O Estrangeiro, de Camus (1942), é uma das maiores pegadinhas da história da literatura.
Vamos aos fatos: na Argélia colonial francesa, um homem mata outro por motivo absolutamente fútil. Pior que fútil. Não havia motivo algum. Ele recebe um julgamento justo, é condenado à morte e, depois, executado.
Nada poderia ser mais straight forward, simples e previsível.
Na verdade, a grande surpresa do enredo acontece depois que o livro é fechado: subitamente, Mersault passa de algoz a herói. 99% dos leitores saem de O Estrangeiro do lado de Mersault, como se ele fosse algum injustiçado, como se ele fosse uma vítima inocente do sistema.
Camus distorce tanto nossa percepção, ficamos tão concentrados nos esforços da promotoria em condenar Mersault não pelo crime, mas por ter ido ao cinema no dia da morte da mãe, que esquecemos que Mersault cometeu, de fato, o crime pelo qual está sendo acusado! O homem é culpadíssimo!
A promotoria pode até ter provado seu caso por vias tortas, usando argumentos que nada tinham a ver com o crime, mas nós, leitores, sabemos que Mersault merece sua punição.
Ou melhor, deveríamos saber, se não caíssemos no conto de Camus.
Uma Leitura Colonialista
Não gosto muito das leituras colonialistas que alguns criticos, à la Edward Said, fazem da literatura. Jogo no time de Harold Bloom e Camille Paglia. Mas, enfim, talvez uma leitura colonialista nos ajude a explicar as causas desse fenômeno.
Podemos especular que Mersault, um branco, só mata o árabe de forma tão fútil, como se ele fosse um inseto, porque, para Mersault, ele era de fato menos que um inseto.
Do mesmo modo, durante o julgamento, o promotor convenientemente ignora os detalhes do crime e se concentra no caráter de Mersault, talvez por saber que, para um júri de brancos franceses, ir ao cinema no dia da morte da mãe é um crime muito pior do que matar um mero árabe.
Tal qual estivesse no júri, o leitor cai na mesma armadilha.
Discordamos do promotor, é verdade - coitadinho do Mersault, condenado por falar a verdade, por não ser hipócrita, etc - mas concordamos com ele em relação a quais são os fatos essenciais do caso. Nós também só colocamos em questão o caráter de Mersault.
Deixamos o promotor desviar nosso olhar do árabe morto na praia e não pensamos mais nele. Jamais, em hora alguma, consideramos o árabe como um ser humano igual a nós, cujo bárbaro e unprovoked homicídio merece uma punição apropriada.
Nós, o júri, a acusação, Mersault, todos relegamos a humanidade da vítima para segundo plano.
O Legado de Mersault
O Estrangeiro é uma obra imortal. Daqui a mil anos, quando os jovens quiserem estudar o que foi o século XX, vão ler Camus. E, pior, vão entender tudo, de Hitler à Guerra Fria.
Pois O Estrangeiro prenuncia e simboliza todo o vazio moral da nossa era.
Uma população tão crédula que se deixe levar por essa narrativa aparentemente inocente, ou tão anestesiada moralmente que se deixe desviar com tanta facilidade da questão fundamental - o homicídio, bem, essa vai ser a população que vai apoiar o nazismo e o comunismo, o macartismo e o golpe de 1964.
Cordeirinhos. Inocentes úteis. Pessoas que estavam só seguindo ordens.
Pior, O Estrangeiro é um dos precursores da maldita Escola Urbana que, ao longo das décadas seguintes, nos legaria Rubem Fonseca, Chico Buarque e Marcelo Mirisola.
Tomara que os alunos do terceiro milênio também leiam Garcia Marquez ou Milan Kundera. Pra ver que nem tudo era desgraça no século XX. Que nem todos caíram no golpe do Mersault.
O Golpe de Mersault gerou muita polêmica. Alguns idiotas até, obviamente não você, amigo leitor, leram tudo isso e saíram achando que eu não gosto de O Estrangeiro! Enfim, deixe os imbecis pra lá e leia a repercussão do artigo.
Postada no blog em Fevereiro 26, 2004
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