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  Alex Castro
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Herman Melville, Autor de Moby Dick, Billy Budd e Bartleby, o Escrituário

Tirei o mês para ler algumas das principais obras do norte-americano Herman Melville (1819-1891): Bartleby, o Escrituário, Billy Budd , Benito Cereno e, claro, Moby Dick . Ficaram faltando apenas alguns de seus primeiros romances não tão badalados. Herman Melville

Foi por acaso. Estava há anos querendo ler Bartleby e, de repente, o encontrei na Berinjela. Li. Adorei. Todos os outros eu já tinha aqui em casa, mas largados. Já começara Billy Budd e Moby Dick e não conseguira terminar. No impulso de Bartleby, entretanto, li Billy Budd e Benito Cereno de uma só vez. Então pensei, caramba, já li as três principais histórias do homem, I'm on a roll, se não ler Moby Dick agora, não leio nunca mais.

E li.

A partir de hoje, estou começando uma série de artigos independentes sobre diversos aspectos da obra de Melville.

Moby Dick, Romance InfinitoMoby Dick, por Herman Melville

Quando lançou Moby Dick , em 1851, aos 32 anos, Herman Melville já era um autor conhecido.

Ele se popularizou na casa dos 20, com alguns livros sobre suas experiências entre canibais da Ásia. Eram histórias de aventuras dos Mares do Sul, bobinhos. Aos 30, Melville decidiu alçar vôos mais altos: investiu todo o seu talento e erudição em Moby Dick , contando com ele para resgatar sua reputação literária e pagar suas dívidas.

O livro foi lançado nos Estados Unidos em 14 de novembro de 1851. Nesse dia, o autor e seu grande amigo, Nathaniel Hawthorne, jantaram, fumaram charutos, beberam um porto e celebraram o futuro. De acordo com seu biógrafo, foi o dia mais feliz da vida de Melville. Moby Dick, por Herman Melville

Nesse mesmo dia, chegaram ao porto de Boston as primeiras resenhas dos jornais da Inglaterra, onde Moby Dick havia sido publicado um mês antes. O livro foi destroçado pelos críticos. A imprensa americana, aparentemente, não se deu ao trabalho de ler: repetiu as mesmas críticas. Uma catástrofe.

Depois de Moby Dick , nem mesmo sua reputação de escritor de aventuras sobreviveu. A Baleia Branca, não satisfeita em afundar o Pequod e matar quase todos à bordo, também sepultou a carreira literária de seu autor. Melville passou os 40 anos seguintes no anonimato. Quando morreu, ninguém nem lembrou.

Moby Dick não é tão ruim quanto disse a imprensa da época, e muito menos é tão bom quanto diz a inteligentsia americana de hoje. Mas é uma leitura agradável, inteligente e interessante.

Borges considera Moby Dick o romance infinito, e explica:

"Página por página, el relato se agranda hasta usurpar el tamaño del cosmos: al principio el lector puede suponer que su tema es la vida miserable de los arponeros de ballenas; luego, que el tema es la locura del capitán Ahab, ávido de acosar y destruir la Ballena Branca; luego, que la Ballena y Ahab y la persecución que fatiga los oceános del planeta son símbolos y espejos del Universo."

Bartleby, o Escrituário

Bartleby, o Escrituário, por Herman MelvilleBartleby, O Escrituário (Bartleby, the Scrivener) é, na minha opinião, a obra-prima de Melville, uma pequena jóia, perfeita, bela.

A história é narrada por um advogado de Wall Street que emprega um time de copistas em seu escritório - parece que a máquina de xerox estava quebrada. Até que um dos copistas, Bartleby, simplesmente decide que não vai mais trabalhar. "I would prefer not to", ele diz.

(Nesse ponto, como sempre, os monoglotas começam a ser estrepar. "I would prefer not to" torna-se o verdadeiro mantra de Bartleby, dos outros funcionários do escritório e do próprio livro. Mas a frase em português, "eu preferiria não", não transmite nada da estranheza da construção original. Parte da excentricidade de Bartleby está em sua escolha de palavras: para um americano "I would prefer not to" soa exótico e arcaico. Ao traduzir isso para o familiar "eu preferiria não", a tradução rouba do leitor brasileiro a chance de partilhar dessa estranheza. Quer dizer, estou falando por suposição, não vi a tradução em português.)

O tema da loucura contagiosa parece recorrente em Melville. Aos poucos, todos vão sendo contagiados pela excentricidade de Bartleby. O próprio chefe, considerando-se unido ao destino do funcionário, acompanha-o até o final melancólico.

Bartleby destoa de toda a obra de Melville. Amigo de um estilo rebuscado e pomposo, aqui Melville escreve de forma simples e direta, aumentando ainda mais o contraste com as ações inexplicáveis de Bartleby e de todos a sua volta. A combinação de linguagem simples com acontecimentos insólitos prefigura Kafka e, talvez até, o realismo fantástico do século XX.

K. e o agrimensor são todos descendentes de Bartleby.

Opina Borges:

"La obra de Kafka proyecta sobre Bartleby una curiosa luz ulterior. Bartleby define ya un género que hacia 1919 reinventaría y profundizaría Franz Kafka: el de las fantasías de la conducta y del sentimiento o, como ahora malamente se dice, psicológicas."

O indispensável Projeto Bartleby tem seu nome, obviamente, por causa do personagem de Melville.

Billy BuddBilly Budd, por Herman Melville

Billy Budd , obra póstuma, só foi publicada mais de 30 anos depois da morte de Melville.

