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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Três Marginalizados Entre a Palavra e o Silêncio: Fabiano, Macabéa e Biela
 

Trabalho apresentado no curso de Espectros da Violência: Heróis, Marginais e o Estado na Literatura Brasileira, mestrado em Português, University of California, Berkeley, 2005, prof Candace Slater.


Introdução

Vidas Secas, de Graciliano Ramos, A Hora da Estrela, de Clarice Lispector e Uma Vida em Segredo, de Autran Dourado, são três romances brasileiros onde a palavra tem papel fundamental. Seus protagonistas, Fabiano, Macabéa e Biela, têm uma relação complexa, ambígua, às vezes até hostil, com a palavra e com o silêncio.

Em diferentes graus, os três personagens demonstram dificuldades em articular um discurso conexo para se comunicar com si próprios, com suas famílias, com o mundo à sua volta e, mais especialmente, com as estruturas de poder. Não conseguem usar a palavra adequadamente às suas necessidades ou aos seus anseios.

Em oposição, sempre existe o campo do silêncio, para onde podem fugir, se retrair ou recuar. Para quem não domina a palavra, o silêncio pode ser usado como tática, esconderijo ou porto seguro.

A falta de acesso ao discurso dominante da sociedade é, por si só, uma violência. Através dos três personagens citados, tentaremos mostrar como essa falta de acesso acontece, que tipos de estratégias verbais os personagens utilizam pra negociar suas deficiências e seus diferentes graus de sucesso. Vidas Secas GRACILIANO RAMOS

Vidas Secas

I

Um dos temas principais de Vidas Secas é a linguagem. A seca parece um adversário banal comparado à enorme luta que os personagens empreendem para dominar as palavras de que necessitam para sobreviver. Como se para enfatizar o extremo da situação, até o papagaio é mudo.

Escreve Marilene Felinto, no Posfácio à 97ª edição:

“[Fabiano e sua família] intuem que somente o domínio de uma linguagem pode levá-los a compreender a natureza hostil e a enfrentar de modo menos desigual os falantes da cidade, o patrão, a autoridade injusta do soldado que os rejeita, os oprime, os explora e humilha. (...) O desafio [da família] é decifrar o mistério dos códigos, é dominar o universo dos signos que transformam o outro (...) em poderosos seres de linguagem. A linguagem é para eles um ser tão poderoso quanto a seca[1].”

A tragédia maior de Fabiano talvez seja que ele parece ter uma noção aguda de suas deficiências. Essa consciência não basta para resolver o problema, somente para aumentar seus dramas existenciais e torná-lo amargo, desconfiado, inferiorizado:

“Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa[2].”

Como a palavra não pode ser dissociada do conhecimento, a relação de amor e ódio que prende Fabiano às palavras também se reflete em sua relação ao conhecimento. Por um lado, ele valoriza o ensino, por ter a perfeita noção de que sua ignorância fará dele um eterno explorado:

“Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia. (...) Vivia tão agarrado aos bichos. Nunca vira escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas em seus lugares. (...) Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la [a situação][3].”

Mas, por outro, Fabiano parece temer esse mesmo conhecimento, não apenas quando proveniente das pessoas das cidades e dos patrões, que sempre tentam enganá-lo, mas até mesmo de seus filhos:

“Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar[4]?”

O conhecimento abstrato não tem vez na vida dura de um sertanejo e Fabiano tenta interessá-lo em “coisas imediatas”. Depois, conclui:

[Os filhos] estavam perguntadores, insuportáveis. Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha. (...) Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito[5].

O mesmo fosso linguístico que separa Fabiano dos patrões também o separa de seus filhos. Mais uma vez, são a palavra e o conhecimento, ou a ausência deles, que determinam o fosso entre quem pode e quem não pode.

Sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado. Sobressaltava-se escutando-as. Evidentemente só serviam para encobrir ladroeiras. Mas eram bonitas. Às vezes decorava algumas e empregava-as fora de propósito. Depois esquecia-as. Para que um pobre da laia dele usar conversa de gente rica[6]?

Naturalmente, ao negar o conhecimento aos filhos, ao extirpar sua curiosidade de criança na raiz, Fabiano não faz mais do que perpetuar o ciclo de exploração e ignorância que ele enxerga tão claramente e que tanto o oprime:

Os meninos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados[7].

Por fim, conclui Felinto:

A seca e a pobreza calam Fabiano, como se (...) ele não tivesse direito nem a um pedaço de terra nem a uma linguagem[8].

