Tirei o mês para ler
algumas das principais obras do norte-americano Herman
Melville (1819-1891):
Bartleby, o Escrituário,
Billy Budd ,
Benito Cereno e, claro,
Moby Dick . Ficaram faltando apenas alguns de seus
primeiros romances não tão badalados.

Foi por acaso. Estava há anos querendo ler
Bartleby e, de repente, o encontrei na Berinjela. Li.
Adorei. Todos os outros eu já tinha aqui em casa, mas
largados. Já começara
Billy Budd e
Moby Dick e não conseguira terminar. No impulso de
Bartleby, entretanto, li
Billy Budd e
Benito Cereno de uma só vez. Então pensei, caramba, já
li as três principais histórias do homem, I'm on a roll, se
não ler
Moby Dick agora, não leio nunca mais.
E li.
A partir de hoje, estou começando uma série de artigos
independentes sobre diversos aspectos da obra de
Melville.
Moby Dick,
Romance Infinito
Quando lançou
Moby Dick , em 1851, aos 32 anos, Herman
Melville já era um autor conhecido.
Ele se popularizou na casa dos 20, com alguns livros sobre
suas experiências entre canibais da Ásia. Eram histórias de
aventuras dos Mares do Sul, bobinhos. Aos 30,
Melville decidiu alçar vôos mais altos: investiu todo o
seu talento e erudição em
Moby Dick , contando com ele para resgatar sua reputação
literária e pagar suas dívidas.
O livro foi lançado nos Estados Unidos em 14 de novembro de
1851. Nesse dia, o autor e seu grande amigo, Nathaniel
Hawthorne, jantaram, fumaram charutos, beberam um porto e
celebraram o futuro. De acordo com seu biógrafo, foi o dia
mais feliz da vida de
Melville.
Nesse mesmo dia, chegaram ao porto de Boston as primeiras
resenhas dos jornais da Inglaterra, onde
Moby Dick havia sido publicado um mês antes. O livro foi
destroçado pelos críticos. A imprensa americana,
aparentemente, não se deu ao trabalho de ler: repetiu as
mesmas críticas. Uma catástrofe.
Depois de
Moby Dick , nem mesmo sua reputação de escritor de
aventuras sobreviveu. A Baleia Branca, não satisfeita em
afundar o Pequod e matar quase todos à bordo, também
sepultou a carreira literária de seu autor.
Melville passou os 40 anos seguintes no anonimato.
Quando morreu, ninguém nem lembrou.
Moby Dick não é tão ruim quanto disse a imprensa da
época, e muito menos é tão bom quanto diz a inteligentsia
americana de hoje. Mas é uma leitura agradável, inteligente
e interessante.
Borges considera
Moby Dick o romance infinito, e explica:
"Página por página, el relato se
agranda hasta usurpar el tamaño del cosmos: al principio el
lector puede suponer que su tema es la vida miserable de los
arponeros de ballenas; luego, que el tema es la locura del
capitán Ahab, ávido de acosar y destruir la Ballena Branca;
luego, que la Ballena y Ahab y la persecución que fatiga los
oceános del planeta son símbolos y espejos del Universo."
Bartleby,
o Escrituário
Bartleby,
O Escrituário (Bartleby,
the Scrivener) é, na minha opinião, a obra-prima de
Melville, uma pequena jóia, perfeita, bela.
A história é narrada por um advogado de Wall Street que
emprega um time de copistas em seu escritório - parece que a
máquina de xerox estava quebrada. Até que um dos copistas,
Bartleby, simplesmente decide que não vai mais
trabalhar. "I would prefer not to", ele diz.
(Nesse ponto, como sempre, os monoglotas começam a ser
estrepar. "I would prefer not to" torna-se o verdadeiro
mantra de
Bartleby, dos outros funcionários do escritório e do
próprio livro. Mas a frase em português, "eu preferiria
não", não transmite nada da estranheza da construção
original. Parte da excentricidade de
Bartleby está em sua escolha de palavras: para um
americano "I would prefer not to" soa exótico e arcaico. Ao
traduzir isso para o familiar "eu preferiria não", a
tradução rouba do leitor brasileiro a chance de partilhar
dessa estranheza. Quer dizer, estou falando por suposição,
não vi a tradução em português.)
O tema da loucura contagiosa parece recorrente em
Melville. Aos poucos, todos vão sendo contagiados pela
excentricidade de
Bartleby. O próprio chefe, considerando-se unido ao
destino do funcionário, acompanha-o até o final melancólico.
Bartleby destoa de toda a obra de
Melville. Amigo de um estilo rebuscado e pomposo, aqui
Melville escreve de forma simples e direta, aumentando
ainda mais o contraste com as ações inexplicáveis de
Bartleby e de todos a sua volta. A combinação de
linguagem simples com acontecimentos insólitos prefigura
Kafka e, talvez até, o realismo fantástico do século XX.
K. e o agrimensor são todos descendentes de
Bartleby.
Opina
Borges:
"La obra de Kafka proyecta sobre
Bartleby
una curiosa luz ulterior.
Bartleby
define ya un género que hacia 1919 reinventaría y
profundizaría Franz Kafka: el de las fantasías de la
conducta y del sentimiento o, como ahora malamente se dice,
psicológicas."
O indispensável Projeto
Bartleby tem seu nome, obviamente, por causa do
personagem de
Melville.
Billy Budd
Billy Budd , obra póstuma, só foi publicada mais de 30
anos depois da morte de
Melville.