Já escritor conhecido por seus livros de aventuras, Melville decidiu alçar vôos mais altos e escreveu Moby Dick . Difícil acreditar que um Moby Dick foi escrito por um rapaz de 30 anos que passou boa parte de sua vida no mar. Parece mais obra de um pedante sessentão com um vocabulário rebuscado demais para o seu próprio bem.

Moby Dick sepultou a carreira literária de Melville e ele passou os 40 anos seguintes no anonimato. Quando morreu, em 1891, estava revisando Billy Budd . Ele foi encontrado, editado e publicado em 1924, ajudando no revival da reputação do autor.

Em termos de linguagem, Billy Budd é muito pior que Moby Dick . Poucas vezes vi um livro tão conscientemente pomposo, com frases longas que se emendam umas nas outras, palavras fora de uso, construções arcaicas e confusas.

Apesar disso, a história vale a pena.

Billy Budd , jovem marinheiro inglês, é belo, forte, sensato, um ser humano perfeito, um Adão antes da queda. Um dos oficiais superiores, morto de inveja, acusa Billy de tentar fazer parte de um motim. Billy mata o oficial no ato, deixando o capitão em um doloroso dilema moral: por um lado, ele conhece o valor de Billy e o pouco caráter do oficial, e sabe que as acusações são falsas; por outro, como deixar impune um marinheiro que mata seu oficial superior?

O Navio de Billy Budd

Billy Budd, por Herman MelvilleMinha leitura de Billy Budd foi influenciada por um incidente interessante. Na contracapa de minha edição, da Penguin, há o seguinte blurb: "The last great work of Melville's seafaring genius was Billy Budd , Sailor, set aboard H.M.S. Bellipotent."

Eu confesso: me apaixonei pelo nome. Caramba, H.M.S. Bellipotent! Pode um nome de navio ser mais forte, sonoro, vibrante? Não sei qual é a história do livro, mas qualquer coisa que aconteça dentro do H.M.S. Bellipotent, em campanha contra a França revolucionária, me interessa.

E fui lendo, lendo e lendo. Nada do H.M.S. Bellipotent. Billy começa o livro servindo no H.M.S. Rights of Man (outro nome interessantíssimo, no contexto da Revolução Francesa) e logo é transferido pro H.M.S. Indomitable, um nome bobo de tão comum. E eu esperando: quando é que esse homem vai passar pro Bellipotent?!

Pois acabou o livro e nada do Bellipotent. Fiquei revoltado. Propaganda enganosa. Como é que a Penguin, que eu sempre amei, faz isso comigo? Que erro amador foi esse de errar o nome do navio na contracapa?

Não sei como a história teria acabado sem a Internet. Talvez eu ficasse com essa história me encucando pra sempre. Talvez eu mandasse uma carta pra editora. Em 2004, uma simples busca no Google já solucionou o mistério.

Melville morreu quando estava revisando Billy Budd . Em algumas partes do livro, o navio é chamado de Bellipotent (6 vezes), em outras, Indomitable (25).

Estranhamente, não há uma edição final unânime de Billy Budd . Vários grupos de estudiosos fizeram leituras diferentes dos originais deixados por Melville, gerando enormes diferenças em termos de ordem de capítulos, trechos excluídos e incluídos e até no nome do navio. Um grupo acha que o nome original era Indomitable e que as seis referências ao Bellipotent significam que Melville pretendia mudar o nome na versão final. Naturalmente, outro grupo de estudiosos pensa rigorosamente o oposto, baseados nas mesmas evidências.

O estranho é um grupo ter editado o texto da minha edição e outro ter feito a contracapa.

Benito CerenoBenito Cereno, HERMAN MELVILLE

Benito Cereno é uma história de mistério e terror, com atmosfera e caracterização maestrais. Aqui, Melville, graças a poseidon, dá um tempo ao dicionário, desiste da linguagem empolada e investe em mood.

O protagonista é o Capitão Amasa Delano, um wholesome whitebread American sea captain: otimista, ingênuo, feliz. Em uma ilha deserta na costa do Chile, ele encontra um navio à deriva e, solícito, prontamente oferece assistência.

Através dos olhos de Delano, somos levados a um passeio por uma atmosfera sufocante, misteriosa e aterradora. Nada é o que parece no navio abandonado. Uma ansiedade crescente vai tomando conta de nós a medida que tentamos entender o ambiente. Algo parece estar seriamente errado. Ou não? Mas o quê? E para adicionar irritação à tensão, só o serelepe e bem-intencionado capitão Delano parece não perceber o que está acontecendo.

O ponto de vista de Delano é um toque de gênio de Melville. Anos mais tarde, Conan Doyle popularizaria o recurso do "narrador burro" em suas histórias de Sherlock Holmes, transformando-o no clichê que é hoje.

Para os brasileiros, há um outro interesse na história: o navio à deriva transportava escravos negros e o problema da escravidão é central ao livro. Melville não se posiciona e caberá a nós responder: a escravidão corrompe? Ou melhor, a quem ela corrompe? Ao escravizado, ao escravizador, ou a ambos?

Comentário de Borges:

"Benito Cereno segue suscitando polémicas. Hay quien lo juzga la obra maestra de Melville y una de las obras maestras de la literatura. Hay quien lo considera un error o una serie de errores. Hay quien ha sugerido que Herman Melville se propuso la escritura de um texto deliberadamente inexplicable que fuera un símbolo cabal de este mundo también inexplicable."