II

A relação de Fabiano com a palavra é bastante ambígua.

Em princípio, sua hostilidade à curiosidade natural dos filhos parece indicar que, para ele, a palavra e conhecimento são seus inimigos a se temer, algo a se evitar. Fabiano sabe que a palavra não é seu ambiente, sabe que não domina essa técnica, sabe que não pode ganhar esse jogo.

Mas, como se para provar o oposto, essa própria enorme inferioridade que ele sente parece comprovar a importância desse conhecimento e a grande falta que ele faz.

Por não ter esse conhecimento, por não dominar a língua do poder, Fabiano está fadado a ser sempre explorado.

III

Farmer, citando Galtung, define violência estrutural como estruturas sociais pecaminosas caracterizadas por pobreza e altos níveis de desigualdade social, racial e sexual. E continua:

Structural violence is violence exerted systematically - that is, indirectly - by everyone who belongs to a certain social order: hence the discomfort these ideas provoke in a moral economy still geared to pinning praise or blame on individual actors. (…) Structural violence is the natural expression of a political and economic order that seems as old as slavery. The social web of exploitation, in its many differing historical forms, has long been global, or almost so, in its reach.[9]

Talvez o mais trágico de Vidas Secas seja a inevitabilidade da tragédia. Parece não haver salvação para Fabiano e seus filhos. Vítimas de uma estrutura social gigantesca e ancestral, eles não têm como negociar uma situação melhor. Desde cedo, as crianças já nascem endividadas com o patrão, não têm acesso à educação e todo futuro que podem deslumbrar é uma vida igual à do pai.

A luta de Fabiano para dominar o discurso do poder sempre esteve perdida, desde começo. Na verdade, ele nem tenta: Fabiano se ressente e se fecha no silêncio.  Hora da Estrela, A CLARICE LISPECTOR

A Hora da Estrela

A luta de Macabéa com a palavra já fica evidente em dois dos títulos alternativos de A Hora da Estrela: O Direito ao Grito e Ela Não Sabe Gritar.

Como bem sabia Fabiano, só através do grito, ou seja, da palavra, o cidadão comum pode se comunicar com o poder e passar a existir como cidadão. Infelizmente, assim como Fabiano, Macabéa não sabe gritar: não domina essa língua do poder e, por isso, se vê sempre à margem do sistema.

Entretanto, Macabéa e Fabiano são seres bem diferentes: antes de tudo, ao contrário do revoltado sertanejo, Macabéa é feliz em sua alienação:

Ela era de leve como uma idiota, só que não o era. Não sabia que era infeliz. (...) Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como o cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para quê, não se indagava. Quem sabe, achava que havia uma gloriazinha em viver. Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz. Então era. (...) Tinha o que se chamava de vida interior e não sabia que tinha. Vivia de si mesma como se comesse as próprias entranhas. (...) Encontrar-se consigo própria era um bem que até então não conhecia. Acho que nunca fui tão contente na vida, pensou. Não devia nada a ninguém e ninguém lhe devia nada. (...) Ouvira na Rádio Relógio que havia sete bilhões de pessoas no mundo. Ela se sentia perdida. Mas com a tendência que tinha para ser feliz logo se consolou: havia sete bilhões de pessoas para ajudá-la. (...) Gostava de sentir o tempo passar. Embora não tivesse relógio, ou por isso mesmo, gozava o grande tempo. (...) Não tinha consciência de si e não reclamava de nada, até pensava que era feliz. Não se tratava de uma idiota mas tinha a felicidade pura dos idiotas.[10]

Rodrigo S.M., o escritor revoltado e maldito, angustiado por suas dúvidas existenciais profundas, por suas questões cósmicas, por seus experimentos narrativos, parece se indignar com essa simples felicidade canina de Macabéa. Será que ela não vê que é a vítima dessa história? Que todos estão contra ela? Será que não vai exercer seu direito de gritar? Ficções Apaixonadas: Gênero,Narrativa e Violência em Clarice Lispector MARTA PEIXOTO

Nas palavras de Peixoto:

Lispector makes it clear that Macabéa is victimized by everything and everyone: her brutal aunt broke her spirit, poverty weakens her body, her boyfriend insults her; at the same time patriarchy neutralizes her sensuality, and foreign stereotypes of beauty encourage her and others to despise her appearance. (…) Macabéa is "raped", not by one individual man, but by a multitude of social and cultural forces that conspire to use her cruelly for the benefit of others.[11]

Na verdade, a maior frustração do narrador é justamente se propor a narrar a vida sofrida de uma típica vítima da sociedade - e essa vítima se recusar a se comportar como vítima.

