Antes, leia Em Defesa da Língua Portuguesa
Às vezes, ando pela rua, observo as pessoas trabalhando, vivendo, amando e fico maravilhado, apreciando, em êxtase, a beleza da vida humana em fluxo.
Outras vezes, como depois desses longos artigos sobre tradução e língua portuguesa, que nada mais foi do que um apêndice à Prisão Patriotismo, eu fico chocado com as pessoas à minha volta. Será que somos realmente da mesma espécie? Será que eu sou mesmo tão diferente assim?
Os comentários de alguns leitores, o ódio, o protecionismo, a insegurança cultural, o medo do outro, a xenofobia, foram exemplos de como as pessoas andam algemadas a preconceitos profundos, cada vez mais pequenas e mesquinhas, seu pensamento distorcido e embotado por doenças culturais como patriotismo, cristianismo, marxismo, pra citar só algumas das piores.
Tenho quase vergonha do que estou escrevendo. Pra mim, soa como um entulhado de truísmos e platitudes, o óbvio mais que ululante. Me sinto como aqueles escritores picaretas de livros de auto-ajuda, ganhando dinheiro falando o que todo mundo já está cansado de saber.
Mas não deve ter tão óbvio assim, pois, para a maioria dos leitores, o que eu falo soa chocante, insensível, egoísta, herético.
Sempre estive preparado para que discordassem veementemente de mim. Mas o que acontece é ainda pior.
Parece que as pessoas, hoje, só conseguem raciocinar em termos tribais, pequenos, limitados. Um discurso universal, humanista, libertário, que tenta pensar nossa espécie como um todo, é algo aparentemente tão radical que elas não discordam: nem apreendem.
A maioria simplesmente balança a cabeça e lamenta como os brasileiros estão perdendo o seu amor pelo Brasil e como algumas pessoas (eu!) fariam melhor em morar no exterior, já que odeiam tanto o seu próprio país. Tsc tsc. E quanto mais eu falo em termos gerais e universais, mais alguns leitores só me escutam falando em termos específicos e nacionais.
Eu amo todos os seres humanos. Eu não sou brasileiro, eu sou humano.
Estou cansado de pensamentos pequenos, pessoas mesquinhas, leis tribais. Eu sou brasileiro, eu sou flamenguista, eu sou evangélico. Arre! Que mundo é esse?! Será que não tem ninguém nesse salão pra dançar comigo?
Quem me dera encontrar outra pessoa, só uma outra pessoa, que me dissesse: eu não sou nada, eu sou só o Paulo, a Cláudia, o João, um animal humano, à vontade entre todos os povos, sempre sozinho, sempre acompanhado, que pertence a todos os grupos e não pertence a nenhum.
De vez em quando, encontro um colega, quase sempre morto. Esse aqui é Thoreau, traduzido por mim:
"Não há nada a se admirar nas pirâmides, a não ser o fato de tantos homens terem se degradado para construir uma enorme tomba, quando teria sido mais viril e sábio ter simplesmente se afogado no Nilo. (...) As pessoas são patriotas, mas não tem respeito próprio, e sacrificam o maior pelo menor. Amam o solo no qual constroem seus túmulos, mas não têm simpatia alguma pelo espírito que anima sua argila. O patriotismo é o verme de suas cabeças. (...) Enquanto muitos se preocupam com os majestosos monumentos do passado, eu gostaria de saber quem, naqueles dias, não os construiu. Quem estava acima dessas pequenezas."
O que importa aos assírios que sua língua morreu, que sua cultura sumiu? O que importa é que os assírios viveram.
Aos assírios que viveram bem, amaram, comeram e foram felizes, que importância pode ter o estado de sua cultura 3 mil anos depois?
Aos assírios que viveram mal, que deixaram tudo pra depois, que pensaram demais no futuro, que só se preocuparam com a aquisição e manutenção do império, nada pode salvá-los. Se hoje, vivéssemos todos sob a sombra dos Estados Assírios da América, eles ainda teriam vivido vidas vazias.
Nossa cultura sabe cuidar de si mesma. Os membros individuais dela, aparentemente não.
Eu não quero que concordem comigo. Eu não quero ter discípulos. Eu não quero nem mesmo convencer ninguém.
Tudo o que eu quero é mostrar uma via alternativa.
Tudo o que eu quero é abrir os seus olhos, nem que apenas por um segundo, nem que você discorde de mim, para o fato de que o mundo, como ele é hoje, não é uma construção unânime.
Existem vozes dissidentes, existem pessoas que pensam diferente, existe a possibilidade de viver uma outra vida, sem mesquinharias, tribalismos, religiões, maniqueísmos, preconceitos, prisões. Mais ainda, sem esqueminhas mentais dogmáticos e pré-fabricados, que almejam explicar tudo com suas formulinhas, mas que só conseguem embotar o pensamento humano, como o marxismo e o cristianismo.
Tudo o que quero é ouvir o que o leitor Diogo me disse outro dia: "amigo...eu realmente estou revendo meus conceitos graças a esses posts sobre a Língua Portuguesa. Quando tiver idéias bem estabelecidas, de novo, eu comento mais."
Ser pequeno, mesquinho, preconceituoso, ressentido, invejoso, tudo isso é muito fácil. E muito tentador.
O desafio que lanço aos meus leitores é outro: sejam grandes!
Postada no blog em Outubro 10, 2003
Assuntos Relacionados
Prisões:
Patriotismo
Artigos:
Em Defesa da Língua Portuguesa
Orgulho de Ser Brasileiro
|