Primeira Pessoa Onisciente em Moby Dick

Eu sabia que era impossível eu ter inventado a narração emMoby Dick, por Herman Melville primeira pessoa onisciente, mas ainda não havia topado com ela até hoje. Quem reclama que Carla, a narradora de Mulher de Um Homem Só, conta coisas que não poderia saber, deveria ler Moby Dick para conferir quantos dos pensamentos, emoções e segredos de Ahab parecem estar na ponta da língua de Ismael.

Só isso, já valeu o livro.

A Importância da RevisãoMoby Dick, por Herman Melville

Evolução de uma primeira frase:

You may refer to me as Mr. Tackletenberry, Ishmael Tackletenberry the Third, in person, at your service, if you please.

You may address me as Mr. Tackletenberry, Ishmael, if you please.

You may call me Mr. Tackletenberry, if you don't mind.

You may call me Ishmael Tackletenberry.

Call me Ishmael.

Basta a Loucura de Um Homem para Enlouquecer o Mundo Moby Dick, por Herman Melville

Foi muito interessante ter embarcado (literalmente embarcado) na leitura da obra de Melville nesse final de outubro e começo de novembro de 2004.

O tema da loucura contagiosa parece recorrente em Melville. Aos poucos, todos vão sendo contagiados pela excentricidade de Bartleby. Seu mantra, "I would prefer not to", acaba invadindo o vocabulários dos outros funcionários. O próprio chefe, considerando-se unido ao destino de Bartleby, acompanha-o até o final melancólico.

Em Moby Dick , mais ainda, a loucura obssessiva de Ahab vai contagiando um a um todos os membros da sua tripulação, um a um, até os mais prudentes e cautelosos, e acaba levando todos a um verdadeiro frenesi de sangue - e, finalmente, à morte.

A grande mensagem, como apontou Borges, parece ser que basta que um homem seja louco para que arraste todo mundo à loucura junto com ele.

Herman MelvilleE foi exatamente assim que me senti vendo a América de Melville, uma nação democrática e iluminada, na mais filosófica acepção do termo, sendo arrastada às trevas e à loucura coletiva por causa da demência e obsessão de um só homem.

Às vezes, basta um capitão perneta. Noutras, um terrorista e três aviões.

* * *

Diz Borges:

"La monomania de Ahab perturba y finalmente aniquila a todos los hombres del barco; el cándido nihilismo de Bartleby a sus compañeros y aun el estólido señor que refiere su historia y que le abona sus imaginarias tareas. Es como se Melville hubiera escrito: 'Basta que sea irracional un solo hombre para que otros lo sean y para que lo sea todo el universo." Moby Dick, por Herman Melville

Sobre a loucura de Ahab:

"Human madness is oftentimes a cunning and most feline thing. When you think it fled, it may have but become transfigured into some still subtler form. Ahab's full lunacy subsided not, but deepeningly contracted. (...) As in his narrow-flowing monomania, not one jot of Ahab's broad madness had been left behind; so in that broad madness, not one jot of his great natural intellect had perished. That before living agent, now became the living instrument. If such a furious trope may stand, his special lunacy stormed his general sanity, and carried it, and turned all its concentred cannon upon its own mad mark; so that far from having lost his strength, Ahab, to that one end, did now possess a thousand fold more potency than ever he had sanely brought to bear upon any one reasonable object."

Moby Dick, por Herman MelvilleA loucura contagiante:

"Here, then, was this grey-headed, ungodly old man, chasing with curses Job's whale round the world, at the head of a crew, too, chiefly made up of mongrel renegades, and castaways, and cannibals- morally enfeebled also, by the incompetence of mere unaided virtue or right-mindedness in Starbuck, the invunerable jollity of indifference and recklessness in Stubb, and the pervading mediocrity in Flask. Such a crew, so officered, seemed specially picked and packed by some infernal fatality to help him to his monomaniac revenge. How it was that they so aboundingly responded to the old man's ire- by what evil magic their souls were possessed, that at times his hate seemed almost theirs; the White Whale as much their insufferable foe as his; how all this came to be- what the White Whale was to them, or how to their unconscious understandings, also, in some dim, unsuspected way, he might have seemed the gliding great demon of the seas of life,- all this to explain, would be to dive deeper than Ishmael can go. The subterranean miner that works in us all, how can one tell whither leads his shaft by the ever shifting, muffled sound of his pick? Who does not feel the irresistible arm drag? What skiff in tow of a seventy-four can stand still? For one, I gave myself up to the abandonment of the time and the place; but while yet all a-rush to encounter the whale, could see naught in that brute but the deadliest ill."

Billy Budd e Mersault: O Perigo da Proximidade

Em fevereiro de 2004, escrevi um artigo chamado O Golpe de Mersault, sobre as leituras e desleituras do romance O Estrangeiro, de Camus.

O Estrangeiro, de CamusSeduzidas pela narração aparentemente simples e sincera de Mersault, os leitores acabam lhe perdoando tudo. Ao final do livro, o leitor médio sacode a cabeça, dizendo: "Que absurdo! Julgado e condenado por não ter ido ao enterro da mãe!" Dá a impressão que o romance é sobre um pobre e inocente rapaz, incompreendido pela sociedade e condenado por um crime que não cometeu.

A graça (e a maioria das pessoas parece não se lembrar disso até que eu as cutuque) é que Mersault não é inocente. Ele é culpadíssimo. Ele matou sim o árabe, de modo fútil e intempestivo, e com certeza merece a pena que a lei reserva para tal crime: no caso, a guilhotina.

