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Trabalho apresentado no curso de Espectros da Violência:
Heróis, Marginais e o Estado na Literatura Brasileira,
mestrado em Português, University of California, Berkeley,
2005, prof Candace Slater.
Introdução
Vidas
Secas, de Graciliano Ramos,
A Hora da Estrela, de Clarice Lispector e Uma Vida em
Segredo, de Autran Dourado, são três romances
brasileiros onde a palavra tem papel fundamental. Seus
protagonistas, Fabiano, Macabéa e Biela, têm uma relação
complexa, ambígua, às vezes até hostil, com a palavra e com
o silêncio.
Em
diferentes graus, os três personagens demonstram
dificuldades em articular um discurso conexo para se
comunicar com si próprios, com suas famílias, com o mundo à
sua volta e, mais especialmente, com as estruturas de poder.
Não conseguem usar a palavra adequadamente às suas
necessidades ou aos seus anseios.
Em
oposição, sempre existe o campo do silêncio, para onde podem
fugir, se retrair ou recuar. Para quem não domina a palavra,
o silêncio pode ser usado como tática, esconderijo ou porto
seguro.
A falta de
acesso ao discurso dominante da sociedade é, por si só, uma
violência. Através dos três personagens citados, tentaremos
mostrar como essa falta de acesso acontece, que tipos de
estratégias verbais os personagens utilizam pra negociar
suas deficiências e seus diferentes graus de sucesso. 
Vidas Secas
I
Um dos
temas principais de Vidas Secas é a linguagem. A seca
parece um adversário banal comparado à enorme luta que os
personagens empreendem para dominar as palavras de que
necessitam para sobreviver. Como se para enfatizar o extremo
da situação, até o papagaio é mudo.
Escreve
Marilene Felinto, no Posfácio à 97ª edição:
“[Fabiano e sua família]
intuem que somente o domínio de uma linguagem pode levá-los
a compreender a natureza hostil e a enfrentar de modo menos
desigual os falantes da cidade, o patrão, a autoridade
injusta do soldado que os rejeita, os oprime, os explora e
humilha. (...) O desafio [da família] é decifrar o mistério
dos códigos, é dominar o universo dos signos que transformam
o outro (...) em poderosos seres de linguagem. A linguagem é
para eles um ser tão poderoso quanto a seca.”
A tragédia
maior de Fabiano talvez seja que ele parece ter uma noção
aguda de suas deficiências. Essa consciência não basta para
resolver o problema, somente para aumentar seus dramas
existenciais e torná-lo amargo, desconfiado, inferiorizado:
“Comparando-se aos tipos da
cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava
que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava
conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer
coisa.”
Como a
palavra não pode ser dissociada do conhecimento, a relação
de amor e ódio que prende Fabiano às palavras também se
reflete em sua relação ao conhecimento. Por um lado, ele
valoriza o ensino, por ter a perfeita noção de que sua
ignorância fará dele um eterno explorado:
“Fabiano sempre havia
obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco,
desejava pouco e obedecia. (...) Vivia tão agarrado aos
bichos. Nunca vira escola. Por isso não conseguia
defender-se, botar as coisas em seus lugares. (...) Se lhe
tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la [a
situação].”
Mas, por
outro, Fabiano parece temer esse mesmo conhecimento, não
apenas quando proveniente das pessoas das cidades e dos
patrões, que sempre tentam enganá-lo, mas até mesmo de seus
filhos:
“Uma das crianças
aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou,
franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da
pergunta. Não percebendo o que o filho desejava,
repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito
enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da
conta dele, como iria acabar?”
O
conhecimento abstrato não tem vez na vida dura de um
sertanejo e Fabiano tenta interessá-lo em “coisas
imediatas”. Depois, conclui:
[Os filhos] estavam
perguntadores, insuportáveis. Fabiano dava-se bem com a
ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha.
(...) Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender
mais, e nunca ficaria satisfeito.
O mesmo
fosso linguístico que separa Fabiano dos patrões também o
separa de seus filhos. Mais uma vez, são a palavra e o
conhecimento, ou a ausência deles, que determinam o fosso
entre quem pode e quem não pode.
Sempre que os homens sabidos
lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado.
