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  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Prós e Contras do Monopólio

Em Defesa do Monopólio

Ninguém duvida que a Microsoft detém um virtual monopólio do mercado de software.

Microsoft Windows NT Server 4.0 - Resource Kit - Suplementos Um e Dois  MICROSOFT PRESS Monopólios são desencorajados e desmembrados pelo governo por uma razão simples: preço. O monopolista impõe o preço que bem entende e o consumidor é que paga a conta.

Para o usuário doméstico, entretanto, esse monopólio em particular não pesa no bolso. Só pagam por software Microsoft as empresas que não podem correr o risco de usar versões piratas. O consumidor médio, em geral, nem sabe quanto custa um Windows.

Talvez por isso o monopólio da Microsoft incomode menos do que outros monopólios e possíveis monopólios, como o das bebidas, aviação, telecomunicações e chocolates.

Além disso, o monopólio do mercado de software também tem um lado bom que poucas pessoas enxergam.

Um Mundo, Uma Língua

Eu já trabalhei como professor de inglês e português para uma multinacional latino-americana no Rio de Janeiro. Eu ensinava os executivos expatriados latinos e norte-americanos a falar português e ensinava os brasileiros e expatriados latinos a falar inglês. Brincava que, sem mim, os funcionários da empresa só se comunicariam por sinais.

Melhor do que ninguém, eu sei quanto dinheiro aquela empresa gastava com "localização de conteúdo." Foi assim que paguei minha faculdade.

Imagine agora os seguintes cenários. Você faz uma apresentação em Power Point para ser mostrada na empresa do cliente. Você escreve um trabalho escolar no Word e leva para sua reunião de grupo. Você cria um site otimizado para ser visualizado no Explorer.

Parecem coisas simples, porque estamos habituados a elas, mas não são. Meio como naqueles filmes de ficção científica em que os personagens desembarcam em um mundo desconhecido e já saem conversando com os habitantes, como se não houvesse diferenças de língua.

Os cenários descritos são simples (e baratos) por causa do monopólio da Microsoft. Podemos fazer uma apresentação em Power Point e levar para um cliente sem medo pois não há chances de ele não ter o Power Point instalado em alguma de suas máquinas. Qualquer um tem Word, a maioria dos internautas usa o Explorer.

Raramente pensamos como isso facilita a nossa vida.

Imagine dezenas de pequenas, médias e grandes empresas disputando um mercado de software vibrante e competitivo. Imagine cada uma delas com seu próprio programa de apresentações em slides, o seu editor do texto, o seu navegador de Internet, com formatos de documentos e especificações diferentes.

Imagine ter que levar uma apresentação a um cliente sem fazer idéia de qual software ele usa - pois não há marca dominante no mercado. Imagine o inferno que seria desenvolver sites que pudessem ser corretamente visualizados em uma dúzia de navegadores diferentes.

Estudo de Caso: Internet

Houve época em que o Explorer e o Netscape disputavam o mercado dos navegadores. Lutei bravamente pelo Netscape, de 1996 até 1999, até que desertei para o lado inimigo. Hoje, o Netscape está praticamente extinto e os outros navegadores têm participação ínfima no mercado. 99% dos visitantes do meu site usam Explorer.

Desenhar sites que sejam otimizados tanto para o Netscape quanto para o Explorer dá um trabalho danado. Participei da criação de um portal cujo lançamento foi adiado em cinco meses só porque o cliente (sabiamente) exigia que o site fosse visualizado igualmente bem nos dois navegadores.

Não foi fácil. Elementos gráficos que ficavam lindos no Netscape apareciam truncados no Explorer e vice-versa. O design do site acabou tendo que ser muito simplificado para que os elementos restantes fossem bem visualizados em ambos os navegadores. Deu um trabalho danado, mas conseguimos.

Pensem nos custos. O cliente teve que pagar quase 40% a mais apenas para garantir que seu site fosse bem visualizado pelos cerca de 8% de linhas-duras que ainda usavam o Netscape naquela época.

Imagine se houvesse dezenas de navegadores competindo por esse mercado. Das duas, uma.

Para que os sites pudessem ser bem visualizados por todos esses navegadores, o padrão gráfico e funcional da web teria que ser ridiculamente baixo. Ainda estaríamos navegando por sites somente-texto, com aquela cara meio 1995.