No caloroso debate que se seguiu (fui chamado de reacionário e tudo) um advogado de Minas fez o melhor comentário: o promotor colocou a vida e o caráter de Mersault em julgamento pois não tinha outra opção. Mersault matou o árabe por impulso, eles nem se conheciam. Não havia nenhum elemento do crime a se explorar, nenhuma relação possível entre assassino e vítima. Só restava ao promotor colocar a vida de Mersault em julgamento e mostrar como ele era o tipo de pessoa capaz de matar alguém tão futilmente.

E Billy Budd com isso?

* * *

Billy Budd , obra póstuma de Herman Melville, conta a história do personagem homônimo, Billy Budd, por Herman Melvillejovem marinheiro da Marinha de Guerra inglesa, em operações contra Napoleão. Ele é belo, forte, sensato, um ser humano perfeito: Adão antes da queda.

Um dos oficiais superiores, morto de inveja, acusa Billy de tentar fazer parte de um motim. Billy mata o oficial no ato, deixando o capitão em um doloroso dilema moral: por um lado, ele conhece o valor de Billy e o pouco caráter do oficial, e sabe que as acusações são falsas; por outro, como deixar impune um marinheiro que mata seu oficial superior?

O pobre Billy acaba enforcado, mas é tão gente-boa e entende tão bem o ponto de vista do capitão, que suas últimas palavras são vivas a ele e que deus o abençoe.

* * *

Roger Shattuck, em seu excelente Conhecimento Proibido , faz uma comparação entre os casos de Mersault e Billy Budd.Conhecimento Proibido ROGER SHATTUCK

Em ambos, temos um crime capital, cometido por impulso, e descrito quase que como um ato de inocência. Ambos assassinos são julgados e condenados à morte. Nenhum tenta se defender, ou sente remorsos ou angústia, e aceitam sua culpa placidamente.

A grande figura trágica de Billy Budd é o capitão do navio, Vere. Homem inteligente e sensível, ele é que tem que tomar a decisão difícil de condenar Billy à morte por seu crime. E ele paga o preço: quando morre, atormentado, poucos meses depois, é o nome de Billy que está em seus lábios. Vere não deixa que as qualidades de Billy o ceguem ao aspecto moral da questão.

Já em O Estrangeiro, o capitão Vere somos nós. Nós é que temos a obrigação moral de dar um passo atrás, tentar nos dissociar o suficiente de Mersault para que possamos entender a enormidade do crime que ele cometeu e, portanto, apoiarmos a justiça da punição.

Shattuck cita um ditado francês "Tudo entender é tudo perdoar". De certo modo, o problema com Mersault é somos tão arrastados para dentro dele que passamos a ver a questão através de seus olhos. E então perdoamos tudo.

Em outras palavras, sabemos tanto sobre os personagens e suas motivações que fica difícil (impossível, para a maioria dos leitores) conseguir formar julgamentos morais independentes.

Se o lobo entender o cordeiro, morre de fome: entender tudo é entender que nada poderia ser diferente do que é, ou seja, capitular ao status quo.

Ao nos aproximarmos demais do outro, perdemos nossa perspectiva de humanidade. Ao entrar em outra pessoa e conhecer seus sentimentos e motivações, podemos acabar entendendo e perdoando até atos criminosos ou, pior, nem mesmo reconhecendo-os como criminosos. De certo modo, todos somos culpados de alguma coisa em algum grau. Como então nos arrogarmos o direito de julgar outro?

E fica a pergunta: será que há coisas que não podemos saber? Será que excesso de conhecimento pode afetar a justiça?

* * *

Conhecimento Proibido é um dos melhores livros que já li. Nele, Roger Shattuck explora a noção do Conhecimento Proibido: será que existe conhecimento que não devemos possuir ou mesmo buscar? Para responder essa pergunta, o autor mergulha em leituras moralistas - na melhor acepção do termo - de clássicos universais e chega a conclusões inovadoras e surpreendentes.

Comprei Conhecimento Proibido em 1998, o meu ano sadeano, quando li quase toda a gigantesca obra do Sade e mais trocentos outros divertidíssimos livros sobre Sade. Eu confesso: Sade é até meio repetitivo mas ler os reprimidos acadêmicos de hoje tentando digerir o indigerível Sade e encaixá-lo em seus esqueminhas mentais é das coisas mais engraçadas que existem. A maior adota uma atitude submissa e empolgada, falando de Sade como se ele fosse um paladino da liberdade, um verdadeiro santo, que foi perseguido por falar a verdade - como se ele não tivesse cometido todos os crimes que cometeu. Outro, os mais reaças, descem o pau em Sade de forma simplista e nunca tentam entender as nuances de seu pensamento.

Shattuck dedica um terço do seu livro a fazer um estudo de caso genial de Sade, em que não cai em nenhum desses extremos, apesar de também descer o pau no francês maluco. Comprei o livro por causa desse terço, mas valeu mesmo pelos outros dois terços.

Através de Shattuck, eu li Frankenstein e O Estrangeiro de modo totalmente diferente. Por recomendação dele, eu comprei A Princesa de Cleves (está na fila) e, finalmente, li Billy Budd .

Vale muito a pena.

Mardi: Viagem sem Rumo

Depois de Moby Dick, por instigação de Borges (não diria que foi exatamente uma recomendação), embarquei em outro camalhaço de Melville: Mardi, de 1849, 600 e tantas páginas em fonte mínima, o romance imediatamente anterior à baleia branca.