Sobressaltava-se escutando-as. Evidentemente só serviam para
encobrir ladroeiras. Mas eram bonitas. Às vezes decorava
algumas e empregava-as fora de propósito. Depois
esquecia-as. Para que um pobre da laia dele usar conversa de
gente rica?
Naturalmente, ao negar o conhecimento aos filhos, ao
extirpar sua curiosidade de criança na raiz, Fabiano não faz
mais do que perpetuar o ciclo de exploração e ignorância que
ele enxerga tão claramente e que tanto o oprime:
Os meninos eram uns brutos,
como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um
patrão invisível, seriam pisados, maltratados.
Por fim,
conclui Felinto:
A seca e a pobreza calam
Fabiano, como se (...) ele não tivesse direito nem a um
pedaço de terra nem a uma linguagem.
II
A relação
de Fabiano com a palavra é bastante ambígua.
Em
princípio, sua hostilidade à curiosidade natural dos filhos
parece indicar que, para ele, a palavra e conhecimento são
seus inimigos a se temer, algo a se evitar. Fabiano sabe que
a palavra não é seu ambiente, sabe que não domina essa
técnica, sabe que não pode ganhar esse jogo.
Mas, como
se para provar o oposto, essa própria enorme inferioridade
que ele sente parece comprovar a importância desse
conhecimento e a grande falta que ele faz.
Por não ter
esse conhecimento, por não dominar a língua do poder,
Fabiano está fadado a ser sempre explorado.
III
Farmer,
citando Galtung, define violência estrutural como estruturas
sociais pecaminosas caracterizadas por pobreza e altos
níveis de desigualdade social, racial e sexual. E continua:
Structural
violence is violence exerted systematically - that is,
indirectly - by everyone who belongs to a certain social
order: hence the discomfort these ideas provoke in a moral
economy still geared to pinning praise or blame on
individual actors. (…) Structural violence is the natural
expression of a political and economic order that seems as
old as slavery. The social web of exploitation, in its many
differing historical forms, has long been global, or almost
so, in its reach.
Talvez o
mais trágico de Vidas Secas seja a inevitabilidade da
tragédia. Parece não haver salvação para Fabiano e seus
filhos. Vítimas de uma estrutura social gigantesca e
ancestral, eles não têm como negociar uma situação melhor.
Desde cedo, as crianças já nascem endividadas com o patrão,
não têm acesso à educação e todo futuro que podem deslumbrar
é uma vida igual à do pai.
A luta de
Fabiano para dominar o discurso do poder sempre esteve
perdida, desde começo. Na verdade, ele nem tenta: Fabiano se
ressente e se fecha no silêncio. 
A Hora da
Estrela
A luta de
Macabéa com a palavra já fica evidente em dois dos títulos
alternativos de A Hora da Estrela: O Direito ao Grito
e Ela Não Sabe Gritar.
Como bem
sabia Fabiano, só através do grito, ou seja, da palavra, o
cidadão comum pode se comunicar com o poder e passar a
existir como cidadão. Infelizmente, assim como Fabiano,
Macabéa não sabe gritar: não domina essa língua do poder e,
por isso, se vê sempre à margem do sistema.
Entretanto,
Macabéa e Fabiano são seres bem diferentes: antes de tudo,
ao contrário do revoltado sertanejo, Macabéa é feliz em sua
alienação:
Ela era de leve como uma idiota, só que não o
era. Não sabia que era infeliz. (...) Essa moça não sabia
que ela era o que era, assim como o cachorro não sabe que é
cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que
queria era viver. Não sabia para quê, não se indagava. Quem
sabe, achava que havia uma gloriazinha em viver. Ela pensava
que a pessoa é obrigada a ser feliz.
Então era.
(...)
Tinha o que se chamava de vida interior e não sabia que
tinha. Vivia de si mesma como se comesse as próprias
entranhas. (...) Encontrar-se consigo própria era um bem que
até então não conhecia. Acho que nunca fui tão contente na
vida, pensou. Não devia nada a ninguém e ninguém lhe devia
nada. (...) Ouvira na Rádio Relógio que havia sete bilhões
de pessoas no mundo. Ela se sentia perdida. Mas com a
tendência que tinha para ser feliz logo se consolou: havia
sete bilhões de pessoas para ajudá-la.
(...)