Esse foi o lado bom.

Pior, designers e clientes não conseguiriam se contentar em fazer sites simples. Baseados nos perfis de seu público-alvo, as empresas criariam sites lindos, otimizados para um ou dois navegadores específicos, e que simplesmente não funcionariam em nenhum outro.

A Internet se dividiria em feudos e os feudos se subdividiriam em tribos. Nossa capacidade de navegação seria limitada pelo nosso navegador. Profissionais da Internet, como eu, que por obrigação profissional têm que ser capazes de entrar em qualquer site, teriam que ter dezenas de navegadores instalados e ficar alternando entre um e outro. Usuários de internet comuns jamais se dariam a esse trabalho e acabariam confinariados aos sites visualizáveis em seu navegador.

As maiores empresas de internet acabariam criando diferentes versões de seus sites, em URLs diferentes. Assim, haveria o www.yahoo-browserX.com, www.yahoo.browserY.com e por aí vai, cada um com sua cara diferente, de acordo com as especificações e limitações de cada programa.

Os custos de criação e manutenção de sites iriam subir absurdamente, assim como o custo de entrada no mercado de Internet, que ficaria proibitivamente alto. Mercados que até hoje ainda não conseguiram se padronizar e se estabilizar (como a publicidade on-line) não teriam a menor chance.

A Internet seria um negócio menos atrativo e menos acessível aos empreendedores. Conseqüentemente, a quantidade de serviços oferecidos pela web seria muito menor, a Internet seria menos interessante e, quem sabe, talvez até acabasse sendo somente uma moda passageira.

O Mundo Seria Outro

Parece um apocalíptico cenário de horror, mas já vivemos nesse mundo.

Lembra da empresa onde trabalhei? Também temos nossa capacidade mundial de atuação limitada por sistemas operacionais diferentes (línguas), gerando enormes custos adicionais em termos de traduções, adaptações, dublagens e aulas de idiomas.

Imagine sair do Brasil, pousar na Mongólia e ser perfeitamente entendido. Imagine empresas abrindo escritórios em qualquer parte do mundo sem se preocupar com a língua ou com choques culturais. Imagine ler livros de qualquer outro sem se preocupar com tradução e nunca mais ter que assistir filme lendo letrinha.

O mundo seria outro.

Por causa do monopólio da Microsoft, o mundo da informática é assim.

O Custo da Estagnação

Estátua de Zheng He, o maior almirante chinêsNaturalmente, por mais que existam ocasionais lados bons, não há como retorcer a questão: monopólios como esse são extremamente nocivos, tanto para o consumidor, quanto para a sociedade quanto para outras empresas.

* * *

Muito antes dos portugueses pensarem em sair ao alto-mar, o mundo já vivera uma Era das Grandes Navegações. Almirantes chineses exploraram os Oceanos Pacífico e Índico, o Mar Vermelho e o Mar Arábico e chegaram até a costa leste da África, promovendo o comércio e fazendo contatos diplomáticos.Mapa das principais viagens de Zheng He, o maior almirante chinês

No século XV, cinqüenta anos antes de Vasco da Gama, a China, unificada sob o comando dos imperadores Ming, era a maior entidade política independente do mundo e a mais poderosa. Somente mais alguns anos dessa agressiva política naval e os chineses teriam dobrado o Cabo da Boa Esperança: sabe lá o que seria da América hoje.

A unidade da China foi sua queda. Bastou um conselheiro mais influente, um imperador mais vacilante e um lobby mais bem conduzido que, com uma só canetada, a Era das Grandes Navegações chinesas foi encerrada. Chegou-se ao extremo de impor pena de morte a quem construísse navios de alto-mar. Em pouco tempo, o conhecimento naval foi perdido.

Por decisão e poder de um único homem, a China se voltou para dentro.

* * *

Poucos anos depois, apareceram os portugueses e tomaram conta daqueles mares, praticamente sem encontrar oposição alguma. Durante esse processo, levaram armas de fogos às terras que visitavam.