Borges, depois que afirmar que Bartleby era kafkiano, volta atrás e se desmente sem um segundo de constrangimento (um dos motivos para amá-lo) e diz:

"Por lo demás, las páginas iniciales de
Bartleby no presientem Kafka; más bien aluden o repiten a Dickens... En 1849, Melville había publicado Mardi, novela inexplicable y aun ilegible, pero cuyo argumento esencial antecipa las obsesiones y el mecanismo de El Castillo, de El Proceso y de América: se trata de una infinita persecución, por un mar infinito."

Fiquei curioso. Encarei a fera. Montei-a até o fim do primeiro volume, trezentas e cinqüenta páginas depois. Discordo do Jorge Luis. Mardi nada tem de kafkiano.

Dois marinheiros desertam de um navio em um bote. Vagam pelos mares até topar com um grupo de polinésios que iam sacrificar uma jovem branca. Eles matam o sacerdote e resgatam a moça. Pouco depois, ela some e eles saem à busca, ilha por ilha, arquipélago por arquipélago. Enquanto isso, os três filhos do sacerdote também perseguem os dois marinheiros, para vingar a morte do pai.

As Cidades Invisíveis, de Ítalo CalvinoDe argumento, é isso. Não vi Kafka se escondendo em lugar algum. Pelo contrário, o romance parece aquelas típicas narrativas de viagens, tão comuns até uns cem anos atrás. Tirando alguns viajantes que se unem temporariamente à jornada, não há enredo ou personagens fixos em Mardi. Eles vão de ilha em ilha, descrevem as particularidades históricas, políticas, religiosas, geográficas, etc, de cada lugar, verificam que a moça não está lá, e partem para a próxima.

Borges também foi injusto. O livro não é ilegível. As histórias fluem bem, o estilo de Melville é divertido e delicioso - só não é, talvez, o que o leitor do século XX consideraria um romance. Apesar disso, uma outra obra-prima contemporânea tem uma estrutura bem parecida à Mardi: As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino.

O próprio Melville classificou Mardi de "chartless voyage."

Aviso aos monoglotas: Mardi, que eu saiba, nunca foi traduzido para o português.

Camille Paglia vs Moby Dick Sexo, Arte e Cultura Americana CAMILLE PAGLIA

Em teoria, eu adoro Crítica Literária. Nada poderia ser mais delicioso do que brincar de destrinchar livros atrás de novas conexões e novos significados.

Na prática, é um lixo. Ninguém sabe brincar. Os acadêmicos e críticos em geral são de uma pequenez liliputiana. Coisa de dar dó. Despejam jargões em cima de jargões e não dizem nada.

 Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertite à Emily Dickinson CAMILLE PAGLIASão poucas as pessoas que dá pra aturar falando de livros. Entre os escritores, Kundera e Borges estão no topo da lista. O Polzonoff tem seus momentos, ele chega lá se desistir da gentileza. Dentre os críticos acadêmicos, só há dois minimamente legíveis: Camille Paglia e Harold Bloom, não por acaso, discípula e mestre.

Personas Sexuais, por exemplo, é o meu verdadeiro guia da literatura. Todo mundo que vale a pena ser mencionado está lá. Paglia é louca, insensata, engraçada, insightful, genial. Se crítica literária é sobre criar novas conexões, então ela é a mestra do ramo.

Um velho escritor uma vez recomendou a um novato: arrisque. Se for cair, não suje só o joelho: estabaque-se de uma vez.

Naturalmente, o próprio destemor de Paglia é, ao mesmo tempo, sua grande arma e seu grande defeito. Quando ela surta, ela surta napoleonicamente.
Moby Dick, por Herman Melville
Quase sempre concordo com ela. Suas opiniões sobre Moby Dick, entretanto, são risíveis.

O fator redentor de Paglia é que, mesmo em seus surtos mais psicopatas, ela nunca se rende ao academês: escreve sempre em inglês claro e a única estranheza estilística de seus textos é causada por suas palavras-fetiche: ctoniano, apolíneo, dionisíaco, etc.

Outra coisa a se admirar em Paglia é que ela, realmente, sinceramente, completamente, só pensa em sexo. O tempo todo. Sem trégua. Por exemplo:

"Moby Dick, a chtonian epic, refuses to acknowledge the maternal as primary. Thus the novel sways back and forth between High Romanticism and Decandent Late Romanticism, between celebration of mighty nature and contorted resistance to it. (...) The great whale's "mightly mildness" is a homoerotic tenderness, part of the longing for comradeship that Melville shares with Whitman, Lawrence, and Foster."
Metamorfose, A FRANZ KAFKA
O lindo da literatura é que vale tudo. Quando estudávamos A Metamorfose, na aula de inglês avançado, nosso professor trouxe uma palestrante que nos deu uma visão freudiana da história.

Vocês sabiam, por exemplo, que a maçã que o pai de Gregor atira contra ele, se aloja em seu corpo e ali apodrece é, tchan tchan tchan, um símbolo fálico da luta por dominação masculina na casa? Ao atirar a maçã e escorraçar Gregor de volta ao quarto, o pai primordial confirma seu domínio viril. O apodrecimento da maçã simboliza o apodrecimento da virilidade, e até mesmo da humanidade, de Gregor, que morre logo depois, abandonado.

Enquanto a maioria dos colegas morriam de rir, eu fiquei boquiaberto. Percebi que, naquele jogo, valia a tudo - e essa era sua beleza.

