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  Alex Castro
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Meu Primeiro Dinheiro: O De Sempre

O primeiro dinheiro que ganhei na vida foram os 60 dólares de prêmio do Primeiro Concurso de Contos da Hebráica Rio, categoria infanto-juvenil, em outubro de 1988. Eu tinha 14 anos.

Rosane Goffman, na época em que leu meu conto(Interlúdio sobre conversão e moedas: naturalmente, o prêmio não foi pago em dólares. Mas, naquela época de hiperinflação galopante, o dólar era o único critério seguro, por isso, eu logo converti o valor em dólares e gravei na memória que havia sido o equivalente a US$ 60. Imaginem se eu dissesse que tinha ganho Cz$2.000. Faria algum sentido pra vocês hoje? Ou Cz$2.000.000? Faria alguma diferença? Enfim...)

Melhor de tudo, os contos dos vencedores do primeiro lugar, tanto adulto quanto infanto-juvenil, seriam recitados por um ator profissional para todo o auditório. Eu fico tentando lembrar e acho que eu só podia não saber disso. Se soubesse, teria levado uma câmera, um gravador, alguma coisa.

Quem leu o conto foi Rosane Goffman. Na época, ela estava estreando na TV em Vale Tudo, era razoavelmente obscura e ainda não estava enorme de gorda.Rosane Goffman hoje, na novela O Beijo do Vampiro

Quando vocês lerem o conto, vão entender porque ele ser recitado, um uma tarde de domingo, perante uma platéia de conservadores velhinhos e pais de família, é um acontecimento que merecia ser filmado.

Dizem que gosto de chocar. Pode ser. Mas nunca choquei tanto quanto naquela tarde, na Hebráica. Foi uma estréia e tanto.

A minha grande dúvida: onde o júri estava com a cabeça? Afinal, eles sabiam que aquilo seria lido alto. Eu, quando me inscrevi, não.

O presidente do júri era o escritor Octávio Mello Alvarenga, também presidente da Sociedade Nacional de Agricultura. Ele depois me chamou pra uma conversa particular na sede da SNA e me confessou que, como presidente do júri, tinha praticamente imposto minha premiação, pois as outras senhoras estavam receosas do valor literário de tantos palavrões. Alvarenga parecia estar se divertindo. Não sei se a Hebráica o chamou para presidir futuros júris. Talvez fosse essa a idéia. Poucas coisas devem ser mais chatas do que ser jurado de concurso literário.

Octávio Mello Alvarenga, presidente do júri que me deu o primeiro lugar no concurso da HebráicaQuando cheguei lá, com a família em peso, uma senhora logo perguntou: Chaim Harish?

(É, esse era o meu pseudônimo. Chaim Harish. Como era um concurso em uma comunidade judaica, quis algo que soasse judaico.)

Eu disse que sim, e perguntei como ela sabia. É que você é o único não-judeu entre os classificados. Até hoje nunca encontrei o ponto exato na minha testa onde está escrito gói, mas fico imaginando que, como era um clube judaico, ela já devia conhecer todos os outros.

No ano seguinte, 1989, eu ganhei de novo, mas não houve leitura dos contos dos vencedores. Como o meu conto desse ano era bem-comportado, só posso concluir que queriam mesmo era chocar. Em 1990, extinguiram a categoria infanto-juvenil, antes que virasse meu feudo particular e, então, competindo contra os adultos, não cheguei nem entre os três primeiros.

Não mudei uma vírgula. Leiam e me digam o que acham. Tenho muito orgulho dessa criança precoce
.

O de Sempre, por Chaim Harish (14 anos)

Tudo estava como sempre quando eu entrei no Mutuca's, o bar mais imundo da baixada fluminense. É um botequim baratinho, tudo o que eu posso pagar com os poucos bicos que arranjo. A barra é pesada e os fregueses evitam ter muitas conversas. De vez em quando, pintam por ali umas putas que até valem a pena comer. Eu não deixo escapar uma.

(cuspi)

O banquinho do balcão em que eu me sentei fez um ruído estranho - que mais lembrava tosse de asmático - e eu pensei que ele ia desabar. Não era nada demais, no fim das contas. Apenas as juntas e dobradiças que estavam enferrujadas. Coisinha besta.

Em uma mesa, mais para o fundo do bar, um bando de marmanjões jogavam pôquer, imersos nas sombras. Uma espessa nuvem de fumaça, vinda de seus cigarros - que parecia ser sólida - pairava sobre eles, ameaçando cair a qualquer instante, esmagando-os. Palavrões e murros são comuns por aquele canto. Vez ou outra, eles até sangravam os trapaceiros. Por duas ocasiões, tiveram até tiros. Em uma dessas vezes, eu vi um camarada se levantar, camisa aberta até a barriga mostrando o peito cabeludo como o de um orangotango, dizendo: "Você perdeu, cara!" e despejar em seguida três azeitonas a queima-roupa num infeliz de olhos esbugalhados. As apostas por ali eram altas.

Esse tipo de violência irritava Marcondes, o barman responsável pela bodega. Ele só deixava fazerem isso lá f ora. Porém, quando um esquentadinho fazia o serviço sujo lá dentro mesmo, ele não perdia a calma. Ajudava o cara a levar o defunto para a rua e depois até cobrava uma taxa adicional pelo serviço. Tudo sem um pio, e depois também, não se falava mais nisso. Ninguém se animava a brincar com as duas 45 do Marcondes. Decididamente. no Mutuca's a melhor política é ficar cada na sua.