Os japoneses, a princípio, até gostaram da idéia, mas aí descobriram que aqueles brinquedinhos permitiam que qualquer plantador de arroz matasse, à distância e sem risco, o mais nobre e honrado dos samurais.Navio chinês

Em pouco tempo, o uso e a fabricação de armas de fogo foi proibido em todo o arquipélago. Pelos próximos séculos, enquanto o resto do mundo se queimava em pólvora, o Japão continuou o paraíso das espadas

* * *

Os cavaleiros medievais da Europa também consideraram as armas de fogo anti-esportivas e revolucionárias. Muitos reis e aristocratas simplesmente se recusaram a usá-las. Leis como as do Japão foram passadas em vários reinos europeus.

Ênfase na palavra "reinos", plural de "reino".

A Europa era um continente em polvorosa, formado por centenas de pequenos países, reinos, condados, cidades-estado e repúblicas em eterna guerra uns contra os outros.

Os nobres bem que tentaram fechar a caixa de Pandora mas, em um continente tão competitivo, bastava que um malandro não aderisse ao boicote para obter uma vantagem competitiva insuportável sobre os outros. Por fim, todos foram obrigados a ceder.Comparação entre um dos navios da esquadra de Zheng He, o maior almirante chinês, com a Santa Maria, de Colombo

* * *

Não parece, mas tudo isso foi pra falar da Microsoft.

Quase todo mundo julga que a China já ser um império unificado e independente quando os europeus ainda pintavam paredes de caverna era uma grande vantagem.

Em termos de paz e prosperidade, eu até concordo. Mas em termos de progresso científico e material, não.

Na Europa politicamente pulverizada e imersa em guerras, a disseminação de novos conhecimentos e novas tecnologias era incontrolável. Na China pacífica e unificada, qualquer capricho do imperador poderia mudar para sempre a história do mundo.

* * *

Apesar das vantagens de um mercado de informática monopolizado, a estagnação é inevitável.

Por mais que a Microsoft tente investir em pesquisas e em novas tecnologias, e acredito que tente, ela ainda assim é uma empresa só, com sua cultura, procedimento e preconceito próprios.

Nada que se compare à explosão de criatividade, novas tecnologias e novas soluções que haveria se o mercado de informática fosse mais saudável, se contasse com mais players em pé de igualdade disputando sua hegemonia.

O custo da estagnação é enorme. Não há como imaginar o quão longe já teríamos ido.

Baixa Resistência Imunológica

Meu pai sofre de ceratocone, uma doença degenerativa da córnea causada por um gene recessivo. É muito provável que eu e minha irmã também tenhamos o gene recessivo do ceratocone em nosso DNA. Felizmente, é uma doença relativamente rara. As chances de eu encontrar uma parceira que também tenha esse mesmo gene recessivo e, conseqüentemente, ter um filho com ceratocone, são muito pequenas.Um olho humano com ceratocone

Por outro lado, se eu decidir ter um filho com minha irmã, as chances de a criança nascer com ceratocone são gigantescas.

Tirando razões culturais, esse é o melhor argumento contra casamentos consangüíneos.

* * *

Populações geneticamente homogêneas, que procriem majoritariamente ou exclusivamente entre si, sempre serão muito vulneráveis a infecções e defeitos genéticos.

Podem ser até imunes a quase tudo mas, como suas características genéticas são muito semelhantes, o virusinho que derrubar um deles provavelmente derrubará todos.

Assim como a China unificada estava a mercê dos caprichos de um único homem, populações geneticamente homogêneas estarão sempre arriscadas a morrer em massa quando expostas ao vírus errado.



* * *

Quase todos esses vírus de computador que aparecem nas manchetes foram criados para explorar falhas de segurança do Outlook, o programa de email da quase todos os usuários de Internet.

Se o mercado de informática fosse dinâmico, com dezenas de empresas disputando a preferência do consumidor, não haveria nenhum sistema operacional utilizado por 99% dos usuários e, portanto, jamais existiriam vírus capazes de infectar 99% dos usuários. Vírus de computador

Haveria vírus, claro, mas direcionados. Cada vírus só infectaria os usuários do sistema operacional para o qual ele foi feito. Os problemas seriam localizados em grupos específicos de usuários e nunca, nunca ganhariam as manchetes dos jornais.

Esse é mais um custo do monopólio da Microsoft que o internauta é que paga.

* * *

A expressão "virus de computador" foi cunhada em 1983 por Fred Cohen, em sua tese de doutorado na University of Southern California.

Fred não fazia idéia como sua metáfora era apta.