Para Camille Paglia, naturalmente, tudo é um símbolo fálico: o navio, as tatuagens de Queequeg, a baleia, a perna-de-pau de Ahab, até mesmo uma nuvem que passava no céu naquele momento:

"The tax laid upon masculinity on Moby-Dick is evident in the burden of sexual symbolism borne by Captain Ahad, the Romantic outlaw. He stands upon the "dead stump" of an amputated leg, a sexual injury consistent with his one-night-stand marriage. His artificial leg nearly pierces his groin, leaving an incurable wound: he is thigh-torn Adonis, severed from mother nature by his "unsurrendable wilfulness." A missing limb lingers as a "pricking" phantom memory. Therefore the harpoon Ahab darts at Moby Dick is a phallic mental projection , born of frustrated desire. During his wildest speech, the harpoon lies "firmly lashed in its conspicuous crotch," a disturbingly suggestive phrase."

Aliás, como qualquer um que tem um cérebro e usa, ela também odeia a corja francesa, mas articula suas razões muito melhor que eu. Leiam Why I Hate Foucault:

"Forget Foucault! Reverently study the massive primary evidence of world history, and forge your own ideas and systems. Poststructuralism is a corpse. Let it stink in the Parisian trash pit where it belongs!"

Ela é minha deusa. Se eu fosse mulher, eu dava pra Camille Paglia.

Obras Completas

Herman MelvilleAssim que entrei na onda Melville, fui ao site do meu playground particular (a Biblioteca da PUC-RJ) ver o que eles tinham sobre o Melville. Para minha surpresa, encontrei as obras completas do homem. Para minha maior surpresa ainda, os três volumes, belissimamente encadernados, estavam virgens: uma doação do Consulado dos Estados Unidos incorporada ao acervo menos de três semanas antes.

Moby Dick, por Herman MelvilleMas não é por isso que os livros estavam virgens. Eu já fui a primeira pessoa a levar para casa muitos livros que estavam no acervo há mais de 20 anos.

Em um país de monoglotas preguiçosos, quanta gente vai se dispor a ler as obras completas de Melville, um autor complexo e de inglês arcaico, ainda mais quando a biblioteca tem vários
exemplares resumidos de Moby Dick em português? Afinal, estamos numa terra em que mesmo os formados em Literatura Inglesa acham difícil ler Shakespeare no original.

Dá vontade de levar os livros pra casa. Para todos os fins e efeitos, são meus.

Um amigo me consolou: pensa só, se você e outros três malucos ao longo dos próximos 50 anos lerem esses livros, o investimento do Consulado já terá valido a pena.

Talvez. Mas é triste.

Leia Pacto da Mediocridade.

Moby Dick, Um dos Maiores Livros de Todos os Tempos

Moby Dick, por Herman MelvilleA Grande Conversa é o diálogo, travado há milhares de anos, entre asIrmãos Karamázov, FIODOR DOSTOIEVSKI grandes mentes da humanidade. Os clássicos não são só livros consagrados: eles são as vozes da Grande Conversa, pontos de vista conflitantes, discussões empolgantes. Esses livros não estão mortos: eles falam, eles gritam, eles choram, uns com os outros, o tempo todo. Heráclito teoriza, Aquino racionaliza, Cervantes ri, Descartes sugere uma outra opção, Kant contextualiza e Marx destrói. Um grande diálogo.

O meu inestimável guia pela Grande Conversa tem sido a coleção Great Books of the Western World, publicada pela Encyclopedia Brittanica. Raras vezes essa coleção me desapontou. Tendo que fazer uma seleção duríssima, eles utilizaram critérios rigorosos e o resultado foi impecável.

Entretanto, questiono a presença de Moby Dick. O século XIX foi talvez o apogeu do romance e a coleção nos oferece três representantes: Guerra e Paz, Os Irmãos Karamazovi e... Moby Dick.

Sinceramente, será que Moby Dick é mesmo um dos três maiores romances do século XIX?

Guerra e Paz, TolstoiOnde estão Balzac, Flaubert, Queiroz, Galdós, James, Conrad, Brontë - só para citar alguns? Como pode uma lista dos maiores romances do século XIX não incluir Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes)?!

Moby Dick é muito bom, mas nem tanto. Sinceramente, só entrou por ser americano. Morro dos Ventos Uivantes, O EMILY BRONTE

Leitura Ecológica de Moby Dick

A leitura tradicional de Moby Dick identifica na baleia uma representação do Mal e, em Ahab, um perseguidor tão implacável que acaba se confundindo com seu perseguido. Como diria um bigodudo amigo meu, você olha no abismo e o abismo olha em você.

Mas cada livro pertence à geração que o lê. E eu, bem ou mal, sou de uma geração politicamente correta. Já passei dois anos sem comer qualquer tipo de cadáver e, ainda hoje, evito carne morta.

Então, vocês vão me desculpar, mas, em pleno 2004, foi difícil não fazer uma leitura ecológica de Moby Dick.

O romance foi escrito em 1850, quando a indústria baleeira estava no seu auge. As baleias eram caçados por seu óleo, usado para acender lampiões. Pouco depois, com a difusão do querosene, muito mais prático e barato, a caça às baleias perdeu força.

Ismael gasta um terço do livro, ou mais, descrevendo todas as facetas possíveis e imaginárias das baleias cachalote. Ao final, quem não compreensivelmente pulou esses trechos estará sabendo quantos quadros foram pintados sobre caça a baleia, quantos livros tratam do assunto, como elas protegem seus filhotes, do que se alimentam, até qual é o tamanho do seu pau.
Moby Dick, por Herman Melville

Quanto mais o livro descreve as baleias reais, mais difícil fica de engolir sua própria linguagem pomposa e dramática, referindo-se a elas como leviatãs e monstros das profundezas. Quanto mais conhecemos as baleias reais, mais difícil fica vê-las como símbolos do mal e, seus algozes, como santos heróis peregrinos, buscando a iluminação da humanidade em um combate sem fim contra tais criaturas.