Já escritor conhecido por seus livros de aventuras,
Melville decidiu alçar vôos mais altos e escreveu
Moby Dick . Difícil acreditar que um
Moby Dick foi escrito por um rapaz de 30 anos que passou
boa parte de sua vida no mar. Parece mais obra de um pedante
sessentão com um vocabulário rebuscado demais para o seu
próprio bem.
Moby Dick sepultou a carreira literária de
Melville e ele passou os 40 anos seguintes no anonimato.
Quando morreu, em 1891, estava revisando
Billy Budd . Ele foi encontrado, editado e publicado em
1924, ajudando no revival da reputação do autor.
Em termos de linguagem,
Billy Budd é muito pior que
Moby Dick . Poucas vezes vi um livro tão conscientemente
pomposo, com frases longas que se emendam umas nas outras,
palavras fora de uso, construções arcaicas e confusas.
Apesar disso, a história vale a pena.
Billy Budd , jovem marinheiro inglês, é belo, forte,
sensato, um ser humano perfeito, um Adão antes da queda. Um
dos oficiais superiores, morto de inveja, acusa Billy de
tentar fazer parte de um motim. Billy mata o oficial no ato,
deixando o capitão em um doloroso dilema moral: por um lado,
ele conhece o valor de Billy e o pouco caráter do oficial, e
sabe que as acusações são falsas; por outro, como deixar
impune um marinheiro que mata seu oficial superior?
O Navio de
Billy Budd
Minha
leitura de
Billy Budd foi influenciada por um incidente
interessante. Na contracapa de minha edição, da Penguin, há
o seguinte blurb: "The last great work
of
Melville's
seafaring genius was
Billy Budd
, Sailor, set aboard H.M.S.
Bellipotent."
Eu confesso: me apaixonei pelo nome. Caramba, H.M.S.
Bellipotent! Pode um nome de navio ser mais forte, sonoro,
vibrante? Não sei qual é a história do livro, mas qualquer
coisa que aconteça dentro do H.M.S. Bellipotent, em campanha
contra a França revolucionária, me interessa.
E fui lendo, lendo e lendo. Nada do H.M.S. Bellipotent.
Billy começa o livro servindo no H.M.S. Rights of Man (outro
nome interessantíssimo, no contexto da Revolução Francesa) e
logo é transferido pro H.M.S. Indomitable, um nome bobo de
tão comum. E eu esperando: quando é que esse homem vai
passar pro Bellipotent?!
Pois acabou o livro e nada do Bellipotent. Fiquei revoltado.
Propaganda enganosa. Como é que a Penguin, que eu sempre
amei, faz isso comigo? Que erro amador foi esse de errar o
nome do navio na contracapa?
Não sei como a história teria acabado sem a Internet. Talvez
eu ficasse com essa história me encucando pra sempre. Talvez
eu mandasse uma carta pra editora. Em 2004, uma simples
busca no Google já solucionou o mistério.
Melville morreu quando estava revisando
Billy Budd . Em algumas partes do livro, o navio é
chamado de Bellipotent (6 vezes), em outras, Indomitable
(25).
Estranhamente, não há uma edição final unânime de
Billy Budd . Vários grupos de estudiosos fizeram
leituras diferentes dos originais deixados por
Melville, gerando enormes diferenças em termos de ordem
de capítulos, trechos excluídos e incluídos e até no nome do
navio. Um grupo acha que o nome original era Indomitable e
que as seis referências ao Bellipotent significam que
Melville pretendia mudar o nome na versão final.
Naturalmente, outro grupo de estudiosos pensa rigorosamente
o oposto, baseados nas mesmas evidências.
O estranho é um grupo ter editado o texto da minha edição e
outro ter feito a contracapa.
Benito Cereno
Benito Cereno é uma história de mistério e terror, com
atmosfera e caracterização maestrais. Aqui,
Melville, graças a poseidon, dá um tempo ao dicionário,
desiste da linguagem empolada e investe em mood.
O protagonista é o Capitão Amasa Delano, um wholesome
whitebread American sea captain: otimista, ingênuo, feliz.
Em uma ilha deserta na costa do Chile, ele encontra um navio
à deriva e, solícito, prontamente oferece assistência.
Através dos olhos de Delano, somos levados a um passeio por
uma atmosfera sufocante, misteriosa e aterradora. Nada é o
que parece no navio abandonado. Uma ansiedade crescente vai
tomando conta de nós a medida que tentamos entender o
ambiente. Algo parece estar seriamente errado. Ou não? Mas o
quê? E para adicionar irritação à tensão, só o serelepe e
bem-intencionado capitão Delano parece não perceber o que
está acontecendo.
O ponto de vista de Delano é um toque de gênio de
Melville. Anos mais tarde, Conan Doyle popularizaria o
recurso do "narrador burro" em suas histórias de Sherlock
Holmes, transformando-o no clichê que é hoje.
Para os brasileiros, há um outro interesse na história: o
navio à deriva transportava escravos negros e o problema da
escravidão é central ao livro.
Melville não se posiciona e caberá a nós responder: a
escravidão corrompe? Ou melhor, a quem ela corrompe? Ao
escravizado, ao escravizador, ou a ambos?
Comentário de
Borges:
"Benito
Cereno segue suscitando
polémicas. Hay quien lo juzga la obra maestra de
Melville
y una de las obras maestras de la literatura. Hay quien lo
considera un error o una serie de errores. Hay quien ha
sugerido que Herman
Melville
se propuso la escritura de um texto deliberadamente
inexplicable que fuera un símbolo cabal de este mundo
también inexplicable."
