Os namorados Felipe Caffé, 19, e Liana Friedenbach, 16, mentiram aos pais que iriam acampar com amigos e foram passar o feriado de finados juntos, em um sítio abandonado. No domingo, foram dados como desaparecidos.
Quando soube disso, até pensei: lá se vão Romeu e Julieta ganhar o mundo.
Nada disso. Seus corpos foram encontrados 10 dias depois. Felipe foi morto com uma bala na nuca. Liana levou quinze facadas, foi degolada e talvez estuprada.
Liana e Felipe mentiram aos pais que iriam viajar com um grupo de amigos. Ao invés disso, se encontraram em São Paulo, dormiram ao relento e pegaram um ônibus na manhã do dia seguinte. Saltaram em uma cidade próxima ao sítio onde acampariam e ali compraram mantimentos, miojo, biscoitos, água, leite em pó.
O que aconteceu depois ninguém sabe. Só sabemos com certeza que morreram. E morreram de forma terrível. Foi estuprada? Foram mortos pelo rapaz que está preso? Ele matou mesmo só porque teve vontade? Quantos dias ficaram prisioneiros? Foram torturados? Isso não sabemos ainda.
Mas sabemos que a sacola de mantimentos foi encontrada no local do acampamento. Tudo fechadinho. Nada foi consumido.
Fico pensando na viagem até o local, na alegria deles comprando aquelas coisas simples, já antecipando o fim de semana romântico que teriam, quem sabe daqueles fins de semana que mudam nossas vidas pra sempre, um abraçando o outro enquanto pagavam pelos biscoitos, naquela excitação tão pura, tão intensa da adolescência.
Eu gostaria de acreditar que ambos pelo menos tiveram sua noite de amor antes da tragédia. Mas os mantimentos fechados contam outra história. Nem isso tiveram.
Foi o miojo não comido, esquecido fechado sob o carramanchão, que me fez chorar.
Um Daqueles Fins-de-Semana que Mudam a Vida da Gente
Fiquei pensando no meu primeiro fim-de-semana com minha mulher.
Mal tínhamos nos conhecido e decidimos passar um fim-de-semana juntos. Éramos adultos e barbados e, mesmo assim, num arroubo de rebeldia juvenil, não contamos a ninguém para onde estávamos indo nem com quem.
Pegamos um ônibus para um balneário próximo, fomos nos comendo no ponto de ônibus e por toda a viagem, mal nos segurando pra não transar pelo caminho.
Paramos em uma vendinha e, enquanto nos agarrávamos cada vez mais intensamente, compramos água, guaraná, chocolate em barra e biscoito recheado de chocolate. Devidamente munidos de calorias em estado bruto, nos enfiamos no quarto mais barato da pensão mais vagabunda e lá ficamos, de sexta a segunda, só saindo para comprar mais água e chocolate.
Na segunda, já sabíamos que queríamos passar o resto da vida um com o outro, faltava só ajeitar os detalhes. Nove meses depois, estávamos morando juntos.
Por isso, penso tanto em Felipe e Liana comprando aqueles mantimentos. Por isso, digo que poderia ser um daqueles fins-de-semana que mudam a nossa vida pra sempre.
Ao invés disso, foi um daqueles fins-de-semana que acabam com a nossa vida.
Postada no blog entre Novembro 12 e 15, 2003
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