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  Alex Castro
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Incrível Capacidade de Não-Escrever - Alexandre Cruz Almeida

O Dom dos Outros É Sempre Mais Verde

Quando eu era adolescente, eu achava que meu dom não valia de nada.

Fulano tinha o dom da música. Isso vale alguma coisa. Nem todo mundo consegue tirar som de um piano. Beltrano tinha o dom da bola. Nem todo mundo consegue mandar aquele passe perfeito. Eram coisas que os distinguiam. Que tinham valor de mercado.

Eu? Eu sabia escrever. E daí? Todo mundo sabe escrever. É como andar. Vai ver eu só fazia isso um pouco melhor. Não era vantagem nenhuma. Eu ia ser o quê? Andador profissional?

Felizmente, eu estava errado. A grande maioria das pessoas (e não estou falando dos semi-analfabetos, pois seria covardia, estou falando de bacharéis, mestres e doutores) não conseguiria escrever um parágrafo concatenado e articulado nem para salvar a própria vida.

Se eu colocasse uma arma na cabeça de cada universitário brasileiro e dissesse "Rápido, escreve uma redação sobre os prós e contras da atitude do Zeca Pagodinho ou eu te mato!", eu iria gastar toda a produção nacional de metal só em bala. E olha que escolhi um tema fácil.

O dia em que me dei conta dessa triste verdade foi um dos mais felizes da minha vida. Eu pensei: sou útil. Esses putos precisam de mim e vão pagar pelos meus serviços.

Enfim, a capacidade das pessoas de não-escrever é uma coisa que sempre me surpreende. Admito que escrever bem é difícil e demanda alguma técnica, mas articular uma opinião em palavras é algo simples.

Os Emails Incoerentes que Recebo

Essa semana, recebi o seguinte email:

"pra vc me parece q só quer ser feliz independente da onde da 1,ou 2 realidade pois bem ,deveria saber q felicidade naum existe é em termos finais só uma palavra oq importa é liberdade quanto mais livre mais vc se define e se auto conhece.mais me iludi vc é só mais um q quer oq eles querem q vc pense."

Como sou uma pessoa boa e paciente, e sinceramente quero saber o que os meus leitores têm a dizer, eu pedi pra ele explicar de novo. O próximo email, por incrível que pareça, veio mais confuso ainda:

"q bom foi vc q escreveu aquilo vc existe ,estou acordado.começo eu:pra um homem como vc sabe q a gente é preso nesse sistema em q mais importa mais oq temos em vez do nós somos e conhecemos ,deveria saber q felicidade é um elo pra te manter preso aqui como preferir q chame realidade,matrx hihihi ,um teste.etc felicidade assim como outras emoções vem duma parte do cerebro a amigdala perto do neo cortex ,vc acha lendo por ai,mais a razão pode controlar isso ou seja ,felicidade não existe.aquilo com a mulher em q coisa.vc é escravo de seu impulso sexual.a razão com muito esforço domina isso .mais vc não vai entender isso porque já está acostumado com esse modo de vida,a liberdade é q importa.ou seja igual o smith falou o proposito.o primeiro e mail era um teste.já q naum ops não o entendeu te escrevo esse. hihihi pegue a azul e seja feliz iludido"

A Validade dos Dialetos

Reparem, por favor, que o problema não é a ortografia truncada ou resumida. Eu sou um dos poucos que defendem as menininhas ki falaum axxim. O que elas criaram é, de fato, um novo dialeto. Um dialeto ridículo, é verdade, que não leio e não entendo, mas um dialeto válido e funcional.

Não é questão de pensar se esses novos dialetos são certos ou errados, nocivos ou inovadores. A função de uma língua é comunicação. Por definição, se esses dialetos estão em uso e, principalmente, se são inteligíveis por uma grande parcela da população, é porque estão respondendo a algum tipo de necessidade por parte dos falantes.

Sempre defenderei o direito dos falantes de modificarem a língua de acordo com suas vontades e necessidades. O falante, assim como o freguês, sempre tem razão.