Rodrigo S.M. parece tentar escrever uma versão sertaneja de Justine, a heroína do Marquês de Sade. Em Os Infortúnios da Virtude, ou A Virtude Castigada, Sade acompanha uma moça pura, boa e virtuosa, que age com justiça e ponderação em todas as situações e, apesar disso - na verdade, por causa disso - torna-se vítima de todo tipo de maldades, raptos, estupros. Justine, sim, como na descrição acima, é vitimizada por tudo e por todos.

O narrador de A Hora da Estrela teria gostado de Justine. Ela se revolta com as injustiças do mundo, mas decide que o problema é com o mundo, não com ela. Repetidamente, Justine se recusa a abraçar o vício e a imoralidade para salvar sua vida. Apesar de somente sofrer derrotas, Justine nunca se entrega e luta contra o sistema até o fim.

Macabéa, entretanto, nunca se presta a esse papel. Em sua alienação intransigente, em sua felicidade canina, ela se recusa a ser manipulada em função dos objetivos de Rodrigo.

Nas palavras de Feracho:

Rodrigo S.M. criticizes Macabea for her inability to react verbally or emotionally in a way that he deems appropriate to the given situation. Her lack of what he would interpret as an assertion of her rights and of her oppression (…) is seen (…) as the equivalent of silence. (…) He is unable to see the value of her silence because his imposition of his circumstances and reactions on the protagonist blinds him to her worth.[12]

Mas não é que Macabéa não saiba gritar: Macabéa é feliz. Talvez até sinta que não precisa gritar. Ela se sente orgulhosa de sua posição social. A pouca instrução que recebeu lhe permite ser uma datilógrafa, uma posição social bastante superior à da maioria dos retirantes nordestinos como ela:

Macabéa ficava contente com a posição social dele porque também tinha orgulho de ser datilógrafa, embora ganhasse menos que o salário mínimo. Mas ela e Olímpico eram alguém no mundo. "Metalúrgico e datilógrafa" formavam um casal de classe[13]

Naturalmente, nada disso quer dizer que Macabéa não seja uma vítima tanto quanto Justine: somente que, por não se ver como vítima, ela não tem como lutar contra essa situação. Ao definir violência estrutural, Farmer ainda aponta:

Opression is the result of many conditions, not the least of which reside in consciousness.[14]

Em um recente estudo antropológico sobre a violência cotidiana no Brasil[15], a autora, apesar de dispor de diversos dados quantitativos, não encontrou melhor exemplo para ilustrar suas teses do que uma cena de A Hora da Estrela.

Macabéa vai ao médico, com visíveis sintomas de desnutrição. Cego a tudo, ele lhe pergunta se ela está fazendo regime e ainda lhe recomenda comer macarronadas. Nem por um segundo o médico pára pra pensar em quem é sua paciente e qual a realidade em que vive. Está apenas fazendo seu trabalho. Nem por um segundo Macabéa pára para pensar que poderia estar sendo mais bem tratada, que a vida poderia ser diferente.

Ela não se sentiu vítima de violência alguma e o médico não se sentiu de algum modo algoz de sua paciente. Entretanto, a cena é de uma violência surda e sufocante[16].

De acordo com Bourdieu, a violência não precisa necessariamente ser percebida nem pelo agente nem pela vítima, podendo inclusive acontecer por cumplicidade da própria vítima:  Meditações Pascalianas PIERRE BOURDIEU

Symbolic violence is the coercion which is set up only through the consent that the dominated cannot fail to give to the dominator (and therefore to the domination) when their understanding of the situation and relation can only use instruments that they have in common with the dominator, which, being merely the incorporated form of the structure of the relation of domination, make this relation appear as natural; or, in other words, when the schemes they implement in order to perceive and evaluate themselves or to perceive and evaluate the dominators (high/low, male/female, white/black, etc) are the product of the incorporation of the (thus naturalized) classifications of which their social being is the product.[17]

Macabéa tem maior domínio da palavra do que o retirante nordestino médio. Esse, mais próximo de Fabiano, muitas vezes mal sabe ler e escrever, quando sabe, e acaba tendo que fazer trabalhos sujos, construção civil e limpeza. Já Macabéa é datilógrafa e tem noção de sua posição social superior.