(peidei)

- O de sempre... - Falei, meio desanimado, para o Marcondes, que cuspia em um pano, para depois limpar um copo encardido com ele. Acabou de fazer isso e me serviu uma bebida do bar que nem nome tinha. Metade era uma mistura de cada cachaça e aguardente vagabundo que havia no boteco. A outra metade era álcool puro. Podia ser forte como o diabo, e te queimar todo por dentro, mas era a coisa mais barata que havia ali. Depois de me dar a bebida, começou a limpar o balcão com pano encarrado. Tirei um maço de mata-rato do bolso e acendi com um daqueles fósforos moles, cabeça rosa de uma caixa que achara na rua.

Fumava despreocupadamente quandc vi a piranha que estava entrando pela porta. Alta, morena, cílios grandes, lábios e pernas grossas. Um bocado feia, sem dúvida, mas o melhor tipo que poderia aparecer lá no Mutuca's.

Tomei um gole da mistura e senti as entranhas arderem. Com a falta que eu estava de uma boa trepada, o que entrasse era lucro. Sorri para ela com dificuldade. Meus olhos lacrimejavam. Dei uns tapinhas na coxa, convidando-a para sentar em meu colo. Foi exatamente o que ela fez, para minha alegria. Eu já conseguia sorrir com facilidade. Ela sorria também. Meu pau ficou duro na hora e a puta gostou, ficou toda assanhada.

(arrotei)

- Eu sou o Xandinho... e você...?

- Me chamo Juliana, mas pode me chamar de Jujuba. - Respondeu ela, sorrindo com a boca sem alguns dentes.

- O que uma dama como você faz num fim-de-mundo desses?

Tenho que admitir que a resposta dela foi mais sincera do que eu esperava.

- Tô procurando um homem pra trepar...

Respondi na hora.

- Então um você já achou.

- Foi o que eu pensei.

- Deixa eu acabar a minha bebidinha aqui que a gente já vai fazer o que nteressa. - Tomei um gole - A propósito, apelido estranho o seu. hein...?

- Jujuba vem de Juliana e também porque dizem que eu sou boa de comer. - Explicou ela.

(ri)

- Ah, entendi... - Repliquei depois da risada. Bebi mais um pouco da mistura.

Instantes depois, três imbecis encapuçados pularam para dentro do boteco de armas em punho bradando aos quatro ventos que era um assalto.

- Todo inundo quieto! - Gritaram os boçais. Eu podia sentir o hálito deles de longe. Totalmente de fogo.

Pensei que os caras da mesa de pôquer iam fazer alguma coisa, pois afinal estavam armados-mas eles nem piscaram. Continuaram jogando cartas.

Marcondes empalideceu e respondeu, gaguejando, que ia pegar o dinheiro. Abaixou-se com o medo estampado no rosto, mas quando se levantou, com uma 45 em cada mão, sua expressão era de puro ódio. Ele deveria ser ator. Nunca tinha visto ninguém fingir medo tão bem.

- Comam chumbo, otários! - Berrou.

Marcondes berrava, despejando rajadas de balas nos assaltantes, que revidavam. Eu e Jujuba estávamos bem na linha de fogo. Torci para que nenhuma bala atingisse minha misturada, pois afinal já havia pago a bebida. A piranha, apavorada, pulou do meu colo, tentando fugir do fogo cruzado. Uma bala acertou a infeliz bem na testa, que guinchou antes de se estabacar no chão. Ainda bem que não voou sangue em mim. Agora, porém, eu teria que catar uma outra puta. Merda. lsso só acontece comigo.

(arrotei)

Continuei parado no mesmo lugar, de costas para a porta e de frente para o Marcondes, que atirava com uma mão de cada lado da minha cabeça. . Eu podia sentir as balas passarem zunindo perto de meus ouvidos. Fiz a única coisa plausível naquela situação. Tomei mais uma golada da minha mistura.

Uma das ameixas raspou na minha orelha e arrancou um pouco de sangue. Duas ou três gotas do líquido caíram na minha bebida. Fiquei com medo que estragasse. Sabe que até melhorou Até hoje, as vezes, só quando eu tenho saco, faço um furinho no dedo e deixo o sangue escorrer.

Marcondes continuou atirando e dando gritos de júbilo até levar uma azeitona no ombro direito. Largou a arma, com um berro, que caiu ao meu lado no balcão. Ele passou, então, a atirar com um braço só, praguejando baixo. Estiquei minha mão para pegar a arma, porém uma bala acertou-a e ela voou para dentro do balcão. Encolhi minha mão rapidinho.

(peidei)

Eu não sei como, pois estava de costas e não via nada, mas Marcondes venceu os assaltantes. Parou subitamente de atirar e deu um longo suspiro.

- Acabou? - Perguntei, timidamente.

- Acabou!

- Ótimo! - Disse eu, e para comemorar bebi todo o resto da minha misturada de uma vez.

Marcondes, meio caído, com sangue pingando no chão, tirou da estante do bar uma garrafa que somente ele podia beber, um tal de aguardente "Porco Preto". Bebeu uma golada daquela eca, emitiu um som estranho que lembrava vagamente um arroto e me disse:

- Me ajuda a levar os presuntos lá pra fora?

- Ajudo. - Respondi, sem muita convicção.

Jujuba era mais pesada do que eu imaginara. A essa altura, é claro, meu tesão já era.

- E o sangue? - Perguntei.

- Depois eu limpo. Vem, vam'tomar um trago.

(cuspi)

Sentei no balcão, e depois de Marcondes ter se servido de seu "Porco Preto", suspirei e falei, melancolicamente:

- O de sempre, Marcondes...

Depois. fizemos um brinde. Não tinha sentido.

Agora, leia aqui o que eu REALMENTE acho desse conto....

Postado no blog entre Janeiro 8 e 10, 2004

 

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