Primeira
Pessoa Onisciente em
Moby Dick
Eu sabia que era impossível
eu ter inventado a narração em
primeira pessoa onisciente, mas ainda não havia topado com
ela até hoje. Quem reclama que Carla, a narradora de
Mulher de Um Homem Só, conta coisas que não poderia
saber, deveria ler
Moby Dick para conferir quantos dos pensamentos, emoções
e segredos de Ahab parecem estar na ponta da língua de
Ismael.
Só isso, já valeu o livro.
A Importância da
Revisão
Evolução de uma primeira
frase:
You may refer to me as Mr. Tackletenberry, Ishmael
Tackletenberry the Third, in person, at your service, if you
please.
You may address me as Mr. Tackletenberry,
Ishmael, if you please.
You may call me Mr. Tackletenberry,
if you don't mind.
You may call me Ishmael
Tackletenberry.
Call me Ishmael.
Basta a
Loucura de Um Homem para Enlouquecer o Mundo

Foi muito interessante ter
embarcado (literalmente embarcado) na leitura da obra de
Melville nesse final de outubro e começo de novembro de
2004.
O tema da loucura contagiosa parece recorrente em
Melville. Aos poucos, todos vão sendo contagiados pela
excentricidade de
Bartleby. Seu mantra, "I would prefer not to", acaba
invadindo o vocabulários dos outros funcionários. O próprio
chefe, considerando-se unido ao destino de
Bartleby, acompanha-o até o final melancólico.
Em
Moby Dick , mais ainda, a loucura obssessiva de Ahab vai
contagiando um a um todos os membros da sua tripulação, um a
um, até os mais prudentes e cautelosos, e acaba levando
todos a um verdadeiro frenesi de sangue - e, finalmente, à
morte.
A grande mensagem, como apontou
Borges, parece ser que basta que um homem seja louco
para que arraste todo mundo à loucura junto com ele.
E
foi exatamente assim que me senti vendo a América de
Melville, uma nação democrática e iluminada, na mais
filosófica acepção do termo, sendo arrastada às trevas e à
loucura coletiva por causa da demência e obsessão de um só
homem.
Às vezes, basta um capitão perneta. Noutras, um terrorista e
três aviões.
* * *
Diz
Borges:
"La monomania de Ahab perturba y
finalmente aniquila a todos los hombres del barco; el
cándido nihilismo de
Bartleby
a sus compañeros y aun el estólido señor que refiere su
historia y que le abona sus imaginarias tareas. Es como se
Melville
hubiera escrito: 'Basta que sea irracional un solo hombre
para que otros lo sean y para que lo sea todo el universo."
Sobre a loucura de Ahab:
"Human madness is oftentimes a cunning
and most feline thing. When you think it fled, it may have
but become transfigured into some still subtler form. Ahab's
full lunacy subsided not, but deepeningly contracted. (...)
As in his narrow-flowing monomania, not one jot of Ahab's
broad madness had been left behind; so in that broad
madness, not one jot of his great natural intellect had
perished. That before living agent, now became the living
instrument. If such a furious trope may stand, his special
lunacy stormed his general sanity, and carried it, and
turned all its concentred cannon upon its own mad mark; so
that far from having lost his strength, Ahab, to that one
end, did now possess a thousand fold more potency than ever
he had sanely brought to bear upon any one reasonable
object."
A
loucura contagiante:
"Here, then, was this grey-headed,
ungodly old man, chasing with curses Job's whale round the
world, at the head of a crew, too, chiefly made up of
mongrel renegades, and castaways, and cannibals- morally
enfeebled also, by the incompetence of mere unaided virtue
or right-mindedness in Starbuck, the invunerable jollity of
indifference and recklessness in Stubb, and the pervading
mediocrity in Flask. Such a crew, so officered, seemed
specially picked and packed by some infernal fatality to
help him to his monomaniac revenge. How it was that they so
aboundingly responded to the old man's ire- by what evil
magic their souls were possessed, that at times his hate
seemed almost theirs; the White Whale as much their
insufferable foe as his; how all this came to be- what the
White Whale was to them, or how to their unconscious
understandings, also, in some dim, unsuspected way, he might
have seemed the gliding great demon of the seas of life,-
all this to explain, would be to dive deeper than Ishmael
can go. The subterranean miner that works in us all, how can
one tell whither leads his shaft by the ever shifting,
muffled sound of his pick? Who does not feel the
irresistible arm drag? What skiff in tow of a seventy-four
can stand still? For one, I gave myself up to the
abandonment of the time and the place; but while yet all
a-rush to encounter the whale, could see naught in that
brute but the deadliest ill."
Billy Budd
e
Mersault:
O Perigo da Proximidade
Em fevereiro de 2004,
escrevi um artigo chamado
O Golpe de Mersault, sobre as leituras e desleituras do
romance
O Estrangeiro, de Camus.
Seduzidas
pela narração aparentemente simples e sincera de
Mersault, os leitores acabam lhe perdoando tudo. Ao
final do livro, o leitor médio sacode a cabeça, dizendo:
"Que absurdo! Julgado e condenado por não ter ido ao enterro
da mãe!" Dá a impressão que o romance é sobre um pobre e
inocente rapaz, incompreendido pela sociedade e condenado
por um crime que não cometeu.
A graça (e a maioria das pessoas parece não se lembrar disso
até que eu as cutuque) é que
Mersault não é inocente. Ele é culpadíssimo. Ele matou
sim o árabe, de modo fútil e intempestivo, e com certeza
merece a pena que a lei reserva para tal crime: no caso, a
guilhotina.
No caloroso debate que se seguiu (fui chamado de reacionário
e tudo) um advogado de Minas fez o melhor comentário: o
promotor colocou a vida e o caráter de
Mersault em julgamento pois não tinha outra opção.