Gostava de sentir o tempo
passar. Embora não tivesse relógio, ou por isso mesmo,
gozava o grande tempo. (...) Não tinha consciência de si e
não reclamava de nada, até pensava que era feliz. Não se
tratava de uma idiota mas tinha a felicidade pura dos
idiotas.
Rodrigo
S.M., o escritor revoltado e maldito, angustiado por suas
dúvidas existenciais profundas, por suas questões cósmicas,
por seus experimentos narrativos, parece se indignar com
essa simples felicidade canina de Macabéa. Será que ela não
vê que é a vítima dessa história? Que todos estão contra
ela? Será que não vai exercer seu direito de gritar?
Nas palavras de Peixoto:
Lispector
makes it clear that Macabéa is victimized by everything and
everyone: her brutal aunt broke her spirit, poverty weakens
her body, her boyfriend insults her; at the same time
patriarchy neutralizes her sensuality, and foreign
stereotypes of beauty encourage her and others to despise
her appearance. (…) Macabéa is "raped", not by one
individual man, but by a multitude of social and cultural
forces that conspire to use her cruelly for the benefit of
others.
Na verdade,
a maior frustração do narrador é justamente se propor a
narrar a vida sofrida de uma típica vítima da sociedade - e
essa vítima se recusar a se comportar como vítima.
Rodrigo
S.M. parece tentar escrever uma versão sertaneja de
Justine, a heroína do Marquês de Sade. Em Os
Infortúnios da Virtude, ou A Virtude Castigada, Sade
acompanha uma moça pura, boa e virtuosa, que age com justiça
e ponderação em todas as situações e, apesar disso - na
verdade, por causa disso - torna-se vítima de todo tipo de
maldades, raptos, estupros. Justine, sim, como na descrição
acima, é vitimizada por tudo e por todos.
O narrador
de A Hora da Estrela teria gostado de Justine. Ela se
revolta com as injustiças do mundo, mas decide que o
problema é com o mundo, não com ela. Repetidamente, Justine
se recusa a abraçar o vício e a imoralidade para salvar sua
vida. Apesar de somente sofrer derrotas, Justine nunca se
entrega e luta contra o sistema até o fim.
Macabéa,
entretanto, nunca se presta a esse papel. Em sua alienação
intransigente, em sua felicidade canina, ela se recusa a ser
manipulada em função dos objetivos de Rodrigo.
Nas palavras de Feracho:
Rodrigo S.M.
criticizes Macabea for her inability to react verbally or
emotionally in a way that he deems appropriate to the given
situation. Her lack of what he would interpret as an
assertion of her rights and of her oppression (…) is seen
(…) as the equivalent of silence. (…) He is unable to see
the value of her silence because his imposition of his
circumstances and reactions on the protagonist blinds him to
her worth.
Mas não é
que Macabéa não saiba gritar: Macabéa é feliz. Talvez até
sinta que não precisa gritar. Ela se sente orgulhosa
de sua posição social. A pouca instrução que recebeu lhe
permite ser uma datilógrafa, uma posição social bastante
superior à da maioria dos retirantes nordestinos como ela:
Macabéa ficava contente com a
posição social dele porque também tinha orgulho de ser
datilógrafa, embora ganhasse menos que o salário mínimo. Mas
ela e Olímpico eram alguém no mundo. "Metalúrgico e
datilógrafa" formavam um casal de classe
Naturalmente, nada disso quer dizer que Macabéa não seja uma
vítima tanto quanto Justine: somente que, por não se ver
como vítima, ela não tem como lutar contra essa situação. Ao
definir violência estrutural, Farmer ainda aponta:
Opression is
the result of many conditions, not the least of which reside
in consciousness.
Em um
recente estudo antropológico sobre a violência cotidiana no
Brasil,
a autora, apesar de dispor de diversos dados quantitativos,
não encontrou melhor exemplo para ilustrar suas teses do que
uma cena de A Hora da Estrela.
Macabéa vai
ao médico, com visíveis sintomas de desnutrição. Cego a
tudo, ele lhe pergunta se ela está fazendo regime e ainda
lhe recomenda comer macarronadas. Nem por um segundo o
médico pára pra pensar em quem é sua paciente e qual a
realidade em que vive. Está apenas fazendo seu trabalho. Nem
por um segundo Macabéa pára para pensar que poderia estar
sendo mais bem tratada, que a vida poderia ser diferente.