Do ponto de vista de Fabiano, Macabéa poderia ser vista como uma vencedora. Através de seu domínio superior da linguagem do poder, ela conseguiu uma vida melhor. Macabéa também concordaria.

Entretanto, como fica claro pelo episódio com o médico, Macabéa não é uma cidadã, não é vista como tal e nem tratada como tal.

Além disso, o domínio que Macabéa tem da linguagem do poder, apesar de mais sofisticado que o de Fabiano, é ainda assim muito precário. Era datilógrafa, mas péssima datilógrafa, e estava prestes a ser demitida. Ouve com afinco e empolgação a rádio-relógio, mas não consegue absorber, nem entender, e nem utilizar os drops que cultura inútil aos quais é exposta. Em todos os seus diálogos, seja com Olímpico, com o chefe, com Madame Carlota ou com o médico, Macabéa se sente perdida, não sabe o que dizer, concorda sempre com seu interlocutor e teme o silêncio.

Madame Carlota pergunta se ela tem medo das palavras e Macabéa responde: "Tenho sim, senhora."[18]

Quando o médico lhe diz que ela tem princípios de tuberculose pulmonar, ela, "como era uma pessoa muito educada", agradece.[19]

Nas conversas com Olímpico, Macabéa teme que o silêncio "já significasse uma ruptura"[20] e sempre tenta começar ou manter vivas as conversas, somente para terminar sendo humilhada repetidas vezes por Olímpico. Apesar disso, ela o ama, entre outras, pelas palavras que ele usou com ela, por fazê-la se sentir superior:

Nunca esqueceria que no primeiro encontro ele a chamara de "senhorinha", ele fizera dela um alguém.[21]

Sempre que interage com outras pessoas, sua falta de domínio da palavra traz frustração, submissão, ridículo. Mas é quando está sozinha, saboreando o tempo passar, que Macabéa é mais feliz, uma tranquilidade da qual Fabiano aparentemente não desfruta e que Rodrigo não perdoa:

Through silence Macabea found a voice and opportunity to leave a legacy that the lack of complete access to language (…) had always denied her.[22]

Por um lado, a falta de consciência de sua condição de vítima impede Macabéa de lutar contra o sistema. Mas, por outro, se Macabéa quer lutar contra o sistema, é para tentar ser feliz. Se ela, em sua alienação, já é feliz, pra que embarcar em uma luta inglória e ingrata?

Por fim, frustrado com sua incapacidade de dominar Macabéa, Rodrigo faz com que ela seja atropelada por um Mercedes. Não pôde vencê-la, mas pôde matá-la.

Escreve Feracho:

The injustice that denies Macabea the right to self-expression also serves as an example of (…) social violence (…) and more specifically, the replication of that social violation on a narrative level. In Rodrigo's descriptions of Macabea's social victimization what especially stands out is the way in which his language reinforces her marginalization by emphasizing her anonymity and silence.[23]

Ironicamente, a única arma de que Rodrigo dispõe é a palavra. Macabéa morre por um ato verbal e narrativo; sua morte, nas mãos de seu narrador, apenas mais uma em sua série de vitimizações.

Por fim, conclui Peixoto:

The Hour of the Star offers, then, a lucid representation of the aggressive investments narrative entails. (…) Violence is no longer justified, contained, and subdued by ideological and narrative strategies. (…) The act of narration itself appears problematic, aggressive, guilt-provoking. A textual violence permeates the vertiginous doublings and mirrorings in which author, narrators, characters and readers engage. To tell stories, for Lispector, is to give up the very possibility of innocence and to enact a knowing, guilt-ridden struggle with the mastering of the violent powers of narrative. [24]

Seria excessivo falar em violência narrativa?   Vida em Segredo, Uma AUTRAN DOURADO

Uma Vida em Segredo

I

Uma Vida em Segredo, de Autran Dourado, acompanha a vida de Biela, na Minas Gerais do começo do século XX.

Orfã de mãe, ela vivia só com o pai, homem de poucas palavras, em sua fazenda. A vida de Biela acontecia no mais profundo silêncio. Com a morte do pai, é levada para morar na cidade, na casa dos primos.

A dona da casa, Constança, faz de Prima Biela seu projeto pessoal: transformá-la em uma moça de sociedade. Biela, por seu lado, sentindo a afeição genuína da prima, tenta se deixar moldar e se adaptar àquele novo ambiente.