Mersault matou o árabe por impulso, eles nem se
conheciam. Não havia nenhum elemento do crime a se explorar,
nenhuma relação possível entre assassino e vítima. Só
restava ao promotor colocar a vida de
Mersault em julgamento e mostrar como ele era o tipo de
pessoa capaz de matar alguém tão futilmente.
E
Billy Budd com isso?
* * *
Billy Budd , obra póstuma de Herman
Melville, conta a história do personagem homônimo,
jovem
marinheiro da Marinha de Guerra inglesa, em operações contra
Napoleão. Ele é belo, forte, sensato, um ser humano
perfeito: Adão antes da queda.
Um dos oficiais superiores, morto de inveja, acusa Billy de
tentar fazer parte de um motim. Billy mata o oficial no ato,
deixando o capitão em um doloroso dilema moral: por um lado,
ele conhece o valor de Billy e o pouco caráter do oficial, e
sabe que as acusações são falsas; por outro, como deixar
impune um marinheiro que mata seu oficial superior?
O pobre Billy acaba enforcado, mas é tão gente-boa e entende
tão bem o ponto de vista do capitão, que suas últimas
palavras são vivas a ele e que deus o abençoe.
* * *
Roger
Shattuck, em seu excelente
Conhecimento Proibido , faz uma comparação entre os
casos de
Mersault e
Billy Budd.
Em ambos, temos um crime capital, cometido por impulso, e
descrito quase que como um ato de inocência. Ambos
assassinos são julgados e condenados à morte. Nenhum tenta
se defender, ou sente remorsos ou angústia, e aceitam sua
culpa placidamente.
A grande figura trágica de
Billy Budd é o capitão do navio, Vere. Homem inteligente
e sensível, ele é que tem que tomar a decisão difícil de
condenar Billy à morte por seu crime. E ele paga o preço:
quando morre, atormentado, poucos meses depois, é o nome de
Billy que está em seus lábios. Vere não deixa que as
qualidades de Billy o ceguem ao aspecto moral da questão.
Já em
O Estrangeiro, o capitão Vere somos nós. Nós é que temos
a obrigação moral de dar um passo atrás, tentar nos
dissociar o suficiente de
Mersault para que possamos entender a enormidade do
crime que ele cometeu e, portanto, apoiarmos a justiça da
punição.
Shattuck cita um ditado francês "Tudo entender é tudo
perdoar". De certo modo, o problema com
Mersault é somos tão arrastados para dentro dele que
passamos a ver a questão através de seus olhos. E então
perdoamos tudo.
Em outras palavras, sabemos tanto sobre os personagens e
suas motivações que fica difícil (impossível, para a maioria
dos leitores) conseguir formar julgamentos morais
independentes.
Se o lobo entender o cordeiro, morre de fome: entender tudo
é entender que nada poderia ser diferente do que é, ou seja,
capitular ao status quo.
Ao nos aproximarmos demais do outro, perdemos nossa
perspectiva de humanidade. Ao entrar em outra pessoa e
conhecer seus sentimentos e motivações, podemos acabar
entendendo e perdoando até atos criminosos ou, pior, nem
mesmo reconhecendo-os como criminosos. De certo modo, todos
somos culpados de alguma coisa em algum grau. Como então nos
arrogarmos o direito de julgar outro?
E fica a pergunta: será que há coisas que não podemos saber?
Será que excesso de conhecimento pode afetar a justiça?
* * *
Conhecimento Proibido é um dos melhores livros que já
li. Nele, Roger
Shattuck explora a noção do
Conhecimento Proibido: será que existe conhecimento que
não devemos possuir ou mesmo buscar? Para responder essa
pergunta, o autor mergulha em leituras moralistas - na
melhor acepção do termo - de clássicos universais e chega a
conclusões inovadoras e surpreendentes.
Comprei
Conhecimento Proibido em 1998, o meu ano sadeano, quando
li quase toda a gigantesca obra do Sade e mais trocentos
outros divertidíssimos livros sobre Sade. Eu confesso: Sade
é até meio repetitivo mas ler os reprimidos acadêmicos de
hoje tentando digerir o indigerível Sade e encaixá-lo em
seus esqueminhas mentais é das coisas mais engraçadas que
existem. A maior adota uma atitude submissa e empolgada,
falando de Sade como se ele fosse um paladino da liberdade,
um verdadeiro santo, que foi perseguido por falar a verdade
- como se ele não tivesse cometido todos os crimes que
cometeu. Outro, os mais reaças, descem o pau em Sade de
forma simplista e nunca tentam entender as nuances de seu
pensamento.
Já
Shattuck dedica um terço do seu livro a fazer um estudo
de caso genial de Sade, em que não cai em nenhum desses
extremos, apesar de também descer o pau no francês maluco.
Comprei o livro por causa desse terço, mas valeu mesmo pelos
outros dois terços.
Através de
Shattuck, eu li Frankenstein e
O Estrangeiro de modo totalmente diferente. Por
recomendação dele, eu comprei A Princesa de Cleves (está na
fila) e, finalmente, li
Billy Budd .
Vale muito a pena.
Mardi: Viagem sem Rumo
Depois de
Moby Dick, por instigação de
Borges (não diria que foi exatamente uma recomendação),
embarquei em outro camalhaço de
Melville: Mardi, de 1849, 600 e tantas páginas em fonte
mínima, o romance imediatamente anterior à baleia branca.