Ela não se
sentiu vítima de violência alguma e o médico não se sentiu
de algum modo algoz de sua paciente. Entretanto, a cena é de
uma violência surda e sufocante.
De acordo
com Bourdieu, a violência não precisa necessariamente ser
percebida nem pelo agente nem pela vítima, podendo inclusive
acontecer por cumplicidade da própria vítima:
Symbolic
violence is the coercion which is set up only through the
consent that the dominated cannot fail to give to the
dominator (and therefore to the domination) when their
understanding of the situation and relation can only use
instruments that they have in common with the dominator,
which, being merely the incorporated form of the structure
of the relation of domination, make this relation appear as
natural; or, in other words, when the schemes they implement
in order to perceive and evaluate themselves or to perceive
and evaluate the dominators (high/low, male/female,
white/black, etc) are the product of the incorporation of
the (thus naturalized) classifications of which their social
being is the product.
Macabéa tem
maior domínio da palavra do que o retirante nordestino
médio. Esse, mais próximo de Fabiano, muitas vezes mal sabe
ler e escrever, quando sabe, e acaba tendo que fazer
trabalhos sujos, construção civil e limpeza. Já Macabéa é
datilógrafa e tem noção de sua posição social superior.
Do ponto de
vista de Fabiano, Macabéa poderia ser vista como uma
vencedora. Através de seu domínio superior da linguagem do
poder, ela conseguiu uma vida melhor. Macabéa também
concordaria.
Entretanto,
como fica claro pelo episódio com o médico, Macabéa não é
uma cidadã, não é vista como tal e nem tratada como tal.
Além disso,
o domínio que Macabéa tem da linguagem do poder, apesar de
mais sofisticado que o de Fabiano, é ainda assim muito
precário. Era datilógrafa, mas péssima datilógrafa, e estava
prestes a ser demitida. Ouve com afinco e empolgação a
rádio-relógio, mas não consegue absorber, nem entender, e
nem utilizar os drops que cultura inútil aos quais é
exposta. Em todos os seus diálogos, seja com Olímpico, com o
chefe, com Madame Carlota ou com o médico, Macabéa se sente
perdida, não sabe o que dizer, concorda sempre com seu
interlocutor e teme o silêncio.
Madame
Carlota pergunta se ela tem medo das palavras e Macabéa
responde: "Tenho sim, senhora."
Quando o
médico lhe diz que ela tem princípios de tuberculose
pulmonar, ela, "como era uma pessoa muito educada",
agradece.
Nas
conversas com Olímpico, Macabéa teme que o silêncio "já
significasse uma ruptura"
e sempre tenta começar ou manter vivas as conversas, somente
para terminar sendo humilhada repetidas vezes por Olímpico.
Apesar disso, ela o ama, entre outras, pelas palavras que
ele usou com ela, por fazê-la se sentir superior:
Nunca esqueceria que no
primeiro encontro ele a chamara de "senhorinha", ele fizera
dela um alguém.
Sempre que
interage com outras pessoas, sua falta de domínio da palavra
traz frustração, submissão, ridículo. Mas é quando está
sozinha, saboreando o tempo passar, que Macabéa é mais
feliz, uma tranquilidade da qual Fabiano aparentemente não
desfruta e que Rodrigo não perdoa:
Through
silence Macabea found a voice and opportunity to leave a
legacy that the lack of complete access to language (…) had
always denied her.
Por um
lado, a falta de consciência de sua condição de vítima
impede Macabéa de lutar contra o sistema. Mas, por outro, se
Macabéa quer lutar contra o sistema, é para tentar ser
feliz. Se ela, em sua alienação, já é feliz, pra que
embarcar em uma luta inglória e ingrata?
Por fim,
frustrado com sua incapacidade de dominar Macabéa, Rodrigo
faz com que ela seja atropelada por um Mercedes. Não pôde
vencê-la, mas pôde matá-la.
Escreve Feracho:
The
injustice that denies Macabea the right to self-expression
also serves as an example of (…) social violence (…) and
more specifically, the replication of that social violation
on a narrative level. In Rodrigo's descriptions of Macabea's
social victimization what especially stands out is the way
in which his language reinforces her marginalization by
emphasizing her anonymity and silence.