Abaixo, um trecho que me marcou particularmente, o golpe de misericórdia em uma velha baleia agonizante:

"As the boats now more closely surrounded him, the whole upper part of his form, with much of it that is ordinarily submerged, was plainly revealed. His eyes, or rather the places where his eyes had been, were beheld. As strange misgrown masses gather in the knot-holes of the noblest oaks when prostrate, so from the points which the whale's eyes had once occupied, now protruded blind bulbs, horribly pitiable to see. But pity there was none. For all his old age, and his one arm, and his blind eyes, he must die the death and be murdered, in order to light the gay bridals and other merry-makings of men, and also to illuminate the solemn churches that preach unconditional inoffensiveness by all to all."

Digno de nota também é o capítulo 87, A Grande Armada, onde o Pequod encontra um enorme cardume de baleias. Enquanto as pobres criaturas tentam fugir e proteger seus filhotes, os baleeiros promovem um verdadeiro massacre.

Hmmmm. Era pra eu ficar do lado de quem mesmo?

Não sei vocês, mas lá pelo meio do livro eu já estava torcendo ardentemente para Moby Dick matar aqueles filhos da puta todos. Teria sido um anti-clímax se o Pequod não afundasse.

Fica a dúvida: terá sido de propósito? Terá Melville humanizado as baleias para nos colocar do lado delas? Será essa a função dos famosos, longuíssimos e chatíssimos trechos sobre cetologia?

Diria que não: anacrônico demais.

Para Melville, a baleia podia ser inteligente, ter olhar profundo, proteger seus filhotes mas, when all is said and done, era caça e pronto. Um monstro dos mares a ser abatido e morto para iluminar os casamentos dos homens.

O Pau da Baleia Moby Dick, por Herman Melville

Quando eu era pequeno, eu li em algum almanaque que a baleia azul tinha o maior pau do mundo: três metros de comprimento. Foi uma coisa que nunca mais esqueci. Três metros. Eu tinha pesadelos com isso: eu estava nadando, começava a tocar aquela musiquinha do Tubarão e vinha saindo da água aquele pauzão em riste de uma baleia azul tarada querendo comer meu rabo. E eu acordava gritando.

Mas restava uma dúvida: caramba, qual será o diâmetro disso? Afinal, uma coisa é um pau de três metros de comprimento por um de diâmetro, outra é um gravetão de três metros de comprimento por três centímetros de diâmetro.

Pois Moby Dick tem um capítulo (95) dedicado exclusivamente ao pênis da baleia. Isso mesmo. Eu não falei que Melville diz absolutamente tudo que pode ser dito sobre as baleias?

Enfim, o pau de uma baleia azul tem cerca de trinta centímetros de diâmetro. Respeitável.

Última: em inglês, o pau da baleia tem até nome, dork. Ou seja, quando você xinga alguém de dork, está chamando-o de pau de baleia.

Por Que Moby Dick É Tão Chato?

Há muitos anos, uma pesquisa realizada em universidades americanas elegeu Moby Dick o clássico mais chato de todos os tempos - e Crime e Castigo, o mais acessível. Um resultado justíssimo.

A primeira coisa que um leitor de Moby Dick tem que admitir, mesmo que adore o livro, como eu adorei, é que Moby Dick é muito, muito chato. Moby Dick é deliberadamente, desnecessariamente, dolorosamente chato.Crime e Castigo FIODOR DOSTOIEVSKI


A grande pergunta que qualquer leitor sério deve se fazer, a pergunta que tem que ser levantada antes de acabarmos essa série, é:

Por que Moby Dick é tão chato?

* * *

 Taipi, Paraíso de Canibais HERMAN MELVILLENada seria mais fácil do que descartar a competência de Melville (Pô, esse cara não sabe nem contar uma história!), fechar o livro e ir assistir uma reprise de Baywatch. E nada mais burro.

Como explico em A Infalibilidade do Autor, é importante dar o benefício da dúvida aos autores. Não para benefício deles, mas nosso, como leitores.

Então, vamos supor que Melville não é retardado. Que o homem que escreveu Benito Cereno , Bartleby, Taipi e Omoo tinha um completo domínio das técnicas narrativas. Que Melville sabia que 98% dos seus leitores não tinham nenhum interesse específico por cachalotes e muito menos pelo nível de minúcias que ele supre.

Por que, então, Melville ocupa grande parte de seus romance com cetologia? Por que ele interrompe a própria narrativa para fornecer, rigorosamente, todo o conhecimento que a humanidade então possuía sobre cachalotes?


Diz Camille Paglia:

"The novel's non-fiction sections, surveying the whale and its species, (...) aspire to epistemology, organizing the known, if only to dramatize what cannot be known."

Um dos leitores desse blog, o Letra Morta, também teve uma opinião interessante:

"Moby Dick me deu até raiva quando li. Era só aquele papo de caçar cetáceos, abri-los e prepará-los, encontrar um ou outro barco e navegar, navegar e nada do bicho aparecer. Os últimos capítulos, li praticamente à força. Só meses depois de haver lido, percebi que era a sensação exata do capitão: tédio, frustração e raiva por nunca conseguir confrontar o inimigo. Aí tive que aplaudir o autor: eu fui Ahab durante aqueles dias leitura sofrida."

Moby Dick, por Herman MelvilleGosto das duas explicações.