Borges, depois que afirmar que
Bartleby era
kafkiano, volta atrás e se desmente sem um segundo de
constrangimento (um dos motivos para amá-lo) e diz:
"Por lo demás, las páginas iniciales de
Bartleby no
presientem
Kafka; más bien
aluden o repiten a Dickens... En 1849,
Melville había
publicado Mardi, novela inexplicable y aun ilegible, pero
cuyo argumento esencial antecipa las obsesiones y el
mecanismo de El Castillo, de
El Proceso y de América: se trata de una infinita
persecución, por un mar infinito."
Fiquei curioso. Encarei a fera. Montei-a até o fim do
primeiro volume, trezentas e cinqüenta páginas depois.
Discordo do
Jorge Luis. Mardi nada tem de
kafkiano.
Dois marinheiros desertam de um navio em um bote. Vagam
pelos mares até topar com um grupo de polinésios que iam
sacrificar uma jovem branca. Eles matam o sacerdote e
resgatam a moça. Pouco depois, ela some e eles saem à busca,
ilha por ilha, arquipélago por arquipélago. Enquanto isso,
os três filhos do sacerdote também perseguem os dois
marinheiros, para vingar a morte do pai.
De
argumento, é isso. Não vi
Kafka se escondendo em lugar algum. Pelo contrário, o
romance parece aquelas típicas narrativas de viagens, tão
comuns até uns cem anos atrás. Tirando alguns viajantes que
se unem temporariamente à jornada, não há enredo ou
personagens fixos em Mardi. Eles vão de ilha em ilha,
descrevem as particularidades históricas, políticas,
religiosas, geográficas, etc, de cada lugar, verificam que a
moça não está lá, e partem para a próxima.
Borges também foi injusto. O livro não é ilegível. As
histórias fluem bem, o estilo de
Melville é divertido e delicioso - só não é, talvez, o
que o leitor do século XX consideraria um romance. Apesar
disso, uma outra obra-prima contemporânea tem uma estrutura
bem parecida à Mardi:
As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino.
O próprio
Melville classificou Mardi de "chartless voyage."
Aviso aos monoglotas: Mardi, que eu saiba, nunca foi
traduzido para o português.
Em teoria, eu adoro
Crítica Literária. Nada poderia ser mais delicioso do que
brincar de destrinchar livros atrás de novas conexões e
novos significados.
Na prática, é um lixo. Ninguém sabe brincar. Os acadêmicos e
críticos em geral são de uma pequenez liliputiana. Coisa de
dar dó. Despejam jargões em cima de jargões e não dizem
nada.
São
poucas as pessoas que dá pra aturar falando de livros. Entre
os escritores,
Kundera e
Borges estão no topo da lista. O
Polzonoff tem
seus momentos, ele chega lá se desistir da gentileza. Dentre
os críticos acadêmicos, só há dois minimamente legíveis:
Camille
Paglia e Harold
Bloom, não por acaso, discípula e mestre.
Personas Sexuais, por exemplo, é o meu verdadeiro guia
da literatura. Todo mundo que vale a pena ser mencionado
está lá.
Paglia é louca, insensata, engraçada, insightful,
genial. Se crítica literária é sobre criar novas conexões,
então ela é a mestra do ramo.
Um velho escritor uma vez recomendou a um novato: arrisque.
Se for cair, não suje só o joelho: estabaque-se de uma vez.
Naturalmente, o próprio destemor de
Paglia é, ao mesmo tempo, sua grande arma e seu grande
defeito. Quando ela surta, ela surta napoleonicamente.

Quase sempre concordo com ela. Suas opiniões sobre
Moby Dick, entretanto, são risíveis.
O fator redentor de
Paglia é que, mesmo em seus surtos mais psicopatas, ela
nunca se rende ao academês: escreve sempre em inglês claro e
a única estranheza estilística de seus textos é causada por
suas palavras-fetiche: ctoniano, apolíneo, dionisíaco, etc.
Outra coisa a se admirar em
Paglia é que ela, realmente, sinceramente,
completamente, só pensa em sexo. O tempo todo. Sem trégua.
Por exemplo:
"Moby
Dick, a chtonian
epic, refuses to acknowledge the maternal as primary. Thus
the novel sways back and forth between High Romanticism and
Decandent Late Romanticism, between celebration of mighty
nature and contorted resistance to it. (...) The great
whale's "mightly mildness" is a homoerotic tenderness, part
of the longing for comradeship that
Melville shares
with Whitman, Lawrence, and Foster."

O lindo da literatura é que vale tudo. Quando estudávamos
A Metamorfose, na aula de inglês avançado, nosso
professor trouxe uma palestrante que nos deu uma visão
freudiana da história.
Vocês sabiam, por exemplo, que a maçã que o pai de Gregor
atira contra ele, se aloja em seu corpo e ali apodrece é,
tchan tchan tchan, um símbolo fálico da luta por dominação
masculina na casa? Ao atirar a maçã e escorraçar Gregor de
volta ao quarto, o pai primordial confirma seu domínio
viril. O apodrecimento da maçã simboliza o apodrecimento da
virilidade, e até mesmo da humanidade, de Gregor, que morre
logo depois, abandonado.
Enquanto a maioria dos colegas morriam de rir, eu fiquei
boquiaberto. Percebi que, naquele jogo, valia a tudo - e
essa era sua beleza.