Ironicamente, a única arma de que Rodrigo dispõe é a
palavra. Macabéa morre por um ato verbal e narrativo; sua
morte, nas mãos de seu narrador, apenas mais uma em sua
série de vitimizações.
Por fim, conclui Peixoto:
The Hour of
the Star offers, then, a lucid representation of the
aggressive investments narrative entails. (…) Violence is no
longer justified, contained, and subdued by ideological and
narrative strategies. (…) The act of narration itself
appears problematic, aggressive, guilt-provoking. A textual
violence permeates the vertiginous doublings and mirrorings
in which author, narrators, characters and readers engage.
To tell stories, for Lispector, is to give up the very
possibility of innocence and to enact a knowing,
guilt-ridden struggle with the mastering of the violent
powers of narrative.
Seria
excessivo falar em violência narrativa? 
Uma Vida em
Segredo
I
Uma Vida
em Segredo, de Autran Dourado,
acompanha a vida de Biela, na Minas Gerais do começo do
século XX.
Orfã de
mãe, ela vivia só com o pai, homem de poucas palavras, em
sua fazenda. A vida de Biela acontecia no mais profundo
silêncio. Com a morte do pai, é levada para morar na cidade,
na casa dos primos.
A dona da
casa, Constança, faz de Prima Biela seu projeto pessoal:
transformá-la em uma moça de sociedade. Biela, por seu lado,
sentindo a afeição genuína da prima, tenta se deixar moldar
e se adaptar àquele novo ambiente.
Chega perto
de conseguir. Extremamente calada e retraída, Biela afunda
mais e mais dentro de si mesma. Por fim, é pedida em
casamento pelo filho de um dos fazendeiros da região. O
rapaz é um bom partido e Biela aceita somente por
insistência de Constança. Entretanto, pouco antes da
cerimônia, o noivo foge.
Depois
disso, Biela rompe de vez com o mundo externo. Afasta-se da
família, vai dormir em um quarto nos fundos da casa e passa
a conviver cada vez mais com os empregados, com quem
descobre os prazeres da palavra, de conversa sobre bichos,
comidas e coisas da terra.
E torna-se,
finalmente, feliz.
II
A chegada
de Biela à casa dos primos dá o tom ao livro: ela fica
paralizada na porta, não consegue me mexer, ou se
manifestar. Constança a pega pelo braço, a leva para o
centro da família e começa a falar sem parar, fazer planos e
perguntar da viagem. Quanto menos Biela fala, mais Constança
tagarela; quanto mais Constança tagarela, mais Biela fica
intimidada de falar qualquer coisa. Por fim, quando
Constança finalmente desiste:
[Biela] Disse com muito
esforço, como se juntasse num grande alento toda a alma
sufocada, disse, a voz apagada que todos ouviram porque
havia um imenso silêncio de montanha, disse apenas me
desculpe se fiz esperar.
Criada no
campo, morando a vida toda com um pai carrancudo e calado,
sem ter uma figura materna em sua vida, Biela está
totalmente despreparada para lidar com o ambiente da cidade
e para interagir com Constança. Apesar de toda a boa vontade
da prima, sua verborragia só enfatizava que Biela não estava
mais em seu mundo, em seu meio ambiente. À torrente de
palavras de Constança, Biela responde com o que sabe, com o
silêncio.
Perseguida
pelos meninos da casa, em um ambiente totalmente novo, Biela
vai aos poucos soltando a língua. Primeiro, com o pessoal da
cozinha, depois, quando a sós com Constança, sempre temerosa
de dizer inconveniências, sempre tentando inserir no seu
minguado vocabulário as palavras que a ouvia.
Para
inserir Biela na sociedade local, Constança decide lhe
costurar um enxoval:
Constança não se continha,
falava com entusiasmo, animada de sair com Biela,
transformá-la, de abrir um novo mundo para a prima. Tão
animada estava que não reparou que prima Biela mal detinha o
espanto, lívida, de olhos arregalados. Prima, tentou Biela
dizer, ainda uma vez, mas não conseguiu articular nenhuma
outra palavra.
A
princípio, uma leitura rápida do livro pode dar a entender
que a pobre Biela estava totalmente à vontade na fazenda de
seu pai e que sofre um choque cultural ao ser transplatada
para a cidade. Por causa disso, ela se refugiaria no
silêncio e se fecharia cada vez mais em si mesmo.