A obsessão monomaníaca de Melville em estudar cada aspecto da baleia só se compara à de Ahab em caçar Moby Dick. Ao enfatizar tudo o que sabemos, Melville consegue ressaltar ainda mais tudo o que não sabemos e torna ainda mais aterrorizante o leviatã das profundezas.

Como disse Borges, "omitir siempre una palabra, recurrir a metáforas ineptas y a perífrasis evidentes, es quizá el modo más enfático de indicarla."

E gosto ainda mais do que disse o Letra Morta (rapaz, como odeio me referir a pessoas por esses nicks ridículos!): a estrutura de Moby Dick nada mais é do que um artifício literário para tentar passar ao leitor o ônus de ser Ahab, to make the readers walk on Ahab's shoes, ops, shoe.

Tudo o que o leitor sente, o tédio, a frustração, a angústia, a vontade de largar tudo, a imensidão das páginas (em oposição à imensidão do mar), tudo isso nada mais é do que experimentar, em pequeníssima escala, o drama de Ahab.

Não sei se concordo completamente com ambas as explicações, mas enquanto não tiver a minha, vou ficando com elas.

O Final Apocalíptico de Moby Dick

Moby Dick pode ser chato o quanto quiser. O livro continuará pra sempre na lista dos grandes clássicos da humanidade pois nenhum outro livro tem um final tão sensacional. Grande Sertão: Veredas JOAO GUIMARAES ROSA

Saber o final atrapalha alguns livros. Por exemplo, se eu pudesse voltar no tempo, uma das coisas que eu faria seria ler Grande Sertão Veredas sem saber vocês-sabem-o-quê. (Você, que não sabe, aproveite. Não escute nada o que lhe disserem sobre o livro e vá lê-lo, rápido!, antes que seja tarde demais!)

No caso de Moby Dick, não. Saber que o Pequod afundará e que todos morrerão só adiciona ainda mais angústia ao drama inevitável. Os últimos 30 capítulos são das melhores coisas já escritas.

Para cada detrator que largou o livro no meio, sempre haverão os heróis que foram até o fim e que defenderão Moby Dick até a morte.

Terminada a chatíssima cetologia, o enredo pega velocidade rapidamente, entremeando tragédias paralelas e cumulativas até o final inevitável.

O imediato Starbuck tenta resistir mas, simplesmente, não é forte o suficiente. Ahab chega a caçoar dele: "ele se faz de bravo, mas sempre obedece, uma bravura muito cautelosa." O próprio Ahab tem dúvidas, mas segue sempre em frente. Em um solilóquio digno de Shakespeare, ele diz:

"What is it, what nameless, inscrutable, unearthly thing is it; what cozening, hidden lord and master, and cruel, remorseless emperor commands me; that against all natural lovings and longings, I so keep pushing, and crowding, and jamming myself on all the time; recklessly making me ready to do what in my own proper, natural heart, I durst not so much as dare? Is Ahab, Ahab? Is it I, God, or who, that lifts this arm? But if the great sun move not of himself; but is an errand-boy in heaven; nor one single star can revolve, but by some invisible power; how then can this one small heart beat; this one small brain think thoughts; unless God does that beating, does that thinking, does that living, and not I. By heaven, man, we are turned round and round in this world, like yonder windlass, and Fate is the handspike."

Moby Dick, por Herman MelvilleE, mais adiante, já na borda do precipício, ele rebate a última tentativa de Starbuck:

"Ahab is for ever Ahab, man. This whole act's immutably decreed. 'Twas rehearsed by thee and me a billion years before this ocean rolled. Fool! I am the Fates' lieutenant; I act under orders. Look thou, underling! that thou obeyest mine."

Diante disso, não há mais como voltar atrás.

* * *

O mais incrivel do final de Moby Dick é a sua força avassaladora, sua total finalidade, sua completa ausência de redenção.

Nas palavras do crítico Richard Sewall:

"As Ahab in his whaleboat watches the Pequod founder under the attack of the whale, he realizes that all is lost. He faces his "lonely death on lonely life," denied even "the last fond pride of meanest shipwrecked captains," the privilege of going down with his ship. But here, at the nadir of his fortunes, he sees that in his greatest suffering lies his greatest glory. He dies spitting hate at the whale, but he does not die cynically or in bitterness. The whale conquers--- but is "unconquering." The "god-bullied hull" goes down "death-glorious." What Ahab feels is not joy, or serenity, or goodness at the heart of things. But with his sense of elation, even triumph, at having persevered to the end, there is also a note of reconciliation: "Oh, now I feel my topmost greatness lies in my topmost grief." This is not reconciliation with the whale, or with the malice in the universe, but it is a reconciliation with Ahab with Ahab. Whatever justice, order, or equivalence there is, he has found not in the universe but in himself. He is neither "sultan" now nor "old fool." In finally coming to terms with existence (though too late), he is tragic man; to the extent that he transcends it, finds "greatness" in suffering, he is tragic hero.
Moby Dick, por Herman Melville

Melville did not dramatize further this final phase of Ahab's course, and therein lies the peculiarly shocking nature of the book. It is as if we left Job at the end of one of his diatribes or Oedipus at his self-blinding or Lear as he curses his daughters and plunges into the storm. Even with this final insight of Ahab's, the ending seems too dire for tragedy. It seems to deny the future; when the Pequod sinks, all seems lost; and there is no further comment, no fifth-act compensations to let in a little hope. The only comment is the action itself, the total action from beginning to end, all the good and the evil it uncovers."


***

Meu último conselho: não caia na tentação de largar Moby Dick. Se já largou, pegue lá o livro de volta e leia só o final.

Você não vai se arrepender.

Postada no blog em Novembro, 2004

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