Para Camille
Paglia, naturalmente, tudo é um símbolo fálico: o navio,
as tatuagens de Queequeg, a baleia, a perna-de-pau de Ahab,
até mesmo uma nuvem que passava no céu naquele momento:
"The tax laid upon
masculinity on Moby-Dick is evident in the burden of sexual
symbolism borne by Captain Ahad, the Romantic outlaw. He
stands upon the "dead stump" of an amputated leg, a sexual
injury consistent with his one-night-stand marriage. His
artificial leg nearly pierces his groin, leaving an
incurable wound: he is thigh-torn Adonis, severed from
mother nature by his "unsurrendable wilfulness." A missing
limb lingers as a "pricking" phantom memory. Therefore the
harpoon Ahab darts at
Moby Dick is a
phallic mental projection , born of frustrated desire.
During his wildest speech, the harpoon lies "firmly lashed
in its conspicuous crotch," a disturbingly suggestive
phrase."
Aliás, como qualquer um que tem um cérebro e usa, ela também
odeia a corja francesa, mas articula suas razões muito
melhor que eu. Leiam
Why I
Hate Foucault:
"Forget Foucault! Reverently study the massive primary
evidence of world history, and forge your own ideas and
systems. Poststructuralism is a corpse. Let it stink in the
Parisian trash pit where it belongs!"
Ela é minha deusa. Se eu fosse mulher, eu dava pra Camille
Paglia.
Obras Completas
Assim
que entrei na onda
Melville, fui ao site do meu playground particular (a
Biblioteca da PUC-RJ) ver o que eles tinham sobre o
Melville. Para minha surpresa, encontrei as obras
completas do homem. Para minha maior surpresa ainda, os três
volumes, belissimamente encadernados, estavam virgens: uma
doação do Consulado dos Estados Unidos incorporada ao acervo
menos de três semanas antes.
Mas não é por isso que os livros estavam virgens. Eu já fui
a primeira pessoa a levar para casa muitos livros que
estavam no acervo há mais de 20 anos.
Em um país de monoglotas preguiçosos, quanta gente vai se
dispor a ler as obras completas de
Melville, um autor complexo e de inglês arcaico, ainda
mais quando a biblioteca tem vários
exemplares
resumidos de
Moby Dick em português? Afinal, estamos numa terra em
que mesmo os formados em Literatura Inglesa
acham difícil ler Shakespeare no original.
Dá vontade de levar os livros pra casa. Para todos os fins e
efeitos, são meus.
Um amigo me consolou: pensa só, se você e outros três
malucos ao longo dos próximos 50 anos lerem esses livros, o
investimento do Consulado já terá valido a pena.
Talvez. Mas é triste.
Leia
Pacto da Mediocridade.
Moby Dick, Um dos
Maiores Livros de Todos os Tempos
A
Grande Conversa é o diálogo, travado há milhares de anos,
entre as
grandes mentes da humanidade. Os clássicos não são só livros
consagrados: eles são as vozes da Grande Conversa, pontos de
vista conflitantes, discussões empolgantes. Esses livros não
estão mortos: eles falam, eles gritam, eles choram, uns com
os outros, o tempo todo. Heráclito teoriza, Aquino
racionaliza, Cervantes ri, Descartes sugere uma outra opção,
Kant contextualiza e Marx destrói. Um grande diálogo.
O meu inestimável guia pela
Grande Conversa tem sido a coleção Great Books of the
Western World, publicada pela Encyclopedia Brittanica. Raras
vezes essa coleção me desapontou. Tendo que fazer uma
seleção duríssima, eles utilizaram critérios rigorosos e o
resultado foi impecável.
Entretanto,
questiono a presença de
Moby Dick. O século XIX foi talvez o apogeu do romance e
a coleção nos oferece três representantes:
Guerra e Paz,
Os Irmãos Karamazovi e...
Moby Dick.
Sinceramente, será que
Moby Dick é mesmo um dos três maiores romances do século
XIX?
Onde estão Balzac, Flaubert, Queiroz, Galdós, James, Conrad,
Brontë - só para citar alguns? Como pode uma lista dos
maiores romances do século XIX não incluir
Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes)?!
Moby Dick é muito bom, mas nem tanto. Sinceramente, só
entrou por ser americano.
Leitura Ecológica
de
Moby Dick
A
leitura tradicional de
Moby Dick identifica na baleia uma representação do Mal
e, em Ahab, um perseguidor tão implacável que acaba se
confundindo com seu perseguido. Como diria um bigodudo amigo
meu, você olha no abismo e o abismo olha em você.
Mas cada livro pertence à geração que o lê. E eu, bem ou
mal, sou de uma geração politicamente correta. Já passei
dois anos sem comer qualquer tipo de cadáver e, ainda hoje,
evito carne morta.
Então, vocês vão me desculpar, mas, em pleno 2004, foi
difícil não fazer uma leitura ecológica de
Moby Dick.
O romance foi escrito em 1850, quando a indústria baleeira
estava no seu auge. As baleias eram caçados por seu óleo,
usado para acender lampiões. Pouco depois, com a difusão do
querosene, muito mais prático e barato, a caça às baleias
perdeu força.
Ismael gasta um terço do livro, ou mais, descrevendo todas
as facetas possíveis e imaginárias das baleias cachalote. Ao
final, quem não compreensivelmente pulou esses trechos
estará sabendo quantos quadros foram pintados sobre caça a
baleia, quantos livros tratam do assunto, como elas protegem
seus filhotes, do que se alimentam, até qual é o tamanho do
seu pau.

Quanto mais o livro descreve as baleias reais, mais difícil
fica de engolir sua própria linguagem pomposa e dramática,
referindo-se a elas como leviatãs e monstros das
profundezas. Quanto mais conhecemos as baleias reais, mais
difícil fica vê-las como símbolos do mal e, seus algozes,
como santos heróis peregrinos, buscando a iluminação da
humanidade em um combate sem fim contra tais criaturas.