Um vírus é uma entidade (a ciência ainda não se decidiu se um vírus é um ser vivo ou não) que monta no código genético de um hospedeiro para poder sobreviver e procriar. Um vírus de computador também invade o código da programação de um programa para poder se propagar.

A própria evolução posterior dos vírus, coisa que Fred Cohen não poderia prever, fortaleceu ainda mais a metáfora.

O físico britânico Stephen Hawking, aliás, defende que os vírus de computador devem ser considerados formas de vida. "Diz muito sobre a natureza humana que a única forma de vida criada por nós é puramente destrutiva. Criamos vida à nossa imagem."

* * *

Contra tantas doenças que os europeus trouxeram ao Novo Mundo, a única contribuição que se presume ter sido feita na contra-mão foi a sífilis.Fred Cohen, o homem que cunhou o termo vírus de computador

Os primeiros casos de sífilis entre europeus foram registrados entre as tripulações que chegavam das primeiras viagens ao Novo Mundo.

A sífilis era rápida e mortal. Os infectados morriam em poucos dias, às vezes horas.

* * *

O objetivo número um de um vírus (ou, no caso da sífilis, bactéria) é se propagar. Muitas vezes, os sintomas de uma doença (espirrar, por exemplo) são, na verdade, estratégias do vírus: ele faz com que o hospedeiro espirre para se propagar pelo ar.

Um vírus bem sucedido é aquele que consegue fazer o seu hospedeiro circular e infectar o máximo de novos hospedeiros. Se o hospedeiro estiver incapacitado ou morto, ele não poderá espalhar o vírus.

Quem pegava a primeira variação da sífilis não tinha como infectar mais ninguém: morria rápido, sangrando e sofrendo, e levava a bactéria junto. Vírus muito rápidos e mortais dão excelentes filmes-catástrofe, mas são uns fracassados do ponto de vista evolucionário.

Ao mesmo tempo, desenvolveu-se também uma mutação mais branda da doença. Essa versão, ao infectar o hospedeiro sem incapacitá-lo, acabava sendo transmitida a todos os seus parceiros sexuais.

A versão branda da sífilis é um sucesso evolutivo até hoje, enquanto a fatal morreu junto com seus hospedeiros e tornou-se apenas uma nota de pé de página na história.



* * *

Os vírus de computador também tornaram-se mais brandos. No começo, eram agressivos, apagavam tudo, reformatavam a máquina, um verdadeiro pesadelo. Se tivessem pedido conselhos à bactéria da sífilis, não teriam cometido esse erro. Naturalmente, um computador formatado ou inutilizado não vai transmitir outros vírus para ninguém tão cedo.

Hoje em dia, os vírus estão praticamente inofensivos. Atravancam a rede sim, geram um número gigantesco de mensagens de erro, sim. Mas nunca mais ouvi falar de vírus cometendo danos irreversíveis em um computador.

Os novos vírus parecem a Darlene, de Celebridade: só querem mesmo aparecer.

* * *

Os vírus de computador continuam evoluindo.
O físico britânico Stephen Hawking
Até pouco depois atrás, quando você era infectado, seu Outlook enviava emails para todos na sua lista de contatos como se fosse você, usando o seu nome e propagando o vírus.

Mas as pessoas ficaram mais inteligentes. Quando recebiam emails suspeitos, achavam estranho, perguntavam aos amigos e desmascaravam o vírus. Logo depois, instalavam anti-vírus e fim de festa.

Os vírus agora também tiveram que ficar mais matreiros. Eles te infectam e se auto-enviam para sua lista de contatos, mas não usam mais o seu nome: usam os nomes das próprias pessoas da sua lista.
Segredos da Microsoft, Os JULIE BICK
Ou seja, seu amigo João recebe um email com vírus do seu outro amigo Fernando. João avisa Fernando que ele lhe mandou um vírus, Fernando passa um anti-vírus no seu computador e diz que não está infectado, João diz que tem que estar, pois recebeu um vírus dele, Fernando começa a se irritar, João puxa uma arma e, enquanto seus amigos se matam, você, o verdadeiro culpado, está com seu nome fora da confusão e continua propagando vírus a torto e a direito.

Genial.

* * *

Não fosse o monopólio da Microsoft e do Outlook, nada disso estaria acontecendo.

Uma versão editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, entre os dias 20 de fevereiro e 05 de março de 2004

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