Antes, leia a Prisão Patriotismo
Depois que elogiei Diogo Mainardi e Paulo Francis choveram cartas me malhando. O Francis morreu, mas é bom ver que ainda é lembrado com tanto amor. Quanto ao Mainardi, acho que desviei algumas das cartas de ódio que seriam enviadas à Veja. Elogiar Diogo Mainardi é temerário. Defendê-lo é quase suicida. Um, ele não precisa. Dois, ele tem de onde se defender.
Na verdade, vou advogar aqui em causa própria. Não suporto alguém ser crucificado simplesmente por emitir opiniões discordantes. Afinal, com raras e honrosas exceções (sim, eu também fiquei viciado naquela musiquinha da Norah Jones, etc) quase todas as minhas opiniões são discordantes.
Pois bem, uma de minhas fiéis leitoras (tomara que continue assim) me enviou um artigo de Mainardi chamado "A Bomba do Boi-Bumbá" (Veja, 9/7/03). Eis aqui alguns trechos:
"Em Parintins, Lula ironizou os intelectuais dizendo que eles tinham muito a aprender com a festa do boi-bumbá. (...) Pelo que consegui entender, o boi-bumbá funciona como os desfiles das escolas de samba, só que há apenas dois blocos, Caprichoso e Garantido, e o enredo é sempre o mesmo, ano após ano. Baseia-se numa lenda local. A mulher grávida do negro Francisco deseja comer uma língua de boi. O negro Francisco sacrifica o boi predileto de seu patrão para satisfazer a mulher. O patrão fica contrariado e manda matar o negro Francisco, que foge para o meio do mato e pede ajuda a um pajé. O pajé ressuscita o boi, e tudo termina em festa. Eu gostaria que Lula esclarecesse que ensinamento os intelectuais podem tirar dessa história. O único que eu consigo tirar é que o povo é infinitamente estúpido, mas não creio que o presidente se referisse a isso. Aliás, eu nem sei o que é um intelectual para Lula, se é um catedrático petista da USP ou simplesmente alguém com o ginasial completo."
Depois, minha leitora também citou vários artigos indignados contra Mainardi. Os exemplos abaixo foram escritos por Bruno Freitas Gadelha:
"Como pode um comentário ter um título mais ofensivo que este? Só o título da coluna ofende o povo amazonense que se orgulha do seu festival. Ofende muito mais os artistas Parintinenses, que preparam todo o ano um festival rico, belo e extremamente criativo. A criatividade do povo é tamanha que os "PAPAS" do carnaval se rendem aos encantos da nossa festa e contratam nossos artistas para fazerem as alegorias do carnaval do Rio e São Paulo. (...) Deve-se ter o mínimo de respeito e cuidado pra não ofender uma festa popular de altíssimo nível. (...) Quem vem a Parintins se apaixona pelo show de criatividade e pela imponência da festa realizada no meio da selva amazônica. (...) Pelo visto o colunista demonstrou possuir no mínimo um retardo mental e absoluta falta de informação. Em primeiro lugar, é totalmente imprudente a comparação da festa do boi-bumbá com os desfiles de escolas de samba. São festas completamente diferentes e vou listar apenas algumas das diferenças: (...) No boi-bumbá, os bois (como são chamadas as agremiações folclóricas, e que fique bem claro que não são blocos ou escolas) competem em uma arena (para o "sábio" e "entendido" Diogo Mainardi, a arena é redonda), onde os bois evoluem desenvolvendo seu tema que MUDA a cada ano. As apresentações podem ser comparadas à óperas, pois contam histórias, como se fosse um grande teatro. Na coluna, o autor dá um show de irresponsabilidade e falta de conhecimento quando diz que todo ano o "enredo" do boi-bumbá é sempre o mesmo. O que ele, na coluna chama de enredo diz respeito à origem da festa do boi-bumbá, que ao contrário do que consta na coluna, não baseia-se em uma lenda local, mas sim na festa do bumba meu boi do Maranhão. O bumba meu boi foi trazido para o Amazonas, onde ganhou características locais, e desde então apresenta lendas, tradições e o modo de vida do caboclo amazônico. Deixo aqui a minha indignação pela falta de respeito mostrada com o povo amazonense, sobretudo com os Parintinenses que conseguem, no meio da floresta dar um show de CULTURA, Beleza, Tradição e Folclore."
Gente, que bobagem. Que desperdício de indignação.
Pra começar, quem é que ainda fica indignado com o que Diogo Mainardi escreve? É como aquela criança que quebra a casa pra chamar atenção e aí, o que você faz? Vai lá e dá atenção pra ela! Diogo Mainardi manda muito bem, mas ele é irônico e adora chamar a atenção e chocar. Eu também, aliás. Isso só quer dizer que não podemos nem ser levados muito a sério nem entendidos rápido demais.
E, além disso, e daí? E daí que ele não goste do Boi-Bumbá? Ou que ache ridículo? Ou que ache a pior coisa da face da terra? Etc? Isso muda alguma coisa? Tira algum valor do raio da festa?
Quer dizer que ele não tem direito à opinião dele? Ou o Boi-Bumbá é incriticável? Como funciona esse critério?
Não pode criticar porque é popular? Por exemplo, se fosse o novo filme do Woody Allen que ele malhasse (aliás, fraquíssimo), tudo bem, o Woody Allen que se vire. Mas, sendo um espetáculo popular, não. Por quê? É covardia com os pobres homens do povo que fizeram tudo e não tem como se defender?
Ou é um critério geográfico?
Eu não conheço o Boi-Bumbá. Vai ver o Mainardi tem razão e é uma bomba. Vai ver é a coisa mais linda do mundo. Mas o Carnaval do Rio eu conheço. É patético. É a apoteose do ridículo. E aí? Também não posso achar isso? Ou posso, só porque sou carioca? Se fosse pro Norte e falasse a exata mesma coisa sobre o Boi-Bumbá, ah, aí sim eu seria linchado. É isso?
Realmente, não entendi tanta indignação. É por que sinceramente nunca conceberam a hipótese de que alguém pudesse não gostar do Boi Bumbá? Ou o problema não é não gostarem, é falarem?
Olha só, odiar o Boi-Bumbá pode, mas fica caladinho...
Preciso que alguém me explique logo as regras. Estou pensando em visitar o Çairé, no oeste do Pará, e aí já fico sabendo como me comportar. Gostou, Alexandre? Ih, adorei, melhor que a Marquês de Sapucaí! Mil vezes melhor que a Marquês de Sapucaí! Naturalmente, mil vezes zero é zero, mas deixa pra lá.
Pra não me acusarem de querer ter sempre a última palavra, termino com a resposta da minha leitora:
“Eu diria que tanto pra ele quanto pra mim, criticar seria fazer pré-conceitos, porque eu só assisti a festa pela TV, e nunca procurei saber detalhes maiores. Ele, pelo jeito, também não. Normalmente eu respeito mais as pessoas que criticam as coisas que conhecem e que entendem. Mas é claro que ele tem direito a ter a opinião dele, o único inconveniente é que ele tem um lugar pra escrever as merdas que ele fala numa revista de qualidade.... é uma pena! Mas o artigo não tira o valor da festa, por um motivo muito simples... viver as coisas sempre será muito mais intenso , do que contar ou ler a respeito.”.
Leia agora o que os meus leitores têm a dizer sobre isso
Postado no blog em Agosto 12, 2003
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