Abaixo, um trecho que me marcou particularmente, o golpe de
misericórdia em uma velha baleia agonizante:
"As
the boats now more closely surrounded him, the whole upper
part of his form, with much of it that is ordinarily
submerged, was plainly revealed. His eyes, or rather the
places where his eyes had been, were beheld. As strange
misgrown masses gather in the knot-holes of the noblest oaks
when prostrate, so from the points which the whale's eyes
had once occupied, now protruded blind bulbs, horribly
pitiable to see. But pity there was none. For all his old
age, and his one arm, and his blind eyes, he must die the
death and be murdered, in order to light the gay bridals and
other merry-makings of men, and also to illuminate the
solemn churches that preach unconditional inoffensiveness by
all to all."
Digno
de nota também é o capítulo 87, A Grande Armada, onde o
Pequod encontra um enorme cardume de baleias. Enquanto as
pobres criaturas tentam fugir e proteger seus filhotes, os
baleeiros promovem um verdadeiro massacre.
Hmmmm. Era pra eu ficar do lado de quem mesmo?
Não sei vocês, mas lá pelo meio do livro eu já estava
torcendo ardentemente para
Moby Dick matar aqueles filhos da puta todos. Teria sido
um anti-clímax se o Pequod não afundasse.
Fica a dúvida: terá sido de propósito? Terá
Melville humanizado as baleias para nos colocar do lado
delas? Será essa a função dos famosos, longuíssimos e
chatíssimos trechos sobre cetologia?
Diria que não: anacrônico demais.
Para
Melville, a baleia podia ser inteligente, ter olhar
profundo, proteger seus filhotes mas, when all is said and
done, era caça e pronto. Um monstro dos mares a ser abatido
e morto para iluminar os casamentos dos homens.
O Pau da Baleia

Quando eu era pequeno, eu li
em algum almanaque que a baleia azul tinha o maior pau do
mundo: três metros de comprimento. Foi uma coisa que nunca
mais esqueci. Três metros. Eu tinha pesadelos com isso: eu
estava nadando, começava a tocar aquela musiquinha do
Tubarão e vinha saindo da água aquele pauzão em riste de uma
baleia azul tarada querendo comer meu rabo. E eu acordava
gritando.
Mas restava uma dúvida: caramba, qual será o diâmetro disso?
Afinal, uma coisa é um pau de três metros de comprimento por
um de diâmetro, outra é um gravetão de três metros de
comprimento por três centímetros de diâmetro.
Pois
Moby Dick tem um capítulo (95) dedicado exclusivamente
ao pênis da baleia. Isso mesmo. Eu não falei que
Melville diz absolutamente tudo que pode ser dito sobre
as baleias?
Enfim, o pau de uma baleia azul tem cerca de trinta
centímetros de diâmetro. Respeitável.
Última: em inglês, o pau da baleia tem até nome, dork. Ou
seja, quando você xinga alguém de dork, está chamando-o de
pau de baleia.
Por Que
Moby Dick É Tão
Chato?
Há
muitos anos, uma pesquisa realizada em universidades
americanas elegeu
Moby Dick o clássico mais chato de todos os tempos - e
Crime e Castigo, o mais acessível. Um resultado
justíssimo.
A primeira coisa que um leitor de
Moby Dick tem que admitir, mesmo que adore o livro, como
eu adorei, é que
Moby Dick é muito, muito chato.
Moby Dick é deliberadamente, desnecessariamente,
dolorosamente chato.
A grande pergunta que qualquer leitor sério deve se fazer, a
pergunta que tem que ser levantada antes de acabarmos essa
série, é:
Por que
Moby Dick é tão chato?
* * *
Nada
seria mais fácil do que descartar a competência de
Melville (Pô, esse cara não sabe nem contar uma
história!), fechar o livro e ir assistir uma reprise de
Baywatch. E nada mais burro.
Como explico em
A Infalibilidade do Autor, é importante dar o benefício
da dúvida aos autores. Não para benefício deles, mas nosso,
como leitores.
Então, vamos supor que
Melville não é retardado. Que o homem que escreveu
Benito Cereno ,
Bartleby,
Taipi e Omoo tinha um completo domínio das técnicas
narrativas. Que
Melville sabia que 98% dos seus leitores não tinham
nenhum interesse específico por cachalotes e muito menos
pelo nível de minúcias que ele supre.
Por que, então,
Melville ocupa grande parte de seus romance com
cetologia? Por que ele interrompe a própria narrativa para
fornecer, rigorosamente, todo o conhecimento que a
humanidade então possuía sobre cachalotes?
Diz Camille
Paglia:
"The
novel's non-fiction sections, surveying the whale and its
species, (...) aspire to epistemology, organizing the known,
if only to dramatize what cannot be known."
Um dos leitores desse blog, o
Letra Morta,
também teve uma opinião interessante:
"Moby
Dick me deu até
raiva quando li. Era só aquele papo de caçar cetáceos,
abri-los e prepará-los, encontrar um ou outro barco e
navegar, navegar e nada do bicho aparecer. Os últimos
capítulos, li praticamente à força. Só meses depois de haver
lido, percebi que era a sensação exata do capitão: tédio,
frustração e raiva por nunca conseguir confrontar o inimigo.
Aí tive que aplaudir o autor: eu fui Ahab durante aqueles
dias leitura sofrida."
Gosto
das duas explicações.
A obsessão monomaníaca de
Melville em estudar cada aspecto da baleia só se compara
à de Ahab em caçar
Moby Dick. Ao enfatizar tudo o que sabemos,
Melville consegue ressaltar ainda mais tudo o que não
sabemos e torna ainda mais aterrorizante o leviatã das
profundezas.