Chega perto de conseguir. Extremamente calada e retraída, Biela afunda mais e mais dentro de si mesma. Por fim, é pedida em casamento pelo filho de um dos fazendeiros da região. O rapaz é um bom partido e Biela aceita somente por insistência de Constança. Entretanto, pouco antes da cerimônia, o noivo foge.  

Depois disso, Biela rompe de vez com o mundo externo. Afasta-se da família, vai dormir em um quarto nos fundos da casa e passa a conviver cada vez mais com os empregados, com quem descobre os prazeres da palavra, de conversa sobre bichos, comidas e coisas da terra.

E torna-se, finalmente, feliz.

II

A chegada de Biela à casa dos primos dá o tom ao livro: ela fica paralizada na porta, não consegue me mexer, ou se manifestar. Constança a pega pelo braço, a leva para o centro da família e começa a falar sem parar, fazer planos e perguntar da viagem. Quanto menos Biela fala, mais Constança tagarela; quanto mais Constança tagarela, mais Biela fica intimidada de falar qualquer coisa. Por fim, quando Constança finalmente desiste:

[Biela] Disse com muito esforço, como se juntasse num grande alento toda a alma sufocada, disse, a voz apagada que todos ouviram porque havia um imenso silêncio de montanha, disse apenas me desculpe se fiz esperar[25].

Criada no campo, morando a vida toda com um pai carrancudo e calado, sem ter uma figura materna em sua vida, Biela está totalmente despreparada para lidar com o ambiente da cidade e para interagir com Constança. Apesar de toda a boa vontade da prima, sua verborragia só enfatizava que Biela não estava mais em seu mundo, em seu meio ambiente. À torrente de palavras de Constança, Biela responde com o que sabe, com o silêncio.

Perseguida pelos meninos da casa, em um ambiente totalmente novo, Biela vai aos poucos soltando a língua. Primeiro, com o pessoal da cozinha, depois, quando a sós com Constança, sempre temerosa de dizer inconveniências, sempre tentando inserir no seu minguado vocabulário as palavras que a ouvia.

Para inserir Biela na sociedade local, Constança decide lhe costurar um enxoval:

Constança não se continha, falava com entusiasmo, animada de sair com Biela, transformá-la, de abrir um novo mundo para a prima. Tão animada estava que não reparou que prima Biela mal detinha o espanto, lívida, de olhos arregalados. Prima, tentou Biela dizer, ainda uma vez, mas não conseguiu articular nenhuma outra palavra.[26]

A princípio, uma leitura rápida do livro pode dar a entender que a pobre Biela estava totalmente à vontade na fazenda de seu pai e que sofre um choque cultural ao ser transplatada para a cidade. Por causa disso, ela se refugiaria no silêncio e se fecharia cada vez mais em si mesmo.

Nunca vemos Biela na fazenda, mas, se o choque cultural é indiscutível, alguns trechos do livro desmentem essa interpretação e dão indiretamente a entender que, mesmo em sua vida anterior, Biela já era tão apagada, calada, reprimida como ficou mais tarde na cidade. Ou seja, já vivia no silêncio.

Em relação à empolgação de Constança com o enxoval:

Tão acostumada estava a não rir, a não se abrir, a não se mostrar a ninguém, a não ter nunca nenhuma alegria que os outros pudessem ver, prima Biela se limitava a acompanhar meio ausente, como se aquilo não se dissesse respeito. (...) Aparlemada, não podia entender que tudo aquilo era para ela. Esperava que alguém interrompesse toda a festa e a expulsasse dali.[27]

O trecho não nos permite imaginar uma Biela feliz na fazenda, totalmente adaptada ao seu meio ambiente. Pelo contrário, ela parecia já viver reprimida, sozinha, infeliz, introspectiva, sem rir, sem se abrir, sem se mostrar, ao lado de um pai calado, carrancudo, talvez repressor.

Assim, Biela na cidade não é como um Severino, protagonista de Morte e Vida Severina, um homem adaptado ao seu meio ambiente mas cujas aptidões e habilidades se revelam inúteis no novo ambiente. Pelo contrário, de acordo com o texto, o comportamento acuado e apagado de Biela na cidade não parece ser muito diferente do seu comportamento na fazenda.

Mas na cidade, ao menos, Biela conta com uma verdadeira amiga, na pessoa de Constança, que tenta ajudá-la a ser mais feliz, mais viva, mais bonita, a se integrar melhor no mundo onde terá que viver, a dominar o discurso social dominante. Biela, reconhecendo a sinceridade e utilidade do esforço de Constança, também faz, por seu lado, o esforço de tentar se adaptar.

