórias no Google. Arte? Talvez, mas não de acordo com o Ministério da Cultura, que não prevê patrocínios para Cultura Digital.

A Inutilidade da Arte 
Quanto mais útil a arte, menos arte ela é. A utilidade desvirtua a arte. O que distingue a agricultura da ópera é que uma é absolutamente vital para a nossa sobrevivência; a outra, nem um pouco.

Tradução: A Pureza do Original 
Fico preocupado de ouvir um tradutor dizer que a pureza do original não existe ou que não deveria ser importante. Tremo de imaginar o que tradutores imbuídos dessa filosofia não devem modificar, interferir ou "melhorar" os livros que traduzem.

O Velho Libertário e o Jovem Discípulo      
Peço perdão por não ser mais o homem que escreveu esses livros. Mas nem mesmo naquela época eu era assim o tempo todo. O importante é que eu era assim no momento em que escrevi aquelas palavras. O importante é que você seja assim no momento de lê-las. O resto é ficção.

O Dever do Escritor 
Quem faz arte pra provar uma teoria filosófica, defender um governo ou mesmo socorrer uma pobre classe social oprimida não está fazendo boa arte. Está sendo, talvez, uma boa pessoa, um bom cidadão, um bom político, um bom filósofo. Mas um artista sofrível.

O Dever do Colunista 
Quando mataram a Liana e o Felipe, boa parte dos colunistas da grande imprensa não teve pudor algum em somente repetir o blá-blá-blá do senso comum. Cadê o profissionalismo dessa gente?

O Golpe de Mersault 
Camus distorce tanto nossa percepção que esquecemos que Mersault cometeu, de fato, o crime pelo qual está sendo acusado! O homem é culpadíssimo!

Heróis e Vilões 
Qualquer bom autor sabe fazer seu leitor ir aonde ele bem quiser, como um treinador balançando o osso na frente do cachorro. A good author can get away with anything.

Duas Leis das Artes Dramáticas 
Quem mais seria o vilão da história? Um estava morto, a outra era a mocinha e a outra era uma negona que tinha entrado no meio da trama. Só sobrava realmente ele.

A Escola Urbana 
Uma nova escola literária vem tomando conta da literatura brasileira há mais de 30 anos. Por falta de nome melhor, eu a chamo Escola Urbana.

Pacto da Mediocridade 
Que pacto de mediocridade é esse? Se nem os nossos formados em Letras-Inglês lêem Shakespeare no original, pra que servem? Não é esse seu trabalho?

Um Épico Injustiçado: O Senhor dos Anéis   
Os doutores da Academia, que suspiram por grandes épicos da humanidade como "La Mort d'Artur" e "Bewoulf", torcem os narizes para "O senhor dos anéis". É pena. Iriam adorar. O livro foi escrito para eles e por um deles.

Literatura Imaginativa   
os autores brasileiros parecem ter sido convencidos, em algum momento, que imaginação e boa literatura não combinam. O ideal de todos parece ser reescrever Um Coração Simples, do Flaubert, o romance, por excelência, onde nada acontece.

Romance do Não-Dito: Aquele Rapaz, de Jean-Claude Bernadet    
Aquele Rapaz é curto pois tudo foi cortado. Aquele Rapaz é riquíssimo, mas nada está lá impresso. Aquele Rapaz, na verdade, é somente um guia de leitura para um outro romance, maior e muito mais grosso, que simplesmente não existe.

Saber Ler Literatura   
Saber ler literatura é saber que abordar qualquer obra de arte jamais será uma atitude passiva. A verdadeira obra de arte exige compromisso, exige ação, exige feedback. Arte não se aprecia. Se apreciou, ou não é arte ou você entendeu errado. Verdadeira arte não se aprecia pois apreciar é uma atitude passiva e a verdadeira arte cobra interação.

A Grande Conversa   
Os clássicos não são só livros consagrados: eles são as vozes da Grande Conversa. Não estão mortos: eles falam, eles gritam, eles choram, uns com os outros, o tempo todo. Heráclito teoriza, Aquino racionaliza, Cervantes ri, Descartes sugere uma outra opção, Kant contextualiza e Marx destrói.

Lady Averbuck   
Ela parece merecer o apelido de Lady Averbuck. Tudo indica que é uma pessoa insuportável, mal humorada, ranzinza, arrogante e totalmente louca. O que importa é que ela é uma puta escritora.

Paulo Coelho na ABL   
Paulo Coelho pode ser um péssimo escritor, mas é um escritor. E isso, convenhamos, já é mais do que podemos falar sobre muitos dos membros da Academia, como Getúlio Vargas e Roberto Marinho.

Autores Libertários  
Muita gente tem me pedido sugestões de leitura. Autores bons há muitos. Mas como, em geral, quem me pede isso gostou desse blog, vou dar aqui uma lista dos meus pares, ou seja, autores que seguem, em larga medida, a linha filosófica desse brog: Whitman, Miller, Freire, Kerouac, Thoreau, Emerson, Sartre, La Mettrie.

Mais Livros do Mal  
Sentei em uma daquelas poltronas maravilhosas (tinha 3 horas de hora pra fazer!) e li vários contos de cada livro. Estava torcendo, sinceramente, pra algum deles ser ruim e eu não ter que levar. Afinal, não é?, autor novo, todos jovens, nunca se sabe. Não foi o caso.

Literatura Contemporânea e Livros do Mal

Ultimamente, só venho lendo clássicos. Estou há mais de um mês no Dom Quixote, por exemplo. Sinto muita falta de literatura contemporânea, mas infelizmente isso custa dinheiro. Clássicos eu pego na biblioteca, eu baixo pela Internet e até mesmo compro edições baratíssimas em tudo quanto é sebo. Já, por exemplo, o novo livro do Bernardo Carvalho só comprando e pelo preço integral: não tem jeito.

 

LIBERAL LIBERTÁRIO LIBERTINO

Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.