Como disse
Borges,
"omitir siempre una palabra, recurrir a metáforas ineptas y
a perífrasis evidentes, es quizá el modo más enfático de
indicarla."
E gosto ainda mais do que disse o
Letra Morta
(rapaz, como odeio me referir a pessoas por esses nicks
ridículos!): a estrutura de
Moby Dick nada mais é do que um artifício literário para
tentar passar ao leitor o ônus de ser Ahab, to make the
readers walk on Ahab's shoes, ops, shoe.
Tudo o que o leitor sente, o tédio, a frustração, a
angústia, a vontade de largar tudo, a imensidão das páginas
(em oposição à imensidão do mar), tudo isso nada mais é do
que experimentar, em pequeníssima escala, o drama de Ahab.
Não sei se concordo completamente com ambas as explicações,
mas enquanto não tiver a minha, vou ficando com elas.
O Final
Apocalíptico de
Moby Dick
Moby Dick pode ser chato o quanto quiser. O livro
continuará pra sempre na lista dos grandes clássicos da
humanidade pois nenhum outro livro tem um final tão
sensacional.

Saber o final atrapalha alguns livros. Por exemplo, se eu
pudesse voltar no tempo, uma das coisas que eu faria seria
ler
Grande Sertão Veredas sem saber vocês-sabem-o-quê.
(Você, que não sabe, aproveite. Não escute nada o que lhe
disserem sobre o livro e vá lê-lo, rápido!, antes que seja
tarde demais!)
No caso de
Moby Dick, não. Saber que o Pequod afundará e que todos
morrerão só adiciona ainda mais angústia ao drama
inevitável. Os últimos 30 capítulos são das melhores coisas
já escritas.
Para cada detrator que largou o livro no meio, sempre
haverão os heróis que foram até o fim e que defenderão
Moby Dick até a morte.
Terminada a chatíssima cetologia, o enredo pega velocidade
rapidamente, entremeando tragédias paralelas e cumulativas
até o final inevitável.
O imediato Starbuck tenta resistir mas, simplesmente, não é
forte o suficiente. Ahab chega a caçoar dele:
"ele se faz de bravo,
mas sempre obedece, uma bravura muito cautelosa." O
próprio Ahab tem dúvidas, mas segue sempre em frente. Em um
solilóquio digno de Shakespeare, ele diz:
"What is it, what nameless, inscrutable, unearthly thing is
it; what cozening, hidden lord and master, and cruel,
remorseless emperor commands me; that against all natural
lovings and longings, I so keep pushing, and crowding, and
jamming myself on all the time; recklessly making me ready
to do what in my own proper, natural heart, I durst not so
much as dare? Is Ahab,
Ahab? Is it I, God, or who, that lifts this arm? But
if the great sun move not of himself; but is an errand-boy
in heaven; nor one single star can revolve, but by some
invisible power; how then can this one small heart beat;
this one small brain think thoughts; unless God does that
beating, does that thinking, does that living, and not I. By
heaven, man, we are turned round and round in this world,
like yonder windlass, and Fate is the handspike."
E,
mais adiante, já na borda do precipício, ele rebate a última
tentativa de Starbuck:
"Ahab
is for ever Ahab, man. This whole act's immutably
decreed. 'Twas rehearsed by thee and me a billion years
before this ocean rolled. Fool! I am the Fates' lieutenant;
I act under orders. Look thou, underling! that thou obeyest
mine."
Diante disso, não há mais como voltar atrás.
* * *
O mais incrivel do final de
Moby Dick é a sua força avassaladora, sua total
finalidade, sua completa ausência de redenção.
Nas palavras do crítico Richard Sewall:
"As Ahab in his
whaleboat watches the Pequod founder under the attack of the
whale, he realizes that all is lost. He faces his "lonely
death on lonely life," denied even "the last fond pride of
meanest shipwrecked captains," the privilege of going down
with his ship. But here, at the nadir of his fortunes, he
sees that in his greatest suffering lies his greatest glory.
He dies spitting hate at the whale, but he does not die
cynically or in bitterness. The whale conquers--- but is
"unconquering." The "god-bullied hull" goes down
"death-glorious." What Ahab feels is not joy, or serenity,
or goodness at the heart of things. But with his sense of
elation, even triumph, at having persevered to the end,
there is also a note of reconciliation: "Oh, now I feel my
topmost greatness lies in my topmost grief." This is not
reconciliation with the whale, or with the malice in the
universe, but it is a reconciliation with Ahab with Ahab.
Whatever justice, order, or equivalence there is, he has
found not in the universe but in himself. He is neither
"sultan" now nor "old fool." In finally coming to terms with
existence (though too late), he is tragic man; to the extent
that he transcends it, finds "greatness" in suffering, he is
tragic hero.

Melville did not
dramatize further this final phase of Ahab's course, and
therein lies the peculiarly shocking nature of the book. It
is as if we left Job at the end of one of his diatribes or
Oedipus at his self-blinding or Lear as he curses his
daughters and plunges into the storm. Even with this final
insight of Ahab's, the
ending seems too dire for tragedy. It seems to deny
the future; when the Pequod sinks, all seems lost; and there
is no further comment, no
fifth-act compensations to let in a little hope. The
only comment is the action itself, the total action from
beginning to end, all the good and the evil it uncovers."
***
Meu último conselho: não caia na tentação de largar
Moby Dick. Se já largou, pegue lá o livro de volta e
leia só o final.
Você não vai se arrepender.Postada no
blog em Novembro, 2004
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