Entretanto, os vestidos não ficam bem. Biela não sabe andar como uma mocinha. O caimento fica péssimo e Biela "tinha o aspecto grotesco de um sagüi vestido de veludo."[28] A pobre Constança começa a se desiludir de sua protegida:

Prima Constança não lhe disse uma só palavra, não fez um só reparo. Mas via nos olhos de prima Constança, na mudez de prima Constança, tudo o que ela estava pensando e queria dizer. Via como de repente prima Constança não ligava mais pra ela, não lhe dizia mais as coisas com carinho. Não sabia dizer em que estava a mudança, pois prima Constança ainda falava muito com ela, mas tudo tinha mudado.[29]

É interessante notar, no trecho acima, a complexa relação das personagens com a palavra. Ao mesmo tempo em que Biela repara a mudez de Constança, ela também enfatiza que Constança falava muito com ela.

A mudança de espírito de Constança fica clara ao leitor, mas a ambiguidade de Biela nos deixa em dúvida se essa mudança se manifesta pela mudez ou pela mesma torrente de palavras de antes, mas dessa vez desprovida de sentido. Talvez ambas. Biela, que parecia incomodada pelo palavrório de prima Constança, agora parece também incomodada por seu silêncio e por suas palavras vazias.

Em um primeiro momento, revoltada com a situação, Biela decide não desistir:

Eles vão ver, dizia baixinho. Ia usar todos aqueles trens, andar pela cidade metida neles. Usaria aqueles vestidos até o fim, até que os panos caíssem de podre, mortalha. Haviam de ver quem era ela. Essa a sua maneira de lutar com a vida. Aceitava as humilhações como uma prova que tinha que vencer para se ver gente. Transformava tudo numa luta de vida ou morte.[30]

Pouco depois, o autor chega a mencionar o "ódio" de Biela.[31]

Suzana Amaral, diretora das versões cinematográficas tanto de A Hora da Estrela quanto Uma Vida em Segredo, diz:

Acho que as duas [Biela e Macabéa] têm um mesmo perfil psicológico. Elas sofrem o eterno problema do imigrante: dificuldade de adaptação, comunicação. Só que a Macabéa ainda tentava se adaptar e não conseguia. Já a Biela faz a escolha de não tentar se adaptar e se fecha no mundo dela.[32]

Claramente, Biela não é nenhuma Macabéa, mas por razões opostas. Feliz em sua inconsciência, Macabéa não luta contra o sistema, não tenta se adaptar. Mas Biela tenta, e muito.

Biela sabe muito bem que foi arrancada do ambiente onde cresceu e levada para um novo lugar. Ela sabe que seu dever social e familiar é se adaptar às suas novas condições. Ela entende que Constança a ama mas que, ao mesmo tempo, deseja moldá-la aos seu contento. E, ao mesmo tempo em que tenta se moldar, para agradar a prima e se adaptar melhor, Biela também faz um trabalho de resistência dos valores de sua criação e confraterniza com os criados, com quem fala de doces, plantas e coisas do mato.

De fato, o grande conflito de Uma Vida em Segredo nasce das oscilações de Biela entre esses dois pólos: resistir ou se adaptar.

Depois do episódio dos vestidos, Biela cede mais uma vez. Passa a sair mais com Constança e suas filhas e faz visitas sociais às mulheres da cidade:

Nas visitas, Biela sentava ao pé de prima Constança. Ficava muito séria, atenta nas falas da prima, aprendia como é que as mulheres fazem quando se visitam. Biela começava a viver em sociedade. Já respondia com mais facilidade, mesmo na presença de prima Constança, quando lhe dirigiam a palavra.[33]

Durante todo o processo, na batalha para se adaptar, Biela reconhece que as palavras são sua principal ferramenta. Tenta imitar o linguajar das primas, especialmente quando faz suas visitas sozinha:

Biela ajeitava-se na cadeira e se punha a falar como prima Constança, como as mulheres quando se visitam. Repetia frases inteiras que ouvira em outras conversas. De vez em quando se traía no seu linguajar da roça. (...) Podia prosear muito distinta. (....) Não sabia como pudera passar tanto tempo, metida sozinha lá no Fundão, sem visitar ninguém. Como podia passar dias e mais dias sem um dedo de prosa sequer. Ela se abria para o mundo.[34]

Como fica claro pelo trecho acima, a leitura que vê na luta de Biela um conflito campo X cidade é muito simplista:

As intenções de Macabéa e Biela são opostas: a luta da primeira, mulher urbana, é por uma conquista material; a recusa da outra, mulher rural, é uma opção pelo plano da natureza.[35]

Mas, pelo contrário, sua experiência na cidade mostra a Biela que sua vida no campo, apesar de nostálgica, deixava muito a desejar.