Nunca vemos
Biela na fazenda, mas, se o choque cultural é indiscutível,
alguns trechos do livro desmentem essa interpretação e dão
indiretamente a entender que, mesmo em sua vida anterior,
Biela já era tão apagada, calada, reprimida como ficou mais
tarde na cidade. Ou seja, já vivia no silêncio.
Em relação
à empolgação de Constança com o enxoval:
Tão acostumada estava a não
rir, a não se abrir, a não se mostrar a ninguém, a não ter
nunca nenhuma alegria que os outros pudessem ver, prima
Biela se limitava a acompanhar meio ausente, como se aquilo
não se dissesse respeito. (...) Aparlemada, não podia
entender que tudo aquilo era para ela. Esperava que alguém
interrompesse toda a festa e a expulsasse dali.
O trecho
não nos permite imaginar uma Biela feliz na fazenda,
totalmente adaptada ao seu meio ambiente. Pelo contrário,
ela parecia já viver reprimida, sozinha, infeliz,
introspectiva, sem rir, sem se abrir, sem se mostrar, ao
lado de um pai calado, carrancudo, talvez repressor.
Assim,
Biela na cidade não é como um Severino, protagonista de
Morte e Vida Severina, um homem adaptado ao seu meio
ambiente mas cujas aptidões e habilidades se revelam inúteis
no novo ambiente. Pelo contrário, de acordo com o texto, o
comportamento acuado e apagado de Biela na cidade não parece
ser muito diferente do seu comportamento na fazenda.
Mas na
cidade, ao menos, Biela conta com uma verdadeira amiga, na
pessoa de Constança, que tenta ajudá-la a ser mais feliz,
mais viva, mais bonita, a se integrar melhor no mundo onde
terá que viver, a dominar o discurso social dominante.
Biela, reconhecendo a sinceridade e utilidade do esforço de
Constança, também faz, por seu lado, o esforço de tentar se
adaptar.
Entretanto,
os vestidos não ficam bem. Biela não sabe andar como uma
mocinha. O caimento fica péssimo e Biela "tinha o aspecto
grotesco de um sagüi vestido de veludo."
A pobre Constança começa a se desiludir de sua protegida:
Prima Constança não lhe disse
uma só palavra, não fez um só reparo. Mas via nos olhos de
prima Constança, na mudez de prima Constança, tudo o que ela
estava pensando e queria dizer. Via como de repente prima
Constança não ligava mais pra ela, não lhe dizia mais as
coisas com carinho. Não sabia dizer em que estava a mudança,
pois prima Constança ainda falava muito com ela, mas tudo
tinha mudado.
É
interessante notar, no trecho acima, a complexa relação das
personagens com a palavra. Ao mesmo tempo em que Biela
repara a mudez de Constança, ela também enfatiza que
Constança falava muito com ela.
A mudança
de espírito de Constança fica clara ao leitor, mas a
ambiguidade de Biela nos deixa em dúvida se essa mudança se
manifesta pela mudez ou pela mesma torrente de palavras de
antes, mas dessa vez desprovida de sentido. Talvez ambas.
Biela, que parecia incomodada pelo palavrório de prima
Constança, agora parece também incomodada por seu silêncio e
por suas palavras vazias.
Em um
primeiro momento, revoltada com a situação, Biela decide não
desistir:
Eles vão ver, dizia baixinho.
Ia usar todos aqueles trens, andar pela cidade metida neles.
Usaria aqueles vestidos até o fim, até que os panos caíssem
de podre, mortalha. Haviam de ver quem era ela. Essa a sua
maneira de lutar com a vida. Aceitava as humilhações como
uma prova que tinha que vencer para se ver gente.
Transformava tudo numa luta de vida ou morte.
Pouco
depois, o autor chega a mencionar o "ódio" de Biela.
Suzana
Amaral, diretora das versões cinematográficas tanto de A
Hora da Estrela quanto Uma Vida em Segredo, diz:
Acho que as duas [Biela e
Macabéa] têm um mesmo perfil psicológico. Elas sofrem o
eterno problema do imigrante: dificuldade de adaptação,
comunicação. Só que a Macabéa ainda tentava se adaptar e não
conseguia. Já a Biela faz a escolha de não tentar se adaptar
e se fecha no mundo dela.