A Importância da Pontuação

Ora, o problema desse email que eu recebi é que ele não comunica nada. Podemos somente tentar adivinhar, aqui e ali, o que ele quis dizer. Em situações assim, percebemos a real importância da pontuação, algo que sempre ressalto aqui.

Quando alguém erra na ortografia, na sintaxe, na concordância, a pessoa está somente demonstrando sua ignorância em relação à norma culta da língua, mas isso em geral não afeta a comunicação. Todo mundo entende o que ela quer dizer. Raro é o erro de ortografia ou concordância que altera significativamente o sentido da mensagem.

Já pontuação, se usada no lugar errado, muda tudo.

Quem Não Pensa Bem, Não Escreve Bem

Infelizmente, o buraco é ainda mais embaixo. A pontuação torta piora as coisas, mas o problema mesmo é um raciocínio aparentemente confuso. Quem não pensa bem, não escreve bem. Quem não sabe o que quer dizer, acaba não falando nada.

Em suma, fico feliz. Ainda não é hoje que vão me aposentar. Minhas poucas habilidades ainda são necessárias.

A Gramática Não Foi Feita para Humilhar Ninguém

Um dos golpes mais baixos (e mais idiotas) que alguém pode fazer durante uma discussão é criticar a gramática, ortografia ou sintaxe do outro.

É baixo sobretudo por ser inútil.

Pra começar, ou sua platéia viu o erro ou não viu. Se viram, já sabiam que o outro cara errou, já sabiam que ele não domina as regras básicas da língua e isso já ficou registrado - a seu favor. Mencionar ou zombar do erro não vai fazê-los ficar mais ao seu lado do que já estão, mas pode fazê-los pensar que você é um idiota arrogante. Eu sou assim.

Pior ainda, se a sua platéia não viu o erro, então há boas chances de eles serem tão ignorantes quanto a pessoa que você está corrigindo. Ao lhe ver corrigindo o outro, eles vão se colocar no lugar dele e se imaginar também sendo humilhados por você. Gol contra.

Mais importante, a não ser que a discussão seja sobre gramática, sintaxe ou ortografia (às vezes, nem mesmo nesses casos), tais erros não fazem diferença prática alguma. Seja num debate sobre política, engenharia química ou klingons em Star Trek, alguém que diz "nós vai" tem tanta possibilidade de estar certo, ou de ter uma boa idéia, ou de ter toda a razão do mundo, quanto qualquer outro.

Tanto sua platéia quanto seu interlocutor vão perceber que você, de forma pedante e arrogante, está apenas querendo desviar a discussão do seu verdadeiro assunto para um outro campo não relacionado, irrelevante para a assunto, mas que você domina.

Você não prova nada e ainda aliena os espectadores. Sempre uma má estratégia.

* * *

Na verdade, não dominar as sutilezas da língua não faz de ninguém burro. Talvez somente num aspecto.

A gramática, a sintaxe e a ortografia (e também a crase) não foram feitas para humilhar ninguém. Elas não são perversas nem aleatórias. A existência de normas padronizadas e universalmente aceitas tem como único objetivo facilitar a comunicação entre o maior número possível de falantes.

Enquanto cumprem esse objetivo, são úteis e saudáveis. Quando já não comunicam, tornam-se obsoletas.

E mesmo quando a língua torna-se um dialeto, como a das meninas ki falaum axxim, o novo dialeto também obedece à regras próprias e intrínsecas, para que possa ser mutuamente inteligível pelos falantes.

Então, não dominar essas regras não faz uma pessoa ser burra. Ou melhor, faz, mas só se você considerar que é uma burrice não se preocupar em aprender as regras que regem (e sobretudo facilitam) a comunicação entre seus pares.

* * *

Para fazer a breve pseudo-citação acima, eu fui verificar se tinha mesmo sido o Ferreira Gullar quem disse que a crase não foi feita pra humilhar ninguém e encontrei a seguinte, e deliciosa, história: Poeta é traído pelo Top of Mind.

 

Postada no blog entre Março 30 e 31, 2004

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