Sou Um Vendedor da Ford
Tem uma campanha da Ford passando na TV por aqui. Como não sei se passa em outras regiões (imagino que sim) ou em outros países (imagino que não), aqui vai:
Um casal está jantando em um restaurante chique quando o maitre informa que, infelizmente, eles vão ter que se retirar. Como assim, o que é isso?!, protesta o casal. Mas o maitre já está levantando a tolha da mesa, como se fosse uma trouxinha, enquanto os garçons arrastam o casal pra fora. Ao mesmo tempo, entram no restaurante três vendedores da Ford, paparicados por todos, dão autógrafos, acenam aos clientes e são conduzidos à mesa recém-vaga.
Outro anúncio, mesma campanha. Um avião está em pleno processo de decolagem quando freia bruscamente, as pessoas se assustam, as bolsas caem pelo chão. Naturalmente, o avião freou para que os três vendedores da Ford pudessem entrar, aplaudidos por todos os passageiros, cumprimentados, paparicados.
O slogan: “Você também seria popular se vendesse carros por esses preços”.
Corta para a festa de ontem.
Para quem chegou agora, eu vivo um casamento aberto. Mais detalhes podem ser encontrados na Prisão Monogamia, que é curtinha, ainda vou trabalhar mais nela, no artigo que escrevi sobre o dia do meu casamento e, principalmente, na Prisão Segurança, onde está o grosso do material sobre isso.
Bem, na festa, minha patroa ficou com alguns caras e deve ter flertado com quase todos.
A grande graça foi no final. Esses homens todos, que nem me conheciam, só tinham me visto de relance, vinham se despedir de mim como se fôssemos grandes amigos. Me davam apertos de mão fortes e calorosos, alguns chegavam ao cúmulo do entusiasmo de me abraçar, seus olhinhos brilhando, como se eu fosse um beifeitor da humanidade, como se estivessem sinceramente felizes de eu existir e ser do jeito que eu sou.
E eu pensando: você também seria popular se liberasse uma mulher assim...
O Fracasso de um Casamento
Existe uma idéia de que um casamento deu errado só porque acabou. Isso é meio como dizer que D. Pedro I foi um fracasso só porque ele morreu.
Outro dia, numa entrevista, a repórter fez a pergunta imbecil: “Seu casamento durou 24 anos. Por que não deu certo?”
A entrevistada foi até gentil: “Fomos casados por 24 anos. Antes disso, namoramos por cinco. Durante esses quase 30 anos, viajamos, fomos felizes, criamos dois filhos. Nos separamos amigavelmente e hoje somos grandes amigos. Então, como assim ‘não deu certo’?”
Leiam meu artigo O Casamento Faliu, onde falo mais sobre esse assunto.
O Ônus da Liberdade
O Flávio faz algumas colocações interessantes:
"Eu acredito que você realmente é uma pessoa muito corajosa para quebrar explicitamente com o pacto monogâmico.
Por outro lado e isso nada tem a ver com o seu caso particular, fico me perguntando se esse tipo de prática poderia se tornar um "modus vivendi" para uma sociedade complexa. A meu ver, creio que isso seria muito difícil e acredito que há algo ligado a certas estratégias de procriação e manifestações de inveja e possessão. Acho que boa parte de nós, seres humanos, não iria suportar os problemas vindos dessas duas palavrinhas. Seria a monogamia uma estratégia social?
Enfim, de qualquer forma, parabéns a vc por levar os seus princípios e desejos ao limite da sua realização."
Interessante. Relacionamentos abertos poderiam, sim, ser o modus vivendi de uma sociedade complexa, apenas não da nossa, que já foi toda moldada e desenvolvida partindo do princípio de relacionamentos monogâmicas. Hoje, desde coisas pequenas, como o sobrenome do filho, até coisas grandes, como sucessão e herança, têm como pressuposto uma razoável certeza por parte do pai de estar criando seus próprios filhos.
Uma sociedade de relacionamentos abertos teria resolvido essas questões de outro modo.
Aliás, não creio que seja a inveja e a possessão que façam os relacionamentos abertos inviáveis, mas, pelo contrário, são os relacionamentos fechados que causam a inveja e a possessão.
O ser humano não é naturalmente invejoso e possessivo, tanto que existem muitas coisas que não invejamos e das quais não temos ciúmes. Só temos ciúmes do que julgamos que é nosso e se, culturalmente falando, não julgássemos nossos parceiros como nossa possessão, não teríamos ciúmes deles.
Obrigado pelos elogios. Um casamento aberto é algo muito, muito difícil, que gera problemas inesperados e que requer muito jogo de cintura. Não existem regras estabelecidas e, por isso, cada caso é um caso e tem que ser pensado individualmente.
Mas a questão não é nem se é bom ou ruim, fácil ou difícil. Existe outra opção?
Para mim, não. Viver engaiolado é intolerável demais.
Melhor arcar com o ônus da liberdade.
Postada no blog entre Outubro 05 e 07, 2003
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