Finalmente, o recém-adquirido traquejo social de Biela, apesar de limitado, faz com que ela arranje um pretendente, filho de fazendeiro da região. Biela era um excelente partido, herdeira da rica fazenda de seu pai, então sendo administrada pelo primo, marido de Constança.

Biela não demonstra muito interesse em casar, mas Constança e todos na família insistem. Ela se refugia no seu familiar silêncio:

Prima Biela não se fazia de entendida, ouvia calada e depois falava de um assunto inteiramente diferente. [36] (...) Então me larga, pensou Biela, se fechou, não disse mais nada. Queria lá saber daquelas conversas? [37] (...) Biela continuou muda, mais muda do que nunca.[38] (...) Prima Constança estava aflita, à espera de que ela dissesse alguma coisa. Precisava dizer. Se lembrou de que era uma boa moça, que todos na cidade achavam que ela era uma moça boazinha que ouvia o que os outros diziam, que fazia o que os outros esperavam dela. [39] Não dizia nem sim nem não, era mais calada que de costume. Sentia-se constrangida de ser o centro de atenção na casa. Por que estava dando tanta trabalheira aos outros?[40]

Finalmente, percebendo que casar é o que se espera dela, que vai preencher as expectativas de todos e satisfazer as pessoas que ama, Biela cede. Entretanto, seu noivo foge pouco antes do casamento e ela se refugia em seu elemento, o silêncio:

A reação de prima Biela foi de longos silêncios, por alguns dias. (...) Biela passou dias e dias num silêncio miserável.[41]

Mas não é porque o silêncio é seu elemento natural que Biela sente-se feliz nele.

Biela desiste então da família, mas não desiste da luta de dominar a palavra. Muito pelo contrário. Ela somente muda de palavra. Ao invés de tentar, com o auxílio de Constança, dominar a palavra do poder e do status quo, Biela passa a tentar dominar a linguagem dos excluídos, dos criados, dos ex-escravos.

Convive mais e mais com os empregados, passa quase todo seu tempo na cozinha, pára de jantar com os primos e, por fim, se muda para um quartinho dos fundos. A transição está completa.

Prima Biela passava a maior parte do tempo na cozinha, conversando com Joviana, com Gomercindo sobre bichos e coisas do mato. (...) Falavam de assuntos muito simples, proseavam miúdo, comprido. (...) Com as amizades das amigas de Joviana, com as quais passou livremente a prosear, se sentia ligada a um novo mundo, um mundo para o qual o seu coração estava moldado.[42]

Assim como antes, Biela agora também faz visitas. Mas, ao invés de visitar as salas de estar com Constança, Biela visita os criados em suas cozinhas, seus novos amigos, que falam sua língua:

Tomava um café, limpava a garganta, se punha a prosear. Uma prosinha miúda, arrastada, sempre de pequenas observações sobre o tempo e as coisas do mundo, num assunto vagaroso. (...) Para ela, eram prosas muito boas. Não sabia como era bom prosear assim.[43]

Por fim, Biela encontra a felicidade através da palavra. Desiste de dominar o discurso do poder e das classes dominantes, domina a língua do grupo no qual se sente à vontade e descobre que a vida pode ser boa:

Falava de comidas, de doces, de quitandas, (...) sabia sempre de uma erva para os peitos, uma gordura de anta ou de paca muito boa pra untar reumatismo, (...) falava do riachinho, do monjolo que fazia chuá-pá, (...) contava causos. Ninguém, nem ela, nunca imaginou que pudesse prosear tão solta.[44]

E conclui o autor, perto do fim do romance:

Prima Biela vivia agora muito alegre, metida com a sua gente.[45]

 Conclusão

Três personagens marginalizados, três modos diferentes de negociar a palavra e o silêncio para chegar ao poder, três resultados bem distintos.

Fabiano se sente inferiorizado por seu parco domínio da linguagem do poder, se afasta da luta e se refugia em um silêncio revoltado e ressentido.