Claramente,
Biela não é nenhuma Macabéa, mas por razões opostas. Feliz
em sua inconsciência, Macabéa não luta contra o sistema, não
tenta se adaptar. Mas Biela tenta, e muito.
Biela sabe
muito bem que foi arrancada do ambiente onde cresceu e
levada para um novo lugar. Ela sabe que seu dever social e
familiar é se adaptar às suas novas condições. Ela entende
que Constança a ama mas que, ao mesmo tempo, deseja moldá-la
aos seu contento. E, ao mesmo tempo em que tenta se moldar,
para agradar a prima e se adaptar melhor, Biela também faz
um trabalho de resistência dos valores de sua criação e
confraterniza com os criados, com quem fala de doces,
plantas e coisas do mato.
De fato, o
grande conflito de Uma Vida em Segredo nasce das
oscilações de Biela entre esses dois pólos: resistir ou se
adaptar.
Depois do
episódio dos vestidos, Biela cede mais uma vez. Passa a sair
mais com Constança e suas filhas e faz visitas sociais às
mulheres da cidade:
Nas visitas, Biela sentava ao
pé de prima Constança. Ficava muito séria, atenta nas falas
da prima, aprendia como é que as mulheres fazem quando se
visitam. Biela começava a viver em sociedade. Já respondia
com mais facilidade, mesmo na presença de prima Constança,
quando lhe dirigiam a palavra.
Durante
todo o processo, na batalha para se adaptar, Biela reconhece
que as palavras são sua principal ferramenta. Tenta imitar o
linguajar das primas, especialmente quando faz suas visitas
sozinha:
Biela ajeitava-se na cadeira e
se punha a falar como prima Constança, como as mulheres
quando se visitam. Repetia frases inteiras que ouvira em
outras conversas. De vez em quando se traía no seu linguajar
da roça. (...) Podia prosear muito distinta. (....) Não
sabia como pudera passar tanto tempo, metida sozinha lá no
Fundão, sem visitar ninguém. Como podia passar dias e mais
dias sem um dedo de prosa sequer. Ela se abria para o mundo.
Como fica
claro pelo trecho acima, a leitura que vê na luta de Biela
um conflito campo X cidade é muito simplista:
As intenções de Macabéa e
Biela são opostas: a luta da primeira, mulher urbana, é por
uma conquista material; a recusa da outra, mulher rural, é
uma opção pelo plano da natureza.
Mas, pelo
contrário, sua experiência na cidade mostra a Biela que sua
vida no campo, apesar de nostálgica, deixava muito a
desejar.
Finalmente,
o recém-adquirido traquejo social de Biela, apesar de
limitado, faz com que ela arranje um pretendente, filho de
fazendeiro da região. Biela era um excelente partido,
herdeira da rica fazenda de seu pai, então sendo
administrada pelo primo, marido de Constança.
Biela não
demonstra muito interesse em casar, mas Constança e todos na
família insistem. Ela se refugia no seu familiar silêncio:
Prima Biela não se fazia de
entendida, ouvia calada e depois falava de um assunto
inteiramente diferente.
(...) Então me larga, pensou Biela, se fechou, não disse
mais nada. Queria lá saber daquelas conversas?
(...) Biela continuou muda, mais muda do que nunca.
(...) Prima Constança estava aflita, à espera de que ela
dissesse alguma coisa. Precisava dizer. Se lembrou de que
era uma boa moça, que todos na cidade achavam que ela era
uma moça boazinha que ouvia o que os outros diziam, que
fazia o que os outros esperavam dela.
Não dizia nem sim nem não, era mais calada que de costume.
Sentia-se constrangida de ser o centro de atenção na casa.
Por que estava dando tanta trabalheira aos outros?
Finalmente,
percebendo que casar é o que se espera dela, que vai
preencher as expectativas de todos e satisfazer as pessoas
que ama, Biela cede. Entretanto, seu noivo foge pouco antes
do casamento e ela se refugia em seu elemento, o silêncio:
A reação de prima Biela foi de
longos silêncios, por alguns dias. (...) Biela passou dias e
dias num silêncio miserável.
Mas não é
porque o silêncio é seu elemento natural que Biela sente-se
feliz nele.
Biela
desiste então da família, mas não desiste da luta de dominar
a palavra. Muito pelo contrário. Ela somente muda de
palavra. Ao invés de tentar, com o auxílio de Constança,
dominar a palavra do poder e do status quo, Biela passa a
tentar dominar a linguagem dos excluídos, dos criados, dos
ex-escravos.
Convive
mais e mais com os empregados, passa quase todo seu tempo na
cozinha, pára de jantar com os primos e, por fim, se muda
para um quartinho dos fundos. A transição está completa.
Prima Biela passava a maior
parte do tempo na cozinha, conversando com Joviana, com
Gomercindo sobre bichos e coisas do mato. (...) Falavam de
assuntos muito simples, proseavam miúdo, comprido. (...) Com
as amizades das amigas de Joviana, com as quais passou
livremente a prosear, se sentia ligada a um novo mundo, um
mundo para o qual o seu coração estava moldado.
Assim como
antes, Biela agora também faz visitas. Mas, ao invés de
visitar as salas de estar com Constança, Biela visita os
criados em suas cozinhas, seus novos amigos, que falam sua
língua:
Tomava um café, limpava a
garganta, se punha a prosear. Uma prosinha miúda, arrastada,
sempre de pequenas observações sobre o tempo e as coisas do
mundo, num assunto vagaroso. (...) Para ela, eram prosas
muito boas. Não sabia como era bom prosear assim.
Por fim,
Biela encontra a felicidade através da palavra. Desiste de
dominar o discurso do poder e das classes dominantes, domina
a língua do grupo no qual se sente à vontade e descobre que
a vida pode ser boa:
Falava de comidas, de doces,
de quitandas, (...) sabia sempre de uma erva para os peitos,
uma gordura de anta ou de paca muito boa pra untar
reumatismo, (...) falava do riachinho, do monjolo que fazia
chuá-pá, (...) contava causos. Ninguém, nem ela, nunca
imaginou que pudesse prosear tão solta.
E conclui o
autor, perto do fim do romance:
Prima Biela vivia agora muito
alegre, metida com a sua gente.
Conclusão
Três
personagens marginalizados, três modos diferentes de
negociar a palavra e o silêncio para chegar ao poder, três
resultados bem distintos.
Fabiano se
sente inferiorizado por seu parco domínio da linguagem do
poder, se afasta da luta e se refugia em um silêncio
revoltado e ressentido.
Macabéa não
tem noção do pouco domínio que tem da palavra, se sente em
posição social prestigiosa e não se pensa como vítima.
Consequentemente, não luta para dominar os códigos do poder
mas, talvez por causa disso, é feliz em seu silêncio.
Biela
cresceu no silêncio e só conhecia o silêncio. Extraída
subitamente de seu ambiente, ela tenta dominar a linguagem
do status quo, não consegue e se retrai no familiar
silêncio. Por fim, acaba encontrando sua própria voz, seu
próprio discurso, e aprende os prazeres da palavra.
Em todos os
casos, a palavra é o elemento fundamental de desigualdade, o
fator crucial que decide quem está dentro e quem está fora,
que separa marginalizados de incluídos.
Nenhum dos
três consegue jamais estabelecer uma comunicação com o
poder. Fabiano nem tenta, Macabéa se ilude e Biela desiste e
aprende a língua dos excluídos.
Nunca
tiveram nenhuma chance. Talvez o mais cruel dessa violência
simbólica e estrutural seja o fato de ela parecer
inevitável. Que o mundo tornou-se assim porque não poderia
ser de outro jeito. Que não havia como ser diferente.
As
possibilidades alternativas vão sendo apagadas com o tempo
até que resta apenas uma falsa ilusão de que os eventos
somente poderiam ter acontecido como aconteceram:
What today presents itself as self-evident,
established, settled once and for all, beyond discussion,
has not always been so and only gradually imposed itself as
such. It is historical evolution which tends to abolish
history, in particular by relegating to the past, to the
unconscious, all the "lateral possibles" which have been
excluded; it thus comes to be forgotten that the "natural
attitude" (...) is a socially constructed relationship.
Bibliografia
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RAMOS,
Graciliano. Vidas Secas.
Record: Rio de Janeiro, 2005. 97ª ed.
Postada no
blog
em dezembro de 2005
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