Macabéa não tem noção do pouco domínio que tem da palavra, se sente em posição social prestigiosa e não se pensa como vítima. Consequentemente, não luta para dominar os códigos do poder mas, talvez por causa disso, é feliz em seu silêncio.

Biela cresceu no silêncio e só conhecia o silêncio. Extraída subitamente de seu ambiente, ela tenta dominar a linguagem do status quo, não consegue e se retrai no familiar silêncio. Por fim, acaba encontrando sua própria voz, seu próprio discurso, e aprende os prazeres da palavra.

Em todos os casos, a palavra é o elemento fundamental de desigualdade, o fator crucial que decide quem está dentro e quem está fora, que separa marginalizados de incluídos.

Nenhum dos três consegue jamais estabelecer uma comunicação com o poder. Fabiano nem tenta, Macabéa se ilude e Biela desiste e aprende a língua dos excluídos.

Nunca tiveram nenhuma chance. Talvez o mais cruel dessa violência simbólica e estrutural seja o fato de ela parecer inevitável. Que o mundo tornou-se assim porque não poderia ser de outro jeito. Que não havia como ser diferente.

As possibilidades alternativas vão sendo apagadas com o tempo até que resta apenas uma falsa ilusão de que os eventos somente poderiam ter acontecido como aconteceram:

What today presents itself as self-evident, established, settled once and for all, beyond discussion, has not always been so and only gradually imposed itself as such. It is historical evolution which tends to abolish history, in particular by relegating to the past, to the unconscious, all the "lateral possibles" which have been excluded; it thus comes to be forgotten that the "natural attitude" (...) is a socially constructed relationship.[46]

 Bibliografia

AMARAL, Suzana. "Entrevista." In Cineclick, outubro de 2005. Disponível em http://200.177.228.140/cinebrasil/hotsites/suzanaamaral

BOURDIEU, Pierre. Pascalian Meditations. (mimeo)

DOURADO, Autran. Uma Vida em Segredo. Francisco Alves: Rio de Janeiro, 1990.

FARMER, Paul. "An Anthropology of Structural Violence" In Current Anthropology. Vol.45. No.3, June 2004.

FELINTO, Marilene. “Posfácio” in Vidas Secas. Record: Rio de Janeiro, 2005. 97ª ed.

FERACHO, Leslie. Linking the Americas: Race, Hybrid Discourses, and the Reformulation of Feminine Identity. (mimeo)

LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rocco: Rio de Janeiro, 1998.

PEIXOTO, Marta. Passionate Fictions: Gender, Narrative and Violence in Clarice Lispector. (mimeo)

PONCIANO, Heitor. "Elogio da Pureza." In Bravo! Online, Outubro de 2005. Disponível em http://www.bravonline.com.br/noticias.php?id=1588

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Record: Rio de Janeiro, 2005. 97ª ed.


 

[1] Felinto, pp.133, 136-137

[2] Ramos, p.76

[3] Ramos, pp.28, 35

[4] Ramos, p.20

[5] Ramos, p.22

[6] Ramos, p.98

[7] Ramos, p.37

[8] Felinto, p.132

[9] Farmer, pp.307, 317

[10] Lispector, pp.26-27, 37-38, 42, 58, 63, 69

[11] Peixoto, p.90

[12] Feracho, p.103

[13] Lispector, p.45

[14] Farmer, p.307

[15] Sheperd-Hughes, citada em Peixoto, p.102

[16] Lispector, p.66-68

[17] Bourdieu, p.170

[18] Lispector, p.75

[19] Lispector, p.68

[20] Lispector, p.44

[21] Lispector, p.54

[22] Feracho, p.105

[23] Feracho, p.91

[24] Peixoto, p.99

[25] Dourado, pp.37-38

[26] Dourado, pp.54-55

[27] Dourado, pp.58-59

[28] Dourado, p.60

[29] Dourado, p.69

[30] Dourado, p.63

[31] Dourado, p.66

[32] Amaral, op.cit.

[33] Dourado, p.76

[34] Dourado, pp.76-77

[35] Ponciano, op.cit.

[36] Dourado, p.91

[37] Dourado, p.92

[38] Dourado, p.96

[39] Dourado, p.97

[40] Dourado, p.99

[41] Dourado, pp.103, 108

[42] Dourado, pp.117, 120

[43] Dourado, pp.120-121

[44] Dourado, p.122

[45] Dourado, p.124

[46] Bourdieu, p.174

Postada no blog em dezembro de 2005

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